DCC – Capítulo 271

 O discurso do imperador.

 

Mikal conseguiu elevar o nível de tensão com sucesso.

Apesar disso, ninguém se levantou para sair. Depois de alguns minutos de um silêncio opressivo, ele foi até o painel de controle da nave e inseriu um grupo de coordenadas para o piloto automático. 

Quando a nave decolou e saiu discretamente do espaço aéreo da academia, Mikal chamou:

— Alberth! 

— Senhor! — Um dos rapazes se prontificou quebrando a atmosfera tensa entre os presentes. 

— Você pode assumir o posto no painel da nave e se familiarizar com os controles. 

O papel do piloto era indispensável, principalmente na hora da fuga. Não sei o que Mikal estaria fazendo, mas já que ele não seria o piloto de fuga, essa Alberth deveria estar bem consciente das capacidades da nave.

— Senhor? — mas Alberth demonstrou uma expressão de dúvida e não foi imediatamente até o painel, — Essa vai ser realmente a nave da missão? — ele perguntou olhando ao redor.

Até onde diziam as aparências, essa era no máximo uma luxuosa nave privada de passeio. No máximo para viagens de órbita, e nada no nível interestelar. 

— Essa nave foi pessoalmente construída por Henry Siever, o seu atual imperador. O que você me diz? — Mikal disse levantando o queixo, como se ele estivesse se gabando que a nave tivesse sido feita por ele mesmo.

É, com certeza Mikal não tinha auto controle o suficiente para não tietar sobre Henry.

E com certeza, Alberth não se atreveu a questionar as capacidades da nave depois de ouvir o que Mikal disse, e praticamente saltou para o painel de controle, que logo teve a posição de copiloto ocupada pela mulher, Kelly, seguida de perto por Daniel.

Os três começaram a sussurrar empolgados apontando as funcionalidades da nave com assombro, esquecendo completamente a posição em que se encontravam.

Mikal acenou com a cabeça em tom de aprovação, como se essa fosse a reação esperada de alguém que encontrasse alguma coisa inventada por Henry e deu a eles alguns minutos para se acalmarem, enquanto ligava um visor comum da macronet para todos.

Eu sabia o que ele estava esperando. O pronunciamento público de Henry. Naquela hora ele já devia ter informado os palacianos sobre isso, e iria vir ao ar a qualquer momento.

Ronaldo e Gabriel, que pelo visto não eram tietes do meu marido, arrumaram um lugar para sentar e ficaram esperando Mikal. Eles estavam esperando pelas especificações da missão, mas tiveram tato de não perguntar nada ainda.

Pouco depois, eu recebi uma mensagem de Henry direto pelo meu Link Pessoal. 

“Está na hora”, era o que dizia.

 — Se vocês puderem pausar um momento, — Mikal chamou. Aparentemente ele também tinha recebido uma mensagem. 

— O que há capitão? — Daniel Lobrë perguntou com a voz mansa e uma aparência relaxada.

— Antes de entrar em detalhes com as especificações da missão, eu preciso que vocês tenham ciência de algumas informações sobre o contexto geral em que estamos. Mas não serei eu que irá passar essas informações.

— Transmissão ao vivo? — Daniel perguntou franzindo o cenho, ao perceber a interface disposta no tela — Assim não é fácil de que as informações sejam capturadas por terceiros?

— Não é uma mensagem direta para o nosso grupo. É na verdade um discurso do imperador. — Mikal disse.

— Discurso do imperador? — Gabriel perguntou — Mas Siever não tem agido como imperador interino nos últimos dias? Não me diga que ele vai tomar posse em definitivo! — Ele começou a trocar olhares entre Mikal e eu, esperando que um de nós respondesse.

— Você vai saber assim que ele começar, — Mikal disse se sentando de frente para a tela.

Afinal, Mikal também tinha interesse no que Henry tinha a dizer. Mikal com certeza teve acesso a muitas informações antes mesmo de me conhecer, mas eu percebi que ele não sabia de nada sobre as relíquias até começar a lidar comigo.

Foi então que a interface da tela mudou e o logo do império tomou de conta da imagem. Logo em seguida, Henry, esplendidamente bem vestido com os trajes oficiais dos palacianos e um cabelo impressionantemente bem penteado apareceu.

Henry ainda tinha um rosto jovial, como o de um adolescente, por conta do momento da vida em que ele parou de envelhecer. Por conta disso, ele tinha deixado uma barba crescer, para dar a ele a impressão de ser mais velho e corresponder com a idade real que ele tinha.

Henry estava sentado em um cenário que simulava o saguão de entrada do palácio, onde os nobres, políticos e dignitários de várias soberanias eram recebidos.

Abaixo da imagem, uma tarja com o nome, “Henry Siever – Imperador Interino do Conglomerado Imperial Humano” foi exibida, e a imagem fechou no rosto sério e intimidante que ele fazia naquele momento.

Nem mesmo a câmera conseguiu diminuir a aura dominante e opressiva que ele estava querendo demonstrar, como se aqueles olhos pudessem ver até a profundeza de todas as almas.

