DCC – Capítulo 265

As memórias de Henry – Parte 4

 

Existem vários tipos de inteligência. Historicamente alguns mais apreciados que os outros, mas todos eles importantes para a humanidade como um todo. Como um gênio da onisciência desde a primeira infância, eu tinha uma afinidade muito grande com a magia, assim como muitas pessoas tem com a lógica, ou com a música.

Apesar de sempre ter tido o meu Coeficiente de Inteligência quase imensurável, o meu Coeficiente Emocional era quase nulo. Eu tinha habilidade zero de lidar com as pessoas e de reagir a como as pessoas lidavam comigo.

Eu fazia o que era mandado, quer eu quisesse ou não, quer eu gostasse ou não, por que era isso que eu tinha sido ensinado a fazer. Porém, por mais que eu quisesse negar, para o um onisciente que está constantemente tenho que manipular a mente dos outros, sentimentos são uma constante inevitável. 

Há quem diga que relações sociais são fáceis. Que fazer amigos, e pior ainda, “mantê-los”, é algo natural… Eu quero ver essas pessoas tentarem construir um motor de dobra espacial capaz de viajar pela galáxia na velocidade de um mestre onipresente completamente equipado, sem a necessidade de um piloto mestre em onisciência e dizer que também foi fácil… por que pra mim foi.

Eu odiava pessoas dizerem que eu tinha “talento”. Que se dane o talento! No que eu aprendi a andar, eu já estava sendo instigado a aprender sobre onisciência. O fato de eu ter habilidade de aprender facilmente não anula a quantidade de esforço que eu tive que encarar.

Enquanto algumas pessoas passavam uma década para aprender magia e controlá-la livremente da forma mais básica, eu tinha sido posto a quase 140 anos de treinamento pesado… e quando eu conheci Marco, eu sequer tinha completado 150 anos oficialmente. Obviamente, eu era uma droga em qualquer outra coisa que não fosse onisciência e lógica… já que eu nunca tinha sido ensinado a fazer mais nada.

Quando eu estendi a minha mão para Marco, eu estava ciente de toda a minha inferioridade. Eu esperava que ele fosse me desprezar e se distanciar de mim depois que descobrisse os planos da minha família… mesmo que eu estivesse aterrorizado com a ideia disso.

Eu estava desesperado por companhia, e ainda mais aterrorizado com a ideia de ser abandonado.

Para minha surpresa, quando nossas palmas se encontraram e nossas mãos se fecharam uma na outra, o que aconteceu foi algo completamente inesperado para nós dois. Era um laço de alma.

Completamente do nada, sem nenhum gatilho, sem nenhuma intenção ou aviso, nossas almas ressonaram uma a outra. A parte mais absurda, é que era um tipo de conexão completamente diferente da que eu já tinha visto entre as outras pessoas. Não era um laço de servitude, nem exatamente um laço de igualdade, também não era um laço de amor nem de lealdade… eu sequer me atreveria a definir aquela ressonância realmente como um laço.

Era mais como se nós dois… ou melhor, as nossas almas fossem duas parte de um todo. Era como se ter encontrado alguma coisa muito importante que eu não sabia que eu tinha perdido. Era como se eu tivesse encontrado a mim mesmo.

Ao mesmo tempo, as memórias da vida de Marco invadiram a minha mente. E eu não sabia ao que reagir primeiro. Era muita informação.

— O que diabos foi isso? — foi a primeira coisa que saiu da minha boca.

— Como você espera que eu saiba? Você que é o mestre onisciente aqui! — Marco jogou a pergunta de volta.

— Você é uma encarnação consciente? — Eu perguntei arregalando os olhos para o garoto na minha frente sem conseguir medir prioridades sobre o que focar primeiro.

Depois de ouvir o que eu disse, a primeira coisa que aconteceu porém, não foi a resposta de Marco, mas o Stanislav que estava preguiçosamente encostado num banco com os pés em cima da mesa da praça se levantar e erguer uma barreira ao nosso redor isolando nós três do mundo exterior.

Ao mesmo tempo, Saulo pulou do local onde estava “escondido” — considerando que todos sabiam que ele estava lá — e foi em direção ao Stanislav pedir esclarecimentos sobre o que estava acontecendo.

