DS – Capítulo 164

Puta merda, isso é chato.

Sentado sozinho no vazio, eu assisto o redemoinho de espectros flutuar por perto, um objeto cintilante em um universo de escuridão sem fim. Esticando minha mão, eu pergunto: — Querem construir um boneco de neve? Ou que tal cantarmos uma canção? — Sem esperar por uma resposta, eu começo minha melodia. — Eu estou lentamente ficando louco, um dois três quatro cinco seis, troquem. Enlouquecendo lentamente eu estou, seis cinco quatro três dois um, troquem. Tá, agora sua vez, vocês começam, e eu vou começar no meio. É chamado uma canção redonda, vai ser divertido. — Silêncio é minha única resposta, e com isso eu canalizo meu chi e tormento eles. — Não sejam um bando de estraga prazeres. Se vocês não querem cantar, que tal uma viagem na “Corrida Selvagem do Rayne Maluco”? 32.000 quilômetros de diversão em uma montanha russa. Não esqueçam, vocês estão aqui para sempre! Eu estou enlouquecendo lentamente, um dois três quatro cinco seis, troquem.

O que eu posso dizer? Miséria ama companhia.

O coro de seus choros estabelece uma boa harmonia para minha cantoria, perfeito em tom e ritmo. Ajuda que não há cordas vocais envolvidas, eu só estou me imaginando cantando. É mais difícil me imaginar fora do tom, estranhamente. Talvez tenha algo haver com auto-percepção. Eu posso até fazer um quarteto da barbearia sozinho, mas fica chato rapidamente. Eu só sei algumas canções de crianças e eu não sou criativo nem musicalmente inclinado o bastante para criar uma própria.

Por que é chamado quarteto da barbearia? O que tem haver cortar cabelo com cantar?

Meu cérebro, tão cheio de informação útil. Eu queria poder voltar no tempo e me socar no saco por ser estúpido, maldito imprestável. Vá ler alguns livros sobre física caralho ou algo do tipo, algo útil pela primeira vez. Se eu canto uma vez a canção, eu já cantei milhares de vezes, então meu interesse rapidamente diminui. Isso, e é chato cantar para mim mesmo. Não, se acalme. Tédio é quando tudo parece uma perda de tempo enquanto serenidade é quando nada parece. Bom, eu gostaria de serenidade por favor. Serenidade agora!

Nop, nada, só tédio entediante aqui.

Ebaa.

Hmm… Onde eu estava?

Ah, certo.

Lentamente enlouquecendo eu estou. Um dois três quatro cinco seis… Troquem?

Fala sério Baledagh, por quanto tempo você vai me manter aqui? Meses? Anos? Eu não acho que consiga aguentar mais isso, eu preciso ver o sol, ar fresco, conversar com alguém que não sou eu ou eu fingindo ser outra pessoa conversando comigo. É isso que parece para o Baledagh quando eu mando ele para longe? Ele disse que não era agradável, mas cara, isso foi um eufemismo ou o que? Eu nem consigo dormir e até onde eu sei, eu estou dormindo e isso tudo é só um sonho.

Pela enésima vez, eu repasso meus exercícios que gastam tempo. Eu pratico as Formas e manipulação de chi, medito, curo as feridas do meu corpo, reviso meus estudo e testo novas teorias. Então, entediado de trabalhar, eu tento criar algo para me entreter, falho, choro e lastimo. Aconteceu incontáveis vezes antes e vai acontecer incontáveis depois. Tudo se move na velocidade do pensamento, o tempo voando e em um impasse. Sem fadiga, fome, rigidez, ou funções corporais, eu não sei se eu estive aqui por dias ou decanas, isso está me deixando louco.

Tempo é um conceito estranho, não? O que exatamente é o tempo? Tempo é precioso, tempo é efêmero, tempo é inesgotável, mas no cerne da coisa, tempo é o que impede tudo de acontecer ao mesmo tempo. Segundos em minutos em horas em dias, está para sempre se movendo em um ritmo imutável, com apenas nossa percepção do tempo alterando as coisas. Você pode dar tempo e tomar tempo, gastar tempo e perder tempo, mas não importa o quanto você gostaria, você não pode desacelerar, apressar, parar ou reverter o tempo.

Essa é uma teoria.

E se estiver errada?

Usando um relógio, nós medimos a ordem numérica de mudança de material no tempo, mas tempo por si só não tem existência física. Eu não posso ver, tocar, provar, cheirar ou ouvir o tempo, eu só posso perceber o efeitos do tempo passando. O que é interessante é que a percepção de todo mundo é diferente, e você nunca entenderá empiricamente como outra pessoa observa o tempo. Mesmo sua própria consciência do tempo muda; tempo voa quando você está se divertindo, mas desacelera até se arrastar quando você está entediado. Quando você é novo, todo dia é para sempre, uma hora, uma eternidade longe. Então, conforme você envelhece, dias passam em um piscar de olhos, e antes de você notar, você vai estar mais um dia mais velho e, se tiver sorte, outro ano mais sábio.

