DCC – Capítulo 261

Obviamente

 

Henry Siever:


— É só isso, podem ir embora cuidar do trabalho de vocês — Marco disse acenando com a mão para a porta, depois que Alésia não ofereceu nenhuma resposta.

Alésia ainda estava com ânimo para continuar discutindo, mas eu não iria esperar ali por mais ordens. Ainda segurando a mão dela, eu a arrastei para fora do apartamento de Marco.

Só que ao contrário dos outros dias, eu não a soltei. Alésia costumava voltar para a minha ala pessoal ou ir para um dos campos de treinamento privado. Eu não podia estar com Alésia por mais de 5 horas de tempo livre. E isso contava o tempo livre que eu tinha para dormir. 

O restante do tempo, ela passava sozinha nessa mausoléu amaldiçoado treinando. Ela nunca tinha parado de treinar. E sempre que possível, eu assistia o progresso dela.

Eu sabia do que ela era capaz.

Era justamente isso que me dava medo.

— Henry? — Alésia chamou sem entender quando entramos em uma das áreas de treinamento.

— Precisamos conversar. — Eu disse, segurando a coisa mais importante da minha vida entre meus dedos.

— O que? O que eu fiz? — Ela perguntou na defensiva imediatamente enrijecendo o corpo como se eu fosse começar a brigar.

Eu ri…

Ah, mas eu ri tanto que lágrimas escorreram. E continuei rindo até que eu precisei me sentar no chão para recuperar o fôlego. Sem entender, Alésia se sentou em minha frente. Ela não estava rindo como eu, mas a expressão confusa dela tinha um toque de felicidade.

Minha amada esposa estava feliz simplesmente por me ver rindo.

— Eu não consigo lembrar quando foi a última vez que vi essa expressão no seu rosto, — Eu disse acariciando o rosto dela com um pouco de dor no coração, — Você me culpa?

Alésia ficou um pouco aturdida novamente. Mas ela não respondeu de imediato como na primeira vez que eu fiz essa pergunta. Ela inclinou um pouco a cabeça contra a minha mão e passou para trás da orelha uma mecha de cabelo rebelde, enquanto me olhava parecendo decidir o que dizer.

— Eu imagino que você tenha descoberto alguma coisa que não devia… — ela começou olhando profundamente em meus olhos, — Nós estamos laçados… Por causa disso, eu pude sentir que você mentiu em algum momento hoje, mesmo que Marco esteja fraco demais para ter percebido, não deu para escapar de mim…

Ela pegou a minha mão que ainda acariciava o rosto dela e a beijou com carinho.

— Foi por isso que você entrou tão transtornada no quarto de Marco? — Eu perguntei meio sem jeito. Eu ainda não tinha entendido aquela reação dela.

Alésia apenas sorriu, mas não respondeu, segurando minha mão contra o rosto dela, como se fosse a coisa mais prazerosa do mundo.

— Se a nossa vida juntos fosse uma história de um livro… você acha que seria um conto de fadas ou uma tragédia? E se por acaso você achar que nossa vida juntos é uma tragédia, você desistiria dela? E se eu soubesse que é uma tragédia e não desistisse, você me culparia?

A intensidade com que Alésia me olhou ao fazer essa pergunta me espantou. Eu sabia que ela odiava quando eu fazia esse tipo de pergunta para ela. Por que eu sabia que ela não me culpava. Mesmo que eu quisesse vestir toda a culpa por tudo de ruim que tivesse acontecido com ela, ela não iria aceitar.

Mesmo assim, a sutil diferença entre as palavras dela entre “se eu achava que seria uma tragédia” e “se ela soubesse que seria uma tragédia” não me escapou. Ela sabia… ela sabia de tudo o que Marco estava tentando me esconder e mesmo assim decidiu ficar comigo.

— Eu entendi o que quer dizer. Me desculpe, eu não vou fazer esse tipo de pergunta de novo, — eu suspirei com uma mistura inexplicável de emoções, — mas me deixe perguntar essa: se eu me libertasse da coroa, o que você escolheria? Fugir disso tudo comigo, ou lutar essa guerra?

Alésia também ficou surpresa com a minha suposição. Eu tendo o direito de decidir, eu ficaria ou iria embora?

Houve um tempo que eu não cogitaria me fazer essa pergunta. Houve um tempo que eu tomaria a frente da guerra mesmo que a minha presença não fosse necessária. Um tempo que eu colocaria a vida das pessoas comuns como prioridade de proteção. Um tempo que eu queria contribuir para o progresso da humanidade. Houve um tempo que eu me importava…

Quando foi que essa parte de mim morreu?

