DS – Capítulo 161

Abraçando seus joelhos, Baledagh se sentiu esgotado depois de todas as lágrimas e emoções, enquanto as chamas morriam no topo da pira de Qingqing. Com elas morriam todas as esperanças e sonhos, deixando nada além de parcas memórias, para sempre manchadas pela perda dela. Agora que ela se foi, se foi de verdade, era difícil até imaginar ser feliz algum dia de novo. Tão adorável e cheia de vida, agora que ela era apenas cinzas escuras e brasas brilhantes. Qual era o ponto de viver se era isso que restava depois que você morria.

Recuando silenciosamente para o vazio, Baledagh se encolheu em uma bola e tentou esquecer, desaparecer no vazio, rejeitando o mundo podre que roubou seu amor. Não havia mais nada para ele. Encontrar Qingqing só para perdê-la antes de dividir um beijo era um testamento do quão injusto o mundo era. Se a Mãe era realmente tão poderosa e amorosa como as histórias dizem, então por que ela permitiria tamanha injustiça e crueldade?

Por que ele não nasceu em outro tempo e lugar, onde ele e Qingqing poderiam ficar juntos, ficar velhos juntos, morrer juntos? Melhor desistir agora e se encontrar com ela mais cedo.

— Chefe, nós temos um problema. — Uma voz do mundo se intrometeu nos pensamentos de Baledagh, e ele a ignorou, só querendo ser deixado em paz. Deixe que irmão cuide do mundo lá fora. A voz continuou a persistir, até ousando balançar Baledagh, interrompendo sua auto piedade. — Chefe, você está aí? … Chefe? Acorde! Ah caralho, que porra aconteceu? Acorde Chefe, nós precisamos de você.

Curioso sobre o porquê irmão não estava lidando com esse incômodo, ele olhou ao redor e encontrou imediatamente o problema. Irmão flutuava apático no vazio, inconsciente e não respondendo enquanto o redemoinho brilhante de espectros o seguia. Não era surpresa que ele não estava tomando conta das coisas, ele deve ter caído no sono durante a vigília de Baledagh. Apesar dele estar exausto por decanas depois de decanas gastas fugindo dos espectros, irmão ainda estava acordado para ajudar Baledagh a passar por sua dor. Esforço desperdiçado, mas Baledagh apreciava o sentimento. Não importa, estava na hora de desaparecer e deixar ele viver sua vida como Falling Rain, herói do Império, sem o fardo de Baledagh, o tolo imprestável.

Lutando com indecisão e indiferença, Baledagh estudou a forma de seu irmão dormindo. Abatido e esquelético, irmão estava pior do que ele já tinha visto, apesar de ser meramente uma projeção mental. Se era assim que ele se sentia, então irmão deve ter sofrido terrivelmente. Ele precisava de força nos dias que viriam, e Baledagh decidiu que ele ajudaria como pudesse antes de partir para encontrar Qingqing. Voltando para seu corpo, ele assistiu Ravil andando por aí, sussurrando baixinho. — Merda, merda, o que eu faço?

Melhor acabar com isso o mais rápido possível, nada parecia certo. O ar parecia estranho, as cores obscurecidas, as árvores fechando ele. — Qual o problema? — Ele só queria ficar sozinho.

Pulando no lugar, Ravil se recuperou em um instante, caindo de joelhos para inspecionar Baledagh. — Ah graças a Mãe, eu pensei que você tinha ficado maluco, encarando o vazio daquele jeito. Já vi isso acontecer com alguns guerreiros. — Nervosamente esfregando sua cabeça, Ravil suspirou. — O velho maldito, ele fugiu enquanto eu estava mijando, desapareceu como um fantasma do caralho. Eu mandei pessoas procurarem ele, mas eu não sou otimista. Mesmo que eles o encontrem, não há nada que eles possam fazer.

Franzindo, Baledagh buscou suas memórias e não encontrou nada, ignorante de qualquer coisa que tenha acontecido depois que irmão tomou conta. Que velho maldito? — Isso é um problema? — Baledagh se sentiu completamente inútil. Talvez ele deveria acordar irmão depois de tudo.

