DCC – Capítulo 266

Ainda durante a noite

Henry Siever:


Segurando Alésia em meus braços, eu contei para ela pela primeira vez a história da minha vida. Era difícil para mim lembrar daqueles momentos, e principalmente admitir para a mulher que eu amava o quão fraco eu era.

Mesmo assim, parte mais difícil era reconhecer o quanto eu me importava com Marco. O quanto ele foi importante para a minha vida. E principalmente o quanto doeu ter sido traído. Mesmo antes de sermos amigos, quando eu estava cheio de inseguranças sobre me relacionar com as pessoas, o que eu mais tinha medo era de ser abandonado, descartado… deixado de lado. 

Inconscientemente eu tinha desenvolvido uma tendência de abandonar antes de ser abandonado. Tendência que eu tinha aos poucos me livrado depois de ganhar autoconfiança suficiente… e tendência que voltou depois de me sentir traído.

Sobre a influência de Marco, eu me dei a liberdade de aprender coisas novas. Eu tinha deixado aos poucos de ser o garoto engaiolado, criado apenas para servir os propósitos dos meus “donos”, para me tornar alguém legitimamente poderoso.

Eu compartilhei os fardos de Marco, e ele compartilhou os meus. Ele compartilhou comigo tudo o que suas memórias da vida passada podiam oferecer para me ensinar onipotência e onipresença, e eu o ajudei a pesquisar a cura para a doença degenerativa da mente de Aaron, e eventualmente acabamos topando de frente com a descoberta do segredo para reavivar a mente de um corpo morto, e como as almas se ligavam aos corpos.

Marco me apresentou não apenas ao imperador, mas aos outros amigos dele. Ele me apresentou ao segredo das relíquias e a Cásira… Ele fazia tudo o que podia sem pedir nada em troca, apenas para me ver feliz.

E apesar da honra, nós dois sabíamos o tamanho do sacrifício que seria se tornar o próximo imperador. Ele percebeu a minha relutância e lutou pela minha liberdade… sacrificando a si mesmo.

Os tempos eram outros. A vida era mais fácil. Antes da guerra, as pessoas sentiam suas vidas vazias, mas ficava por isso mesmo. Não havia razão para lutas e revoltas. Eu era um jovem revoltado, e me rebelei contra a minha família, apesar de ter consciência de que eles erraram tentando acertar.

Eles diziam que tudo o que eu sentia era passageiro. Que o momento que eu estava passando era apenas uma fase. Do que importava se era uma fase ou não? O fato do meu sofrimento eventualmente passar com o tempo, ao ponto de em poucos anos não sentir mais nada significava que a minha dor naquele momento era algo inválido?

É claro que era uma fase… Obviamente com o tempo eu iria superar… mas isso não tornava as coisas menos reais. Só por que minha dor era por algo que eles não levavam a sério, significa que ela deveria ser ignorada? Pensar naquelas coisas apenas aumentava a minha solidão.

— Obrigada por me contar isso tudo, — Alésia falou. Ela realmente tinha escutado atentamente, mas é claro que a ideia de “desabafar” não tinha passado pela mente dela. Apesar de curiosa, ela nunca tinha forçado tentar saber sobre a minha vida. Ela sempre esperou por mim, por eu estar disposto a me abrir com ela, — Mas considerando o momento, qual o motivo de você me contar essas coisas agora?

Eu sorri para ela sentindo orgulho. É claro que ela tinha percebido que eu tinha um ponto objetivo, e não estava simplesmente jogando conversa fora.

 — Marco pode ser o melhor amigo, melhor companheiro, melhor aliado que qualquer um pode querer ter. Ele pode ganhar a confiança de qualquer um e fazer com que todos concordem com ele e com as ideias absurdas dele apenas mostrando a lógica absurda que ele segue, sem importar se os demais concordam ou não. Você pode confiar que ele vai cumprir a parte dele do acordo que vocês fizeram, mas não deixe sua guarda baixar por conta dessa trégua. O fato dele ter nos dado uma folga por conta da luta contra Dhar não o torna menos perigoso. Por que ele fará tudo e qualquer coisa que ele julgar necessário, mesmo que isso seja tirar nossas vidas.

