DS – Capítulo 163

Gritando para o céu estrelado da noite, os Instigadores quebraram sua formação e correram em direção a vila quieta, a mais de um quilômetro de distância. Seu sorriso de costume desaparecendo de seu rosto, a mandíbula de Xiao HuoLong caiu enquanto ele assistia o caos se desenrolar. Sem plano, sem coordenação, apenas uma multidão desarticulada de idiotas ferais gritando assassinatos enquanto avançavam. Esses loucos sem estribeiras eram os seus Instigadores.

Não, seus Instigadores eram profissionais disciplinados, diferentes desses amadores incompetentes incapazes de controlar a escuridão. Ninguém se moveu para cercar a vila, conforme os seus ocupantes, alertados por seus gritos idiotas, fugiram para a floresta, abandonando tudo sem hesitação para salvar suas vidas. Eles provavelmente iriam escapar também, suas pessoas deixando eles irem embora para se indulgirem aos seus desejos bases usando os aldeões assustados, lentos ou idiotas demais para correr. Como uma alcatéia de animais famintos, suas pessoas entraram na vila pequena e prosseguiram com destruição e carnificina arbitrárias, literalmente suas bocas espumavam enquanto eles satisfaziam suas vontades assassinas.

Os gritos aterrorizados que ele normalmente saboreava não ajudaram a melhorar seu humor enquanto ele entrava na vila, lutando para se manter sob controle. Devorando como condenados em uma festa antes de seu encontro com a forca, seus companheiros agiam exatamente como cachorros raivosos. Se fosse em outro tempo ou lugar, ele teria batido neles sem hesitação. Esses não era os Instigadores que ele criou, seus guerreiros escolhidos a mão e espíritos irmãos, camaradas que andavam com ambos os olhos abertos em mundo de cegos e obstinados.

Não, seus camaradas se foram agora, substituídos por uma alcatéia de idiotas tagarelas e enlouquecidos.

Roubados dele por Gen e seu Demônio encantador.

Ao pensar no par obsceno, seus olhos instintivamente os buscaram na multidão. Mãos juntas atrás de suas costas, Gen andava vagarosamente através da anarquia com um sorriso satisfeito, indo até a cabana maior e mais ao centro. Quanto ao Demônio, ele voava sobre a vila em rajadas, desaparecendo e reaparecendo em outro lugar em um piscar de olhos. Parando para agarrar aldeões aleatórios, ela os depositava dentro da cabana para que Gen brincasse com eles. Depois de capturar uma meia dúzia de prisioneiros, esta parou fora da cabana, pronta para guardar Gen enquanto ele entrava.

Que doce, a esposa preparando a refeição para o marido.

O Demônio se sentou com graça e aprumo, tratando o banco mal feito como um trono real enquanto inspecionava as festividades. Sua postura perfeita e mãos dobradas em seu colo, ela transpirava uma beleza sobrenatural e o cheiro de sedução, um único sorriso o bastante para encantar seus Instigadores e moldá-los nesses idiotas dóceis. De que outra forma se poderia explicar a transformação repentina deles, tão ansiosos para seguir Gen em direção à morte certa? A Purificação estava vindo, e qualquer um pego dentro do perímetro do Exército seria morto, incluindo o Demônio.

Era o ápice da loucura acreditar no contrário.

Como se sentisse seu olhar, o Demônio se virou e sorriu para ele, lambendo seus lábios cheios e femininos. Rapidamente desviando o olhar, ele amaldiçoou baixinho e lutou para se controlar. Maldita seja aquela vadia vítrea dessa Demônio, do que adianta se ela não tinha uma vagina pra foder? Monstro imprestável e defeituoso, trazendo Gen para eles, ouvindo cada palavra dele. Um moleque virgem e ranhento, ele não tinha vergonha. Sangrando por todos os orifícios depois de ter se contorcido no chão, e ainda tinha os culhões de exigir a obediência de Dragão Sorridente?

