DCC – Capítulo 246

Missão

 

Marco Gionardi:


Ela estava assustada. Mesmo prendendo as emoções com tanto cuidado, ela ainda estava assustada. Justo como Nádia tinha ficado quando tinha entendido… Mas Nádia tinha mais medo de perder Henry para a guerra, ou para a loucura. Alésia tinha mais medo de mim, e de eu ter poder demais ao ponto de ela acabar se tornando um brinquedo nas minhas mãos.

— O que você quer dizer com isso? — ela perguntou desconfiada.

— Quando eu plantei metade da Sabedoria em você, eu fiz isso por três motivos: primeiro, eu não quero ceder ao poder divino e ficar sujeito à corrupção e os outros efeitos colaterais que uma fusão completa tem com o corpo mortal; segundo, você ficar com a Sabedoria te dá ao menos uma chance de crescer mais rápido e se tornar uma peça significativa nesse jogo sem aumentar demais a pressão sobre sua mente; e terceiro: isso cria uma espécie laço da alma artificial entre nós dois, o que permite que eu atraia uma certa quantidade da energia excedente produzida pela Criação.

A expressão de Alésia ficou exaltada depois disso. Eu não podia absorver tudo, principalmente à distância, mas uma boa parte do poder excedente que a Criação produzia tinha sido direcionado para mim e de mim para a Crisálida Imperial. Pena que mesmo assim, isso não era suficiente. E eu não podia esperar ela se acalmar. Se ela não pudesse fazer o que eu precisava, então teríamos problemas. Eu tirei a mão no bolso e puxei uma corrente delicada que se esticou até que um relicário aparecesse.

— Tome… — eu ofereci o relicário a ela.

— O que… — Alésia estava para perguntar até ter percebido o que tinha nas mãos. Ela moveu o olhar confuso da joia para mim e mim de volta para a joia.

— O relicário que portava a Relíquia da Criação. Modéstia à parte, uma das invenções mais brilhantes que uma das minhas vidas passadas já fez. Toda a tecnologia das crisálidas foi feita depois baseada nessa obra de arte. É uma das únicas três crisálidas em todo o universo capaz de armazenar poder divino.

A Relíquia da Criação e da Transformação foram ambas armazenadas em crisálidas similares, enquanto a Sabedoria nunca precisou desse cuidado. Ela não se atrelaria a nenhuma alma desde que não fosse a minha, por isso ela podia trocar de portador e não se fundia ao corpo dos guardiões. A terceira crisálida capaz de armazenar poder divino era a Crisálida Imperial.

— Você quer que eu coloque a Criação de volta dentro do relicário? — Alésia perguntou sondando, parecendo confusa.

— Se você quer morrer, sinta-se a vontade. — Eu comentei dando de ombros. Remover qualquer Relíquia do corpo de um guardião depois que ela já tinha se fundido com a alma era equivalente a suicídio, mas ela não iria entender se eu não explicasse palavra por palavra — Eu preciso de poder. Quanto mais melhor. O que eu tenho salvo aqui na Crisálida Imperial é suficiente apenas para guardar os planetas que servirão para hospedar os refugiados. Ou seja: Defesa. Se houver uma batalha, tudo o que eu vou poder fazer é ficar para trás guardando o forte, pois não haverá suficiente para cobrir as linhas de frente. Ficaríamos em uma posição desvantajosa.

— E você disse que pode ajudar indo para as linhas de frente. Se você for levando isso, você pode absorver o poder liberado pelos titãs aniquilados e armazená-los no relicário, para que eles possam ser purificados e acrescidos na Crisálida Imperial.

— Você quer dizer… que quer que eu recolha a alma das artes elementares que se tornaram aliadas de Dhar? — ela perguntou tentando manter a compostura, toda a cor já tinha fugido do rosto dela há muito tempo.

— Sim, — eu continuei, — Nós, deuses superiores, não somos mais do que encarnações das maiores leis da natureza como um todo. Isso também se aplica às artes elementares. Mesmo que você os mate, os aniquile, destrua seus corpos… uma parcela deles ainda vai continuar existindo em forma de energia. E essa energia pode ser armazenada aí. 