Eu confesso que aquele tipo de olhar que prendia os outros era extremamente irritante e invasivo quando vinha de Marco, mas quando vi Henry interpretando aquele papel… eu não pude deixar de suspirar.

— Atenção, cidadão do Império. — uma voz começou a soar apresentando a situação e Henry. — O então imperador, Henry Siever vem a público tomar um momento da atenção de vocês para um pronunciamento oficial.

Quando a voz que apresentou a situação se calou. Henry começou:

— Caros membros da raça humana. Sejam Jomons ou Brards. Sejam vocês refugiados ou ainda estejam indecisos sobre que posição tomar nessa guerra. Depois de alguma deliberação, eu, Henry Siever decidi vir a público com alguns esclarecimentos.

— Muito se especula por conta das polêmicas trazidas para o público pelo insistente investimento da oposição em campanhas difamatórias. Muito se diz que o império domina formas de magia que esconde do público, ou sobre como tememos o poder dos Brards, e por isso que eles são “proibidos” de praticar artes mágicas.

— Além disso, eu estou ciente de que muitas soberanias rescindiram o chamado de recuo do império por medo das repercussões do exército de titãs que está assolando os quadrantes periféricos, e de certos fatos contados em vídeos publicados pelos próprios terroristas.

Até ai, Henry falou com certa propriedade e educação, mas logo ele não conseguiu conter o escárnio na voz enquanto continuava:

— Mas eu acho interessante, como pessoas em perfeitas condições mentais conseguem interpretar todos esses vídeos com fatos manipulados como se fossem fatos definitivos e decidir o destino de bilhões de civis. Dizem eles que o império esconde artes mágicas obscuras, que o império oprime, que o império não é um poder vazio como dizemos…

— Para esses, eu digo que vocês são piores que os traidores que se aliaram ao exército inimigo em troca de uma promessa obviamente ridícula de poder e proteção. Esses pelo menos assumiram os riscos que irão encarar e estão abertamente vestindo a carapaça de peões no jogo do inimigo.

Depois de expressar um pouco de raiva, Henry respirou fundo e se acalmou um pouco antes de continuar: 

— Mas confesso que o império cometeu erros, de fato. Não os erros que o inimigo nos acusa, mas cometemos alguns que eu quero esclarecer aqui e agora.

Naquele momento, meu coração apertou. Era ali que ele iria abrir o jogo.

— Nosso inimigo, Dhar, foi o incitador os ataques alienígenas ao planetas Brards antes da Grande Guerra Xenofóbica. Além disso ele também usou táticas de manipulação de informação para incitar a revolta dos Brards, contra os Jomons. E ao mesmo tempo, foi ele que incitou a ideia nos Jomons de que os Brards seriam ferramentas dispensáveis.

— Para os Jomons que se acham espertos demais e que entenderam o panorama completo da situação, saibam que vocês foram sim manipulados. Eu não vou dizer o mesmo sobre os Brard, pois a geração já mudou a maior parte dos que presenciaram a guerra talvez já não estejam mais vivos, então o modo de percepção deles é completamente diferente.

— Agora, todos estão guerreando, não Jomons contra Brards, mas humanos contra titãs. As criaturas gigantescas que compõem o exército de Dhar.

— E eu pergunto a vocês: Vocês acreditam mesmo que aquele que tenta pela segunda vez manipular as massas para derrubar o império tem intenções nobres? Não vamos nem discutir sobre as vidas que ele está ceifando, ou os ataques terroristas que ele está fazendo contra planetas inocentes e indefesos. Apenas o fato de ele incitar a desarmonia entre as raças humanas já é prova de que ele teme a nossa união. E a única coisa que representa a união da humanidade como um todo é o nosso império.

Henry fez mais uma pausa depois dessas palavras. Parece que ele queria que as pessoas parassem para pensar a respeito. O conflito que a humanidade estava passando era inédito na história.

Todos estavam muito assustados com o poder aterrador de Dhar e seu exército de titãs gigantescos. Mais do que isso, as pessoas estavam aterrorizadas em deixar seus destinos na mão de um império que não confiavam, sem sequer terem parado para reparar que toda essa desconfiança tinha sido construída pelo inimigo para fragilizar as nossas defesas.

— O próximo ponto que eu quero discutir, — Henry continuou, — É sobre a insistência de que o império esconde artes mágicas da grande população. O slogan de Dhar é que os ataques dele são com o propósito de converter aqueles aptos a desenvolver essas artes mágicas “proibidas”, para que eles se tornem poderosos e se libertem do nosso “controle opressor”.

O tom de escárnio e desprezo de Henry era tão evidente que ele nem se dava o trabalho de fingir decoro.

— Eles até mesmo ofereceram a capacidade miraculosa de dominar magia para quem nunca teve acesso a ela, através de crisálidas especialmente preparadas para inserir uma parcela da arte mágica na mente do seguidor.