Onde todo o tempo vai?

Sabendo que nosso único método de discernir o tempo, ao perceber ele passar, não só difere de pessoa para pessoa, mas também é um constante fluxo para cada indivíduo, como nós podemos dizer que tempo em si é constante? Tempo simplesmente é, mas quem pode dizer que ele não é tudo ao mesmo tempo? O passado, presente e futuro, todos igualmente reais e sem definição, uma vida gasta em um único instante, um milhão de batimentos acontecendo em concerto, e nossas mentes frágeis, incapazes de compreender a enormidade disso tudo, estrutura toda essa informação em uma forma ordenada e sucessiva a fim de interpretá-lo.

Imagine um rio. Você quer pegar exatamente uma parte do rio e dizer “esse é o rio agora”, mas você não pode. No tempo que você pegá-lo, o rio mudou. Caso você vá rio acima ou rio abaixo, para a fonte ou para o foz, é o mesmo. Ele muda tão frequentemente que você nunca colocará seu pé no mesmo rio duas vezes. Margens erodem, animais bebem, água evapora, e por aí vai. Então quem pode dizer que ponto é realmente o rio em qualquer instante de tempo? A coisa inteira é o rio, não há um único ponto que constitui o rio, assim como não há ponto no tempo que constituí o agora. Porque uma vez que você veja o agora, ele já está no passado.

Realidade, significa o passado, o presente e o futuro, não é eterna e imutável, mas sim um rio, um fluxo constantemente mudando, dinâmico e transitório, efêmero e perpétuo. Tempo não é uma linha em que se possa viajar um passo de cada vez, mas uma corrente infinita de possibilidades acontecendo tudo de uma vez, como água fluindo. Apenas nossa percepção do tempo que é linear, como assistir uma folha ser carregada por um rio. Tudo isso significa que mesmo sentado aqui,  eu estou dentro do vazio e fora do vazio, vivendo meus dias torturado nas minas junto com meus dias alegres na vila, todo meu passado e futuro, alegrias e sofrimentos dentro do curto espaço de tempo que é uma vida.

Então quando você pensa desse jeito, não é tão mal ficar preso aqui. Não esfarrapado demais. Eu deveria voltar ao trabalho, ocupado, ocupado, ocupado.

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— Olá irmão. O que você está fazendo?

A voz de Baledagh me enche com alegria enquanto eu abandono meu nado borboleta e flutuo para baixo para cumprimentar ele. — Baledagh, graças a Mãe, você está de volta. Eu só estava nadando, não há muito para fazer aqui. — Pelo menos ele não me pegou me masturbando. — Por favor, nunca faça isso de novo, nós compartilhamos nossos fardos, entende? Você parece… — Abatido e quebrado, mas dizer isso seria rude. — Terrível. Está tudo bem? — Tá, minhas habilidades sociais podem ter enferrujado um pouquinho, mas não é minha culpa. Eu estive aqui sozinho por tanto tempo…

Costas abatidas e cabeça baixa, Baledagh fica parado timidamente na minha frente, incapaz de me olhar nos olhos. Estranho estar no lado que recebe isso. — Eu estou bem. — Mentiroso. — Você pode sair agora. Com a ajuda de Ravil, nós limpamos o máximo de vilas que pudemos, mas nós ficamos sem tempo. Eu tive de mandá-los embora antes que o exército chegasse, para que eles não soubessem dos nossos esforços. Nós estamos esperando ao lado da estrada, o posto avançado pode não ser seguro. Eu fiz tudo que pude, irmão. Pergunte o que quiser e, então, me deixe descansar.

Vendo ele desse jeito, eu nem consigo ficar bravo, só pena e tristeza. — Por quanto tempo eu estive aqui? — Me preparando para a resposta, eu segurou meu fôlego. Decanas? Meses?

……

.

Cinco dias? Só isso? Eu quase perdi a cabeça em cinco dias? Como ele lida com a solidão aleijante por anos de uma vez? Quanto mais eu aprendo sobre ele, mais eu simpatizo. Ele realmente ficou com o palito menor nisso, seria difícil escolher entre isolação solitária e voltar de volta para as minas. Engolindo o nó de culpa preso na minha garganta, eu me aproximo e pergunto apesar da razão dizer o contrário. — Quantos?

