DS – Capítulo 16

O jantar está delicioso como sempre. Charok veio para casa mais cedo para cozinhar, mas os pratos que Alsantset faz são tão bons quanto os dele, em sua opinião. Baatar senta ao meu lado, Alsantset no outro, com seus respectivos cônjuges sentando perto deles. Aquela Sarnai ter tempo de jantar conosco foi uma surpresa. Ela raramente nos visita, estando ocupada demais por administrar a vila sozinha. Ela é como a prefeita, advogada, oficial, engenheira, e juíza, tudo em um só papel. Os aldeões vão até ela para qualquer disputa, e ela amedronta todo mundo até se submeterem. Ela é realmente o catiço.

Porém, é muito doce ver ela com o Baatar. Ela age como uma menininha, tímida e reservada ao redor dele. Eles são um casal fofo, apesar de eu ficar um pouco triste ao pensar nisso. Meio-humanos vivem muito mais do que humanos, entre 400-500 anos. Bestas ancestrais e seus filhos de sangue puro vivem ainda mais. Humanos têm uma expectativa de vida de até 80 anos, mas ela é estendida até uns 120 anos para aqueles que são capazes de atingir o Estado de Equilíbrio. Sarnai estava no último grupo, mas ela já estava com mais de 70 anos. Melhor ter amado e perdido, e essa merda toda, eu acho?

Sarnai parece que está na metade de seus 40 anos. O que é loucura para uma senhora com mais de 70. Eu acho que a Energia dos Céus faz bem para o corpo. É por isso que todo mundo na vila é tão bonito? Eu vou ser sexy? Agora eu quero mais ainda alcançar o Estado de Equilíbrio.

Todos nós comemos em silêncio, exceto pelos sons de felicidade dos gêmeos, mastigando seu macarrão frito. Charok e Sarnai tentaram manter a conversa animada, mas Baatar e Alsantset não estavam no clima para isso, sombrios e tristes.

Eu preciso admitir, é minha culpa que as coisas estejam assim. Pelo visto, enquanto ela estava feliz por mim quando eu contei a ela que alcancei a Iluminação, Alsantset considerou isso uma falha pessoal porque ela não conseguiu me ajudar, e seu pai conseguiu o feito em um único dia. Seu orgulho estava ferido.

Por outro lado, Baatar está pensando muito. Depois que ele me ajudou a encontrar a Iluminação, nós lanchamos com Taduk e Mei Lin depois de uma rápida sessão de cura. Taduk fez um estardalhaço por causa dos meus hematomas, mas depois que eu assegurei ele diversas vezes que eu estava bem, e que os hematomas valeram a pena, ele cedeu. Contudo, ele estava feliz por mim e Mei Lin me abraçou para me parabenizar. Depois disso, ambos seguiram Baatar e eu para me ajudar a atingir o Estado de Equilíbrio.

O que não deu muito certo. Taduk e Mei Lin vieram junto para dar suporte moral, eles disseram. Aquilo significava que eu tinha uma audiência de três, me observando tentar relaxar e meditar. Isso… não ajudou muito. Eles não tinham exercício algum ou dicas para mim, além de “apenas feche seus olhos e tente se tornar um só com a natureza”. Eles tentaram me mostrar com um exemplo, mas isso só foi mais exasperador. Baatar só sentou de pernas cruzadas e fechou seus olhos como todo mundo nas aulas de manhã. Taduk e Mei Lin nem ao menos sentam quando meditam. Eles parecem que estão literalmente dormindo. Eu tenho uma suspeita que Mei Lin na verdade dormiu no meio da demonstração dela.

Com aquela falha pesando em seus ombros, Baatar está queimando seus miolos tentando pensar em um método para me ajudar. O que constitui um jantar estranho, com apenas Charok e Sarnai realmente com as mentes presentes, mas eles estavam ocupados alimentando os gêmeos. Eu como em silêncio, pensando sobre o meu fracasso em meditar. Bom, pelo menos eu alcancei o Estado de Iluminação.

