DCC – Capítulo 272

 

— O que diabos ele quer dizer? — Gabriel Zanin se levantou arregalando os olhos para a tela, olhando várias vezes da tela para mim e para Mikal.

Até eu queria saber o que Henry queria dizer. Ele falou para TODO MUNDO que Dhar era um deus, e que eu também era e estava lutando contra ele.

O que me preocupava mais era: como ele sabia disso? Ou ele tinha simplesmente feito um fabuloso chute no escuro?

Não… ele estava atrelado à Crisálida Imperial naquele momento. Então ele era obrigado a seguir às leis que ela impunha. Henry não podia mentir de nenhuma forma. Se ele não soubesse que esse era o caso, então ele não podia falar isso em público. O discurso dele continuou em frente. 

Henry começou a explicar sobre como há muito tempo que a noção de “deus” tinha se tornado algo administrável. As artes elementares eram o que os ancestrais da humanidade chamavam de divindades. Mas dentro das capacidades humanas, as artes elementares não eram mais seres etéreos completamente onipotentes. 

Mesmo os nomes das artes mágicas como onisciência, onipotência e onipresença vieram da ideia humana de alcançar uma existência inalcançável. 

O fato de alguém conseguir dominar a arte da onipresença não significava mais que ele estaria presente em todo lugar, mas que ele buscava dominar esse poder de dominar o espaço.

Só que uma divindade era diferente. Seja lá qual fosse a arte que ela dominasse, era uma arte única e absoluta de uma forma que os humanos nunca conseguiram dominar. Uma divindade era a única entidade capaz de criar verdadeiros milagres incompreensíveis para a mente humana.

Dessa forma, não adiantava se tais artes eram feitas públicas, já que dominá-las era impossível. Mas quando Henry anunciou que Dhar era uma divindade, que eu também era, ele estava nos colocando no mesmo patamar. Ou seja, se eu podia ser derrotada por meros humanos e forçada a lutar contra renascidos… então Dhar também podia. 

Dhar não era o todo poderoso que ele tentava pregar em suas campanhas. Por isso que ele se esforçava tanto em dividir os poderes das raças humanas. 

Um povo desunido era mais fácil de ser conquistado.

Todo o tempo o discurso de Henry era em um tom de provocação como se ele estivesse o tempo todo desafiando a audiência a dizer que ele estava mentindo. 

Quando a transmissão foi encerrada, a tela voltou para a página inicial que estava antes como se nada tivesse acontecido e um silêncio levemente desconfortável tomou conta da nave, até que:

— Então… você é uma deusa? — Gabriel perguntou.

Ronaldo que estava mais próximo de Gabriel apenas virou a palma da mão na nuca dele, antes de dizer:

— Você está com parasitas na cabeça? Mesmo sem considerar a imagem pública de Henry o simples fato de ele ter falado tudo isso estando sob o controle da Crisálida Imperial é um atestado de verdade. 

— Henry nunca gostou de exposição pública. Ele sempre tomou muito cuidado para não chamar atenção para o que ele faz, apesar de nunca ter dado muito certo. — Lobrë comentou. Henry realmente tentava ser discreto, mas o nome dele sempre estava na boca dos cidadãos, — Mesmo assim, ele se expôs daquela forma e expôs a própria esposa. A pergunta agora não é quem é ela. A pergunta é o que estamos fazendo aqui com ela?

— Então podemos passar para as definições da missão, — Mikal disse se levantando e indo para a frente da tela tomando a atenção de todos.

— A nossa agência de inteligência conseguiu descobrir que o plano de Dhar consiste em espalhar um grande número de crisálidas contendo uma espécie de magia capaz de tornar o usuário em um artista, e de aprimorar a capacidade dos artistas para que eles se tornem ainda mais poderosos.

— Como isso é possível? — Kelly perguntou franzindo o cenho.

Porém quando Mikal se virou na direção dela, ela se encolheu sem dizer mais nada. Como líder da missão, ele tinha que explicar tudo antes que alguém pudesse fazer qualquer pergunta.

— As especificações das crisálidas foram descobertas apenas recentemente e pouco se sabe, mas elas se tornaram um dos maiores imparses para o império na luta contra o inimigo. Principalmente considerando que a fábrica oficial do império que produz as melhores crisálidas foi completamente abduzida pelos agentes inimigos e agora está em pleno funcionamento para o lado deles.

— A nossa missão será nos infiltrar no campo de Dhar, sem alertar as linhas de frente dos Titãs e destruir a instalação completa. Se possível, devemos tentar entrar em contato com os Kayroh e resgatá-los.

— Puta merda! Como vamos passar pelos titãs? Eu não sei se você reparou, mas eles são enormes! — Gabriel disse.

Ronaldo mais uma vez fez as honras do tapa na nuca e depois apontou para mim como se a resposta fosse óbvia.

