DCC – Capítulo 256

Fragmentos de memória

Henry Siever:


O reino subconsciente de Marco…

Era como uma grande… biblioteca?

— O que diabos? — Aquele lugar, o inconsciente de Marco era igual ao mundo interior da Sabedoria. — Como pode ser assim? Será por que ele se fundiu com metade da Relíquia e isso transformou o inconsciente dele?

Não… não era possível! A Sabedoria não deveria ter o poder de transformar o subconsciente de ninguém. Ou a mente de Marco sempre tinha sido assim, ou eu tinha sido interceptado pela Relíquia antes de conseguir chegar no reino subconsciente onde a alma de Marco estava com os segredos dele.

A única alternativa que eu tinha era explorar aquele lugar e confirmar se eu estava ou não onde devia.

Eu olhei ao redor. A biblioteca tinha o formato de uma torre circular com uma abertura no meio parecendo um poço. Eu estava flutuando no meio sem poder ver o topo ou o fundo. Cada andar possuia estantes que guardavam livros e displays com as memórias e conhecimentos de várias pessoas diferentes. Cada estante era enorme e referente a uma única pessoa. 

— Isso não é a Sabedoria… — eu concluí depois de ativar o display das memórias de um tal de “Walter Cezar”… Ele não tinha sido uma pessoa qualquer. A estante dele tinha todas as memórias detalhadas da vida desse homem, desde a infância até o dia da morte, com todos os livros que ele tinha lido, todos os filmes que ele havia assistido… tudo — Isso é assustadoramente bizarro… 

Eu coloquei o display de volta e olhei as datas. Esse Walter tinha vivido por cerca de cento e cinquenta anos… no calendário do planeta original?

— Isso é informação de milhões de anos atrás! Como?

Walter Cezar tinha sido um Homo Sapiens Sapiens… da raça humana antes de se expandir para fora do planeta original e crescer em linhas evolutivas diferentes que deram origem aos Brards e Jomons. O quão antiga eram essas informações?

Eu continuei investigando, As datas do final da vida de Walter Cezar coincidiam com o início da vida de Dáphine Rizz, cuja morte coincidia com o início da vida de Hemerson Paiva e assim por diante.

Sempre que os registros da vida de uma pessoa acabava, a seguinte começava.

Eu olhei para baixo e para cima daquela torre. Eu não podia ver o fim para nenhum lado.

— Se aqui é realmente o reino subconsciente de Marco… então esse deveria ser o acervo das memórias de vidas passadas… Como seria possível ele ter tudo isso ainda registrado de forma acessível na própria alma? Nem mesmo eu tinha acesso às memórias das minhas vidas passadas, se é que eu tive alguma! 

Se todas essas estantes representavam vidas passadas do dono dessa biblioteca, alma de Marco era no mínimo mais antiga que a maior parte das artes elementares que ainda existiam! 

Não é a toa que o desgraçado era poderoso sem muito esforço. Todo o potencial que ele acumulou depois de tantas gerações de vidas passadas só alimentando a alma dele… Quando uma pessoa conseguia acesso ao conhecimento acumulado de uma ou duas vidas passadas já era grande coisa. Mas tantas? Essa definitivamente não era uma alma normal.

Eu olhei para a sequência de progresso da linha do tempo das vidas registradas em cada estante, quanto mais alto os andares, mais próximo do tempo presente, quanto mais profunda, mais antiga.

Eu olhei para o abismo sem fundo pensando quanto tempo teria se passado desde a primeira encarnação de Marco… Parecia haver alguma coisa lá… alguma coisa familiar… mas que ao mesmo tempo me dava arrepios. Com relutância, eu desviei os olhos do fundo e comecei a voar em direção ao topo.

Meu instinto dizia que tinha alguma coisa suspeita no fundo desse lugar, mas eu não iria lá. Eu não estava exatamente com pressa, mas eu não sabia se eu teria tempo de explorar esse lugar todo e ainda descobrir os segredos da vida atual de Marco, que era a que me importava.

É claro que enquanto eu subia eu ainda ia reparando nos nomes e datas que estavam estampados nas estantes. O tempo de vida variava, mas era raro ver alguém que tivesse morrido jovem para os padrões da época.

