DCC – Capítulo 259

A melhor estratégia

 

Henry Siever:


— Você me deixou cheio de sangue em cima da minha cama, — Marco reclamou depois que ele se recuperou o suficiente para falar dois dias depois. A força mental dele ainda estava fraca, mas não o suficiente para torná-lo um alvo fácil.

— Eu fiz o que me mandou. Você não me mandou dar um banho em você ou coisa do tipo… — Eu respondi com desdém. 

— Eu percebi que me descuidei em não ordenar algumas coisas, — ele disse com um tom de acusação.

— Se você já sabe, por que ficar rodeando com comentários inúteis? — eu rebati.

— Você entrou ou não no meu espaço pessoal do meu reino subconsciente? — Marco perguntou comprimindo os olhos.

— Acho que a resposta para isso não faz diferença, não é? — eu falei.

— Você está confundindo a liberdade de expressão que eu te concedi com liberdade para não me responder. Diga! Você entrou ou não?

Era uma ordem. Eu levantei uma sobrancelha para ele. Eu queria dizer tantas coisas na cara desse desgraçado. Se possível, eu queria arrancar a pele dele centímetro por centímetro para expressar toda a raiva que eu tinha. Mas naquele momento eu só podia responder para não causar suspeitas:

— Você tem um reino subconsciente bem impressionante. Se você não tiver a alma mais antiga que existe, então ninguém pode ter. Mas não, não entrei no seu espaço pessoal. Eu não fui além.

Marco comprimiu ainda mais os olhos em minha direção, como se estivesse se esforçando para escanear meus pensamentos. 

— Por que? — ele perguntou.

— Como assim por que? Eu deveria ter entrado? — Eu perguntei de volta.

— A resposta. — ele insistiu ignorando a minha provocação.

— Por que não faria diferença. Não foi isso que mandou a sombra de Nádia me dizer? — eu acusei tentando manter a expressão calma, mas meus dedos estalavam com a força que eu estava usando para apertar os punhos. — Teve um tempo que eu ainda me importava com qualquer motivo doente que você tivesse inventado para me torturar. Eu ainda pensei que talvez eu pudesse usar alguma informação como barganha para lidar com você, mas não adiantaria nada enquanto eu estiver com a coroa.

Eu joguei todas essas palavras de uma vez, enfatizando o objeto odioso na minha cabeça. Marco moveu o olhar para a coroa e suspirou levando a mão ao rosto para massagear a ponte do nariz. Ele não parecia particularmente contente ou chateado com a minha resposta, como se não fizesse diferença. 

— Se você diz… — ele respondeu deixando o assunto para lá, — Eu preparei um relatório com as informações que eu consegui, — ele disse enviando manualmente um arquivo para meu Link pessoal. O paradeiro de Iago continua indeterminado. Eu não posso dizer se ele está vivo ou não, mas Cásira ainda está na fábrica. 

— Parece bem complexo, — eu avaliei observando os dados, — Tanto as coordenadas, como as defesas da nova posição da fábrica estão em um padrão significativamente além do que um ataque frontal é capaz de lidar, fora a presença de titãs ao redor.

— Não tem como recuperar a fábrica, — Marco constatou, — o espaço ao redor dela está travado, e a única entrada e saída é por um portal de onde a mercadoria sai.

— Então qual é o seu plano? — Eu perguntei, apesar de poder imaginar qual seria o melhor curso de ação estrategicamente falando.

— Um grupo pequeno de assalto, destruição das instalações, e se possível, o resgate de Cásira.

— Você fala como se fosse fácil para um grupo pequeno escapar de uma missão suicida, — Eu apontei a falha óbvia na ideia dele. 

Até seria possível para um grupo pequeno entrar na fábrica desde que Dhar não estivesse por perto. Mas no menor distúrbio, Dhar teria poder suficiente para atravessar a galáxia inteira e chegar lá em questão de minutos, ou enviar alguém capaz de lidar com a situação. Além disso, era esperar demais que um grupo de assalto, mesmo que tivesse sucesso em entrar e iniciar o processo de destruição da fábrica, ainda tivesse margem para tentar escapar.

Considerando o nível da missão, apenas os melhores artistas mágicos e de suporte do império teriam condições de fazer isso. Só que seria um tremendo desperdício de recursos enviar os melhores para morrerem.

