DS – Capítulo 13

Charok atravessou o portão da casa que dividia com sua linda esposa, retornando mais cedo do seu turno no restaurante, deixando os horários mais tarde da noite para outros. Agora, seus assistentes já aprenderam o bastantes dos truques dele para que a comida deles estivesse no mesmo nível que a dele. Isso só significava mais tempo livre para ele passar com sua maravilhosa família.

Suas duas crianças maravilhosas vieram correndo da sala de jantar, felizes em ver seu pai.

— Olá meus dois bebês preciosos. — Ele se agachou e abriu seus braços para eles virem abraçá-lo. Isso era uma benção.

— Papai! Comida. Por favor.

— Doces! Por favor.

Ele riu, espantado. Eles eram tão cruéis, nem sequer um olá. Ele deu a cada um deles um pão doce de feijão vermelho e os pegou, enquanto assistia eles comerem vorazmente e sujarem suas bocas inteiras com pasta de feijão vermelho.

— Eu estou criando um par de glutões. — Ele fazia questão de falar com eles em Comum algumas vezes, visto que Rain disse a ele que ajudaria se eles aprendessem desde cedo. Aquele menino era uma fonte de conhecimentos e práticas esquisitos, mas mal não iria fazer.

— Bem vindo de volta, amado. — Alsantset o cumprimentou enquanto ele colocava o restante dos pães na mesa de jantar. Linda como no dia em que ele a conheceu, ele beijou ela levemente, saboreando o seu perfume. Os beijos profundos e apaixonados teriam que esperar até que eles estivessem a sós. Ele olhou ao redor em busca do membro de sua família que não estava presente.

— Ele está lá fora. De novo. Ele não veio para casa jantar. Não ouse fazer algo para ele quando ele retornar.

Charok sorriu para sua mulher. Se ele ousasse não cozinhar para o menino, ele dormiria no estábulo dos quins hoje à noite.

— Não seja tão dura com ele, minha flor. Ele é um menino, fazendo coisas que meninos costumam fazer. Talvez indo atrás de garotas ou jogando jogos. — Ele sabia onde Rain estava, no mesmo lugar onde ele sempre estava quando não estava em casa.

Alsantset encarou ele, como se dissesse ‘como você ousa ficar no lado do Rain?’

— Eu sei onde ele está. Ele nunca vai longe. Ele está no bosque no final da rua. Ele está lá praticando suas Formas.

— Então, o menino está praticando. O que nisso te estressa? Você não é a professora dele? — Nessas horas, sua linda esposa era um completo mistério, mas ele disse a si mesmo que era parte do charme dela.

Alsantset rasgou um pão como se ele tivesse ofendido ela.

— Ninguém estaria mais feliz do que eu se ele estivesse lá fora brincando. Ele não faz amigos. Ao invés disso, ele se isola perto de casa e treina. Ele está se sobrecarregando. Ele é incapaz de atingir um estado de Iluminação ou Equilíbrio, mas isso é natural para quem acabou de começar. Toda vez que ele é incapaz de fazer isso, ele se culpa por ser fraco. — Ela abraçou Tali, limpou sua boca e mimou ele. — Pelo menos esse aqui ainda me escuta. Eu disse isso para o Rain antes, de novo e de novo. Ele não me escuta. E está se machucando por causa disso.

Charok suspirou. Ele virou para Tate e perguntou:

— Você quer vir com o Papai encontrar seu Tio Rain? — Ela assentiu enquanto limpava sua boca, suas maria-chiquinhas se agitavam.

Era uma distância pequena até o bosque. Era verdade que Rain nunca ia longe por conta própria. Isso poderia mudar se ele tivesse alguns amigos. Charok nunca viu uma criança tão ruim em fazer amigos. E de novo, ele nunca conheceu uma criança como Rain. Quando ele estava perto do seu destino, Charok começou a cantar uma canção sem sentido, para ter certeza de não surpreender Rain. Ele ficou muito melhor nos últimos seis meses, mas surpreender ele não era uma idéia muito boa, como algumas crianças aprenderam, para a infelicidade delas.  Tate cantou junto com ele. Que criança amável, preciosa. Nunca reclama da minha cantoria. Ela é quase tão taquara rachada quanto eu.

Rain estava sentado no chão, e cumprimentou ele com um sorriso.

— Olá, irmão. Eu peço desculpas, não notei a hora.

Ele não estava praticando as Formas? O garoto estava meditando? Isso era novo.

— Você irritou a sua irmã. Venha e dê à pequena Tate um beijo de despedida, antes que Alsantset te repreenda ao ponto de você virar uma pilha de tofu tremendo. —  Embora Rain seja anti social, seu amor pelos gêmeos era tão óbvio quanto o deles por ele. Ele deu a criança se contorcendo de alegria para Rain. Um tio amoroso, Rain era tão gentil e amoroso com eles, um lado raramente visto por outras pessoas. Outra esquisitice sobre ele. A maioria das pessoas da idade dele não gostaria de ser responsável por crianças pequenas. Rain parecia ficar feliz com isso.

— Venha, vamos retornar. Eu vou cozinhar algo para você comer. Você ainda não tem carne o suficiente nesses ossos. Me faz parecer uma desgraça como cozinheiro. Eu não tenho honra alguma restando com você andando por aí tão magro.

Embora Rain tenha encorpado, ele ainda estava magro. A memória das minas ainda o assombravam de muitos jeitos. Ele ainda andava curvado, com a cabeça abaixada, e raramente olhava alguém nos olhos. Ele sempre comia suas refeições muito rápido, e nunca sentava muito perto de alguém a menos que fosse forçado. Ou a menos que eles fossem Tate ou Tali.

