DS – Capítulo 158

— Não, não, não. Abra seus olhos Qingqing, porfavor…

Cuidadosamente agarrando sua mão, Baledagh tentou negar a verdade enquanto lágrimas escorriam de seu rosto. A cor se esvaiu do mundo enquanto ela fechava seus olhos pela última vez, seu peito caindo em si mesmo e o deixando vazio, exceto pela dor em seu coração e náusea, ambas ameaçando sobrepuja-lo. Um choro leve e lamentoso escapou de seus lábios enquanto ele jazia apático ao lado dela, afagando seu rosto e esperando contra toda todas as chances que ela abriria seus olhos mais uma vez.

Sabendo que ela havia partido e que nada poderia trazê-la de volta.

Ela parecia tão pacífica deitada ao lado dele, sorrindo levemente como se sonhasse com coisas melhores. Ela não deveria morrer desse jeito, eles deveriam ter se apaixonado e ficados juntos para sempre, mas ele a assustou de alguma forma, algo que ele disse ou fez. Ele deveria ter salvo ela, deveria ter mantido ela por perto, ele não deveria ter adiado a jornada deles, não deveria ter sido tão fraco.

“É tudo sua culpa.”

“Você não a manteve a salvo.”

“Você é um falha, uma desgraça.”

“Você deixou a mulher que ama morrer.”

“Imprestável.”

Um dilúvio de acusações ecoaram em sua mente, sua fúria surgindo para enterrar seus arrependimentos. Um grito sem palavras foi arrancado de sua garganta enquanto ele se entregava a sua fúria, se forçando a levantar para encarar o Demônio. Sua forma feminina e ágil era uma zombaria a beleza, enchia ele de nojo, enfurecido que aquilo ainda viva enquanto Qingqing havia morrido. Com um sorriso desdenhoso colado em seu rosto horrível, a coisa olhou para ele através de suas cavidades oculares vazias, querendo se alimentar dos restos de Qingqing. Sua aura opressiva era nada se comparada com a dor em seu coração, e apesar dele desejar rasgar aquilo membro por membro, ele sabia que era um oponente formidável demais para ele derrotar.

Fraco demais, ele era fraco demais.

“Você deseja força, Guerreiro? Se renda a mim e eu lhe garantirei ela.”

Seus arredores sombrios escureceram mais ainda conforme os espectros flutuavam na frente de seus olhos, girando ao redor dele e do Demônio  em uma névoa acinzentada, seus rostos enrugados, inumanos contorcidos em agonia e antecipação. Ignorando as vozes, seu braço se lançou para perfurar o espectro mais perto, consumindo ele sem pensar enquanto a energia quente percorria seu corpo e a ferida de estômago se fechou.

A Mãe não concedia milagres, nenhum poder garantido pelos ancestrais. Se ele queria força, então ele tinha que tomá-la por si mesmo. Aqueles espectros eram poder, então ele iria tomá-los. Agindo sob sua raiva e instinto, ele atraiu os espectros ao redor, arrancando os que estavam em órbita ao redor do Demônio. Afunilando os em seu corpo, eles o enchiam com energia enquanto ele gritava em desafio.

Essa vadia matou Qingqing, ou ela morre ou morro eu.

Se lançando para frente, ele balançou Tranquilidade em um arco largo, a lâmina rebatendo na carne resiliente do Demônio. Fúria bestial sobrepujou sua mente enquanto ele acertava de novo e de novo o Demônio, sua cabeça inclinada pensativa enquanto o estudava sem resistência. Permitindo seus esforços inúteis continuarem sem fazer nada, ela tinha o interesse de um gato de casa vendo uma mosca voar ao seu redor, mas com menos de uma dúzia de golpes, Baledagh arfava cansado, sua energia gasta. Sua curiosidade saciada, o Demônio acertou ele com as costas de sua mão, mandando ele voando pela clareira até acertar uma árvore, ouvidos zumbindo pelo impacto.

Não é o bastante, preciso de mais poder, mais força.

Eu preciso de mais espectros.

Irmão tinha espectros presos junto com ele.

“Tome dele, devore eles e os faça seus.”

No olho de sua mente, ele viu o pátio elegante da mansão, modelo como a casa deles na vila, pacífico e intocado. Parecia tão pequeno de onde ele estava, grande demais para caber dentro, incapaz de ver as amenidades e confortos providos por seu irmão, um lugar seguro para Baledagh onde ele não iria querer nada, gastando seus momentos acordados em uma luxúria relaxada.