— Pelas gravações que vi do que aconteceu em Sátie, você consegue usar a Aniquilação razoavelmente. Se você colocar um pouco de esforço em dominar a Lei da Criação, então você vai conseguir ter uma vantagem de mais ou menos cinco minutos do momento em que perceberem a sua presença até que Dhar te localize e vá até você, o que seria suficiente para você bater e correr sem ser capturada.

— Isso ao menos é mesmo possível? Eu não sei se conseguiria fazer isso… — ela parecia estar pensando bastante sobre a minha ideia. 

— Sim, é possível. Desde que você não esteja sozinha… Mas se eu te arrumar um time capaz de de estar a par com a missão, você seria como uma arma que obedece ordens. A decisão de atacar e de partir em retirada não estaria em suas mãos.

— Não é muito perigoso? Com um deslize, eu poderia acabar usando a Aniquilação em pessoas inocentes…

Oh… Pela primeira vez eu tinha que admirar o fato de ela ter parado para pensar nas consequências. Essa era de longe uma das missões mais arriscadas que qualquer um poderia fazer nesse momento da guerra. Principalmente considerando que Alésia era um fator imprevisível. Ela mesma ter consciência de que podia perder o controle dos próprios poderes a qualquer momento era louvável. Significa que ela tinha salvação.

— A escolha é sua. Foi você que veio até mim querendo um acordo. Eu estou apenas colocando a opção na mesa. Aceite se quiser. — Eu determinei por fim.

— Se é uma questão de bater e correr, uma frota seria muito inconveniente… — ela disse tentando se livrar o máximo possível de pessoas que pudessem servir de peso morto — Seria melhor um time pequeno e ágil que pudesse dar a assistência necessária e fugir o mais rápido possível sem causar baixas.

A informação de que havia 20% de baixas em uma frota a cada combate com titãs estava revirando na mente dela. Ela não queria carregar soldados para a linha de frente para servir de bucha de canhão, mesmo que isso fosse deixá-la mais segura e cobrir a retirada dela.

— Eu estava pensando a mesma coisa, — eu comentei dando a ela o que ela queria pra variar… bom… para variar era realmente a melhor escolha: furtividade, agilidade e eficiência. 

Alésia suspirou aliviada.

— Agora só temos que resolver o último problema… — eu comentei olhando para ela de cima a baixo.

— Que problema? — ela perguntou.

Depois do encontro com Dhar, Alésia tinha sofrido uma grande influência dos poderes do tempo e espaço. A diferença é que ela não tinha a menor consciência do poder selvagem de Dhar percorrendo o corpo dela, já que ela não praticava onipresença. Então os efeitos colaterais mais óbvios tinham passado despercebidos.

A alma dela já tinha encarnado com uma leve atrofia causada pelos danos que Nádia tinha sofrido, por isso ela era incapaz de aprender qualquer forma onipresença, o que explicava por que Dhar a subestimava tanto.

Foi por isso que quando eu removi o último resquício dos poderes do tempo e espaço no corpo dela durante o primeiro festival do ano novo que ela tinha passado em Keret, o progresso dela em magia foi praticamente exponencial.

Mas depois do encontro deles em Sátie… Dhar tinha tentado danificar as fundações da alma dela mais uma vez. Se eu não removesse os resquícios deixados pelos poderes do tempo e espaço de novo, ela poderia ficar estagnada sem conseguir progredir no domínio da lei da Criação, e toda essa conversa seria apenas uma perda de tempo.

Mas eu sinceramente não estava com a menor paciência de explicar isso para ela, além do mais, havia 100% de chances de que ela iria recusar completamente, mesmo se ela entendesse o propósito.

Dessa vez a quantidade de poder do tempo e espaço que estavam dentro dela era bem maior do que os resquícios que eu removi naquela época. Então obviamente eu teria que ir um pouco mais além do que na primeira vez.

— Ah, que seja… — eu exclamei estressado passando os dedos entre meus cabelos sem perceber. Se tinha que ser feito, então era o jeito. Eu passei um bom tempo pensando sobre como proceder e Alésia apenas me olhava calada esperando que eu explicasse. — Por falar nisso, você não pode comentar nada do que conversamos aqui com ninguém de fora. Principalmente Henry.