Com o tempo, a média de vida começava a aumentar. De cento e cinquenta anos, para duzentos…  Em um momento teve finalmente a passagem do calendário primitivo de 365 dias, para o calendário moderno de 500 dias. e a contagem do tempo de vida sempre crescendo. Depois dos duzentos anos, só vivia menos que isso as encarnações que nasceram como os primeiros Brards, enquanto as demais que nasceram como os primeiros Jomons já tinham tempos de vida que ultrapassaram trezentos ou quatrocentos anos.

Outra coisa que começou a aparecer, foram os fragmentos de memória. Vários fragmentos de memória dessas encarnações apareciam falavam frases aparentemente sem contexto e depois começavam a desaparecer como se tivessem evaporado se tornando uma névoa fina até sumir completamente. 

O que era ainda mais aterrador, era que vários nomes que eu pegava pelo canto dos olhos, eram de personalidades importantes na história da humanidade. Pessoas que fizeram invenções ou revoluções significativas na sociedade, na tecnologia e na história de modo geral.

— Isso não pode estar certo… — Eu neguei enquanto subia, — A minha especulação deve estar errada… não tem como uma única alma ter sido tantas pessoas importantes na história… Marco provavelmente deve ser um tipo perseguidor esquisito de pessoas importantes… não tem como… 

Enquanto eu estava distraído negando o óbvio, eu já tinha subido o equivalente a mais alguns milhões de anos em andares da biblioteca. Quanto mais próximo eu estava do presente, mais nomes e fragmentos de memória eu podia reconhecer nas estantes, e menos eu estava prestando atenção ao meu redor.

Eu tinha estancado meu voo e estava completamente pasmo ao ver o nome do inventor das Crisálidas quando, sem me dar nenhum aviso prévio, alguém me agarrou por trás.

— Henry, irmão, há quanto tempo? — A figura disse colocando o braço sobre meus ombros com um completo e indisfarçado prazer em me ver.

— Um fragmento de memória… — eu murmurei.

A figura que tinha me abraçado era Marco. Não o Marco do presente, mas uma versão bem mais jovem e altiva. O Marco que eu conheci na academia…

O sorriso dele era brilhante e contente, como se nada pudesse deixá-lo mais feliz do que estar ali comigo… exatamente como Marco era quando nos conhecemos…

Aquele não era o subconsciente real de Marco, mas um fragmento inconsciente. Isso me deixou ainda mais abalado. O fato de ser inconsciente significava que não havia máscaras. Não havia truques nem pretensões. Aqueles eram os simples e puros sentimentos de Marco por mim que ele tinha arrancado de si mesmo e enterrado no fundo da alma.

Então ele realmente gostava de mim? Ele realmente gostava de mim… ele realmente me considerava um amigo…

Então o que aconteceu? Por que de repente ele tinha decidido trancar todos os sentimentos que tinha por mim e passado a me torturar?

— Você me trairia um dia? — Eu perguntei para aquele fragmento de memória.

Era um fragmento simples, mas ainda era uma parte profunda da alma de Marco com acesso a todos os outros sentimentos e motivações da alma de origem. A melhor parte é que ele era capaz de acessar tudo isso e me responder sinceramente de acordo com as informações que ele tinha se eu fizesse uma pergunta que tivesse sentido para ele.

O fragmento de memória congelou no ar, com uma expressão séria, como se o que eu tivesse perguntado fosse ofensivo…

— Você é meu irmão. Eu iria preferir jogar minha vida fora do que trair você. — o fragmento disse com uma seriedade assustadora antes de se desfazer no ar em uma nuvem de vapor.

Jogar a própria vida fora a me trair, hum? Interessante… irônico, mas interessante.

Se isso é verdade, o que foi que aconteceu para mudar essa opinião? Eu pensei um pouco aborrecido. O que eu iria descobrir quando eu chegasse no corpo e encontrasse a versão atual do inconsciente de Marco?

Eu continuei subindo, dessa vez mais lentamente, porém não estava mais distraído com as estantes, mas sim com uma certa expectativa pensando no próximo fragmento de memória que pudesse aparecer. O topo da torre ainda parecia distante, mas eu já podia sentir que estava mais perto do fim.