“É uma prisão, construída para te deixar fraco e compassivo.”

Tanto tempo gasto descansando, brincando de jogos de criança estúpidos e afagando animais imaginários. Confiando na ingenuidade de seu irmão e trabalho duro, Baledagh desperdiçou seus dias quando ele podia ao invés ter treinado a si mesmo, se tornado forte o bastante para proteger Qingqing. Enquanto seu corpo de verdade jazia impotente diante do Demônio, seu corpo astral destruía sua casa, arrancando as paredes e árvores sem pensar duas vezes, deixando nada exceto o vazio em seu caminho enquanto a mansão ruía ao esquecimento ao seu redor. Logo, tudo que restou foi seu quarto, as paredes protegidas da destruição pela presença de seu irmão lá dentro, escondendo uma horda raivosa de espectros.

“Vê como ele toma seu poder, deixando você com nada exceto migalhas?”

Diferente de antes, Baledagh sentiu o poder gentil e invisível circulando lá dentro, cercando irmão dentro do vazio, aprisionando os espectros em constante movimento. Baledagh precisava deles, porque com o poder deles, ele iria destruir todos que estivessem em seu caminho.

“Ele te atrasa, tome o que é seu por direito.”

Pressionando sua mão contra a barreira, o poder tamborilava dentro com um fluxo discernível, impedindo ele de entrar. Voz engasgada e olhos embaçados, ele cerrou seus dentes com a traição. — Por que você faria isso irmão? Por que roubar o poder que eu reuni? Eu teria dividido com você se tivesse pedido. O que é meu é seu, mas o que é seu é seu? Como isso é justo? Eu precisava dele e você o tirou de mim! Qingqing morreu por sua causa!

Levantando sua mão, ele perfurou a barreira e a rasgou pedaço por pedaço. Os espectros sentiram suas ações e fluiram em sua direção, seus gritos triunfantes preenchendo o vazio enquanto eles nadavam nas correntes da liberdade, entrando nele por vontade própria. Seu corpo astral ficou maior e mais forte enquanto ele se aproximava, clamando o que seu irmão havia contido, olhando para o fracote patético flutuando na frente dele.

“Devore ele, tome os poderes dele para você dominar tudo.’

Estilhaçando os restos da barreira, orgulho encheu seu peito enquanto ele assistia irmão cair no chão. Enfraquecido e atordoado, irmão ficou de pé e abriu seus olhos, sua respiração laboriosa enquanto ele analisava a situação, esticando seu pescoço para olhar para Baledagh, uma formiguinha olhando para um deus. Olhos fundos com exaustão, irmão parecia deprimido e derrotado, mas inteiro, seus braços se abrindo para abraçá-lo. — Baledagh, me desculpa sobre a Qingqing. Ela parecia uma garota doce.

O mundo girou e Baledagh estava da mesma altura que seu irmão, agarrando ele pelo pescoço. — Desculpa?! — Batendo ele em uma parede invisível, Baledagh gritou com ele. — Você vê o que eu vejo irmão? Esse é o seu poder que você não me deu. Com ele, eu podia ter esmagado o Dragão Sorridente como um inseto, eu podia ter matado o Demônio tão facilmente quanto virar minha mão. Eu podia ter salvo ela!

Dor e preocupação em seus olhos, irmão balançou sua cabeça lentamente. — Os espectros não são o que você pensa. Eles não são seus ancestrais, e eles te dão poder, mas apenas para te mudar, te usar. Você se torna marionete deles, realizando seus desejos distorcidos sem questionar. Você não seria mais Baledagh.

“Mate ele e se torne mestre do seu próprio domínio.”

— Não minta para mim! — Gritando com as vozes e com seu irmão, Baledagh delirou, extravasando suas frustrações enquanto lágrimas caiam de seus olhos. — Quem é Baledagh? Um ninguém, é isso, esse é um nome que eu inventei por capricho. Você é Falling Rain, Herói das Pessoas, Subtenente do Exército Imperial, Discípulo de Baatar, Aluno de Taduk. Sua vida, suas conquistas, suas esposas, seus gatos, tudo pertence a você. O que resta para mim? — Caindo de joelhos, Baledagh chorou no peito de seu irmão, chorando como uma criança. — Ela era meu amor, ela deveria ser minha esposa. O que eu vou fazer agora que ela se foi?

Irmão o abraçou, embalando ele por perto.

— Guarde o tempo que vocês ficaram juntos, e chore por ela ter ido embora.