Sem aviso, Stanislav nocauteou Saulo e o colocou em posição sentada como se nada tivesse acontecido, enquanto Marco soltou a minha mão e foi na direção dele colocando a ponta dos dedos na testa do meu assessor e sem nenhuma ressalva, apagou a memória dele.

— E você é um obliterante também??? — Eu perguntei sentindo minha voz ficar esganiçada e subir pelo menos duas oitavas com a surpresa. 

— Eu vou cuidar do resto, — Stanislav jogou o corpo apagado de Saulo no ombro e disse lançando um olhar rápido e surpreso para mim — estou deixando a barreira ativa, vocês podem continuar.

E desapareceu. Simples assim.

— O que… o que aconteceu? — Eu perguntei com a voz trêmula olhando para o local de onde Stanislav e Saulo tinham desaparecido.

— Mikal apenas levou o seu assessor de volta para o seu apartamento. Considerando as informações que a gente trocou, acho que não seria uma boa ideia deixar os Siever cientes das minha condição. — Marco explicou voltando a se sentar.

Por mais que Saulo, um membro da minha família com quem passava a maior parte da minha vida atual tenha sido nocauteado e sofrido lavagem cerebral na minha frente, enquanto eu permaneci isolado dentro de uma barreira em uma praça deserta, a última coisa que eu estava sentindo era medo.

Muito pelo contrário… tudo parecia muito emocionante.

Nós nos sentamos de volta frente a frente, e contrariando meus medos iniciais, que daquele momento em diante pareciam completamente infundados, Marco não me rejeitou, apesar de manter uma instância obviamente distante contra a Casa dos Siever.

Marco me explicou o fato dele ser uma encarnação consciente de sua vida passada, e como aos poucos ele iria lembrar informações que pudessem ser pertinentes para a vida dele. Aparentemente a vida passada dele tinha sido uma figura importante que tinha relações próximas com o Imperador Gabriel e tinha sido mentor de Mikal Stanislav desde que ele tinha sido uma criança pequena, mas ele ainda era muito jovem para lembrar de tudo e as coisas iriam surgir com o tempo se fosse necessário.

A parte interessante, é que a alma dele sempre renascia despertando algumas lembranças da vida anterior, e por conta disso, ele tinha criado a si mesmo um sistema para deixar informações sobre quem entrar em contato caso precisasse de ajuda além de obviamente… recursos para viver confortavelmente.

Por conta disso, quando ele precisou, ele entrou em contato com Stanislav que o levou direto para o imperador, e agora ele era um protegido do império até que pudesse crescer o suficiente para lembrar das informações da vida passada e se tornar um importante Conselheiro Imperial.

Assim como eu, Marco tinha toda a vida predeterminada antes mesmo de nascer, e já tinha um futuro esperando por ele. Mas ao contrário de mim, ele tinha escolhido fazer isso de acordo com os próprios termos. Pelas memórias que eu vi, ele tinha um amigo, um tal de Aaron, que estava sofrendo com uma doença rara ainda sem cura, e por isso ele tinha decidido seguir pelas artes médicas.

Igual a mim, Marco tinha sofrido desde cedo com uma família que tinha interesse de montar em cima das aptidões intelectuais superdesenvolvidas dele. Mas completamente diferente de mim, ele não era “bem tratado”, além de ter conseguido se livrar do tormento com certa… “diplomacia financeira”.

Marco também ficou impressionado como uma pessoa tão poderosa como eu podia ter a mente tão fraca. Eu permiti que ele visse cada pedaço das minhas memórias, e por mais que eu esperasse que ele fosse fazer isso a qualquer momento, ele nunca me julgou.

Sobre o laço da alma…

Nem Marco nem eu tínhamos entendido sobre o que tinha sido o laço espontâneo que tinha se formado entre nós, e considerando que a especialidade de Stanislav era onipresença, ele não tinha como explicar o ocorrido também. Dada a natureza sigilosa da identidade de Marco, a única solução era procurar a única pessoa capaz em onisciência que estava ciente dele.

Quando Saulo desperto no dia seguinte, tendo tido a mente preenchida com informações da minha rotina normal como se nada diferente tivesse acontecido, eu recebi um convite formal do imperador, para visitá-lo pessoalmente no palácio em Keret… coisa que minha família ficou mais do que feliz em aceitar em meu lugar.