Eu segurei o rosto de Alésia com minha mão e a olhei com intensidade. Eu precisava que ela entendesse bem esse ponto.

— Com coroa ou sem coroa, eu preciso que você entenda, que por mais que eu tenha lavado as minhas mãos de Marco depois de tudo o que aconteceu, eu não posso me virar contra ele, — Eu continuei com seriedade, — E ele sempre se aproveitou desse fato. Além disso, nem minha amizade por ele, nem o fim dela cegaram meu julgamento. Eu sei perfeitamente de tudo o que ele é capaz, então eu não tenho esperança de que ele vá ter remorso por tudo o que fez, por que eu sei que ele faria tudo de novo.

Alésia segurou meu olhar, parecendo pensativa, por fim ela concordou com um gesto da cabeça:

— Eu sei. Eu não estou dando a ele nem mais, nem menos crédito do que ele merece, nem vou deixar minha guarda baixa. — ela tentou me assegurar.

Eu voltei a abraçá-la com força. Eu tinha tanto medo de perdê-la, mas eu tinha que respirar fundo naquele momento. Havia coisas que ela precisava saber e estar pronta para o dia em que ela saísse nessa maldita missão.

— Agora, vamos aproveitar o tempo que temos para te ensinar uma coisa que pode ser útil. — Eu comecei, retirando uma pequena crisálida vazia do bolso.

— O que é? — Ela perguntou sentando-se de frente para mim.

— Bênçãos!

Alésia foi embora do palácio ainda durante a noite. Até onde eu pude, eu acompanhei a lado a lado. Primeiro Adler foi ajustada da melhor forma possível para se adequar às necessidades que viriam. Mesmo que ela não soubesse operar a nave com as mudanças, os membros da equipe dela saberiam.

Eu não teria aceitado deixá-la ir “tão facilmente”, se eu não tivesse visto pessoalmente a lista de nomes dessa equipe. E já que eu iria entrar na brincadeira… eu estava planejando entrar para ganhar.

Eu iria oferecer a melhor distração possível.

No dia seguinte, eu abri as portas do salão de conferências onde mais uma vês um secto de moscas desprezíveis, vulgo políticos, rodavam de um lado para o outro tentando dar conta de seus afazeres enquanto fingiam ser úteis.

Todos eles estremeceram ao me ver entrar. Eu não estava de bom humor, e era senso comum não se aproximar de mim nem mesmo quando eu estava de boa, muito menos quando eu parecia estar prestes a cuspir fogo a qualquer momento. 

Quando todos se acalmaram para tomar seus lugares, eu comecei a informá-los sobre os próximos passos:

— Capitão de Frota Tedesco! — Eu chamei apontando para o nome do oficial comandante das forças especiais táticas, — Eu estou encaminhando agora um memorando para uma missão de prioridade máxima com uma lista de nomes de traidores a serem executados. Os soldados apontados devem se dirigir imediatamente para os locais indicados nos arquivos.

No mesmo instante o ambiente se encheu de ruídos e murmurinhos… como todas as moscas insignificantes, só sabem fazer barulho desnecessário.

— Alguma dúvida? — Eu perguntei levantando a sobrancelha. Obviamente esse tipo de missão era para ser passada em segredo, para que eles pudessem fingir que crimes de guerra não aconteciam, então todos estavam assustados. Mas essa era a oportunidade perfeita de usar a lista de nomes como isca para atrair os traidores dentro do palácio.

Quando eu perguntei e percorri o olhar por toda a sala, ninguém teve coragem de dizer nada contra. Bem melhor que os fulaninhos que insistiram em me contrariar na minha primeira assembléia como imperador interino.