Em todos os seus anos, ele nunca foi um homem orgulhoso demais. Recuar não era algo vergonhoso, só uma tática a ser utilizada no momento certo. Obras de ouro macio onde quebra ferro rígido, e ele não tinha intenção de quebrar, mas ser forçado a servir um louco e seu bicho de estimação o irritava demais. Dizendo ouvir a voz do Demônio e falando sobre reunir um exército, se ele não fosse louco, então pelo menos era incompetente. Nessa terra de caçadores de tesouro fracassados e fazendeiros sujos resignados, onde Gen pensava que ele iria encontrar guerreiros para o exército dele? E que conveniente que ele foi o único que conseguiu ouvir o Demônio falar.

Enojado pela situação dele e a falta de discrição de seus companheiros, HuoLong virou suas costas para a chacina e foi para a floresta, sentindo o olhar do Demônio preso firmemente nele. Ele não tinha escolha além de obedecer, o Demônio era rápido e forte demais, mas não havia necessidade de fazê-lo cegamente. Se familiarizando com o s arredores, ele começou a patrulhar, buscando soldados e outras ameaças, tudo enquanto resmungava para si mesmo sobre a injustiça disso tudo.

Horas se passaram em relativa calmaria enquanto ele mantinha a vigília, acompanhado somente pelos gritos torturados constantes dos aldeões. Os espíritos furiosos falavam dentro dele, exigindo que ele participasse e se rendesse a fome, mas ele estava acostumado a ignorá-los quando era conveniente para ele. O sol já começava a nascer quando ele voltou para a vila, franzindo a testa enquanto ele inspecionava a carnificina linda. Inveja borbulhava dentro dele, lutando contra sua cautela enquanto ele analisava o ambiente, cada visão o excitava mais que a última. Como ele desejava ser parte do derramamento de sangue, jogar fora todas as suas inibições e se submergir aos prazeres da carne e sangue, mas depois de uma longa luta, cautela venceu. Contanto que ele se mantivesse calmo, ele podia eventualmente encontrar uma chance de escapar de Gen e seu Demônio.

— Irmão Dragão. — O cumprimento de Gen o pegou desprevenido, e ele se virou para encarar o pequeno oportunista, coberto em vísceras e sangue. Quem caralhos é o seu irmão, seu merdinha? — Você perdeu todas as festividades. — Olhos arregalados e sorriso tenso, Gen parecia agitado e inquieto, mal capaz de ficar parado enquanto andava para lá e para cá . — Nenhuma dessas ovelhas chamou sua atenção? — Três camaradas cercavam o filhote, a pele esfolada de seus rostos não diminuía o fervor em seus olhos.

Dezessete recrutas trazidos a luz por Gen em menos de uma semana. Como esse merdinha Acordou tantos? — Alguém tem que manter o olhos aberto e nenhum desses idiotas se voluntariou. — Sem necessidade de esconder seu desdém. Deixe o filhote tentar tomar a cabeça de Dragão Sorridente, e ele descobriria que o preço era mais alto do que o esperado. — Faz quase uma decana desde que Baledagh, ou melhor, Falling Rain, nos descobriu, então o Exército estará a caminho. Não há escapatória quando eles chegarem, eles possuem jeitos místicos de rastrearem os fugitivos.

— Ah, não precisa se preocupar em vigiar, minha linda esposa está sempre alerta. Pare de se preocupar e se satisfaça, se solte e sacie cada desejo seu. — Ficando ao seu lado como um amigo do peito, Gen jogou seu braço ao redor do ombro de HuoLong, a mão deformada e mutilada agarrando levemente seu pescoço. — Você finge ser o bandido calmo e despreocupado, mas quem diria que você seria tão nervoso? Você precisa aprender a se render ao desejo, deixe o poder te guiar.

— Eu não sobrevivi todo esse tempo me rendendo. Cê vai ver logo.