— É… — Pego desprevenido pela pergunta, Ravil congelou no lugar por vários segundos enquanto Baledagh se xingava por ser um tolo. Ele deveria ter ficado de boca fechada, ou pelo menos perguntar algo melhor, Ravil acordou de seu choque. — Bom, eu acho que não. Todo mundo ainda está vivo e o velho maldito já fez o juramento de silêncio, então ele não falaria sobre a Milícia da Mãe. Eu acho que eu estava pensando demais quando você me pediu para vigia-lo… — Vacilando, Ravil adicionou:

— Mas e a Purificação? — Em resposta ao olhar inexpressivo de Baledagh, ele continuou:

— Você não estava tentando atrasar as coisas? Ele vai arruinar esses planos. Eu assumo que você tenha… amigos? Pessoas que você queira extrair antes que o exército descubra o Demônio e cerque a área. Nós vamos precisar nos mover agora, qualquer um pego vai ser investigado, e o exército não faz merda quando se trata de um surto de Corrompidos dentro das fronteiras. Como eles dizem, “onde há um, há uma dúzia”, e “melhor cem civis mortos do que um Corrompido vivo”.

O mundo se fechou ao redor dele enquanto ele processava o que Ravil disse, seu estômago se contorcendo de horror com a revelação. Uma purificação. Suas ações foram por nada, todos que ele salvou da vila da Qingqing ainda estavam destinados a morrer, só que dessa vez pelas mãos do Império. Se ele tivesse ignorado a luta dos aldeões e deixados eles para os Corrompidos, ele poderia ter trago Qingqing para longe, sã e salva.

Se não fosse pelos sonhos tolos de heroísmo dele, ela ainda estaria viva.

Por que ele desperdiçou seus esforços salvando aqueles aldeões? Ele não devia nada a eles, sua ajuda foi comprada, um grupo imprestável condenado no momento que Gen caiu para a escuridão. Porque ele foi mole demais, tolamente ajudando aqueles que o desprezaram. Ele deveria ter ido embora no momento que ele viu aqueles rastros, sabendo que nada viria deles. Um esforço inútil que custou a vida de Qingqing, tudo que ele fez, cada escolha que ele fez resultou em falha e morte? Por que ele se incomodava? O que ele deveria fazer agora?

Vingança.

Uma única e silenciosa palavra, sussurrada pela escuridão em sua mente, dura e discordante em seus ouvidos. Apesar dele saber que os Espectros estavam tentando manipulá-lo, eles não estavam errados. Se a Mãe não proveria justiça, então ele não tinha escolha além de ir buscá-la ele mesmo. Suas mãos não eram as únicas cobertas com o sangue de Qingqing, havia outros que precisavam parar. Se o exército se movesse rápido o bastante, talvez eles conseguissem capturar os outros culpados. Gen, Bei, Dragão Sorridente e seu grupo de Corrompidos, todas as cabeças deles não seriam o bastante para acalmar sua fúria, mas era um começo. O que quer que irmão buscava fazer, ele estava mal orientado pela empatia e compaixão. — Ravil, qual o jeito mais rápido de enviar a mensagem sobre os Corrompidos?

— Sem sua Insígnia, nós precisaríamos usar a Milícia da Mãe. Eles podem contactar Sumila e Rustram em três dias. Então, eles vão contactar a Major e ela vai fazer as coisas acontecerem. Nós vamos enviar a mensagem sobre quem for que precise ser extraído, talvez até mover a Milícia para mais ao norte, apesar de que encontrar um novo esconderijo vá ser complicado.

— Tudo certo. — Ainda havia luz do dia, algumas horas de viagem os colocariam mais perto do objetivo deles. Se levantando, Baledagh quase caiu de cara no chão, suas pernas dormentes e inúteis depois de horas sentado. — Pegue meu cavalo, nós partimos imediatamente. — Três dias, poucas chances de pegar o Gen e os outros, mas ainda valia a pena tentar. Mandando Ravil embora para seguir suas ordens, Baledagh se apoiou em uma árvore e esperou o sangue voltar a fluir em suas pernas, determinado agora que ele tinha um propósito. Era melhor desse jeito, Baledagh carregaria o fardo dos culpados, ele não ligava para os inocentes.

Os filhotes foram até ele, ficando em pé com as patas esticadas, buscando calor e afeição. Pegando eles em seus braços como Qingqing costumava fazer, ele os balançou enquanto eles se aconchegavam nele. Pobres filhotes, tirados de mãe em quase a mesma quantidade de dias. Bom, eles não ficariam sem sua vingança, nem Qingqing.

Ele teria sua retribuição não importando o preço, e qualquer um pego em seu caminho só podia culpar a Mãe pelo seu destino.