Naquele momento, eu me perguntei se Alésia tinha algum sonho… Se havia alguma coisa que ela desejava fazer mais do que tudo. Eu já tive um. E eu estive disposto a lutar e morrer pelo meu sonho. Eu tive amigos e companheiros que estavam dispostos a lutar ao meu lado.

Caramba… mas que merda é essa? Eu era o grande Henry Siever! Comprovadamente o onipotente mais forte, o segundo melhor onisciente, o melhor médico da história do império, aquele que revolucionou a bioengenharia médica, o herói da Grande Guerra Xenofóbica, o guardião da Transformação e… e o tal do temido Deus da Destruição!

Quem nessa galáxia tinha um currículo melhor do que o meu?

Quem já tinha alcançado mais do que eu?

Quem era mais destemido do que eu?

Mesmo Marco usando a Crisálida Imperial não tinha como me vencer frente a frente.

Mas aqui estava eu sentado no chão, na frente da minha esposa completamente apavorado.

Eu tinha medo de tudo o que envolvia ela. Eu tinha medo de ser julgado, traído, abandonado… tinha medo de que um dia ela não me amaria mais. Eu tinha medo de que eu a fizesse sofrer…

 Eu não podia listar o suficiente o tamanho e a quantidade de medos que eu tinha envolvendo aquele ser humano pequeno e alvoroçado na minha frente.

Alésia era o completo oposto de mim. Quase uma existência patética e dispensável para a vida do império. Ela era talentosa, mas talento sem realizações não contava para muita coisa. É claro que não seria justo colocar essa carga em cima dela, ela não teve tempo nem oportunidade de construir algo. Ter chegado tão longe em tão pouco tempo já era muito mais do que eu tinha feito.

Ela estava crescendo tanto, evoluindo tanto… era impressionante a coragem e a determinação dela mesmo quando ela tinha mais medo do que eu poderia enfrentar… Mais medo do que ela mesma podia enfrentar. 

E mesmo assim ela continuava.

Acho que nós dois tínhamos partes em que estávamos quebrados. Eu tinha que reconhecer meu status, mas também não podia ser complacente em deixar de reconhecer o óbvio: eu tinha decaído.

Eu acho que é difícil de entender para quem nunca passou por isso, mas eu já tinha visto pessoas se destruírem por que suas mentes enfraqueceram. Pessoas que perderam a si mesmas…

Nádia…

Acho que eu podia entender um pouco o que se passava na mente dela quando ela se foi… o quanto ela sofreu… o quanto doeu…

Eu respirei fundo.

Obviamente eu tinha mentido…

Obviamente eu tinha entrado na área pessoal do reino subconsciente de Marco. 

Obviamente eu tinha visto tudo o que havia para ser visto.

Obviamente eu descobri tudo o que havia para ser descoberto…

Obviamente… eu tinha olhado para o abismo

E obviamente, com Marco enfraquecido, eu era o onisciente mais forte. Eu usei a oportunidade para quebrar o controle da coroa.

Eu estava livre.

Eu estava livre e ninguém sabia, nem mesmo Alésia.

Mas por mais livre que eu estivesse para decidir o que fazer com Marco, ou de fazer a escolha de pegar Alésia e ir embora… eu não conseguia decidir isso. Eu menti a resposta para a pergunta de Nádia. Eu ainda me importava.

Mesmo quando eu perguntei para Alésia, mas eu já sabia a resposta dela.

— Eu acho que mesmo que a gente fuja agora, nada vai ser resolvido. Eu consigo fingir muito bem que não me importo. Consigo fingir que não sinto nada, que não tenho compaixão ou posso jogar a culpa nos efeitos que a Criação tem sobre mim, — Alésia começou a falar olhando para o chão — Mas eu sinto a tristeza e o desespero das almas que morreram. E eu sinto pelos que estão vivos. Eu queria fingir que não me importo, que todos poderiam morrer que não seria da minha conta. Eu queria poder fingir que minhas mãos não estão sujas de sangue, mas mesmo que eu use a obliquação, eu não consigo… essas emoções simplesmente nascem de novo… Então… eu acho que Dhar tem que ser parado.

Quando ela terminou de falar, ela continuou olhando para o chão, esperando que eu fosse comentar alguma coisa sobre a posição dela. Como eu continuei sem dizer nada, ela levantou o olhar e avaliou a minha reação.

— Não é isso que devíamos fazer? — ela perguntou meio incerta.

Eu ri de novo.

— Eu iria sempre fazer o que você decidisse, mas sim, é isso que deveríamos fazer. — Eu confirmei, puxando Alésia mais para perto e abraçando ela com força. — E isso me deixa completamente aterrorizado. Sinceramente, eu não quero que você vá nessa missão. Mas eu vou te dar todo o suporte que eu puder.

 

Fim do Arco

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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