E ali estava o próximo. Dessa vez era um Marco um pouco mais velho. Parecia com o tempo de quando ele tinha acabado de ser escolhido como herdeiro do império. Ele me olhava com o humor um pouco pesado, mas decidido. Quando eu reconheci aquele Marco eu perguntei:

— Por que você decidiu ser o imperador?

Ele tinha me explicado na época depois que tudo já tinha sido decidido, mas eu acabei duvidando dessa resposta com o tempo. Eu queria saber se era real…O fragmento de memória me olhou com surpresa, depois baixou o rosto um pouco encabulado e coçou o cabelo nervosamente com uma das mãos.

— Eu faria qualquer coisa para você ser livre… — ele disse olhando para baixo, mas depois ele levantou os olhos lilases cheios de determinação e disse com um sorriso enorme — Se você me prometer que vai ser feliz, então qualquer coisa vai valer a pena!

Aquela resposta me deu ainda mais raiva. Aquele idiota realmente me considerava um irmão. Ele realmente tinha feito tudo até aquele momento por mim. Então qual foi o problema? A Relíquia da Transformação? Sim… deve ter sido isso. Tudo começou depois que a Relíquia me escolheu. 

Eu subi ansiosamente atrás do próximo fragmento que pudesse me responder antes mesmo que aquela versão do Marco desaparecesse.  A próxima era um Marco um pouco mais velho, já com sinais de quem precisava fazer a barba. Ele estava sentado no chão na beirada de uma estante olhando para a beirada do abismo com uma expressão abatida e deprimida, como se a vida tivesse perdido o sentido.

Esse tipo de expressão me surpreendeu. Mas me surpreendeu tanto que eu quase não consegui seguir adiante. Marco nunca, em nenhum momento, por motivo nenhum tinha se me mostrado qualquer tipo de sofrimento ou tristeza. Mas aquela expressão dele…

Quando ele viu que eu estava me aproximando, uma mistura de emoções cobriu o rosto dele. Primeiro ele pareceu feliz, depois relutante em me ver e pela primeira vez aquele rosto desviou o olhar de mim. Ele estava se comportando como um alcoólatra em abstinência na frente de uma bebida deliciosa enquanto tentava resistir ao vício. Que tipo de pergunta e poderia fazer para esse tipo de Marco? Que diabos esse tipo de reação queria dizer?

— Por que? — Eu perguntei simplesmente. Algo tinha acontecido, e eu não tinha como perguntar especificamente o que, então era melhor uma pergunta vaga que me desse pistas.

— Eu devia ter imaginado quem você era… Eu devia ter percebido que minha afinidade por você não deveria ter sido tão grande se você fosse apenas qualquer um… Se continuarmos ao lado um do outro, eu sei que nossas almas vão sucumbir para a entropia… você pode me perdoar por ser egoísta? Tantas vidas passadas e eu nunca tinha realmente me importado com alguém assim, — o fragmento disse com um ar desesperado olhando em minha direção, depois o fragmento se levantou do chão e praticamente se arrastou em minha direção — Você pode me perdoar? Eu sei que eu estou arriscando nossas almas persistindo na nossa amizade, mas eu não quero ter que abrir mão de você!

Inconscientemente eu dei um passo para trás me distanciando do fragmento de memória. Quando ele percebeu a minha reação, ele parou a investida e voltou a olhar pro abismo com uma expressão autodepreciativa.

— Eu sei que você não vai me perdoar… eu sei você não pode me perdoar…

Enquanto o fragmento olhava para o abismo, a expressão perdida que ele tinha foi substituída por um ódio tão intenso que me assustou. Logo depois disso, o fragmento de memória também se transformou em névoa e desapareceu. Eu acompanhei o olhar dele de volta para o fundo do poço.

Aquela sensação estranha de que algo perigoso e poderoso estava lá embaixo me assaltava toda vez que eu olhava para baixo. Será que eu tinha mesmo decidido vir para o lado errado? Se ele era o hall das memórias do reino subconsciente de Marco, o que tinha no fundo deveria ser apenas a primeira encarnação dele… então por que essa sensação estranha?

— Existe uma citação famosa de um autor primitivo do planeta original que diz “quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”. Será que você já não viu o suficiente? — Uma voz suave sussurrou nos meu ouvido. 

Eu me virei rapidamente para encarar a voz, e senti meu queixo cair.

— Como? Por que você está aqui?

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!