DCC – Capítulo 260

Decadência

 

Alésia Latrell:


“Mesmo que eu perca a mim mesmo”

“Mesmo que eu perca a mim mesmo”

….

Eu perdi a conta de quantas vezes essas palavras ficaram rodando em minha mente quando ouvi Henry pronunciá-las. Parecia que um abismo tinha se aberto sob os meus pés e me deixou sem chão.

— O que você disse? — eu perguntei mal conseguindo esconder o medo em minha voz.

Henry não entendeu a minha reação. Ele permaneceu parado entortando levemente a cabeça sem entender o que deveria dizer. Ele sabia que eu tinha ouvido claramente as palavras dele. Para ele não fazia sentido a minha reação.

— Qual o problema? — ele perguntou um pouco apreensivo.

Mas eu não esperei para conversar com Henry, eu entrei no quarto a passos largos e fui direto para Marco.

— O que você disse para ele? — eu vociferei enquanto me aproximava.

Aqueles sonhos horrendos que eu estava tendo, é claro que eu sabia que não eram sonhos. Eu já tinha passado por essa experiência bizarra antes, mesmo que tenha praticamente parado depois que me uni com a Criação. O que aquela deidade ficava me repetindo de novo e de novo sempre que se aproximava do “eu” nos sonhos me dava calafrios.

“Você vai me roubar de mim”

E de repente Henry do nada vinha com um “Mesmo que eu perca a mim mesmo” depois daquela reação estranha quando acordei no nosso quarto? O que diabos Marco estava pensando? Ele com certeza tinha dito alguma coisa que não devia para Henry.

Marco reagiu quase imediatamente. Ele arregalou os olhos para a minha investida e saltou da cama indo parar no teto, enquanto flutuava segurando um travesseiro na frente do corpo enquanto todo o sangue fugiu do rosto dele.

— Ouw! ouw! — ele gritou para mim como se estivesse tangendo um animal selvagem, o que me deixou com mais raiva ainda — Calma aí garota, eu não vou brincar com você hoje!

— Responda! O que disse para Henry? — Eu perguntei de novo começando a flutuar lentamente na direção dele, dando a ele tempo suficiente para responder.

— Do que você está falando? — Marco perguntou levemente preocupado lançando olhares para Henry que ainda estava parado no mesmo lugar com uma expressão aturdida de quem não tinha acompanhado os acontecimentos, — Eu não falei nada que não devia! — Ele se justificou quando eu estava cada vez mais perto e ele acuado em um canto do teto — Henry…

Quando Marco chamou Henry, o tom de voz dele já era um pouco preocupado e receoso, quase como se estivesse pedindo por socorro.

— Eu sei… — Henry disse e no segundo seguinte já tinha aparecido do meu lado segurando a minha mão — Alésia, você não pode tocar nele ainda. Ele está frágil suficiente para morrer com um soco normal. Quando ele tiver se recuperado o suficiente, eu te aviso, ok?

— Ei, será que dá para pelo menos fingir respeito na minha frente, por favor? — Marco pediu baixando levemente o travesseiro, mas ainda sem descer do teto. Ele já estava começando a suar frio.

— Claro, vou lembrar de colocar isso em consideração, — Henry disse me puxando de volta para o chão, — É bom você descer logo, você ainda não está em condição de se esforçar mentalmente.

— Eu ainda quero a minha resposta! — Eu exigi seguindo Henry que segurava a minha mão com força, como se tivesse medo de que eu fosse começar a distribuir tapas a qualquer momento.

— Humpf… — Marco voltando para a cama resmungando, com suor escorrendo do rosto, — Nessa vida eu já enfrentei algumas batalhas bem impressionantes, estou no meio de uma guerra capaz de dizimar a humanidade e de repente o momento que eu estou mais próximo de morrer é diante de um rompante de raiva da criaturinha selvagem. É realmente uma decadência…

Ele continuou resmungando até terminar de se acomodar na cama e respirar fundo algumas vezes, ainda muito pálido, enquanto pegava um lenço para enxugar o rosto e eventualmente o nariz que começou a sangrar.

— Nós fizemos um acordo, não fizemos? — Ele disse evidentemente irritado, — Eu não sei o quanto você conhece do cargo de imperador, mas eu sou magicamente incapaz de quebrar a minha palavra. Se não você acha que eu iria aceitar o nosso primeiro acordo aquela noite do ano novo?