— Existe uma forma de garantir que a missão possa ser um sucesso e ainda abrir passagem de volta para a equipe… — Marco disse lentamente.

— Que forma? 

— Com Alésia indo junto.

— DE MANEIRA ALGUMA! — Eu gritei de volta para ele antes de terminar de registrar o que ele estava propondo.

Logicamente falando, era verdade. Eu tinha que reconhecer que Alésia tinha crescido significativamente em poder, e com a habilidade que ela tinha de lidar com os titãs, desde que o grupo não fosse descoberto no começo das operações, eles teriam uma margem de fuga de alguns minutos caso Dhar estivesse ocupado em outro local com suas forças principais. 

— Você pode fazer os cálculos sozinho para perceber que essa é a única estratégia viável. Tanto ataques frontais como remotos são inúteis. A única chance é uma investida silenciosa, e Alésia é a única pessoa capaz de lidar com titãs silenciosamente.

— Eu não vou negociar a segurança de Alésia… — eu continuei forçando a calma para continuar falando, as cada fibra do meu corpo tremia de raiva.

Marco continuou me olhando com aquela expressão de quem estava cansado demais para continuar discutindo, enquanto eu esperava que ele fosse dizer algo como “não estamos negociando aqui” ou “sua oposição não tem peso para decidir nada”, ele surpreendentemente desviou o olhar passando a encarar o vazio enquanto segurava o queixo com uma mão e tamborilava no encosto de braço com a outra.

— Você realmente não se importa mais nem mesmo com Cásira ou Iago? — Marco perguntou

De alguma forma parecia mais uma constatação do que uma pergunta, o que me deixou completamente sem palavras por algum tempo.

— Como se você tivesse alguma moral para falar de mim! — Eu acusei.

Eu não me importava mais com Cásira e Iago? Como ele se atrevia a falar algo assim? Eu nunca… Eu… não consegui completar esse pensamento, e precisei respirar fundo mais uma vez para me acalmar.

— Talvez eu esteja falando por conhecimento de causa, — Marco comentou com deboche.

Eu não me importava mais com Cásira e Iago? Dessa vez eu me perguntei isso. Entre os guardiões do segredo, Iago foi o que mais cuidou de mim, e apesar de não ter dado certo entre nós, Cásira e eu não nos tornamos inimigos por causa disso.

Pelo contrário, eu vi o quanto ela ficou triste depois que Nádia apareceu, quando achava que ainda tínhamos alguma chance. Mas ela não me culpou por não poder continuar correspondendo ela e calmamente saiu do caminho.

Mais do que qualquer um, eu admirava muito os Kairoh. Pelo menos eu não tinha repulsa em estar perto deles como eu tinha com praticamente todas as outras pessoas, quase como se algo em mim tivesse quebrado o prazer que eu tinha em reconhecer outras pessoas.

Talvez se esse pequeno detalhe não tivesse sido jogado na minha cara, eu nunca iria reparar que bem lá no fundo, eu não me importava com praticamente mais nada nem ninguém, além de Alésia.

E o pouco que eu ainda me importava, era com as coisas e pessoas que a envolviam. Não que eu tivesse alguma liberdade social na atual situação. Me ocorreu naquele momento que as pessoas têm muita dificuldade de perceber o óbvio quando se trata delas mesmas.

Acho que eu deixei Marco me afetar tanto durante esses anos que eu me tornei fraco…

Não… não era culpa de Marco, ele sempre foi bem claro sobre a posição dele, a culpa era minha por continuar tendo esperanças quando era claro que não havia mais nada. Eu que não tive a determinação que Cásira teve de pular fora e continuei me sabotando por anos.

— No que você está pensando? — Marco perguntou de repente me puxando para fora de meu devaneio, mas depois ele sacudiu a cabeça e me dispensou com um gesto da mão — Deixa para lá, não me importa. Mande Alésia entrar, ela está esperando do lado de fora.

Quando eu ouvi a ordem, eu me virei para abrir a porta, mas ainda desafiei:

— Eu não me importo mesmo que eu perca a mim mesmo. Eu vou proteger Alésia. _ Eu disse abrindo a porta.

Alésia estava do outro lado e me escutou terminar de falar. Porém a expressão dela não era a encabulada de sempre quando eu tentava provocá-la com palavras, mas choque.

_ O que você disse? _ ela perguntou se aproximando de mim cheia de preocupação no rosto, como se eu tivesse cometido uma falta grave.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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