Um choro estrangulado perfurou a floresta, acordando Gen de seus sonhos agradáveis. Bocejando enquanto se espreguiçava, ele sentiu o cheiro de sangue e morte, espreitando com um sorriso em seu rosto enquanto o grito foi cortado abruptamente. Seguindo os sons de batalha com um pulo em seu andar, ele admirou o sol vermelho-alaranjado se pondo conforme este iluminava as folhas manchadas de vermelho, uma visão encantadora para ele apreciar.

Tudo isso era devido ele se abrindo para o mundo, aceitando as verdades que os nobres mantinham escondidas. Sem elas, ele nunca teria notado tal beleza nem em cem anos, desperdiçando sua vida trabalhando em uma vila sem nome. Ao invés, ele mostrou a todos como eles estavam errados, iluminando eles, fortalecendo eles. Uma puta pena que só Bei abriu seus olhos a verdade e a aceitou, seu tempo com Dragão Sorridente foi curto por causa de sua covardice.

Ah, sua linda noiva, sua transformação nada além de um milagre. Não só em aparência, mas em atitude, quieta e submissa, com um andar sedutor, balançando e maneirismos coquete, ela se tornou a esposa perfeita. Contente ao ver ela brincar, seus olhos devorando sua carne rosa-cristalina, seus lábios voluptuosos, vermelho-cereja, e seu corpo de ampulheta voluptuoso enquanto ela partia um soldado em dois, causando um jorro de sangue e vísceras voando pelo ar.

Perfeição.

Bom, quase. As cicatrizes da batalha ainda maculavam sua pele, um miríade de rachaduras parecendo a teia de uma aranha. O maldito vovô enfiando seu nariz onde ele não era chamado, interferindo com os planos de Gen de partir Baledagh em pedaços na frente de Qingqing.

Oh quão doce aquilo teria sido…

Os jogos acabariam logo, as ações de Bei eram cruéis e sem misericórdia, como deveria ser. Indo até seu lado, ele pôs uma mão em seu pescoço enquanto ela preparava a refeição deles, uma boa esposa provendo para seu marido. O cadáver derreteu em suas mãos e ela o absorveu em seu corpo, sua carne se consertando na frente de seus olhos. Quando ela se virou para olhar para ele, Gen olhou para seu trabalho, o padrão triangular do atiçador de fogo marcando o rosto sem características de seu rosto, como se ela usasse uma máscara colada em seu rosto que só deixava a boca livre. Franzindo, ele apertou sua pegada em seu pescoço.  — Me deixa ver seus olhos esposa. Eu gosto de você mais daquele jeito.

Sua cabeça inclinada para direita, então para a esquerda em curiosidade infantil. Por um momento, ele pensou que teria que ensinar uma lição para ela, se preparando para desembainhar suas garras, quando o rosto de Bei apareceu de repente. Uma imagem chata colada debaixa de sua pele, os olhos cheios de medo e flutuando, assim como ele lembrava. — Perfeito. — Se inclinando para beijá-la, ela sondou sua boca com a língua dela, alimentando ele com delicioso néctar feito da carne dissolvida dos inimigos deles.

O beijo deixou ele sem fôlego enquanto ele se afastava, seu apetite saciado e pernas fracas, seu corpo fervendo com lascívia. Cambaleando para trás, ele caiu no chão e se sentou, seu sangue pulsando enquanto o néctar fortalecia seu corpo, suas mãos jade-branca e vermelha-fogo pulsando em agonia confortável. Enquanto ele esperava, Bei arrumou a área e em minutos, os cadáveres restantes da unidade de patrulha foram dissolvidos e consumidos. Tão eficiente, uns vinte soldados que deixaram nada para trás exceto armadura e armas. Sua pele brilhava e brilhava enquanto os fluídos se moviam debaixo de sua pele, um espectáculo de inúmeras cores se movendo em padrões hipnóticos. Enquanto ela o levantava em seus braços e o levava embora, ele pressionou sua bochecha em seu seio, estudando os designs hipnóticos e ouvindo o sangue dela fluindo, satisfeito e em paz.

Era verdade, um bom marido faz uma boa esposa. Se apenas ele tivesse tido tempo para mostrar a Qingqing o mesmo amor e afeição, abrindo os olhos dela para a verdade……

Saindo de sua névoa de euforia feliz, ele piscou e olhou ao redor conforme o mundo entrava em foco novamente. A noite escura estava manchada com uma insinuação de vermelho, seus novos presentes permitiam que ele visse as coisas claro como o dia. Embalado nos braços de sua esposa, ele percebeu que ele não estava mais sozinho, reconhecendo o restante dos Instigadores do Dragão Sorridente, o homem em questão olhava para ele com um sorriso. — Ownt, meu coração negro, vocês são tão doces juntos.