Eu estava tentando atingir a Iluminação fazia um ano. Só algumas palavras de Baatar, e eu peguei o jeito da coisa. Eu estava tentando demais, pensando demais. A pior parte é que Alsantset estava me falando mais ou menos a mesma coisa, por meses. As peças só não se encaixavam. Eu pensei que ela queria dizer que eu estava sobrecarregando o meu corpo. O que ela quis dizer era que eu estava sobrecarregando o meu cérebro.

Uma coisa tão simples. Anteriormente, eu teria que intencionalmente planejar minhas ações, alguns passos à frente. Por exemplo, se eu quisesse agarrar o braço de alguém enquanto ele se move, meu processo de pensamento era tipo assim: estender totalmente o braço direito, torcer o pulso e estender meus dedos, parando o movimento do braço da pessoa. Então, eu iria girar meu pulso, e agarrar. Era assim que eu iria executar o movimento. Agora, eu faço a mesma coisa, mas por instinto, sem planejar. Eu penso no que eu quero fazer, e meu corpo toma conta dos passos. Antes, eu estava tão ocupado nos movimentos, focado na ação, que eu não tinha tempo de pensar no que eu estava fazendo. Tão focado nos detalhes que me esquecia de olhar a cena como um todo.

Agora, algumas vezes, enquanto faço os movimentos, eu posso ter um relapse de inspiração, e de repente, eu percebo como o balançar do meu braço pode ser usado para aleijar um oponente. Um Discernimento nas Formas. Era como uma memória esquecida, retornando para mim. Tipo um ”eu sei kung-fu” do nada. Ainda assim, sem memórias de quem eu costumava ser. Um Discernimento nas formas é algo foda, mas isso não realmente te ensina como lutar. Só como causar um dano enorme no corpo de alguém. É necessário pensamento analítico e prática para ir da Demonstração das Formas, para usá-las em combate real. Ou pelo menos foi o que me disseram.

Todo mundo na vila aprende a lutar apenas com esses movimentos estruturados. É incrível. Eu me perguntava por que não havia nenhum ensinamento direcionado, mas dividir discernimentos é difícil. Apenas mostrar eles nem sempre funciona, e explicações tendem a confundir mais do que ajudar. Baatar tentando explicar alguns de seus movimentos parecia como se ele estivesse explicando física nuclear para um gato. Nem todo mundo tem os mesmos discernimentos também. Duas pessoas podem fazer a mesma forma, e chegar em conclusões malditamente diferentes. Isso compõe um conjunto eclético e variado de estilos de luta.

Baatar me permitiu praticar com ele um pouco, e ele só me disse para tentar acertá-lo apenas, sem defender. Depois de um pouco de prática, eu estava jogando combinações nele, esquerda e direita. Até mesmo depois que paramos, eu só continuei pensando em diferentes maneiras de atacar. Eu serei um mestre de artes marciais.

— Ah, chega, já é o suficiente, —  Sarnai disse, me tirando dos meus pensamentos. Foi o mesmo com Alsantset e Baatar. — É raro o suficiente nós comermos em família. Vocês três cabeças de mula nem ao menos estão aqui.

Nós três murmuramos desculpas. Até mesmo Baatar parece acanhado.

— Filha, você é uma professora excelente. O menino só precisava de alguém para enfiar a lição na cabeça dura dele. Ele é como você nesse aspecto. Quanto a você, Marido, em relação ao seu fracasso em ajudar o menino a buscar o Equilíbrio, é por causa dos seus instintos de merda. — Caralho, Sarnai não tem misericórdia mesmo.

— Mãe! Modos! — Alsantset encarou ela, e Sarnai encarou de volta.

— Foda-se! Eu era pior quando você era criança, e você acabou bem.