A menção daquele primeiro festival de ano novo me deixou extremamente desconfortável. Sem falar o fato de que o final da noite foi horrível, foi o dia em que eu fui sequestrada pelos traficantes de renascidos. 

— Eu acho que você se arrepende agora de ter feito aquele acordo, não? — Marco caçoou, — E eu não estou simplesmente me gabando quando eu digo que nunca minto. É impossível para mim. Você pode perguntar pro seu queridinho aí, ele pode responder o que você quiser.

— Eu iria escolher viver tudo de novo do que me sujeitar a você, — eu disse deixando claro todo o meu desprezo. Marco apenas revirou os olhos e me ignorou enquanto eu me virei para Henry — Por que disse aquilo?

— Qual parte especificamente? — Henry checou. Ele ainda não estava entendendo o porquê de toda aquela reação de minha parte.

— Quando você disse “Mesmo que eu perca a mim mesmo”… — Eu repeti para ele segurando a mão dele de volta.

— Bem, eu só disse? — Henry respondeu ainda confuso. Para ele eram só palavras irresponsável de raiva que saem da boca quando se está alterado. 

Mesmo que Henry tivesse a tendência e a capacidade de realmente revidar alguém que o deixasse irado, quando se tratava de Marco, quase sempre não dava em nada. Mas a expressão de Marco rendeu a minha atenção quando ele ouviu a minha pergunta.

— Oh, então é sobre isso… — Marco comentou entendendo sobre o que era toda aquela confusão, ele me encarou com aqueles olhos lilases que estranhamente não estavam tão ameaçadores e dominantes como sempre, mas a expressão dele ainda era extremamente irritante — Você se lembra!

— Lembra de que? — Henry perguntou ainda por fora e começando a ficar irritado de novo também.

— Eu não… — Eu comecei a falar. Eu queria negar. Eu sabia do que Marco estava falando, mas as palavras estavam presas na minha boca. Eu não podia negar, por que não era verdade. — Não de tudo… — eu completei entredentes.

 — Isso é um resultado inesperado… — Marco falou com um leve tom de deboche, mas depois sacudiu a cabeça, como se fosse irrelevante para ele, — Vamos só acabar com isso, sua presença aqui está me dando calafrios.

O comentário de Marco obviamente não era em consideração ao meu poder de sugar o calor do espaço ao meu redor, mas por que ele estava deixando bem claro que ele não queria estar perto de mim nesse momento. Eu fiquei sabendo que ele estava fraco, mas eu não esperava que a situação fosse tão grave que até mesmo um tapa qualquer meu pudesse matá-lo.

É claro, eu sabia que se fosse realmente uma situação de vida ou morte, ele ainda teria formas de me parar, mas ele não estava disposto a me ferir. Ele precisava de mim. Eu era uma das “ferramentas” mais importantes a disposição dele nesse momento.

— Tenho uma missão para você, — ele continuou, a mão de Henry segurando a minha apertou. Com certeza ele já sabia do que se tratava e obviamente não concordava — Consegui a localização da Fábrica de Crisálidas que foi roubada pelo exército de Dhar. Você vai acompanhar um time de assalto para destruir o local…

— Destruir? Não recuperar? — Eu perguntei, me virando de Marco para Henry que estava com uma expressão carrancuda.

— A fábrica não pode ser recuperada. Ela está muito bem guardada. É uma missão suicida,— Henry disse encarando Marco com raiva.

— Não se Alésia for junto. A presença dela garante ao menos a segurança da equipe. — Marco acrescentou.

Então era isso. Marco tinha comentado sobre a missão na frente de Henry e Henry obviamente não iria concordar,considerando os altos riscos.

— Por que as chances mudam com a minha presença? — Eu perguntei pelos detalhes sem demonstrar nenhuma reação.

— Titãs… — Marco disse apenas uma única palavra. Mas isso era auto explicativo, — Sua equipe chega a Keret amanhã, você vai sair do palácio hoje e preparar o que tiver de preparar. O restante das informações com os detalhes da missão serão passados direto pro seu Link pessoal. Mas é claro, você pode escutar o seu querido maridinho e decidir não ir… 

Marco passou as informações direto deixando claro que ele não estava aberto a nenhuma negociação. Eu podia decidir não ir? Claro que eu podia… mas quais as consequências disso? Eu devia ter desconfiado quando ele cumpriu com a parte dele do trato de imediato… ele não tinha dado a mim nenhuma chance de voltar atrás.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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