DCC – Capítulo 252

Luz, escuridão, existência e vazio

— Ar… preciso de ar!!!

— Não… consigo… respirar…

A sensação de sufocamento era insuportável. Eu não conseguia inspirar nada por mais que eu me esforçasse. Simplesmente… não havia ar.

— Mas por que não tem ar?

— Eu estava dormindo nos braços de Henry.

— Como eu acordei em um lugar sem ar?

Um lugar… onde eu estava? 

Quando eu me dei conta de que onde eu estava, eu me dei conta que eu não via nada.

Não tinha ar nem luz. 

Eu não sabia onde eu estava…

Eu literalmente não sabia onde eu estava!

Onde estava meu corpo?

Eu não tinha olhos para ver, eu não tinha pulmões para respirar… então por que eu ainda precisava de ar?

— Que porra é essa?

No momento que me dei conta da minha nova situação, a necessidade de ar passou. Eu não tinha voltado a respirar, eu simplesmente percebi que de alguma forma eu não precisava.

Eu não existia.

Mas eu existia! Eu só não tinha um corpo… 

— Isso é algum tipo bizarro de sonho? 

Depois de um tempo eu percebi que o que eu entendia como existência era apenas as minhas concepções como humana. Tudo o que eu não entendia não existia… ou simplesmente ainda não existia para mim.

Eu não sentia mais frio, nem calor, nem fome, nem sede… todas essas eram apenas sensações baseadas nos instintos de um corpo.

— Eu não posso continuar assim, tenho que acordar! Preciso pedir ajuda a… a… a quem mesmo?

— Espera, para que eu estava precisando de ajuda?

Antes que eu percebesse eu entrei em um estado de simplesmente existir.

Eu não sei quanto tempo passou. Eu não tinha sequer conceito de tempo, se ele existia ou não, se ele passa ou não… eu simplesmente permaneci naquele estado… simplesmente existindo.

E existir era bom.

Era de alguma forma… libertador!

Muito melhor do que não existir.

Depois do que pareceu ter sido um bom tempo eu parei de usar palavras para pensar. Foi quando eu percebi que outra coisa existia além de mim.

Tão… Brilhante! O que é isso?

Eu não percebi na hora, mas o que eu não estava usando mais palavras.  De alguma forma o que eu pensava ainda fazia sentido, afinal palavras eram usadas apenas para comunicar ideias e sensações, mas eu não tinha que me comunicar. Eu sabia tudo o que eu pensava e sentia.

 Mas por mais curiosa que eu estivesse, aquela outra coisa parecia ser hostil a mim. Me senti ofendida.

Por que me destrata? O que eu fiz?

Você quer me roubar de mim… a outra coisa me respondeu.

Como eu te roubaria de si mesmo? —Eu perguntei de volta.

Eu não sei… mas você quer!

Por que eu iria querer você se eu tenho a mim?

 Nós nos comunicamos de uma forma diferente e única. Eu sabia e sentia o que ele queria e temia, assim como ele sabia de mim. Então… se ele sabia de mim assim como eu sabia dele, eu realmente queria roubá-lo?

Mas por que eu iria querer roubá-lo?

Eu fiquei curiosa…

Estranho…

Por que está olhando para mim? A outra coisa perguntou desconfiado.

Por que você é lindo! Tão brilhante… Eu respondi de volta

Eu sabia que você iria querer me roubar! Eu não quero ser você! Eu quero ser eu mesmo! A outra coisa falou alarmado e desafiador.

Por que você quer roubá-lo? Outra coisa perguntou.

Que incrível! Você também é tão lindo! Eu estava admirada.

Era como se a coisa brilhante e a coisa nova que tinha aparecido fossem irmãos. Eles eram idênticos, mas completamente diferentes. A coisa nova era como se fosse a escuridão.

Só que de uma forma completamente diferente da escuridão vinda da ausência do que se ver, já que eu podia vê-lo. Ele era A escuridão.

Você quer roubar a mim também? A coisa escura perguntou. 

