DCC – Capítulo 263

As memórias de Henry – Parte 2

 

— Você sabe que eu sou um onisciente, não sabe? — Eu perguntei sem conseguir conter minha reação.

— Sim, eu fiquei sabendo, — Marco respondeu ainda com a mão estendida e um sorriso cheio de dentes.

— Você sabe o que significa contato físico com um onisciente? — Eu perguntei só para ter certeza.

Apesar de ser senso comum, muita gente que não tinha interação com artistas mágicos não sabia disso. Se bem que eu não acreditava que aquele fosse o caso, já que Marco era o protegido de um Stanislav.

— Sim, sim… eu estou por dentro, — Marco respondeu mais uma vez, ainda com a expressão animada. 

— Por que? — Eu continuei perguntando ainda sem corresponder o aperto de mãos.

Marco entortou a cabeça parecendo confuso pela primeira vez.

— Como assim por que? É preciso de um motivo para se começar uma amizade?

A expressão inocente, quase ingênua que Marco fez naquele momento me deixou irritado. 

— Você pode ir fazer amizade com qualquer um, só não venha mais me incomodar — Eu disse dispensando a mão estendida de Marco batendo nela com um livro.

— Mas qualquer um não é você! — Marco retrucou de volta igualmente sério.

— Então é sobre isso? Conexões? — eu perguntei sentindo meus olhos se estreitarem. É claro que deveria ser por interesse em se associar aos Siever. Eu não fazia ideia de como ele tinha descoberto a minha real identidade, mas não deveria ser difícil com um Stanislav do lado.

— Conexões? O que isso tem a ver? — Marco perguntou mais uma vez com aquela expressão simplória irritante.

— Então você vai me dizer que você não sabe quem eu sou, e veio ate mim completamente desinteressado em ter relações com a minha família? — Eu perguntei enfatizando cada palavra com o máximo de acidez e sarcasmo que eu conseguia.

— Você saberia as respostas para isso se tivesse aceitado minha mão, — Marco disse com frieza.

— De que me adiantaria pegar na sua mão? Se eu não consigo ver os seus pensamentos sem tocar nela, ou você tem domínio suficiente pra se esconder de mim, ou está usando uma crisálida para proteção! — Eu o acusei de volta já ficando de pé também para poder encarar ele frente a frente.

Marco e eu ficamos naquele impasse da nossa primeira conversa, até que ele sorriu cheio de ares de superior e disse:

— Você é muito cheio de si mesmo Siever, acho que a minha primeira impressão estava correta. Você é apenas um otário convencido que se acha demais apenas por que é um nobre, — ele enfatizou meu sobrenome com certo desprezo, como se isso não fosse suficiente para entrar nos olhos dele, e apenas para provar o próprio ponto, ele tirou do bolso um brasão dourado e o girou na ponta do dedo enquanto o exibia na minha cara, — E não precisa se preocupar. Eu não acho que tenho necessidade de recomendações de alguém como você.

Depois da carteirada, Marco simplesmente se virou e foi embora batendo os pés irritado, praticamente soltando vapor pelas orelhas, enquanto eu fiquei paralisado no mesmo lugar sem saber como reagir.

Nos dias seguintes eu me ocupei a pesquisar informações sobre ele sempre que eu tinha algum tempo livre. Marco era um estudante extremamente inteligente. Um gênio praticamente sem pares. Ele e eu éramos as únicas pessoas jovens o suficiente para precisar de acompanhante na academia.

Marco estudava bioengenharia médica, entrava e saída da sala sem conseguir falar com ninguém, e ninguém conseguia falar com ele. Ele com certeza tinha algum domínio natural em onisciência, então ele percebia as intenções dos outros mais facilmente. Eu entendia essa parte… com o tempo você acaba se isolando por que todos só se aproximam cheios de interesse. Era por isso que eu tinha julgado ele igual a todos os outros.

Mas Marco de longe parecia tão solitário como eu. Era comum ver ele sentado em uma das praças do distrito residencial onde ele morava jogando xadrez com o Stanislav, enquanto os dois obviamente tinham uma relação completamente diferente da minha e de Saulo. Eles se divertiam juntos… Ou quase, o Stanislav sempre perdia…

Eu estava errado.

Eu tinha o julgado mal.

E aquela foi uma sensação completamente nova para mim. Para começar, um onisciente nunca deve ser incapaz de julgar mal uma pessoa… realmente me faltava experiência. Mesmo assim, eu continuei a minha rotina diária de sobreviver, em vez de viver.

Um exaustivo e monótono dia após o outro…

Não foi quase um ano depois, que eu finalmente consegui permissão para um tempo livre na academia sem Saulo bancando a minha sombra 30 horas por dia! Sem nenhum escrúpulo, eu fui até a praça onde Marco costumava jogar xadrez.

Depois de mais uma derrota, Stanislav simplesmente levou as mãos a cabeça exasperado e pediu um tempo para ir comprar bebidas, enquanto Marco ficou sozinho na mesa rearranjando o tabuleiro.

Eu hesitei por meio segundo antes de me sentar em frente as peças pretas e fazer uma jogada.