— Basicamente, ela consegue fazer o trabalho de uma sessão do exército inteira, — Alberth comentou da cadeira do piloto.

Depois disso, mais um momento constrangedor de silêncio.

— Não é querendo duvidar nem coisa do tipo, — Ronaldo começou, olhando para mim com uma mistura de receio e reverência na expressão — quero dizer, é importante estarmos cientes das falhas e das habilidades dos membros do grupo para melhorar a nossa coordenação. Então… qual o nível de habilidade que você tem para lidar com essa missão em específico?

— Eu sinceramente não sei como responder isso. — Eu disse sem me preocupar em fazer suspense, — Mas experiência eu posso dizer que só tenho essas que Henry mostrou, e…

Eu me virei para Mikal, sem saber bem como explicar o resto. Mikal pegou a deixa e começou a falar em meu lugar:

— Eu a treinei pessoalmente durante os últimos 5 meses. Além dos fundamentos dela em combate básico, ela tem excelente domínio de onipotência e onisciência, mas especialmente obliquação. — Quando Mikal chegou até ali, todos eles inspiraram fundo como se essa fosse a informação mais chocante de todas, — Além do mais, eu presenciei o domínio que ela conseguiu desenvolver sobre a tal arte divina e eu posso dizer que é suficiente… se — nessa hora, Mikal levantou o tom de voz — ela não tiver que lidar com outras interferências.

— O que quer dizer? — eu mesma perguntei.

— Você não tem experiência de combate em situações de magia. Lutar contra humanos normais ou usuários de crisálidas não é bem o foco que vamos lidar agora. Temos que ter em mente que podemos bater de frente com pessoas que vão ter habilidades mágicas concedidas por Dhar.

— Ah, — eu exalei concordando.

Quando lutei contra Marco, apesar de eu ter me esforçado bastante, eu sabia que eu não tinha o pressionado o suficiente para me levar a sério. Eu sempre tinha a sensação de que ele estava brincando comigo, fora que ele estava tão exausto que desmaiou de exaustão… imagino como ele deve ser no pico da força.

Mas francamente! O imperador não tinha que ser a pessoa mais forte da galáxia? Se eu pudesse derrotá-lo eu podia pessoalmente tomar o trono! — Eu pensei revirando os olhos.

Desde o começo eu estava sendo julgada sempre com um padrão muito mais alto que o de uma pessoa normal.

— Além do mais, ela não pode usar os poderes abertamente em ambientes da atmosfera. — Mikal continuou explicando para todos. 

— Por que não? — Eu perguntei. Como ele tinha percebido isso? Quero dizer, nem eu via diferença… eu já tinha usado os poderes fora da atmosfera?

— Por conta do fluxo de energia, — Mikal se virou para mim. — Você é capaz de desintegrar um planeta inteiro se quiser. 

— O que? — Kelly exclamou assombrada.

— Como Dhar? — Lobrë continuou, pensando na desolação que Dhar causava por cada planeta que passava.

— Não como Dhar, literalmente. — eu respondi lembrando com o que fiz com Sátie depois de ir embora do planeta morto… então tinha sido ali que Mikal percebeu, e mesmo assim não tinha caído a ficha para mim até agora — Eu posso fazer toda matéria desaparecer da existência, mas a premissa é que ela vira energia, e a energia não se dissipa facilmente na atmosfera.

Apesar da temperatura ser naturalmente fria ao meu redor, de repente todos os tripulantes da nave pareciam estar suando nervosamente depois de escutar o que eu disse.

Armas de destruição em massa, capazes de devastar continentes foram banidas do uso há milênios. Imagine armas capazes de destruir planetas até não sobrar nada… elas nunca sequer existiram.

Inclusive toda a tecnologia de terraformação tinha sofrido um grande retrocesso por conta da possibilidade bélica de controlar o movimento dos planetas. 

O discurso de que os artistas onipotentes e onipresentes cuidavam da terraformação por conta da praticidade e barateamento dos custos era apenas uma parte do motivo.

O outro motivo era a facilidade de barrar o desenvolvimento bélico da tecnologia de terraformação. A humanidade sempre teve uma tendência de querer evoluir apenas nos momentos de recessão e guerra, mas investir em armas além das que já se era capaz de produzir era idiotice.

— Se ela for obrigada a usar os poderes na atmosfera, é o mesmo que ativar bombas nucleares. Por um tempo, o corpo dela é capaz de absorver essa energia, mas o poder gerado causa repercussões sérias. No mínimo, ela pode ficar gravemente ferida. Não preciso dizer nada sobre nós que estivermos ao lado dela. 

— Isso é insano… — Ronaldo comentou. Aparentemente o foco dele era onipotência, então ele deveria ter a melhor ideia do poder necessário para conseguir algo assim.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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