DCC – Capítulo 254

Dilema

 

Henry Siever:


— Você forçou a outra metade da Sabedoria em Alésia… — Eu disse entredentes.

— Sim? — Marco “respondeu entortando a cabeça enquanto franzia as sobrancelhas — Estamos trocando obviedades agora?

— Você não tem como  remover a Sabedoria de dentro dela, — eu continuei.

Se a Sabedoria fosse forçada para fora do corpo dela, ela iria sofrer bastante. Depois da Relíquia ter entrado no corpo dela ela tinha se fundido aos próprios nervos do corpo de Alésia. Seria uma tortura horrível retirar rapidamente, e não tínhamos tempo para remover com cuidado.

Marco fez uma expressão de quem finalmente tinha entendido a que eu estava me referindo e começou a rir.

— Então você está assustado que eu vá empalar ela numa parede de novo e remover a Sabedoria a força? — Ele disse com um tom de voz debochado.

— Não antes de eu achar alguma forma de quebrar seus braços de novo… — eu ameacei — Dessa vez eu faço questão de arrancar eles fora!

— Oh, não se dê ao trabalho, é você quem vai ter que arrumar a bagunça depois… — Marco respondeu despreocupadamente, — é mais tempo ocupado e menos tempo com a sua esposinha.

— Cretino.

Marco voltou a se recostar na poltrona olhando para o lado de fora parecendo ter perdido o interesse em continuar discutindo. Os lábios dele se comprimindo enquanto ele decidia as próximas palavras.

— Eu não preciso remover a Sabedoria do corpo dela. Contato físico constante por um período de tempo é suficiente para eu estabelecer um laço entre as duas metades… isso é, se ela não oferecer resistência.

— Você só pode estar de brincadeira se você acha que pode pedir para ela manter contato físico com você sem resistência. 

— E quem disse que eu que vou pedir? — Marco retrucou revirando os olhos.

— Cretino covarde… — eu deixei o insulto sair sem nenhuma ressalva. — Eu não vou fazer nada que a coloque em perigo nem que eu me mate.

Marco ficou um pouco chocado com as minhas palavras. Infelizmente quando eu estava começando a achar que ele iria recuar um pouco, ele caçoou:

— Ah, por favor, vá em frente! Se mate! Vamos ver quem vai protegê-la depois que você se for… não que você seja capaz de fazer alguma coisa por ela nesse estado.

— Você está forçando a barra de mais! — Eu resmunguei.

— E daí? Isso precisa ser feito! Tentar encontrá-la é a melhor forma e achar pistas! — Marco acusou quase irritado.

Ele tinha razão. A pior parte é que ele tinha razão. Com as ferramentas e tecnologia em mãos, não havia formas de fazer uma busca detalhada o bastante… Mas isso ainda não era da minha conta.

— Eu não me importo…

 — Humpf… Mas eu sim. Eu não estou pedindo que você tenha algum traço de compaixão pelo império ou por seus companheiros. Eu estou pedindo a Sabedoria. Eu preciso de Alésia colaborando para isso, ou que a Relíquia seja removida dela. Você decide. Aproveite e faça isso agora.

Meu corpo inteiro enrijeceu com o comando. Era um comando então eu tinha que obedecer quem que eu sangrasse por dentro. Eu tinha que buscar Alésia e serví-la para aquele desgraçado ou arrancar a Sabedoria de dentro dela. 

A cada passo que eu dava era como se eu me rasgasse por dentro.

Antes mesmo de eu me aproximar da ala do palácio onde ela estava, Alésia já tinha sentido a perturbação do meu estado mental. Eu a encontrei em um salão de treinamento individual de frente para um droide parcialmente destruído com várias carcaças espalhadas pelo chão.

Era como ser abraçado pela lua e as estrelas depois de um exaustivo dia debaixo de um sol escaldante. Ela permaneceu parada no meio do salão me olhando com uma expressão confusa, mas sem saber se devia se aproximar ou não.

Nós tínhamos um acordo não verbal de não interagir durante o período em que eu estivesse preso sob as ordens de Marco. Eu sabia que ela sofria ao pensar que eu não tinha livre arbítrio, mas ela se esforçava em manter distância apenas para não tornar as coisas mais difíceis para mim.

