DCC – Capítulo 258

Você soa tão otimista…

Alésia Latrell: 


Ar…

Era o começo de toda a matéria…

Depois era o começo de toda a vida…

De todas as formas que ela podia se manifestar.

Ele não via muita vantagem na vida… algo tão efêmero e passageiro… então não se incomodou com o que estava acontecendo, mas os outros dois…

Era uma constante festa. Tudo crescia, se transformava, e criava conhecimentos novos que antes nunca tínhamos imaginado.

Em um piscar de olhos, tudo aquilo já estava seguindo em frente sem precisar de nossa intervenção. 

Nascido da fusão dos nossos quatro poderes… veio o equilíbrio.

E a vida progredia brilhantemente. Ela crescia além das expectativas e surpreendia. Ela evoluiu. 

Mas além do que esperávamos, a vida criou as emoções.

Primeiro emoções simples, baseadas baseada em algo chamado “instinto”…

Depois.. emoções complexas: dor, alegria, ódio, simpatia, inveja, desejo, raiva, adoração, tristeza, tédio… amor…

E com o tempo, emoções mais e mais complexas.

Depois de observar, eu percebi que o que eu sentia ao ver minhas criações era alegria.

As raças inteligentes aprenderam formas diferentes de lidar com as emoções, mas a que mais teve dificuldades foram os humanos. Eles eram fracos e cheios de ganância. Eles não conseguiam pensar como um todo e acabavam se machucando… Eram um tipo interessante de se ver… sempre repetindo os mesmo erros… de novo e de novo…

Que engraçado!

Que… triste…

Aquele da escuridão, que passamos a chamar de Vix quando começamos a usar palavras, tomou um interesse por essa raça. Eles não eram inteligentes, e tinham muita dificuldade em aprender.

A única coisa que eles eram mestres… eram nas emoções. Eles tinham todas. Sentiam todas e mudavam com frequência. Era curioso. 

Vix adorava vê-los crescer… Shi por outro lado, adorava se divertir com Vix… bem longe de mim… 

Depois de anos, ele ainda estava assustado que eu fosse roubá-lo.

Ele me ignorava completamente… e eu fiquei tão preocupada, que fui procurar outra coisa para brincar…

— Arg! — Eu acordei com falta de ar.

Aquele maldito tipo de sonho de novo. Parecia com o tempo em que eu comecei a sonhar com as memórias de Nádia… só de pensar nisso me dava calafrios. Eu não tinha sequer um conceito de tempo para expressão o quanto demorei revivendo aquelas “memórias” como se eu estivesse lá, como se aquele ser fosse eu.

Eu respirei fundo algumas vezes, olhando ao redor. Eu estava de volta ao apartamento de Henry.

— Henry? — eu chamei. Eu podia sentir a presença dele perto de mim.

— Hum… — ele respondeu distraído. Ele estava sentado em uma poltrona meio escondida num canto, com um livro físico na mão, lendo.

— Você… está bem? — eu sabia que Henry gostava de ler quando estava estressado, — O que aconteceu? Você não ia me levar para ver Marco?

No momento em que aquele nome saiu da minha boca, o livro que estava nas mãos de Henry sofreu. Uow, eu já tinha me tornado dormente à possessões mundanas, mas um livro ainda era um livro. Papel era uma raridade mesmo entre os mais ricos.

Eu me aproximei devagar de Henry e me sentei no braço da poltrona acariciando o cabelo dele, sem dizer mais nada. Henry não era do tipo de responder perguntas se ele não quisesse, então não adiantava continuar perguntando.

Eu podia sentir que ele estava extremamente aborrecido, mesmo assim a única coisa que eu podia fazer era ficar ao lado dele. Só que a curiosidade estava me matando. O que tinha acontecido afinal?

Eu imaginava que deveria ter sido alguma coisa bem ruim ao ponto de Henry achar necessário me deixar inconsciente.

— Alésia… — ele disse fechando o que sobrou do livro com dificuldade, o fez flutuar até a estante mais próxima e enquanto isso me abraçou pela cintura, me puxando para cima do colo dele para me abraçar com força.

— O que está acontecendo afinal? — Eu não resisti a perguntar mais uma vez, me aconchegando no colo dele.

— Você sabe… — ele começou a perguntar, cheio de relutância. Eu não conseguia dizer se ele estava com mais medo da pergunta ou da resposta, — Você por acaso sabe o verdadeiro motivo pelo qual Nádia me deixou?

A pergunta me pegou de surpresa. Eu não fazia ideia do que tinha acontecido para desencadear esse assunto. Será que Marco tinha dito alguma coisa ruim para magoá-lo? Henry sabia que eu estava guardando algum segredo dele. Coisas além do acordo que eu tinha feito com Marco do qual ele ainda não tinha perguntado os detalhes.

Com o meu nível atual de poder, eu podia escolher mentir. Henry não iria perceber. Mas meu peito começou a doer apenas de pensar nisso. Eu não poderia suportar mentir para ele. Mesmo sabendo que a direção dessa conversa não seria nada boa eu escondi meu rosto no peito dele antes de confirmar.

Henry estremeceu quando recebeu minha resposta. Os braços dele ao meu redor me apertaram com mais força, como se ele estivesse com medo de que eu fosse desaparecer no momento seguinte.