Revirando seus olhos, Gen soltou um suspiro longo, sofrido. — Uma pena que você ainda não percebeu: não há mais necessidade de esconder o seu verdadeiro eu. Chega de se esconder, essas foram as palavras Dele. Quanto tempo desde que você se permitiu ser livre? Você se priva do seu desejo por decanas de cada vez, se alimentando de migalhas e restos onde quer que você vá. Eu te ofereço um banquete digno de reis e você zomba de mim, correndo para fazer beicinho na mata. É porque você quer liderar? Eu não pedi por isso, mas Ele falou comigo.

Já no limite de sua paciência, a fúria de HuoLong o venceu enquanto ele tirava o braço do filhote. — Me oferecer um banquete? Se eu quiser algo, eu vou tomar pra mim caralho. Cê nun é nada mais que um filhote cujos dentes mal nasceram, mordendo o que cê consegue. Cê não tem idéia do que está por vir, nenhum pouco, desperdiçando tempo que deveria ser gasto metendo o pé dessa caralha.

— Você está certo. — A admissão o pegou desprevenido enquanto Gen assentia sabiamente enquanto o guiava para uma mesa onde seus novos recrutas estavam comendo. — Eu não faço idéia do que está por vir. Nós somos todos crianças Dele, então nós temos que trabalhar juntos nesses tempos difíceis. Venha jantar comigo.

Desconcertado pela atitude de Gen, HuoLong estreitou seus olhos e pegou uma perna, ele nunca foi de recusar comida. Mastigando a carne deliciosa, ele evitou toda a sutileza e perguntou:

— Qual seu jogo agora?

— Sem jogos, irmão Dragão. — O filhote estava relaxado demais, cansado depois das atividades a noite, mas satisfeito. — Ele me deu um mandado e seu conhecimento e experiência serão necessários nos dias a frente. Todos nós queremos a mesma coisa.

— Cê está errado aí. Eu quero pôr o máximo de quilómetros possíveis entre mim e Sanshu. Cê está querendo sentar e esperar pela sua morte.

Finalmente, suas palavras sacudiram Gen, o filhote estreitou seus olhos. Falando com os dentes cerrados, as mãos deformadas e mutiladas de Gen ardendo enquanto ele as cerrava. — Você está errado. São os cachorros do cachorro do Imperador que estão marchando para as suas mortes. — Inferno do caralho, ele estava ficando mais poderoso a cada dia. Talvez havia algo a ser ganho ao ficar louco, mas valia a pena?

Fingindo uma atitude descontraída, HuoLong descansou uma mão em seu sabre enquanto continuou a comer, pronto para atacar no momento que Gen perdesse o controle. Talvez ele morresse hoje, mas ele não iria sozinho. — Cê é um sapo no fundo de um poço, achando que sua força torna cê intocável. Cê não sabe a altura dos céus. Os soldados vindo para a Purificação? Eles não serão do tipo padrão. Cada um terá a força de um Capitão pelo menos, e haverá dezenas de milhares deles. Mesmo se nós juntarmos todos os camaradas em Sanshu nós não seremos páreos para eles em números, muito menos em qualidade. Suas desilusões do caralho nun valem um peido, seu lunático com cérebro de pássaro. Todos nós vamos estar frios e mortos em uma decana, ou desejando que estivéssemos. Eles não tratam nossa gente com gentileza, como tormento e tortura, tentam nos transformar como a sua vadiazinha rosa. Isso infla a auto-estima deles, matar Demônios recém transformados para que eles ganhem promoções.

Contrário às suas expectativas, Gen controlou sua raiva, respirando pesado enquanto ele encarava. O ignorando, HuoLong comeu o resto de sua refeição em um silêncio satisfeito, lambendo seus lábios enquanto ele comia com deleite óbvio. Pernas geralmente eram duras e fibrosas, devido ao seu constante uso, mas essa era jovem e macia, uma verdadeira iguaria.