Depois de um tempo parado apenas a olhando, meus pés começaram a se mover sem a minha vontade.

Que droga…

Eu ainda não tinha decidido o que fazer…

E se eu não decidisse logo, a coroa iria decidir por mim. 

Eu era tão fisicamente incapaz de machucar Alésia quanto era capaz de desobedecer a uma ordem direta sob o controle da coroa, mas pedir a ela para se colocar a mercê de Marco… Contato físico direto era o maior tatu entre oniscientes, principalmente quando não havia confiança envolvida no meio. Se ele a tocasse, ele poderia tomar controle da mente dela assim como tinha feito comigo… ou talvez até pior. 

Só de pensar nisso, eu quase tropecei tentando forçar meus pés a pararem de andar. Eu pensei em gritar várias vezes para ela fugir, mas esse pensamento estava o tempo todo sendo bloqueado. Alésia podia sentir o meu estado mental, mas ela não tinha ideia do que eu estava pensando.

Ela simplesmente continuou lá parada esperando que eu chegasse até ela sem desconfiar de que isso tudo tinha a ver com a segurança dela.

Eu tinha que pensar em uma saída… qualquer coisa… uma terceira opção… 

— Está tudo bem? — Alésia perguntou depois de não aguentar mais apenas olhar a tensão que eu carregava.

A temperatura ambiente do salão já tinha subido pelo menos uns vinte graus antes de ela intervir, mas os meus malditos pés simplesmente continuaram caminhando até ela sem nenhuma indicação de parar até que ficamos frente a frente.

Enquanto eu permanecia parado em frente a Alésia tentando pensar em uma terceira alternativa que eu sabia que não havia, ela esticou a mão e entrelaçou os dedos entre os meus. 

— Está tudo bem… seja lá o que for, eu estarei do seu lado… — ela disse corando, mas com uma resolução inabalável, — Eu não sou tão fraca ao ponto de não poder me proteger completamente.

Quando ela disse isso eu praticamente parei de falar. Por mais que meus pensamentos estivessem sendo coibidos pela coroa, ela me conhecia o suficiente para saber o que estava acontecendo. Ela tinha percebido que Marco provavelmente tinha ordenado alguma coisa que a colocaria em perigo, mas ela nem estava assustada, nem me culpava. A única coisa que a preocupava era que eu mesmo fosse me machucar.

— Eu sinto muito, — eu consegui dizer puxando-a para os meus braços. Eu precisava abraçá-la mais do que tudo naquele momento.

— Você pode me dizer sobre o que é? — Ela perguntou retribuindo o abraço.

— Ele precisa usar a Sabedoria para um feitiço. Existem duas opções: ou a Relíquia é arrancada de dentro de você, ou você estabelece um laço temporário com ele e permita que ele a use.

Quando minhas palavras saíram, Alésia estremeceu e os braços dela ao meu redor se apertaram ainda mais.

— Não há uma terceira forma? — Ela perguntou. Ela sabia dos riscos das duas opções tão bem como eu.

— Eu sinto muito…

Mais uma vez eu tive que pedir desculpas sem poder fazer nada. Eu sabia que ela preferiria escolher ter a Sabedoria arrancada de dentro dela, do que se sujeitar a Marco. Mas eu não podia dar a ela essa escolha, por que eu não seria capaz de fazer isso…

Eu não seria capaz de suportar fazer uma coisa que causaria dor e sofrimento a ela.

Arrancar a Relíquia ofereceria muito menos riscos e seria bem mais eficiente para Marco do que um laço temporário. Minha obrigação de cumprir a ordem com certeza me faria escolher esse método caso eu não fosse capaz de decidir.

— Eu sinto muito… — Eu disse pela terceira vez, retirando um sedativo do bolso e picando a ponta da agulha na nuca dela antes que ela pudesse reagir.

Eu vou lutar aqui fora, mas enquanto estiver aí dentro… não deixe que ele entre em sua mente.

Eu pensei com todas as forças desejando que minhas palavras pudessem passar pela coroa e chegar a Alésia enquanto ela perdia a consciência em meus braços. Mas ela simplesmente levou a mão para a nuca com uma expressão confusa e depois me olhou entendendo o que tinha acontecido, apenas deixando para mim um sorriso fraco e compreensivo antes de adormecer profundamente.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!