DCC – Capítulo 267

Um encontro casual na praça

 

Marry Briane: 


Eu andava lado a lado com Amelie enquanto voltávamos para o nosso apartamento depois das aulas no centro de onisciência. Depois de ter sido colocada para fora do palácio, Amelie não quis ficar parada em Keret sem fazer nada e se mudou de volta para a academia. Todas nós ficamos contentes em recebê-la de volta, apesar dela estar sempre um pouco preocupada.

Não sei por que motivo, Amelie tinha um dos consoles caríssimos que Alésia tinha comprado e que tinha acesso a intranet pessoal dela. Mas por conta disso, Alésia tinha garantido a Amelie um registro em tempo real de todos os passos que ela dava.

Nesse dia em especial, Amelie estava bastante inquieta. Eu não precisava que ela me falasse os detalhes para que eu soubesse que alguma coisa grande estava para acontecer.

Eu também não precisa sequer de onisciência para saber que o que quer que seja, não era tão grave, se não, não seria apenas uma questão de inquietude, o que já era o suficiente para me deixar mais calma.

Eu olhei para o céu presenciado uma coleção completamente diferente de estrelas e nebulosas das que eu estava acostumada. Afinal eram coordenadas estelares completamente diferentes desde que a academia recuou para o centro do conglomerado imperial.

 — Será que vai ficar mesmo tudo bem? — Eu suspirei temendo o que o futuro dessa guerra sombria iria reservar para nós. 

Só que quando baixei os olhos daquele céu estranho, meus olhos bateram em uma figura sentada distraidamente uma mesa de jogos de tabuleiro.

Ele estava sozinho enquanto encarava um peão de xadrez com mais atenção do que a peça merecia.

— Amelie, você pode continuar em frente sem mim? Eu preciso dar uma palavrinha ali… — eu disse para ela indicando o sujeito com a cabeça.

Amelie achou estranho o meu pedido a princípio, mas assim que percebeu a presença dele, ela concordou e seguiu em frente.

— Eu acho que você está um pouquinho longe demais da sua casa, não? — eu disse movendo uma das peças do tabuleiro.

Mikal Stanislav levantou o olhar da peça que segurava distraidamente e piscou os olhos várias vezes como se a ideia de que alguém tivesse vindo falar com ele fosse absurda.

Depois ele olhou para as próprias mãos parecendo não entender como elas estavam ali.

— Você está bem? — Eu perguntei estranhando aquele comportamento errático.

Stanislav voltou a atenção para mim, parecendo decidir se me dava atenção ou não antes de responder:

— Acho que eu estou apenas um pouco instável ainda… Podia jurar que estava invisível…

O tom de voz dele claramente tinha um tom depreciativo.

O nome de Mikal Stanislav tinha estado em várias notícias recentemente. A identidade dele como Sombra do Vazio tinha sido desencavada por inferência depois dos vídeos envolvendo Alésia na destruição de Sátie virem a público.

Julgar ele não era uma questão fácil. Stanislav andava literalmente no limiar da ética e da moralidade, e muitas das ações da persona que ele interpretava para lidar com certos casos e investigações eram bastante controversas.

Até mesmo os residentes da Hus Stanislav foram pegos de surpresa por essas notícias, pois a imagem pública de Mikal era de um playboy mimado e sem talentos que desperdiçava os recursos da família.

Então toda a pressão das críticas e julgamentos estavam caindo na cabeça solitária dele. Eu conseguia entender que ele precisava manter um perfil que não oferecesse suspeitas para a então identidade secreta dele.

Só que muita gente não queria levar isso em consideração. As manipulações sensacionalistas das notícias faziam espalhar a versão de que Mikal era realmente apenas um playboy mimado que achou que seria divertido brincar de justiceiro. 

Tudo isso considerando que ele ainda tinha perdido o controle sobre os poderes de onipresença por conta do que Dhar tinha feito a ele e a aparência envelhecida…

Só que parando para observar naquele momento, Stanislav estava com uma aparência rosada e saudável, como se fosse apenas um rapaz Jomon comum pouco mais de dois séculos de vida.

— Parece que aqueles vídeos sobre você em Sátie foram bem exagerados… Você parece estar muito bem para quem teve o corpo envelhecido.

— Ter alguns amigos poderosos com as conexões certas as vezes é bem útil. Não foi o mesmo para você? — Ele disse, obviamente fazendo referência ao caso contra a princesa de Kanis.