Se sentindo pequeno e miserável, Baledagh balançou sua cabeça, pronto para desistir. — Eu não consigo mais fazer isso, dói tanto… eu desisto irmão, não há uso para mim. Viva nossa vida e me deixe sonhar com a minha vida com ela ao meu lado.

“NÃO!”

Os espectros gritaram com sua desistência, um coral de gritos discordantes, severos que foram cortados abruptamente, silenciados com um balançar da mão de seu irmão. Um redemoinho gigantesco passou pelo vazio, coletando os espectros em uma massa rodopiante gigante que diminuiu até ficar do tamanho de uma unha do dedão, suspensa no vazio. Fatiga o acertou como um martelo, sucumbindo à exaustão enquanto seus olhos se fechavam e ele voltou ao conforto de sua cama. Murmurando baixinho, irmão o cobriu com seus lençóis. — Eu não estou muito animado sobre isso. Durma por enquanto, descanse e tenha bons sonhos. Quando você acordar, chore, grite, grite mais um pouco, faça o que precisar fazer, mas não desista. Dói porque você amava mesmo ela. A dor vai desvanecer com o tempo, mas nunca passará completamente, e não deveria. É uma lembrança do quanto ela significava para você. — Sua voz desaparecendo enquanto ele partia, irmão adicionou:

— Não durma por tempo demais. É a sua vida, e seus ursos vão crescer rapidamente. Eu vou cuidar deles na sua ausência, mas eles são seus. Eu já tenho animais o bastante.

Ouvindo suas palavras, Baledagh tremeu com um último soluço, suas lágrimas gastas enquanto ele mergulhava no alegre esquecimento.

Me desculpa Qingqing, eu vou te encontrar na próxima vida, ou na próxima depois dela, ou ainda depois. Mesmo se levar dez mil vidas, você será minha esposa e eu seu marido. Isso eu juro.

O fogo da agonia queimando cada pedaço de seu corpo enquanto Gen acordava, seu boca cheia de doce néctar. Engolindo gananciosamente, ele abriu sua boca mais uma vez, uma corrente cálida de um líquido delicioso despejando em sua boca. O mundo entrou em foco enquanto ele abria seus olhos, deitado nos braços de  uma fada linda e cristalina, seu rosto era um tema de cicatrizes primorosamente padronizadas. Dois dedos deliciosos estavam em sua boca enquanto sua mão descansava um cadáver, derretendo a carne e osso e absorvendo em seu corpo antes de passar para Gen, cuidando dele diligentemente até ele ficar saudável.

Seus lábios vermelho-sangue seduzentes se curvaram em um sorriso e ele se perdeu nos abismos sem fim que eram seus olhos. Elegância e poder, ela parecia ter nascido dos desejos mais profundos dele, e logo, sua dor desapareceu graças ao seu cuidado cauteloso. Relutantemente sentado, ele se virou para ver seu corpo voluptuoso, querendo se jogar nela e se perder no prazer. Esticando sua mão para afagar seu rosto, ele traçou o padrão triangular, familiar enquanto reconhecimento bateu nele. — Bei? Esposa, essa é você?

Sua cabeça inclinada em questionamento, a imagem do rosto de Bei se sobrepôs ao da fada, refletido em uma pele translúcida deslumbrante que cobria cada pedaço de seu corpo. Rindo para si mesmo, ele se inclinou e a beijou profundamente, se deleitando que ela tinha uma língua de novo. — Eu aprovo seu novo corpo, é deliciosamente erótico. — Olhando para as suas mãos, ele viu que ambas estavam cobertas em osso e metal, sua mão esquerda se transformou para combinar com a direita, apesar dela ser vermelho-fogo ao invés de jade-branco. Melhor e melhor, ele realmente era abençoado pelos céus.

Um gemido longo chamou sua atenção, espiando Baledagh e Qingqing deitados juntos, de mãos dadas enquanto o bandido se levantava. Raiva se inflamou com a visão, Gen rugiu: — Solte ela! — Marchando em direção ao par adúltero, ele imaginou todas as punições que ele daria a ela, as torturas deliciosas que ele daria a Baledagh.

Aparecendo na frente dele em um piscar de olhos, Bei balançou seu dedo em admoestação. Franzindo para sua esposa, Gen disse com raiva: — Saia da frente. — Vendo que ela permanecia no lugar, ele bateu em seu rosto com as costas de sua mão, seu punho metálico arranhou sua pele vítrea com um guincho agudo, sua cabeça imóvel pelo impacto. Rosnando de raiva, os dedos de Gen se alongaram em lâminas afiadas que atacaram a vadia insolente. Faíscas voaram enquanto ele atacava seu torço, mas Bei permanecia ilesa, ainda sorrindo como uma esposa obediente, suas mãos juntas na frente dela.

