DCC – Capítulo 270

Apresentem-se

 

Alésia Latrell:


Logo depois de me despedir de Mikal, eu fui direto para o ponto de encontro com a tal equipe. Infelizmente eu não tinha tido tempo para me encontrar com as meninas, mas enviei uma mensagem mandando notícias.

O ponto de encontro era em um restaurante não muito longe. Eu terminei de comer o meu bolo de corri para não me atrasar muito.

Eu abri a porta da sala para dar de cara com um grupo de Jomons já me esperando. Ou pelo menos, esperando os últimos membros da equipe que eles esperavam não ser uma Brard.

A minha surpresa foi ter encontrado um rosto conhecido. Ou casualmente. Lobrë tinha sido uma das primeiras pessoas que tinha me visto quando eu saí do laboratório de Henry logo após o primeiro aprimoramento do meu corpo.

E pelo visto ele também tinha me reconhecido, já que a maior parte das outras pessoas achava que eu ser mulher de Henry no fim era apenas um boato. Lobrë explicou rapidamente como sabia de mim 

— Então, você é realmente a mulher de Siever? — um dos Jomons perguntou me olhando com certo interesse.

— Acho que esse não é o ponto da questão… o que você está fazendo aqui? — outro perguntou, evidentemente nervoso com a minha presença ali.

Eu me virei para ele sentindo um pouco de impaciência com aquela situação. Todos eles estavam prontos para me julgar por eu ser uma Brard, sem sequer tentar investigar as minhas capacidades primeiro.

— Não é óbvio? Eu estou nessa missão com vocês.

Eu respondi sem expressar nenhuma emoção. Ele estremeceu um pouco quando minha atenção ficou focada nele, mas o olhar dele se tornou ainda mais intrigado.

— Qual o seu nome? — a mulher Jomon perguntou me olhando com certa hostilidade.

Eu me virei para ela, percebendo que ela estava apenas intrigada pela reação de Lobrë.

— Alésia Latrell, — eu disse, sem entrar em mais detalhes.

Silêncio. Eles estavam esperando que eu começasse a explicar mais sobre minha presença, mas ficaram obviamente desconcertados quando eu não fiz questão de falar. Eu devia ter demorado mais para vir… provavelmente só o capitão da missão sabia da minha importância para a missão e pelo visto ele ainda não havia chegado.

— Então… você é mesmo uma Brard? — o cara que perguntou se eu era mesmo a mulher de Henry perguntou de novo.

Eu me virei para ele sem nenhuma vontade de entrar nesse debate sem futuro.

— Acho que é a vez de vocês se apresentarem também. — Eu comentei, sem oferecer uma resposta.

Eu podia facilmente conseguir todas as informações dessas pessoas num piscar de olhos, mas sinceramente… eu não tava a fim.

— Oh, deixe-me apresentar novamente, — Lobrë disse com um sorriso simpático estendendo a mão para mim. Quando eu não a recebi, ele não pareceu encabulado, — Eu sou Daniel Lobrë. Sou especialista em sistemas do império, diretamente sob as ordens do Quartel General de Keret. Eu e Siever nos conhecemos nos tempos que estudávamos aqui na academia, apesar de eu ser bem mais velho que ele.

— Não é como se existissem muitas aberrações capazes de entrar na academia antes de completar 150 anos, como ele e o Imperador Marco, — um rapaz que estava de pé e parecia ter chegado um pouco antes de mim comentou — Então, Alésia Latrell, eu me chamo Alberth Samuel. Serei o piloto. Apesar de ainda não saber qual nave estará a nossa disposição, eu garanto que sou capaz de pilotar qualquer coisa inventada pelos humanos. 

Alberth parecia bem orgulhoso e um pouco arrogante, mas a expressão dele não me deu nenhuma sensação de hostilidade, e até mesmo me deixou um pouco relaxada, já que a aura dele me lembrava um pouco de Mikal.

Talvez ele também fosse adorar a Primeiro Adler… eu queria ver se ele iria manter a pose orgulhosa e arrogante quando visse a nave…

— Vocês estão mesmo tratando esse brinquedo como parte da nossa… nossa… — o primeiro cara que questionou a minha presença ali começou a falar, mas assim que os olhos dele se encontraram com os meus, ele se perdeu no meio do que ia dizer.

— Seu nome? — eu disse friamente.

— Gabriel Zanin! — ele disse quase em tom de saudação militar, e se sentando ereto na cadeira.

— Você tem algo contra mim? — eu perguntei calmamente.

Apenas pela aparência dos olhos dele, eu podia dizer que ele era um onipresente. E era um dos mais fortes que eu já tinha visto fora da Casa dos Siever.

Aquela reação dele não tinha sido por conta dos meus pensamentos, ou que ele tivesse sentido minha aura como mais forte que a dele — não era. Ele calou por que não podia ver meus pensamentos. Ele entortou a cabeça, franzindo o cenho para mim, tentando decidir o que responder.

