DCC – Capítulo 253

Atreva-se

 

Marco Gionardi:


— O que você quer?

A coisinha estava bastante irritada e incomodada, me olhando como se eu fosse um estorvo. 

— Foi você que veio aqui antes pedindo para eu te ensinar. Hoje eu tenho tempo.

Eu respondi casualmente, ainda recostado em minha poltrona. Alésia olhou para mim franzindo o rosto com cara de quem não engolia essa.

Ela era realmente estressante.

— Então, o que vai me ensinar? — ela perguntou.

— Sente-se, me dê a sua mão, — Eu disse apontando para o assento ao meu lado.

Para a minha surpresa, ela recuou um passo e cruzou os braços na frente do corpo como se quisesse esconder as mãos.

— Eu não vou insistir. Se você quer, venha, se não quer, vá embora.

Eu disse contendo a vontade de rir da cara dela. Que espécie de reação absurda foi aquela? Onde estava o animal selvagem que sempre brandia as garras pra cima de mim?

Apesar da hesitação óbvia, Alésia deu o primeiro passo de volta para onde estava, respirou fundo, esvaziou a expressão e caminhou decididamente para onde eu tinha indicado estendendo o pulso para mim.

— Eu confio que você não vai fazer nada desnecessário e nem desperdiçar o nosso tempo com ações sem propósito, — Alésia disse com a voz firme.

— Humpf… — Eu não iria argumentar contra isso. Desde quando eu já tinha feito algo sem propósito? Eu estendi a minha mão e aproximei à dela parando alguns centímetros de distância, — Você consegue sentir?

Alésia franziu o cenho mais uma vez, e melhorou a postura na cadeira. Acho que ela tinha entendido o que eu estava tentando demonstrar. Até esse momento, todas as vezes que tivemos contato físico foram iniciados por mim, ou foram motivados por uma ação instintiva dela.

Era justamente essa ação instintiva que era o problema. Tecnicamente ninguém deveria ser capaz de me tocar sem a minha permissão. Muito menos ela quando não tinha nenhum treinamento em magia.

Mas ela fez de novo e de novo. Meu rosto ardia só de lembrar.

— O que é isso? — Ela perguntou.

— Isso é uma barreira natural que eu tenho ao meu redor. Do primeiro momento em que eu tive consciência das artes mágicas até o último dia da minha vida, ela vai cobrir todo o meu corpo e ninguém vai ser capaz de atravessá-la.

— Então como… — Alésia começou a reformular a pergunta. Eu sabia que ela queria saber por que ela tinha conseguido me acertar algumas vezes.

— Nossas almas são antigas e poderosas presas em corpos mortais. Nós estamos sujeitos às leis dos mortais, mas isso não significa que também não estejamos sujeitos às leis divinas. Se você ou Henry usarem poder divino, mesmo que inconscientemente, a barreira se tornará inútil, já que ela foi criada usando a magia mortal. Ela se tornará insuficiente para me proteger.

— E como eu posso saber a diferença entre magia mortal e magia divina? — ela perguntou tentando disfarçar o deboche no tom de voz. É claro que ela estava fazendo pouco caso de todas as vezes que virou a mão no meu rosto.

— Acredito que você já tenha testado bastante a sensação de governar sobre todas as coisas… — Eu comentei por alto… eu já tinha visto as memórias dela em que ela usou o irmão de Henry para aprender a dominar a Aniquilação. Ber perturbador, mas quem sou eu para julgar…

Alésia, é claro, pegou a deixa do que eu estava falando, e baixou o rosto levemente envergonhada por ter sido descoberta.

— Se você não tem capacidade mental para lidar com as consequências de suas ações, então não faça. Se você tem coragem de fazer, então lide com isso.

— Eu não estou arrependida! — Ela disse aborrecida e cheia de teimosia.

— Não, não está, mas está agindo como se eu tivesse culpa em ter descoberto seus pecados, e não como se você que fosse culpada por ter cometido eles.