Terminado com seu lanche, HuoLong se moveu para ir embora quando Gen finalmente falou. — Você não falará da minha esposa dessa maneira novamente. Você não tem fé irmão Dragão. Verdade, nossos números não são o bastante, mas Ele proverá. Há muito mais de nós do que você pode imaginar, se escondendo, esperando e eu vou Inspirar mais para se juntarem a nós. Aqueles que tiveram um vislumbre da verdade, mas ainda não deram o primeiro passo, nós vamos encontrar eles e abrir seus olhos, e juntos, nós vamos queimar uma trilha pela província como nunca antes. História vai lembrar de nós como os vencedores, isso eu te prometo.

Sem se incomodar em reconhecer sua fala, HuoLong foi embora como se não tivesse uma preocupação sequer no mundo. Criança idiota, construir um exército dois ou três soldados de cada vez. Nesse ritmo, eles se igualariam ao Exército em dois anos, se tivessem sorte.

Sentindo novas presenças, ele parou de andar e se virou para ver mais de uma dúzia de guerreiros Iluminados entrarem na vila, um grupo desconhecido. Eles pareciam veteranos testados, avaliando a área sem piscar, prontos para explodir em violência controlada sem aviso. Vestindo um miscelânia de equipamentos roubados do exército e peles de viagem, cada um deles possuía uma arma primitiva, coisas brutas que transpiravam. Notando seu olhar, o líder dos novatos foi em direção a ele, assentindo cautelosamente em cumprimento. Uma besta gigante de homem com pele bronzeada e uma barba grossa e pálida, ele era uma cabeça e ombros mais alto que os dois metros de HuoLong, transpirando uma Aura Demoníaca sufocante. Esse não era um guerreiro para se lidar com leviandade. — Você líder da guerra? — Ele falou com tons cortantes e guturais, não familiarizado com a língua.

— Não, ele não é. Eu sou. — Sorrindo calmamente, Gen andou com o Demônio o seguindo por trás, cabeça abaixada e mãos juntas em suas costas como uma esposa obediente. — Eu sou Gen.

— Eu sou Vithar. — Olhando para o filhote de cima a baixo, o guerreiro massivo desdenhou. — Os ancestrais me disseram para vir, para se juntar, lutar, e Vithar ouve, mas por que Vithar se juntar ao filhotinho? Melhor você se juntar a Vithar, Vithar liderar todos para matar e mutilar.

Indo a frente, o Demônio encarou Vithar e o guerreiro caiu no chão, se contorcendo exatamente como Gen, até sangrando pelos poros do rosto. Vários dos novatos se juntaram a ele, mas apesar da dor óbvia nenhum deles gritou como Gen. Depois de um minuto disso, Vithar se levantou e limpou o sangue de seu rosto, rindo baixinho como se fosse uma ocorrência normal. — Tá. Nós seguimos. Matar e mutilar, certo? Outros vem logo.

HuoLong ficou parado, de boca aberta enquanto Gen cumprimentava os novos amigos deles. Esses eram camaradas, verdadeiros Iluminados além da Ponte, os heróis que fizeram Shen Mu cair, enviados aqui para ajudar na sua fuga.

Não, sem fuga. Para trucidar.

Pela primeira vez desde sua luta contra Falling Rain, Dragão Sorridente foi verdadeiro com seu nome, gargalhando loucamente para os céus.

Acho que Gen não é maluco no final das contas.

Bom, não completamente, pelo menos.

É desorientador acordar sem sensações, não é algo que eu gostaria de fazer frequentemente. Nada para ver, tocar, ouvir, provar, ou cheirar dentro do vazio. Sem cobertor quentes para se aconchegar, sem olhos para esfregar para acordar, sem uma bexiga cheia me fazendo levantar da cama, como eu vou saber se algo aqui é real? Como eu posso ser real se eu só existo em pensamento? “Eu penso, logo existo”, mas o que exatamente eu sou?