Alésia concordou com a cabeça. Ela tinha plena ciência de que Henry ficaria enfurecido se soubesse que estávamos planejando enviá-la para as linhas de frente. Mesmo que a coroa pudesse controlar as ações dele, metade do meu palácio estaria em chamas no momento em que ele descobrisse… principalmente se ele soubesse o que eu estava prestes a fazer.

Era arriscado. Se eu explicasse, as chances de resolver esse problema se tornariam zero, mas se eu não explicasse, as chances de eu sofrer retaliação eram certas. Eu olhei para ela sentindo meu rosto franzir.

— Então… qual é esse último problema que você estava falando? — ela perguntou desconfiada reparando na minha reação.

Com um gesto das mãos, uma pressão enorme desceu sobre Alésia. O rosto dela ficou pálido sentindo a onda de poder que eu tinha liberado sem aviso. Mas antes que ela pudesse perguntar mais uma vez quais eram as minhas intenções. Eu avancei para frente, usando todo o poder que eu tinha liberado apenas para conter os movimentos dela.

Antes que Alésia começasse a colocar esforço em reagir, eu cheguei em frente a ela, passei um braço ao redor da cintura dela e a puxei para cima, com a outra mão, eu segurei a cabeça dela pelos cabelos da nuca. Até ela entender o que tinha acontecido, meus lábios já estavam nos dela.

Alésia ficou paralisada em choque por dois segundos. Depois a fúria dela surgiu enviando ondas de poder ao nosso redor. Frio… Muito frio… Mas ainda não era suficiente. Como eu tinha tomado ela de surpresa, a maior parte do poder que ela poderia usar para se libertar já tinha sido contra atacada por mim. Até mesmo o contato mental que ela tinha com os litoângstrons eu tinha cortado.

Sem outras alternativas, ela tentou usar as mãos, tentando me empurrar e me bater. A diabinha era forte, e não poupou poder, só que mesmo assim ainda não era forte suficiente para me afastar. Quando ela percebeu que não conseguia se livrar de mim usando os braços, ela esperneou. Quando viu que mesmo assim ela não conseguia, ela usou os dentes.

O gosto metálico de sangue, meu sangue, se misturou em nossos lábios. Essa maldita coisinha… Eu aumentei a pressão sobre ela, ao ponto de que ela mal conseguia exercer força alguma no corpo. Apenas o poder da Criação revolvia furiosamente ao nosso redor.

Quando Alésia finalmente parou de reagir, eu pude me concentrar no que eu estava fazendo. Meus lábios se moveram junto aos dela sentindo aquele hálito frio dela passar para mim, enquanto ela ficou parada em meus braços deixando o ódio dela fluir. Um beijo era a forma mais eficiente de troca de energia entre duas pessoas. Tanto que os laços de alma eram selados dessa forma.

Havia outras formas que eu podia usar para arrancar o poder do tempo e espaço de dentro dela, mas todas eram ineficientes e demoradas. Eu levei anos para purificar a energia que agrediu Nádia com o mínimo de contato possível e mesmo assim algum resquício ainda ficou parasitando na nova encarnação dela.

Um beijo resolveria esse problema facilmente, só que eu ainda demorei uns bons minutos batalhando contra a boca dela para estabelecer um fluxo de energia estável entre nós. Demorou mais do que o necessário por que ela não colaborava, mesmo ela tendo parado de resistir.

Nisso, minha mente começou a ficar turva. O poder do tempo e espaço que cobria o corpo dela começou a fluir em direção a mim. Instintivamente, ela finalmente relaxou. Talvez a saída daquela energia maligna de dentro dela pudesse ser interpretada pelo corpo como uma forma de prazer e alívio já que ela começou a corresponder o beijo, o que me pegou de surpresa.