Ela estava prestes a jogar na minha cara que eu não tinha nada a ver com os segredos dela quando decidiu ficar calada e voltou a se concentrar na barreira ao meu redor ignorando o que eu disse.

— Enfim, o que tem a ver a aniquilação? — ela perguntou querendo voltar ao assunto.

— Para você dominar a aniquilação, você precisa entender que toda a matéria que existe está ao seu dispor. Tudo que existe é governado por você. A existência em si depende do seu consentimento. 

— Mas o que tem a ver a Criação e a Aniquilação? — ela perguntou levemente confusa.

— As duas são exatamente a mesma coisa. Só que uma você está concedendo a permissão para a existência e a outra você está retirando. O que você tem que focar é na sua soberania sobre as coisas, e não na diferença entre Criação e Aniquilação. Se você manda na existência da matéria, então a matéria tem que te obedecer, não importa se for pra existir ou parar de existir.

— Oh! — Alésia exclamou finalmente pegando o fio da meada.

Eu a deixei testar por um tempo, até achar que já havia aguentado o suficiente.

— Se você já entendeu, pode sair. Vá procurar algum lugar para praticar. Eu ainda preciso falar com Henry.

Eu abanei a mão indicando a saída. Alésia não retrucou. Ela simplesmente se levantou sem esquecer de deixar para trás o olhar de desprezo padrão e se retirou. Henry veio pouco depois. Ele teve o cuidado de evitar se encontrar com ela pessoalmente durante o expediente para evitar problemas.

— O que é? — Ele perguntou com um ar de impaciência.

— Quero que verifique como estão as minhas condições hoje.

Eu passei a ordem sem me importar com a reação dele. Se eu ainda me importasse, eu teria mantido a ordem que o proibia de expressar o desgosto que ele tinha por mim.

— O que você quer saber exatamente? — Henry perguntou, já sacando do bolso o scanner corporal.

— Eu quero saber se eu tenho condições físicas suficientes para suportar o uso da arte Olhos de Deus.

— Ninguém tem condições físicas suficiente para suportar o uso de Olhos de Deus.

Henry fez uma retórica tão impressionante que eu revirei os olhos. Olhos de Deus era a arte onisciente mais poderosa já criada. A demanda física era igualmente significativa. Metade do motivo pelo qual eu sofri tanto nas mãos de Dhar quando nos encontramos pessoalmente foi por que eu já estava suprimindo os efeitos que a arte tinha me causado quando eu a usei para localizar Alésia na Lua Laplantine.

— Então deixe-me reformular a minha dúvida: se eu usar Olhos de Deus nesse estado, quais serão as consequências?

Henry ficou me olhando por um tempo com o scanner na mão sem responder. Ele estava com uma expressão séria e pensativa. Considerando que ele não tinha nenhum interesse de permanecer no cargo de imperador, ele não iria brincar com a minha vida tão cedo, então eu não precisaria me preocupar com um laudo vago.

Ele se sentou no mesmo lugar que Alésia estava minutos antes e finalmente ligou o aparelho. O procedimento foi rápido. Henry carregou os dados no Link pessoal dele e começou a avaliar enquanto tamborilava os dedos no descanso de braço.

Só depois de um bom tempo, foi que ele finalmente desligou projeção criada pelo Link pessoal e respondeu:

— Considerando o que eu acho que você queria fazer, suas chances de passar por esse feitiço sem usar a Sabedoria inteira com um corpo saudável são de 20%.

— E sem um corpo saudável? — Eu perguntei, é claro que Henry sabia o que eu queria fazer, e é claro que eu sabia quais as possibilidade depois de escutar a primeira estimativa dele.

— Nas suas condições atuais seria suicídio. Você morre antes de completar o feitiço mesmo comigo do lado.

— Hum… acho que isso seria um problema… — Eu comentei levemente distraído. Eu tinha que pensar em possibilidades sem variar demais as peças que eu tinha nas mãos, — E se… e se eu usar a Sabedoria inteira? — Eu perguntei tentando eu mesmo fazer os cálculos.

Henry porém, se levantou furioso e me olhou com uma expressão desafiadora de “Atreva-se!”.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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