Eu sou um Corrompido, como Baledagh? Mas eu posso usar chi, e isso deveria ser prova que você não é Corrompido. Então talvez eu seja um Demônio? Eles usam todo tipo de magia charlatona, quem vai dizer que não existe outro tipo de chi? Ou eu sou outra coisa? Quero dizer, o Pai tem Demônios, então a Mãe tem anjos? É isso que eu sou? Um Anjo enviado para… é… Ficar bêbado e trepar com prostitutas? Eu não fiz mais nada digno de nota.

… Tá, provavelmente não um Anjo.

Saindo do meu estupor, eu exploro o vazio ao meu redor. O redemoinho de Espectros Demoníacos flutua para o lado, estranhamente em silêncio pela primeira vez. Quieto demais, na verdade, minha paranóia sobe vários níveis enquanto eu estudo a gaiola deles, buscando erros e fraquezas, até balanço eles para ouvir seus choros.

Eu não sinto prazer com isso… Tá, um pouco, mas eles tentaram me comer, então que se foda eles.

Convencidos que eles não podem escapar e agradecendo minha estrela da sorte pelo silêncio deles, eu levanto minha cabeça e estudo os arredores. Sem ponto de referência, é impossível dizer a quanto tempo eu gastei encarando a gaiola. Eu não respiro, eu não fico com fome ou cansado, meus músculos não tem câimbras ou dóem. O vazio me cerca, me cobre, mas ao mesmo tempo, eu tenho todo o espaço do mundo, apesar de não haver nada para marcar a distância que eu andei. Para trás, cima, baixo, não importa aonde eu vá, é exatamente o mesmo. Gritando só para ouvir um barulho, eu não estou certo se estou gritando mesmo ou só pensando que estou.

Eu odeio aqui. Nada para fazer, exceto me perder em meus pensamentos.

Mas eles são meus pensamentos, ou é um eco dos pensamentos que eu tive antes? Como eu posso pensar sem uma mente? Eu estou usando parte do cérebro do Baledagh, mesmo enquanto inativo? Ou os espíritos têm a sua… fisiologia ou o que quer que seja?

Puta merda, era assim que foi para o Baledagh antes de eu construir a mansão para ele? Não me admira que ele dormiu por anos, essa merda é insuportável. Me forçando a respirar, o “ar” corre pelas minhas “narinas”, enchendo meu “peito” e “pulmões”. Ugh, se fuder. Foco cara. Concentre-se. Fora do Vazio e dentro do Mundo.

Minha mente é sobrepujada por todas as sensações. Luz aparece, crianças chorando, o cheiro acre de suor e medo, a textura áspera das minhas roupas, ficando consciente de mil coisas ao mesmo tempo. Os homens da Milícia marcham por uma vila pequena enquanto a voz inconfundível de Ravil grita obscenidades. Os aldeões reunidos em um campo vazio, se alinhando em uma única fila com suas ordens, homens e mulheres, crianças e idosos, perto de cinquenta no total, se juntando em busca de conforto enquanto eles tentam fazer as coisas fazerem sentido.

Depois de alguns segundos, eu consigo até sentir as emoções de Baledagh, uma dor oca emanando por todo seu corpo. Pobre criança. — Baledagh, o que está acontecendo aqui?

Ficando tenso com o som de minha voz, Baledagh checa para se certificar que ninguém está assistindo antes de fechar seus olhos. Sua voz vem de todas as direções, ecoando no vazio. — Irmão, é bom que você esteja de volta. Você dormiu por tantos dias, e quando acordou, eu te encontrei encarando os Espectros, perdido em seus pensamentos, minha voz incapaz de te alcançar. Você está bem?

— Eu estou bem, eu acho. Eu estava exausto, então estava checando a gaiola e… perdi a noção do tempo. Porém você não me respondeu, o que está acontecendo? Nós estamos roubando essas pessoas? — Espera… o que? — Eu estiver apagado por dias? Quantos?