— Merda! Merda! Merda! — os gêmeos se encarregaram de repetir a coisa. Eu comecei a gargalhar. Não posso fazer nada. Crianças pequenas xingando é minha kriptonita.

Sarnai e Alsantset olham horrorizadas, enquanto todo mundo começou a rir também. Sarnai repreendeu os gêmeos, e os fez prometer nunca mais dizer “aquelas palavras” de novo.

— Ahem. Como eu estava dizendo, vocês não falharam com o menino. Filha, sem você, ele não teria o alto domínio sobre as Formas que atualmente possui. Seu pai apenas abordou a situação de uma perspectiva diferente. —  Ela olhou para Baatar. Embora não dissemos nada sobre o assunto, eu acho que ela sabe sobre o arremesso de pedras. Ela não parece aprovar. É um pouco de “abuso infantil” mas, eu preciso dizer, os resultados são relevantes.

— Quanto aos problemas de meditação do Rain, é óbvio que nenhum de vocês é qualificado para ajudar ele, Taduk muito menos. Vocês dois são ambos meio-humanos com uma linhagem forte. Atingir o Equilíbrio foi quase tão fácil quanto respirar para vocês dois. É claro que vocês não entendem as dificuldades dele. Mas algum de vocês pensou em perguntar a alguém que já passou pelos mesmos problemas que Rain, e conseguiu superar eles?

Alsantset se animou com aquilo.

— Eu não pensei nisso dessa forma. Claro que eu não poderia ajudá-lo, eu nunca passei por essas coisas. Mãe, você conhece alguém como você descreveu? Eu irei pessoalmente pedir a sua ajuda pela manhã.

Sarnai olhou incrédulo para ela. Então ela olhou para Charok.

Charok tossiu. Alsantset conectou os pontos.

— Amado, você nunca me disse que teve problemas para atingir o Equilíbrio. Você costumava se gabar do quão habilidoso você era.

Charok deu um sorriso derrotado.

— Eu posso ter exagerado um pouco. Eu não queria que você soubesse, quando éramos mais jovens. Você fazia tudo parecer simples. Isso me causou um belo complexo de inferioridade. Levou um longo tempo para eu alcançar o Equilíbrio.

Alsantset deu a ele um olhar triste, e se inclinou para colocar sua cabeça contra a dele. Eu estou cercado por casais amorosos. É legal, mas eu me pergunto quando vou poder encontrar alguém assim para mim. Alguém como Cierna. Linda mulher. Meia-vaca. Não metaforicamente.

Charok olha para mim incisivamente e pergunta:

— Você gostaria da minha ajuda, Rain?

— Mais é claro, Irmão! Eu ficaria feliz. Por que você não ajudou antes? — Eu dou a ele um sorriso, para aliviar a cutucada nas minhas palavras. Eu não quis dizer isso realmente. Não 100%.

Charok parece austero. Nunca vi ele desse jeito antes.

— Porque, pequeno Rain, um homem precisa aprender a pedir ajuda. Se eu fosse até você, minhas palavras iriam entrar numa orelha e sair pela outra, da mesma forma quando minha esposa fala com você. — Charok, pela primeira vez, não está sorrindo. Ele está sério sobre isso. Eu reflito sobre isso, sombriamente, e percebo o porquê dele estar tão chateado. Com boa razão.

— Irmã Alsantset, eu me desculpo de todo o meu coração pelo meu comportamento e teimosia. Se eu apenas tivesse te escutado, eu teria alcançado minha Iluminação meses atrás. Fracasso não é responsabilidade do professor, mas sim do aluno tolo. Irmão Charok, eu humildemente peço a sua ajuda e orientação.

— Bajulação vai te levar longe, pequeno Rain. Eu aceito suas desculpas. — Alsantset beija minha bochecha.

— Você sempre vai ter minha ajuda, pequeno Rain. Sempre. — Charok sorri para mim.

 

É legal ter pessoas que se preocupam com você. Nós continuamos nossa refeição, mais animada dessa vez.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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