Enquanto ele continuava a atacar em um frenesi, Bei o ignorava e olhava para longe, olhando para Baledagh e então para o oeste, incitando sua raiva ainda mais. Mais rápido do que ele podia reagir, ela bateu gentilmente em seu peito com sua palma, mandando ele voando suavemente por mais de quinze metros, ileso e humilhado. Ele abriu sua boca para gritar com ela, uma colisão alta explodiu diante de seus olhos, engolindo a área ao redor de Bei em uma chama de luz. Cegado e desorientado, Gen tropeçou para trás em uma árvore e se guiou sem jeito ao redor dela, um zumbido agudo ecoando em suas orelhas afogando todos os outros sons. Sua visão gradualmente voltou em um borrão de cores, Bei lutava contra um vovô mal vestido, seus olhos arregalados de alegria enquanto seu cabelo voava, brandindo seu bastão grosso de metal como um verdadeiro expert.

Uma luz pontual cintilou do fim do bastão e Gen protegeu seus olhos enquanto ela florescia em intensidade, iluminando o mundo em uma luz ofuscante. Um estrondo desordenado a seguiu, fazendo ele tremer até os ossos e ele assistiu o corpo de Bei voar pela clareira. Colidindo com as árvores, ela ficou de pé com um rolamento imperturbada, avançando de novo para a luta. A batalha deles se desenrolava mais rápido do que ele podia acompanhar, seus movimentos um borrão enquanto a sombra batia selvagemente em Bei de novo e de novo, sua arma irrompendo em luz com cada golpe.

Como ele ousa bater na minha esposa?!

Ódio queimando em seu peito, Gen estendeu sua mão esquerda enquanto a ponta de seus dedos se acendia. Uma gota de chamas explodiu de suas mãos, engolindo o vovô em uma corrente de fogo contínua. Recuando, o bastão do vovô girou em círculos, afastando as chamas, enquanto seu manto esfarrapado queimava nas pontas. Tomando vantagem da distração dele, os dedos de Bei cortaram o peito do velho, deixando uma trilha leve de sangue. Marido e esposa trabalhando em conjunto, eles empurraram o vovô para trás, Gen o distraía com chamas enquanto Bei o espreitava, buscando uma oportunidade para matá-lo.

Uma boa esposa de fato.

Seus instintos gritavam e sua mão direita se levantou para protegê-lo. Mesmo assim, o golpe o fez cair, se atrapalhando para ficar de pé a tempo de defletir o corte poderoso. Recuando do impacto, o braço de Gen tremeu enquanto ele olhava para seu oponente. Ficando de pé com escudo em mãos, Baledagh o encarava impassível, como se estivesse desinteressado na batalha.

Rindo de alegria, Gen soltou suas chamas para consumir o bandido, ansiosamente antecipando a visão de sua pele queimando. Levantando seu escudo, Baledagh lentamente andou no fogo, as chamas rodando ao seu redor, partindo para deixá-lo passar ileso. — Impossível! — Gritando em negação, Gen despejou todo o poder que ele podia no fogo, o ar se transformando em vapor abrasador e inflamando as árvores por perto, mas ainda assim, Baledagh continuava a avançar, um passo de cada vez.

Se afastando, Gen perdeu suas estribeiras e fugiu para a floresta. Um braço abraçou seu quadril e o levantou, carregando ele para longe nos braços de Bei e assistindo enquanto Baledagh desaparecia ao longe. Se virando para sua esposa, ele segurou sua repreensão ao ver sua pele quebrada, beleza impecável maculada pela ferida. — Aquele maldito vovô, como ele ousa quebrar sua pele? Não se preocupe meu amor, você fez bem. Uma retirada temporária enquanto nos acostumamos com nosso poder. — Se mexendo em seus braços, Gen descansou em seus seios, cansado depois dos eventos do dia. — As pessoas aqui são fracas demais para se juntar a nós, vamos para o norte encontrar outros que conheçam a verdade, se juntar aos nossos camaradas além da Muralha. Vai dar tudo certo Bei, nós vamos acertar as contas quando voltarmos.

Caindo no sono, Gen sorriu enquanto sonhava com um mundo consumido por sangue e fogo.

Caralho…

Tudo dói.

Tudo.