— Sim irmão, quase sete dias, e nós estamos procurando por Corrompidos. Eu posso sentir eles aqui, mas eu não consigo dizer quem. — Ravil nos chama e Baledagh vai a frente, seu rosto escondido por um chapéu e véu. — Eu preciso me concentrar irmão, mas saiba que a Purificação foi chamada. Você não podia tê-la impedido, mas não se preocupe. Nós vamos salvar aqueles que pudermos, incluindo qualquer um que não tenha sido maculado.

Engolindo meus protestos e perguntas, eu fico quieto enquanto Baledagh junta suas mãos atrás de suas costas e vai até o primeiro aldeão, um idoso com cabelo cinzento e olhos esbranquiçando trago a frente por um Sentinela. Depois de alguns segundos, Baledagh acena e o Sentinela traz o velho para floresta adentro, enquanto outro Sentinela traz o próximo aldeão a frente.

Eu não estou animado com a Purificação vindo, mas de novo, ele pode estar certo. Nós não podíamos ter impedido ela, mas ele está fazendo algo pelo menos. Nós precisamos pensar em algo. Pequeno Baledagh, ainda sofrendo, ele aguentou por dias enquanto eu dormia, até trabalhando para salvar aldeões. Ele está crescendo e eu não podia ficar mais orgulhoso.

As inspeções continuam sem mudança até que uma jovem mulher tímida é trazida à frente, carregando uma garota da idade de Tate em seus braços. Uma criança adorável, seus olhos vermelhos e inchados, suas lágrimas manchando a camisa da mãe enquanto ela nos encara com medo do colo de sua mãe. Coitadinha, nós vamos compensá-la depois. Eu posso cozinhar algo doce, ou deixar ela brincar com os ursos.

Enquanto perdido em meus pensamentos de animá-la, Baledagh acena uma vez, enquanto seus dedos se agitam atrás de suas costas, sinalizando “Matar”.

— O que você está fazendo? — As palavras saem da minha mente antes que eu consiga impedi-lo, frenético enquanto eu vejo o Sentinela levá-las para longe. — Espera, pare, chame ele de volta. Você não falou para eles pouparem a garotinha.

Parando de andar, Baledagh fala cuidadosamente, sua raiva fervendo sob a superfície. — Irmão, as duas são Corrompidas, mulher e criança sem distinção. Eu posso sentir a mácula nelas, fraca, mas inconfundível.

Meus órgãos se contorcem com o som de suas palavras, nosso olhos assistem o par condenado ir embora. Implorando para ele, eu tento tomar controle, fazer sua boca soltar uma palavra, tudo em vão. — Baledagh, pare eles, pense mais nisso. Você disse que era fraco, ela é só uma criança. Nós podemos ensiná-la, nós podemos salvá-la. Você não quer fazer isso, eu sei que não. Nós vamos achar uma solução para isso, juntos.

— Você está certo, eu não quero ter que matar ela. — Seu pesar é palpável enquanto ele suspira, mas é rapidamente ofuscado por determinação. — Eu queria que tivesse outro caminho, mas não há. Elas são Corrompidas, e vão crescer em poder, dado tempo. Você é fraco demais… não, não fraco. Gentil demais, empático talvez, mas eu não sou o mesmo, então eu vou arcar com esse fardo para você. Essa criança não é a primeira, nem vai ser a última, e isso será uma misericórdia se comparado a deixá-la com o Império. — O vazio se fecha ao meu redor, me enviando embora, suas palavras cheias de arrependimento. — Volte a dormir irmão. Isso é tudo que eu posso fazer para ajudar. Eu vou te acordar quando nos reunirmos com os outros.

A escuridão me consome, e tudo que eu vejo é o rosto da garotinha se enchendo de alívio enquanto ela é levada para longe, felizmente ignorante do que o destino tem reservado para ela.

 

Baledagh… por que você está fazendo isso consigo mesmo?

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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