Irritado pela zombaria dele, Gen lutou para sair do abraço de Bei e ficou de pé, limpando a baba de seu queixo. — O que você está fazendo aqui? Você não perdeu sua coragem? Dragão Sorridente, fugindo aterrorizado na frente de um Baledagh sem nome.

Seu sorriso azedando, Dragão Sorridente cuspiu aos pés de Gen. — Não podia ser um sem nome, seu caipira de queixo caído. Ele era mais habilidoso do que um filhote tem direito de ser. Com algum tempo para pensar, eu descobri que ele tem que ser o Subtenente Bekhai, Falling Rain. Os olhos, a arma, a idade, tudo encaixa. Confuso como um merdinha, um tolo que nem sabe que ele é um dos Libertos. Eu gostaria de ver seu rosto quando eles o interrogarem. —Encarando ele com um olhar gélido, Dragão Sorridente adicionou:

— E não ache que cê pode zombar de mim só porque cê tem um Demônio do seu lado. Ele não vai levantar um dedo se eu te estripar aqui e agora, então vigie sua língua. — Eles se encararam por longos segundos, Gen se recusando a ceder. Apesar dele ter cedido a só um dia atrás, muita coisa mudou nesse pouco tempo. Percebendo isso, Dragão Sorridente escarneceu e gesticulou em direção à Bei. — Quanto ao motivo de eu estar aqui, o Demônio apareceu do nada e nos impediu de ir para o norte. Não deixa ninguém ir embora, caso contrário eu já teria ido embora a muito tempo atrás.

Franzindo para Bei, Gen franziu seus lábios. Por que ela queria os Instigadores com eles? Vadia do caralho, algumas coisas nunca mudavam. — Se explique!

Ela inclinou a cabeça para frente e para trás mais uma vez, antes de apontar para ele com sua mão direita. Levantando seu dedo indicador em sua mão esquerda, ela então apontou para o Dragão Sorridente e levantou um segundo dedo, então para outro Instigador e um terceiro. Isso continuou até que ela levantou todos os cinco dedos de sua mão esquerda, nesse ponto ela gesticulou para os Instigadores restantes antes de se virar para o sul, seu braço varrendo em direção a terra como se os reunisse no ar para um abraço. Se virando para Gen, ela inclinou sua cabeça mais uma vez, perguntando se ele entendeu.

— Nem fodendo. — Dragão Sorridente foi o primeiro a responder. — Nun tem jeito de eu ficar, a Purificação está vindo. Deixe que aqueles tolos lutem por eles mesmos. — Ainda, ele não se moveu, seus pés plantados e braços cruzados.

Ignorando ele, Bei continuou a olhar para Gen, sua testa franzida em pensamento. Jogando fora seus pensamentos de infidelidade, ele perguntou seus motivos. — Você quer que eu encontre outros como eu e os traga para você? — Ela assentiu, então balançou sua cabeça e apontou para o norte. — Levá-los para o norte? — Um aceno. — Por que?

Seus lábios se quebraram em um sorriso enquanto ela se inclinava para frente a fim de sussurrar em seu ouvido. A voz baixa, gutural fez seu corpo ter espamos de dor, uma deliciosa agonia emanando por todo seu corpo. Caindo no chão, ele gritou e se contorceu enquanto ele sangrava pelos olhos, a voz consumindo sua mente, ecoando sem fim dentro de sua cabeça. Depois de uma eternidade ter passado em um momento, Gen tremeu e ofegou enquanto a dor se acalmava, encarando sua esposa em choque e confusão. Aquela não era Bei falando, o poder e malevolência por trás da voz eram diferentes de tudo que ele já sentiu. Quem estava falando através dela?

A mensagem era simples, três frases curtas.

— Chega de se esconder. Reúna minhas crianças. Destrua o Império.

Um sorriso se abriu em rosto enquanto ele encarava o norte, admirado pela mostra de poder. Eles tinham amigos além da Ponte, e não importa o quão poderosos eles eram, eles precisavam da ajuda de Gen para deixá-los entrar. Imagens de morte e destruição enchiam sua mente, mostrando as mudanças que viriam. Ah, que tempo para se estar vivo.

 

Um tempo de revolução, de derramamento de sangue, e de acerto de contas.

 

 

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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