Mas ele estava melhorando. Os gêmeos eram grandes responsáveis por isso. O pessoal se preocupou se crianças não iriam agitá-lo, fazendo ele se isolar delas. Ao invés disso, Rain se aproximou delas imediatamente no orfanato. Ele ajudava a alimentá-los, com sua hora de brincar, e até mesmo na hora de lavar suas roupas. Charok se sentia culpado por encorajar aquela última atitude. Criar filhos era muito difícil, ele não tinha idéia alguma de como as outras famílias conseguiam sem alguém como Rain.

Quando eles retornaram, Rain se desculpou com Alsantset e sorriu por todo o sermão, enquanto brincava com os gêmeos no jardim. Charok foi para a cozinha. Ele decidiu cozinhar algum arroz frito, com coelho grelhado. Ele começou a cozinhar e a fritar.

— Eu não sei o que fazer, amado. Ele não me escuta. — Alsantset entrou e se sentou em um banco, parecendo derrotada. — Ele acena e sorri, mas afirma que ele aguenta. Ele tem a coragem de dizer que se ele se ferir, Taduk vai curá-lo. Eu devia tirar suas orelhas, já que ele não as usa. — Ela caiu bruscamente no banco, com o queixo em suas mãos. — Eu só quero que ele seja uma criança, mas não há coisa alguma na cabeça dele além de treinar.

— Isso não é verdade, amor. Ele tem outras coisas na mente às vezes. Eu já vi ele comer com os olhos as mulheres no banho. Ele é muito óbvio sobre aquilo. Eu me preocupo se os olhos dele não vão saltar da cabeça um dia.

Alsantset inspirou profundamente.

— Não. Está. Ajudando. E se você não está ajudando?

— Então, eu estou atrapalhando. Eu me desculpo, minha esposa. Eu não vou mais atrapalhar. —  Charok continuou cozinhando em silêncio, com um sorriso no rosto. Sua esposa sentada no banco com a cara amarrada.

—  … Para quem ele olha? Nós deveríamos nos encontrar com os pais dela? Ele é um pouco jovem, mas um arranjo para o futuro não está fora de questão, está?

Charok olhou para sua esposa e começou a rir muito.

— Eu estou bem certo que Cierna não vai se divorciar de seu marido pelo Rain.

— A costureira? Ela é mais velha que eu. Por que ele olha para ela? Ele não tem interesse em ninguém da sua idade?

Charok se segurou antes que ele comentasse nas grandes… qualidades da Cierna. Nada de bom viria dessa conversa. Ele continuou a cozinhar. Quando ele terminou, Alsantset ainda estava lá, se preocupando em silêncio. Ele caminhou até ela e a abraçou, dizendo:

— Meu amor, eu sei que você se preocupa com ele. Mas me deixe dar uma sugestão que você não vai gostar: se afaste dele um pouco.

— Charok! — Ela empurrou ele para longe, horrorizada que ele sugeriria algo assim.

Ele rapidamente tentou acalmá-la, acenando com as mãos.

— Eu apenas sugeri uma pequena distância emocional, não um afastamento afetivo total ou expulsar ele da nossa casa. —  Ele esperou que ela mais ou menos se recompusesse. — Dê espaço para o menino. Suas preocupações são pelo fato de que ele está trabalhando duro. Isso não é algo ruim. Ele traçou para si uma meta, de andar no caminho de um Guerreiro Marcial. Eu acredito que ele vai conseguir. Ele tem a motivação, a inteligência e a dedicação para fazer isso. E mesmo que ele falhe, nós estamos aqui para ele. — Ele pôs uma tigela de arroz frito e dois pauzinhos nas mãos dela. — Ele perdeu a inocência que as crianças têm. Nós não podemos pedir para que ele finja ser uma. Nós só podemos estar aqui, ao seu lado, prontos para pegá-lo caso ele caia, prontos para dar suporte para que ele tenha sucesso.

Alsantset olhou com tristeza para seu amado. Ele estava certo. Ela não queria que ele estivesse. Ela queria ser capaz de dar a Rain uma infância. Mas ela não podia.

— Eu só quero que ele seja feliz.

— Isso é simples, amor. Peça para suas mais belas amigas ir para casa de banho e mande o Rain junto.

Ela secou suas lágrimas enquanto ria. Então, ela beijou seu amado, antes de ir entregar a Rain sua comida.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

13 Comentários

  1. Imaginei a cara dela quando ele disse:” Eu já vi ele comer com os olhos as mulheres no banho.”
    Valeu pelo capítulo Worst.

  2. Eu realmente gostei do estilo de escrita desse autor, os diálogos soam naturais e muitas vezes me tocam como neste capítulo onde Charok fala como o protagonista perdeu a infância. Como sempre uma ótima obra na 3Lobos, parabéns ao Worst e a toda a equipe 3Lobos, vcs são demais.

    1. Verdade o estilo de escrita do autor é realmente bem interessante. Ele escreve com leveza, mas ainda assim consegue colocar um certo peso nas falas e pensamentos dos pesssonagens

    2. Gosto muito do estilo dele. Amigo Worst faz um belo trabalho em manter (e estimular) essas nuances!

  3. “Peça para suas mais belas amigas ir para casa de banho e mande o Rain junto” … Parece que o rain deu sorte
    Obrigado pelo capitulo.

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