A primeira vez que eu encontrei o imperador Gabriel, eu não estava tão nervoso como eu pensei que estaria. Eu estava mais preocupado com o que quer que tinha acontecido com a minha alma.

A conclusão de Gabriel, foi bem simples: em algum momento do passado, as nossas almas tiveram a mesma origem, e por isso eram como irmãs. A ressonância entre nós não tinha sido um laço, e sim um reconhecimento um do outro.

Infelizmente em consequência disso, Gabriel chegou a conclusão de que eu e Marco teríamos uma grande sinergia trabalhando juntos, e considerando que Marco já tinha um futuro garantido no palácio, ele finalmente começou a me levar em consideração como futuro herdeiro do império.

Nega Fulor
Curiosidades sobre a história:


1 – Quando eu criei os personagens Marco e Henry, laaaaaaaaa em 2006… muito antes de eu sequer realmente pensar em escrever a história, eu tinha planejado inicialmente que eles fossem encarnações simultâneas da mesma alma, que por motivos desconhecidos (por que eu não lembro) acabou se partindo ao meio, e não duas entidades diferentes, como acabou ficando na versão final.

Além disso, os dois eram inimigos mortais desde sempre, e não melhores amigos no começo, já que cada metade da alma tinha levado consigo uma parte das personalidades, gostos e crenças, fazendo com que o resultado das encarnações se antagonizarem por não terem nada em comum.

2 – Outro ponto, é que na ideia original Marco era completamente do mal e o vilão da história, só que isso não favorecia o desenvolvimento, além do mais… eu não acredito em bem e mal absolutos. Eu não iria conseguir desenvolver ele dessa forma.

3 – O início da criação de DCC se deu com a Nádia como protagonista. A história dela foi toda criada e encerrada, mas com o final trágico, e as possibilidades todas abertas, eu continuei criando com a encarnação de Alésia. No momento de escrever, eu decidi ir direto para Alésia e deixar a parte referente a Nádia apenas como plano de fundo para o plot principal.

4 – O nome de Alésia seria inicialmente “Dora”…. mas “Dora, a aventureira” me fez mudar de ideia… O nome de Henry seria Jhonas, e o de Marco sempre foi Marco.

5 – Alguns nomes de personagens são anagramas e outros poucos são homenagens às pessoas que eu admiro, gosto conheço e por incrível que pareça… também pra quem odeio.

6 – Latrell é o único nome da história que não tem um “significado profundo” dentro do enredo, e não passa de uma piada idiota — pra quem já desconfiou do óbvio… sim… veio daquele filme lá mesmo… Todos os personagens foram batizados com todo o cuidado e pesquisa de acordo com o que eu queria para eles. Mas no fim… sobrenomes são uma questão difícil, mas por mais que eu quisesse enfatizar o fato de Alésia é uma protagonista que deve ser levada a sério e o que seria do futuro dela, levando em consideração o passado e as origens dela,ela ainda é uma Brard comum sem nenhuma história, poder ou influência por trás. As origens dela, no meio em que ela se encontra, não passam de uma “grande piada”.

7 – Como gosto pessoal, eu DETESTO flashbacks, kkkkkkkk, mas reconheço a necessidade deles. Mas pausar a história para fazer explicações? Eu não suporto… e foi por isso que eu abri a sessão “Cosmologia”, daí eu poderia explicar o que eu quisesse por lá, sem ter que pausar o fluxo do enredo.

8 – Quando comecei a escrever DCC, eu pensei em seguir o formato literário de “romance”, mas não consegui alcançar os objetivos que eu queria. Foi quando eu percebi que as “novels” estavam em alta e que era um formato que acomodaria bem. 

9 – DCC originalmente começou a ser escrito com narrativa em 3ª pessoa. Só que apesar de DCC ser Scifi, o foco não é tecnologia, e apesar de DCC ser romance, o foco não é o amor entre um casal… DCC é sobre sentimentos e como cada personagem lida com eles. Daí eu reescrevi 43 capítulos inteiros — com o dobro ou o triplo do tamanho padrão atual — que já estavam prontos, apenas para trocar para narrativa em 1ª pessoa. 

10 – DCC, apesar de não estar totalmente escrita, está completamente criada e planejada desde 2012, considerando desde o começo com Nádia até o fim com Alécia. Existe apenas uma pessoa além de mim que sabe tudo o que acontece na história. TUDO…. até o final….

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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