— Para aqueles tolos que acreditaram nessa conversa fiada, humpf, boa sorte… Nossas investigações apontam que há um tempo, os discípulos de Dhar tem espalhado essas crisálidas, e que elas realmente fazem o que prometem. O preço é simplesmente a sua alma e seu livre arbítrio. Eu não posso condenar quem esteja disposto a pagar, mas sinceramente não vejo o custo benefício.

— Para aqueles que perceberam antes que fosse tarde demais que isso não passava de outra forma de manipulação, vocês ainda são bem vindos a se retirarem dentro das fronteiras de defesa do império.

— Dhar diz que escondemos artes mágicas e que pretende difundir elas entre as massas. Mas ele nunca disse que artes mágicas são essas, ele apenas usou esse vídeo para expressar tais acusações.

Ao lado de Henry, uma projeção de uma cena familiar foi mostrada. Meu corpo enrijeceu um pouco ao reconhecer o que estava sendo mostrado.

Os outros membros da equipe olhavam da filmagem para mim várias vezes sem decidir se comentavam alguma coisa ou não.

— Quando Dhar estava assassinando covardemente os habitantes do planeta Sátie no Quadrante Pictor, número 87, uma pessoa se levantou na tentativa de defender os habitantes enquanto lutava sozinha contra dezenas de titãs. Apesar disso, a resposta do império não foi enaltecer o ato nobre, mas questionar as habilidades dessa guerreira.

— Dhar, reconhecendo a potencial ameaça de Alésia Latrell, não apenas expôs a identidade dela como minha esposa, tentando convencer meus apoiadores de que ela era indigna, como também usou de  meias verdades para contestar a integridade dela.

Com apenas essas palavras, Henry se posicionou completamente do meu lado. Não apenas isso, ele sutilmente confirmou o meu status como esposa dele e que repudiava que me achavam indigna dele.

Novamente ele começou a mostrar outros vídeos. Dessa vez, ele usou os vídeos que atestavam a minha identidade como Ruiva de Sangue, em que eu aparecia massacrando várias pessoas diferentes de forma sanguinária. Mas dessa vez, ele não mostrou apenas os cortes de imagem em que eu aparecia matando outras “pessoas” sem explicação nenhuma.

Eu tinha esquecido que Henry tinha ido pessoalmente destruir o banco de dados da Lua Laplantine para proteger a minha identidade na época. Obviamente ele também fez um backup de todos os arquivos, o que incluía as filmagens. 

Henry mostrou exatamente como a minha situação era. Na época, eu tinha trancado minhas memórias e emoções de antes da minha saída de Sátie, porque elas eram um fardo para mim, e quando eu voltei para Henry eu também tranquei as memórias do tempo que estive lá, então ver aquelas imagens pegou até a mim mesma de surpresa.

As imagens mostravam claramente como eu era mantida prisioneira e como eles me torturavam na tentativa de me controlar. Como eu era obrigada a lutar para não cair vítima no meio de uma arena clandestina, até que as imagens começaram a coincidir com aquelas que viralizaram e mostravam apenas a carnificina.

Todo o meu sofrimento foi exposto para todos aqueles que estivessem vendo o pronunciamento.

— Você está bem com isso? — Mikal perguntou colocando a mão na minha cabeça. 

A pergunta de Mikal me despertou do redemoinho de emoções que estavam ameaçando surgir, e logo eu usei a obliquação para contornar isso.

— Eu estou bem, — Mas a minha voz saiu mais fraca e rouca do que eu estava planejando.

Quando a exibição das filmagens acabou, Henry permaneceu em silêncio por mais alguns segundos.

— Eu não sei quem começou o boato de que minha esposa seria indigna de mim, sendo que claramente eu que não a mereço por ter permitido que ela passasse por tal sofrimento.

Como a transmissão era ao vivo, eu senti as emoções de dor e remorso que corroíam Henry por dentro através do nosso laço da alma quando ele começou a falar sobre mim. Mas eu não o culpava. Eu nunca o culpei.

— E para aqueles que quiserem dizer que eu estou apenas usando disso para desviar do fato de que ela é uma Brard capaz de usar magia, a tal magia que o império esconde, vocês estão errados. Eu não estou escondendo. Eu, na condição de Imperador Interino, reconhecido pela Crisálida Imperial, em nome de Henry Siever que é conhecido pela humanidade, venho a público reconhecer que a minha esposa é uma Brard capaz de usar magia que o império esconde e que muito sofrimento foi colocado injustamente sobre ela por conta disso.

— E tal magia que dizem que o império esconde, nada mais é a identidade das encarnações mortais de três grandes entidades elementais, com poderes muito além do que a humanidade é capaz de controlar.

— Dhar, infelizmente é o possuidor do poder uma dessas grandes entidades elementais, e temendo o poder de Alésia, ele obviamente tentou retirar todo apoio que ela merecia ter da humanidade.

— Ele quer instigar em nós o medo e a ideia de que não seremos capazes de lutar contra um deus e seus titãs apenas com habilidades mortais, e que não temos deuses do nosso lado. Ele está errado. Nós temos deuses lutando por nós.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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