Marco ficou surpreso ao me ver sentar em frente a ele sem nenhum convite. Ele voltou o olhar para as peças e comprimiu os olhos desconfiado em minha direção, enquanto eu engoli em seco esperando que ele fosse me mandar embora a qualquer momento:

— Tradicionalmente são as peças brancas que iniciam a partida, — ele disse apontando para o meu peão duas casas a frente.

Eu baixei a cabeça para o tabuleiro e disse sem coragem de olhá-lo nos olhos novamente:

— Você já fez a sua jogada, é a minha vez.

Marco abriu a boca várias vezes para falar mas não conseguiu dizer nenhuma palavra. Depois de quase cinco minutos de um silêncio extremamente constrangedor, Marco simplesmente voltou a atenção para o tabuleiro e também fez uma jogada. 

Stanislav chegou pouco depois e colocou bebidas para nós sem interromper a partida e se sentou do lado apenas assistindo obviamente aliviado por não estar mais sendo torturado.

De longe, e por vários motivos diferentes, aquela foi a melhor partida de xadrez da minha vida.

Terminamos em um empate acirrado, eu com uma torre e ele com um bispo além de nossos reis. Nessa altura, Stanislav já estava em pé ao nosso lado olhando boquiaberto para a partida, e me encarando como se eu fosse alguma espécie de monstro absurdo.

Marco suspirou profundamente depois da partida parecendo satisfeito por algum motivo. Para variar, eu também tinha aproveitado bastante. Tinha sido o primeiro momento desafiador que eu tinha tido em tempos.

— Isso foi divertido, — Marco disse se levantando e colocando as mãos atrás da cabeça, enquanto esticava o corpo — Todo terceiro, quinto e oitavo dia da semana, nesse mesmo horário. Você decide.

E foi embora sem dizer mais nada. Eu fiquei parado no mesmo banco por um tempo assistindo enquanto Stanislav o pegou pelo ombro e esfregou os cabelos loiros do garoto com força desmanchando completamente os cachos, e Marco respondeu com um empurrão e saiu correndo aos risos.

Pela primeira vez, eu também senti inveja. 

E senti falta de Nefrandir e dos meus amigos que ficaram lá. Eu senti falta do meu irmão… As pessoas que ficaram para trás eram as únicas que eu era próximo. Mas eu não podia mais conversar com eles. Meu pai dizia que eram distrações…

Eu me peguei desejando voltar para casa, me peguei desejando entrar em contado com Louis e Emil… Eu desejei terrivelmente que a minha família não fosse importante, e que meus pais pudessem ser apenas uma mãe e um pai, e não os líderes da Casa dos Siever… Me peguei desejando jogar mais com Marco. De repente, eu queria fazer qualquer outra coisa, menos me sujeitar àquela rotina horrível. 

De repente, eu me senti tão solitário que meu coração doía. 

Mas o caminho para o império era um caminho longo e solitário…

E pela primeira vez… eu me senti fraco.

Fraco por ter aquelas emoções, e mais fraco ainda por não poder fazer nada para resolvê-las.

Marco estava certo naquela ocasião…Eu era apenas um otário convencido que me achava demais apenas por que era nobre… Além da minha onisciência anormalmente poderosa, eu não tinha mais nada em mim além do meu ego inflado.

 

Nega Fulor:


Sabe, eu enxergo todos os meus personagens como um pedaço meu e/ou do meu entendimento de mundo… Tudo o que eu sou, quero ser, e inclusive tudo o que eu não sou e não quero ser. Mas até escrever essa parte, eu nunca tinha reparado como o Henry nesse momento lembra a mim mesma na minha adolescência.

Eu sou autista (síndrome de asperger), com comportamento neurotípico aprendido a duras penas, e quando eu era adolescente sem diagnóstico e sem entender muitas coisas, forçada a me comportar como todo mundo, eu odiava as pessoas, e aparentemente o ódio era recíproco. Ao mesmo tempo eu me sentia muito solitária e incapaz, por que me diziam que o certo era me envolver, mesmo quando eu não gostava, e eu acabei instigando em mim mesma a necessidade de amigos a qualquer custo como todos deveria ter. E isso doía bastante.

Ainda bem que com o tempo eu desencanei e consegui fazer amizades e relacionamentos com os meus próprios termos e consegui ficar satisfeita sem me impor nenhum padrão social que não era pertinente pra mim, com pessoas que também não exigiam de mim o que eu não podia oferecer.

Parece piegas, irrealista e completamente parcial dizer isso na internet cheia de uma busca constante por atenção, mas com o tempo, você percebe que só precisa de uma pessoa pra ser feliz e completo. Os outros ajudam, mas não são a chave que abre o portão. E é claro que dói pra porra até você entender isso.

Se vocês ainda não chegaram lá, eu espero que esse pedacinho da minha história ajude vocês a perceberem que não é bom depositar sua felicidade em cima de outras pessoas (quer elas mereçam ou não), pois tudo tem um tempo e uma condição. Além do mais, fazer outra pessoa carregar o fardo da sua felicidade só coloca sobre ela uma pressão desnecessária. Mas claro, tudo isso fazer parte desse processo maravilhoso que é “crescer”.

(Aff, to mentindo pra quem? #TraumasEternos huauhahuahuhua)

Pelo menos a gente aprende a levar na esportiva kkkkkkk

 

 

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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