— Além disso, eu vou fazer um pronunciamento oficial para a população com um posicionamento sobre a guerra. — Eu anunciei em seguida.

— Um pronunciamento? — Fulano insignificante número 1 falou.

— Será mesmo apropriado nesse momento? — Fulano insignificante número 2 continuou.

— Não seria melhor esperar o imperador Marco se recuperar e voltar para a frente para discutir os termos? — Fulano insignificante número 3 disse.

Dessa vez, houveram algumas vozes mais exaltadas e opinativas. 

— O que vocês estão pensando que isso aqui é? Algum tipo de brincadeira? Vocês acham que viramos uma democracia para ficarem dando palpite? — Eu comentei com desprezo. — Eu não estou pedindo opiniões, estou avisando! 

Imediatamente aqueles que ainda pensavam em dar voz para opiniões se calaram sem ter coragem de levantar as cabeças.

— Que horário devemos reservar? Devemos preparar a imprensa? — Alguém finalmente fez uma colocação útil. Talvez eu pudesse tirar um minuto para aprender o nome desse.

— Obviamente a imprensa deve ser preparada. Vocês tem 5 minutos. — eu disse.

Dessa vez a comoção foi enorme.

Em cinco minutos não haveria tempo de entrar em contato com os órgãos responsáveis, e avisar as mídias sobre a programação, então todos estavam intrigados com o que eu quis dizer com “5 minutos”. Cinco minutos para avisar todas as mídias e a impressa ou cinco minutos para preparar o pronunciamento?

E era por isso que eu detestava políticos.

Políticos não deveriam se meter em decisões de guerra. Eles não pensavam taticamente. Eles pensavam socialmente. Eles pensavam por meio de burocracias, protocolos e relações interpessoais.Eles não estavam levando em conta que no momento em que um pronunciamento fosse anunciado com margem de tempo para os aliados de Dhar prepararem uma contramedida, o propósito do pronunciamento estaria perdido. Eu nem sequer podia usar essas pessoas, pois ainda não dava para eu confiar em todos eles…

Quando eles entenderam o que eu queria, eles não entenderam o que eu queria:

— Mas senhor! Como vamos transmitir o pronunciamento nessa janela de tempo tão curta? Não teremos tempo de entrar em contato com as principais mídias responsáveis por hostear o conteúdo. — Um fulano insignificante número 4 resolveu me agraciar com as baboseiras óbvias dele.

— Eu disse que vocês deveriam deixar a imprensa se preparar. Não que precisavam avisar algum host. Isso não vai ser necessário. Agora se me derem licença, eu preciso assentar o cabelo antes de aparecer na frente da câmera.

Eu me levantei e me retirei indo para a sala de mídia onde os pronunciamentos normalmente eram feitos. Eu tinha deixado a equipe de vídeo previamente avisada de que a sala estaria em uso, apesar de que não especifiquei detalhes. Eles estavam apenas sabendo que eu apareceria em algum momento para usar os equipamentos. Mas essa tinha sido a única preparação que eu tinha feito.

Os demais políticos ficaram estáticos olhando uns para os outros sem saber o que fazer, achando que eu estava tendo algum tipo de ideia irrealista, sobre como eu iria transmitir o pronunciamento sem postar o conteúdo nas mídias sociais das produtoras de conteúdo e canais da macronet. Os mais inteligentes porém, perceberam que eu simplesmente não estava oferecendo todas as informações e foram cuidar das minhas ordens, mesmo sem saber como eu faria ser possível.

Mas também, não tinha como eles adivinharem que eu estava contando com a ajuda da minha querida esposa que tinha me emprestado um de seus consoles com a entidade magnífica que Sophia tinha se tornado, a única coisa que eu precisava fazer era pedir para que ela tomasse de conta de todas as mídias da macronet e exibisse meu pronunciamento em tempo real para todos.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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