O fluxo de poder se tornou mais forte e rápido, o que de certa forma influenciou as nossas reações, mesmo assim ainda era um beijo coberto de raiva e ressentimento que ela não fazia nenhuma questão de disfarçar. Depois de um tempo, quando a última fração do poder de Dhar que estava dentro dela tinha passado para mim, eu calmamente afastei meus lábios dos dela. Nós dois respirávamos com força como se estivéssemos sem ar.

— Já terminou? — ela perguntou calmamente com uma voz fria e uma expressão cheia de desprezo e raiva.

Um pouco do meu sangue ainda escorria pelos nossos lábios. Atordoado, eu soltei os cabelos dela e a coloquei no chão. Limpei a garganta um pouco sem jeito antes de responder fingindo toda calma e indiferença do mundo.

— Sim, — eu respondi um pouco rígido.

— Ótimo, — ela disse levantando um canto da boca com um sorriso sádico.

Sem aviso, ela levantou a mão e com toda a força que conseguiu reunir, ela girou a palma carimbando cinco dedos no meu rosto. Ela usou tanta força, que meu corpo pendeu para o lado sem equilíbrio. Ela já estava preparada para levantar a mão mais uma vez, mas eu não era muito fã de ser um saco de pancadas.

Quando o segundo tapa estava para descer, eu segurei o pulso dela e com a outra mão massageei um pouco minha bochecha que ardia como uma amostra grátis do inferno.

— Guarde essa sensação, — eu disse ignorando a minha própria raiva, — Esse poder que você usou para conseguir me atingir… essa é a Lei da Criação.

— Você podia ter usado qualquer outro método para me fazer entender. — Ela reclamou entredentes. 

Eu estava prestes a comentar mais alguma coisa quando reparei nos olhos dela. Ela estava prestes a chorar? Eu senti ainda mais atordoado. Por mais que ela já tivesse reagido as coisas que eu já disse ou fiz, ela nunca tinha derramado uma gota de lágrima na minha frente. E ela parecia estar usando todas as forças para continuar mantendo esse recorde. 

Eu soltei o punho dela, e me virei de costas ignorando a reação dela. Ela estava com tanta raiva que o ambiente ao nosso redor estava praticamente congelando, e o vapor que saia da minha respiração tinha se tornado visível na minha frente, mas eu continuei ignorando como se nada daquilo me afetasse e caminhei de volta até a frente da Crisálida Imperial.

Eu estava planejando explicar para ela, mas eu não estava calmo suficiente para lidar com a situação atual. Assim como ela não queria derramar as lágrimas dela na minha presença, havia coisas que eu também não queria mostrar.

— Você pode ir agora, mas se eu fosse você, eu tentaria me acalmar um pouco antes que o maridinho perceba a sua exaltação. É claro, não se esqueça que combinamos que você não pode comentar nada do que aconteceu aqui com ninguém lá fora…

— Idiota, — Alésia praticamente cuspiu a palavra entre os dentes, respirou fundo e sem pensar duas vezes, trancou todas as emoções que estavam revirando dentro dela.

Ah, Ela era tão inocente e ingênua que sequer tinha percebido o que eu tinha feito. Se ela tivesse um pouco mais de experiência e tato ela teria sentido a troca de energia… mas tudo o que ela registrou foi que eu me forcei contra ela… tão problemático. Mas eu não podia fazer nada quanto a isso, se ela soubesse do meu plano, ela iria recusar mesmo que isso a matasse… assim como Nádia… Pelo menos ela tinha conseguido usar um pouco da Lei da Criação para quebrar minhas defesas e revidar. Ela podia guardar essa sensação como um caminho para treinar.

Alésia deu meia volta batendo os pés no chão e voou direto para a saída, voando sozinha para cima sem esperar sequer pela plataforma enquanto esfregava com força os lábios tentando se livrar de qualquer rastro meu neles.

Assim que a presença dela já estava distante o suficiente, eu suspirei aliviado. Se ela tivesse decido continuar aqui para brigar, eu não iria conseguir mais segurar.

Sentindo uma forte ânsia e tontura, meu corpo cedeu e sangue negro jorrou da minha garganta junto com uma rajada de energia revolta que escapou do meu controle.

— Arg… Ser mortal as vezes é mesmo uma merda…

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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