— Há alguma chance de você… seguir os passos dela? — Henry perguntou parecendo muito frágil de repente. 

A dor nas profundezas da alma dele veio para mim como ondas me deixando aturdida.

— Mas é claro que não! — Eu respondi exasperada, — Seja lá o que foi que Marco te disse, ele está sonhando se acha que existe alguma coisa que vai me fazer querer trair você nesse mundo!

Nádia era diferente… essa parte eu não disse. Nádia achou algo mais importante. Ela tinha se tornado mãe. Eu nunca tinha contemplado a possibilidade antes de perceber que ela não poderia ocorrer, mas se esse era o preço que eu tinha que pagar para estar com Henry, eu estava disposta a nunca ter filhos.

Com isso, eu finalmente tinha entendido que se Nádia estivesse ao lado de Henry com a entropia ativa, Isaac nunca teria conseguido nascer, por mais avançada que fosse a tecnologia. A alma dele seria consumida antes mesmo que pudesse se formar. 

Ela tinha decidido abandonar Henry por amor ao filho, mas nem o amor ao filho conseguiu motivá-la a continuar vivendo com essa decisão. Eu tinha passado muito tempo desprezando Nádia por isso, eu tinha vergonha de pensar que alguém como ela compartilhava a mesma alma que eu. 

Mas eu não entendia nada das dores dela quando pensei isso. Ninguém podia entender o tamanho da dor que a alma de alguém sofria ao ponto de escolher desistir da própria vida. Eu, que tinha experimentado vários tipos de dor, não podia ser aquela que iria julgá-la, por que eu entendia que ninguém estava qualificado o suficiente para julgar o meu próprio sofrimento.

Mas eu não podia dizer isso a Henry. Ele tinha descoberto alguma coisa, e isso estava o magoando e deixando inseguro. E ele percebeu isso, tanto que disse:

— E você não pode me dizer qual é a motivação de Marco…

Não tinha sido uma pergunta. Henry suspirou parecendo exausto e começou a acariciar meu cabelo, que começou a flutuar com a estática. 

— Quando nos libertarmos, vai ser a primeira coisa que eu vou contar a você, — eu disse, mesmo sabendo que dificilmente esse dia chegaria.

Henry precisava odiar Marco… e a mim… Era estranho trazer conflitos cósmicos na escala divina sobre como as leis da natureza se relacionava para conceitos mortais. Parecia tudo frívolo e trivial demais para fazer alguma diferença no mundo real.

E mesmo que de alguma forma essa maldição fosse quebrada, a única coisa que isso resolveria seria o desgaste de nossas almas, ainda tínhamos que lidar com Dhar. Só teríamos como vantagem o fato de que ele poderia ser morto e libertado do ciclo de vida, mas todo e qualquer dano que ele pudesse causar a nós enquanto continuasse vivo ainda estaria lá.

— Se você vai ficar ao meu lado, então eu vou fazer tudo o que for possível e impossível para isso acontecer. — Henry disse com determinação.

Ele pressionou minha cabeça por trás segurando meu cabelo com a mão e virou meu rosto para o dele antes de me beijar com tanta intensidade que parecia que a vida dele dependia disso. Em resposta, eu apenas envolvi meus braços nele devolvendo o beijo e deixei as coisas acontecerem.

Marco Gionardi:


— Ele fez o que? Ai… — Minha cabeça doía como uma amostra grátis do inferno.

— Você foi descuidado, ele aproveitou o momento de fraqueza e invadiu sua mente. Foi parar no seu reino subconsciente. — Nádia respondeu assumindo uma aparência corpórea como se realmente estivesse na minha frente.

— Mas que merda… — Eu me recostei de volta na cama cobrindo os olhos com a mão. — Por acaso ele entrou no meu andar? — Eu perguntei um pouco exasperado. 

— Eu não faço ideia, — Nádia respondeu com um sorriso fraco, como se toda essa situação fosse engraçada para ela, — Quando eu saí de lá, ele ainda não tinha desistido. Talvez ele tenha ouvido meu conselho, talvez ele não tenha… apenas perguntando a ele.

— Você é mesmo um pé no saco… — eu comentei revirando na cama.

— Eu sou apenas uma sombra que você insiste em ter por perto… Eu não tenho nenhum dizer no que acontece na história depois da minha morte. 

— Tanto faz… eu consegui as informações que eu queria. Só vou fazer a minha parte em tentar salvar a raça humana com as forças que me restam. Já lavei minhas mãos dessa coisa toda, se Henry descobriu tudo, que seja. Não é como se eu ainda tivesse alguma esperança de que a maldição venha a ser quebrada nessa vida.

— Você soa tão otimista… — Nádia riu delicadamente.

— E eu ainda não vejo qual a graça para você estar rindo…

O sorriso de Nádia se abriu mais ainda. Ela flutuou elegantemente para a beirada da cama e se sentou ao meu lado, me olhando com uma expressão de quem sabia mais do que eu. 

— O que? — eu perguntei desconfiado, inconscientemente me escondendo embaixo do cobertor.

— A graça, é que você finalmente está entendendo o que é ser um humano.

Nega Fulor:


Vossa Nega está aqui abrindo um espacinho aqui pra te lembrar que se você ainda não leu o Cosmologia 5, ele está lá disponível! Beijos

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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