Entre as batalhas recentes contra Corrompidos e Demônios, e ele ainda abriu feridas do seu tempo na água, meu corpo é uma massa de ferimentos e coisas quebradas, sem mencionar o buraco no meu estômago. Com cada movimento, eu descubro uma nova dor, aqueles malditos espectros não se incomodaram de curar meu corpo, não inteiramente. Eles o consertaram o bastante para que Baledagh pudesse se mexer, mascarando a dor para que ele não notasse, esperando forçar ele a se meter em uma bela enrascada e tomar o controle.

Eu vou consertar as feridas mais tarde e descobrir o que fazer com Baledagh. Há um limite para o que eu posso fazer depois de gastar decanas preso em uma corrente de espíritos gritando sem parar, cada um pronto para me devorar e tomar meu lugar.

Não exatamente o que você chamaria de férias divertidas.

— Cê tá ferido? — Se aproximando cautelosamente com arma abaixada, o velho mendigo deu tapinhas em suas roupas queimadas, soltando fumaça, seu cabelo selvagem chamuscado. — Esse velho guerreiro se chama Lei Gong.

— … Ascendente Índigo, Lorde do Trovão Lei Gong? — Bom, que porra.

— Esse seria eu. — Se enchendo de orgulho, ele correu seus dedos por sua barba desgrenhada, enviando uma nuvem de cinzas para oar. — Um jovem com olhos âmbar e escudo com lâminas, parece que eu encontrei o Subtenente desaparecido, hein? Pela primeira vez, os rumores não foram exagerados. Impressionante.

— …Sim, bacana te conhecer. — Por favor não seja hostil, eu estou cansado demais para essa merda.

— Se incomoda de explicar o porquê docê esta lutando contra Corrompidos e Demônios sozinho?

Queria poder, você não acreditaria em mim. — Não muito. Eu não quero ser rude, mas estou exausto, então vou me deitar. Eu apreciaria se você não me matasse enquanto eu durmo. Ah, se encontrar um cavalo com dois ursos nas bolsas, eles são meus, então… sim. — Ignorando seu olhar incrédulo, eu cambaleio, me apoio contra uma árvore para descansar pela primeira vez em decanas. Se o velho bandido me matar, bom pelo menos eu não vou estar mais cansado.

Foi uma experiência do caralho e espero nunca mais passar por nada parecido de novo.

Tempo passa e eu me vejo no vazio, estando ao lado de Baledagh enquanto eu estudo meu alter ego. Não, não é exatamente verdade mais? Eu sempre pensei nele como minha segunda personalidade, meu lado mais escuro, a pessoa “guerreira” dentro de mim. Fazia sentido de um jeito estranho, minha mente se adaptando a esse mundo maluco, caótica ao criar uma pessoa mais apropriada para ele. Acontece em todas as histórias, e ele até escolheu o nome “Guerreiro”.

Ouvindo ele falar enquanto eu estava preso e ouvindo como ele via o mundo, eu percebi o quão errado eu estava. Ele não tem minhas experiências ou memórias fragmentadas, e ele é tão ingênuo e impulsivo, agindo sem nem pensar nas consequências, é enlouquecedor. Ele é como uma criança vendo o mundo por novos olhos, pensando que tudo vai dar certo como ele espera. Nós somos tão diferentes, não sei porque eu nunca vi isso antes. Nós não somos irmãos, ou personalidades separadas. Nós somos pessoas diferentes, unidas por uma guinada bizarra do destino.

Ele é Baledagh, o dono original desse corpo, e eu sou Rayne, um parasita tomando sua vida.

Minha mãos se contorcem quando o pensamento de matá-lo brota na minha mente. Por que não? Seria fácil, e eu mereço uma vida para mim. Eu trabalhei duro por ela, sofri por ela, então por que eu deveria me deitar e desistir de tudo? Balançando minha cabeça, eu largo o pensamento, ajoelhando para encarar o rosto dormindo de Baledagh e contemplo meu futuro.

Não posso matá-lo, essa é a vida dele. Eu que estou errado. Eu não quero morrer ou desistir de tudo que eu trabalhei para ter, nem eu quero ser um espectador sua vida, mas há outras perguntas a se considerar. Mais importante entre todas sendo: se ele é a alma original, então o que eu sou?

 

Bem, a resposta simples é: uma entidade espiritual que entrou em sua mente e tomou seu corpo.

 

Então, como eu sou diferente de um Demônio?

 

 

Odeio minha vida.

– Fim do Volume 8 –

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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