Mikal me olhava com alguma cautela, como se não conseguisse entender por que eu tinha me sentado na mesma mesa que ele e estava puxando conversa, mas então ele pareceu decidir que não fazia diferença e continuou a explicar:

— Eu acompanho o trabalho de Henry Siever desde antes dele se tornar uma pessoa notória. É claro que quando ele criou o instituto de pesquisas dele, eu peguei todos os meus recursos e me tornei um dos investidores acionistas. Um pequeno problema como aparência física pode ser facilmente resolvido lá. Só que não muda o fato de que eu perdi um século de expectativa de vida mais ou menos, e estou com a idade biológica de quase 460 anos.

Ele comentou essas coisas como se fosse algo bem normal. A identidade dos acionistas do instituto de pesquisa de bioengenharia médica eram praticamente um segredo de Estado, e ninguém mais podia comprar participações mesmo que oferecesse o triplo do valor.

— Hum… bem velho… — Eu comentei sem saber o que dizer sobre tudo isso.

Stanislav levantou uma das sobrancelhas e apontou para o próprio rosto, demonstrando a pele sedosa que tinha sido reconstituída recentemente, como se eu fosse uma retardada por não ter percebido o quão jovem ele parecia agora.

Eu ri.

— Você parece bem melhor sem aquela expressão de flerte que mostrou pras todas as garotas quando nos encontramos a primeira vez. Acho que eu estava certa em pensar que Alésia não escolheria um cara simplório e sem confiança para ficar ao lado dela…

Mikal pareceu bastante surpreso com as minhas palavras, mas logo uma melancolia cobriu os olhos dele, e ele voltou a atenção para o peão, sem querer me olhar nos olhos.

— Eu acho que talvez eu esteja comentando fora de lugar, — eu comecei a falar quando percebi o motivo da melancolia, — Mas você sabe que Alésia é uma Brard, não sabe?

Mikal se distraiu com a temática da minha pergunta, sem conseguir entender qual era o meu propósito, então eu simplesmente continuei falando:

— No meu planeta natal, a convivência entre Brards e Jomons é bem comum. Quando eu cresci o suficiente para entender o que estava afetando as relações entre os dois grupos raciais, a guerra aconteceu, e no meu ponto de vista, era tudo uma grande besteira.

— Jomons entendem o comportamento dos Brards, mas não são capazes de aceitar pois parece irracional. Já os Brards aceitam a forma como os Jomons levam a vida, mas não conseguem entender, pois parece desperdício. Por mais que a alma de Alésia tenha se desenvolvido para se adequar às mudanças no corpo dela, ela ainda é apenas uma garota Brard comum em muitos aspectos. Você não pode esperar que ela entenda por que você ficou magoado com ela depois daquele incidente, se não disser nada.

— Nas perspectiva Brard dela, onde tudo acontece rápido demais e num piscar de olhos, ela já viveu ¼ do tempo de vida útil que ela teria normalmente. Coisas que acontecem ao ponto de abalar todas as emoções que ela possui acontecem bem mais rápido que para Jomons. Ela não pode viver sem desconfiar que em algum momento as pessoas vão acabar abandonando, maltratando ou traindo ela. 

— Alésia é capaz de amar, mas ela ama muito mais a si mesma e a própria vida. Qualquer coisa que ameace essa vida se torna algo imperdoável para ela. Então ela também não consegue entender por que você não aceitou os traumas dela, depois que perceberam o mal-entendido.

— Alésia não é uma Jomon que é capaz de acalmar as emoções depois de um tempo de reflexão. Se você deixar o lado dela sem mais nem menos ignorando o fato de que ela pensa como uma Brard, ela só pode se sentir abandonada por você.

Mikal permaneceu calado apenas me olhando tagarelar, enquanto revirava a peça entre os dedos.

— Eu sei… eu sei todas essas coisas… — Ele finalmente respondeu colocando a peça no tabuleiro, — Só que juntando tudo, eu ainda devo algumas explicações a ela.

Eu ri da expressão perdida que ele tinha.

— Bom, seja lá o que for… você passou mais tempo ao lado dela do que qualquer um de nós. Você melhor do que ninguém deve entender como ela vai reagir.

Mikal concordou comigo, e me olhou com uma intensidade que eu não consegui reagir e fiquei um pouco sem jeito.

— Obrigada pela conversa senhorita. Você é praticamente uma boneca tão fofa quanto Alésia… apesar de não ser versão de bolso.

Ele riu da própria piada e se levantou alongando os braços.

— Que as possibilidades nos permitam em outra ocasião.

E desapareceu.

 

Nega Fulor:


Perdão.

Quem ai já tem mais de 30, com criança em casa vai entender que não é fácil. Mas enquanto eu não pude sentar no pc pra postar os caps, eu fiz alguns desenhos pra  compensar minha sumida.

Além disso, pra compensar os capítulos atrasados, eu vou tentar postar um capítulo todos os dias que eu tiver tempo, além dos 3 já esperados.

Aguarde!

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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