— O que é você? — ele perguntou por fim.

Eu revirei os olhos. Será que todos os Jomons tinham combinado de me fazer essa pergunta ao primeiro encontro?

Tudo bem que não fazia sentido no senso comum um onisciente mais fraco ser capaz de ocultar os pensamentos de um mais poderoso. Mas por que sempre perguntavam como se eu fosse algum tipo de objeto? Ninguém podia tirar a conclusão óbvia de que eu era uma obliterante?

Eu reparei que parecia um consenso entre os presentes ignorar as reações primárias desse Gabriel Zanin, mas quando ele me encarou de forma séria, os outros pareceram começar a me levar a sério também, e me olharam tentando encontrar em mim o que Gabriel tinha visto.

— Ronaldo Alexsandro, mestre onipotente. — O cara grande ao lado de Gabriel se apresentou sem mais detalhes, sem esconder o interesse nos olhos.

— Kelly Luis, — a mulher ao lado de Lobrë disse o próprio nome, mas ao contrário de Ronaldo, ela não demonstrava nenhum interesse em mim, ela olhava para a rua pela varanda com uma expressão azeda, enquanto cruzava os braços e as pernas.

— Kelly é especialista em armas do exército, — Lobrë explicou calmamente vendo a reação da colega, — ela consegue criar qualquer arma mágica em minutos desde que tenha o material e o feitiço.

Por algum motivo a hostilidade que Kelly emanava diminuiu bastante depois que Lobrë a apresentou. Eles tinham falado pouco, mas basicamente eu tinha entendido a importância de todos eles na equipe.

— Você pode nos dizer qual será sua função? — Lobrë perguntou tentando ser amigável, — Eu tenho certeza de que você viu o relatório estatístico, e eu não acredito que Siever tenha enviado a esposa dele para uma missão suicida apenas para encher o seu currículo.

Uau, afiado, eu pensei rapidamente olhando de volta para Lobrë. Mas eu baixei os olhos por um momento pensando na melhor forma de explicar a minha presença ali sem entregar informações desnecessárias.

Nenhuma informação podia sair enquanto Henry não fizesse o pronunciamento, não importava qual informação fosse.

— Acho que vocês podem me considerar uma arma, — eu disse sem entrar em detalhes.

Praticamente todos eles fizeram uma expressão do tipo “isso explica tudo”, como se eu ser uma arma criada por Henry fosse o único motivo pelo qual ele manteria uma “Brard” ao lado dele. Afinal eu não era uma pessoa… eu era um objeto.

— Já que todos já se conhecem, nós podemos cuidar de partir. A hora do pronunciamento está chegando. — Uma voz grave e abafada soou do vazio. 

Todos os presentes olharam ao redor tentando identificar de onde a voz vinha, quando uma enorme fenda no espaço foi aberta no chão e engoliu todos nós.

Eu segui pela fenda sem resistir. O outro lado surpreendentemente era o interior da Primeiro Adler.

— Por que você não me disse que você seria o capitão? — Eu perguntei levemente irritada. Eu tinha me assustado com aquele movimento repentino dele.

— Nenhuma informação sobre a missão deve ser discutida em privado. — Ele disse com o tom sério, completamente diferente da forma calorosa como conversamos mais cedo.

— Você é… o Sombra do Vazio! — Gabriel Zanin comentou surpreso.

Os outros membros do grupo olharam ao redor em guarda, mas eles entendiam que apenas a pessoa que preparou a barreira ao redor da sala de espera naquele restaurante tinha poder para tirar eles de lá por uma fenda no espaço. Ou seja, aquele era obviamente o capitão.

— Antes de entrar em detalhes, eu quero dizer algumas coisas que preciso que tenham em mente, — um Mikal sério e impositivo falou por baixo da máscara translúcida, — Eu serei o líder, e as decisões que eu farei são diretamente alinhadas com a necessidade do império. Qualquer um que não tiver condições de seguir o meu comando será indiciado por traição, caso sobreviva.

Ninguém fez nenhum comentário.

— E isso é especialmente para você, — para a minha surpresa, Mikal falou comigo, — Você vai seguir as minhas ordens durante a missão, ou eu irei dopar você e controlar o seu corpo. — Ele disse com tanta intensidade que eu não duvidei que ele faria realmente isso.

Eu inconscientemente me encolhi um pouco e confirmei com a cabeça por conta da forte pressão que Mikal estava exercendo naquele momento.

— Aos demais, esse é o último momento em que podem desistir. Caso decidam prosseguir em viagem, fiquem atentos ao fato de que qualquer um de vocês, ou todos nós podemos morrer, exceto Alésia. Caso Alésia não volte para o império sã e salvo, podem ter certeza que não precisam esperar que Dhar destrua tudo. O marido dela fará isso pessoalmente.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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