Diferente da coisa brilhante, ele não estava com medo de mim. Ele estava fascinado, assim como eu estava fascinada por eles.

Por que vocês estão juntos? Eu perguntei.

Existir era algo tão magnífico! Eu estava feliz de saber que havia outras coisas além de mim. Eu queria saber mais.

Nós pertencemos um ao outro… você não pode nos roubar! A coisa brilhante disse se escondendo entre a coisa escura.

Você quer nos pertencer também? Podemos pertencer uns aos outros… a coisa escura disse cheia de interesse. Ele parecia querer que ficássemos todos juntos.

Nós podemos brincar juntos…

Nós realmente podíamos…

E nós realmente brincamos…

Nós combinamos nossos poderes e criamos uma coisa completamente nova. Era brilhante, escuro e palpável… E quando pensávamos no que poderia ser feito para melhorar aquilo, uma coisa diferente apareceu.

Ele tocou no nosso brinquedo.

E o nosso brinquedo que estava em um equilíbrio estático se moveu. Ele cresceu, se expandiu e explodiu.

Naquele momento, tudo que existe surgiu. 

 

 

— Arg! — Eu acordei espantada e sem ar levantando de uma vez da cama.

Henry já havia saído para trabalhar e tinha me deixado uma bandeja de café da manhã com uma linda rosa mesclada do lado.

Eu olhei ao redor tentando me acalmar e recuperar o fôlego. Eu estava com os pés firmemente cravados no teto enquanto meu cabelo brigada entre seguir a lei da gravidade e a estática do ar.

— Mas que sonho bizarro foi esse? — Eu perguntei para ninguém, flutuando calmamente de volta para a cama.

Só para ter certeza, eu conferi a data e a hora no meu Link pessoal. Ainda era madrugada e o sol ainda levaria algumas horas para nascer. Eu estava com a sensação incômoda de que muito tempo tinha passado.

Esse sonho tinha sido tão bizarro, de uma forma completamente diferente. Não era como aqueles sustos aleatórios de quando você sonha que está caindo. Era mais como… uma lembrança. Ele tinha sido como aquelas lembranças e sensações aleatórias que eu tinha antes de me ligar à Criação…

Mas nesse sonho, toda a minha concepção de ser, de tempo, espaço, matéria, sentidos, palavras e sentimentos… tudo era completamente diferente. Eu podia usar palavras para para explicar o que tinha acontecido no sonho, mas elas nunca seriam suficientes, por que palavras eram um conceito mortal usado para expressar perspectivas mortais.

Um conceito mortal…

Quando esse pensamento passou pela minha mente, eu respirei fundo um pouco alarmada. Se aquele sonho na verdade tinha sido uma memória, a quem ela pertencia?

Malditas perguntas retóricas. É claro que eu sabia a quem pertencia, eu só não queria aceitar. Eu tinha medo de aceitar. Eu sempre tinha recusado essa ideia.

Eu sabia quem eu era e quem eu queria ser. Eu queria viver a minha vida e não a vida de outros. Mesmo que esses outros tivessem sido eu mesma. Outra versão de mim.

Eu já tinha tido algumas experiências nada legais com memórias de uma vida que não me pertencia.

— Por que agora? Por que nesse momento? — Eu pensei agarrando inconscientemente os meus cabelos, — Tantos anos que eu já estou aqui essas memórias nunca me perturbaram. O que aconteceu de diferente?

— Guarde essa sensação, Esse poder que você usou para conseguir me atingir… essa é a Lei da Criação.

— Você podia ter usado qualquer outro método para me fazer entender.

Enquanto eu me alarmava, as últimas palavras que eu troquei com Marco no galpão subterrâneo me vieram à mente.

— Aaaaarg!!! — Eu exalei quase gritando inconformada.

Seja lá o que diabos tinha acontecido lá embaixo, eu sabia que tinha sido minha escolha esquecer. E seja lá o que tinha acontecido, tinha aberto alguma porta em mim para essas memórias bizarras.

 

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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