Se encolhendo, ele sussurra uma resposta. — Vinte e sete, todos mortos pelas minhas mão. Eu não pude deixar isso para os outros, só os deixei amarrados e amordaçados enquanto eles esperavam. Como gado para o abatedouro. — Seus ombros se agitam enquanto eu o abraço, meu irmãozinho idiota. — Eu deixei minhas intenções claras e esperei para eles se transformarem, ver as cores de verdade deles. A maior parte se tornou feroz, a mácula crescendo na minha frente, mas não todos. A garotinha… gritando e chorando por sua mãe… não queria fazer isso, queria libertá-la… mas a mácula, os Espectros, circulando ela, sussurrando para ela… eu sabia o que aconteceria no futuro, eu não podia deixar ela ir. Eu tinha que matar ela antes que eles a transformassem, me diga que você entende.

Respirando fundo, eu o abraço mais forte e minto. — Você fez o que você tinha que fazer. — Não é inteiramente mentira. Ele fez o que ele acreditava ser necessário, e eu não consigo odiá-lo por isso. Ele não é um assassino sem consciência, mas isso é tudo que ele sabe. — Melhor focar em quantos você salvou.

— Algumas centenas de aldeões ingratos, com raiva e rancorosos. Ravil teve de chamar mais pessoas da Milícia e forçar os aldeões a irem para o norte, caso contrário eles dariam a volta para os seus lares. Dado a escolha, eu teria deixado eles para morrer, mas Ravil é mais gentil do que ele deixa aparecer. — Ele não está deixando isso mais fácil, tão cheio com ódio e auto-aversão. Eu nem estou certo se um jeito existe, exceto de tempo e apoio. Depois de um longo abraço, ele me empurra e balança sua cabeça. — Você deveria ir agora, eu acabei de receber um Envio de Gerel, eles estão perto.

— Me deixe fazer algumas coisas antes de eu ir embora. — Eu não estou certo se ele notou quanto poder ele tem agora, mas eu deveria ser capaz de criar coisas com sua permissão, apesar de subconscientemente obtida. Com um esforço mental, eu faço uma cama, três gatos, dois filhotes de urso, e um colherem existirem. Paredes, luz, e outros objetos para ele se manter no chão e ocupado logo após, mas sem um olhar, ele se arrasta para a cama e puxa o lençol para cobri-lo, se escondendo do mundo. Afagando ele na cabeça, eu hesito em ir embora, me perguntando se eu deveria falar algo a mais. — Tome quanto tempo você precisar, eu vou voltar para checar você. — Os animais pulam na cama por conta própria, não é meu trabalho, mas o dele, instintivamente buscando conforto. — Obrigado, irmão.

Abrindo meus olhos para a linda luz do sol, eu me aqueço no calor do verão a tarde. Pela primeira vez em uma eternidade, eu espreguiço meu corpo e realmente sinto a tensão prazerosa, o puxar dos meus músculos e pele, sentindo o ar fresco e árvores cheirosas, vivo mais uma vez. Olhando os ursos andarem perto da estrada, enquanto dois cavalos com crinas trançadas comem grama debaixo das árvores, eu percebo que não posso negar nada disso ao Baledagh. Fazer isso seria cruel e inumano. Eventualmente, ele vai se recuperar disso, ele é mais forte do que eu em muitos jeitos. Ei, quem sabe, talvez eu vá descobrir um jeito de nos separar e nós dois vamos poder viver vidas felizes e realizadas.

— Maridinho! — A tranquilidade da floresta é quebrada pelos passos de um quin gigante, rapidamente crescendo em tempo e volume. Uma nuvem de trilhas de poeira atrás da figura inconfundível de Lin, montado em cima do meu Mafuzinho bochechudo. Chiando ao me ver, Mafu acelera na minha direção, seus chiados de alegria facilmente ouvidos em sua investida barulhenta.

Éee… eles não estão parando.

O mundo desacelera enquanto eu percebo que nós estamos prestes a colidir, ambos Lin e quin ansiosos demais com nossa reunião. Dando um passo para o lado, eu mal consigo evitar o quin gigante enquanto Lin pula de suas costas, o ar correndo devido ao desvio quase falho. Voando pelo ar com um sorriso em seu rosto e lágrimas nos olhos, Lin se move rápido demais, prestes a colidir em mim como um pequeno míssil adorável. Indisposto a vê-la se machucar, meu corpo se move mais rápido do que nunca, meus dias de prática mental dando frutos. Pegando ela com ambas as mãos, eu giro em círculos grandes com os braços estendidos, girando no lugar com Lin a fim de dissipar seu momento. Ao parar, eu a puxo mais perto, tomando cuidado para não esmagá-la em meus braços.

Sem fôlego e tonta, ela se aconchega contra mim. — Eu senti tanta sua falta, Maridinho.

— Eu senti sua falta também. — Nada mais preciso ser dito enquanto nos seguramos, felizes e alegres.

Nossa reunião particular termina tão abruptamente quanto ela começou, Mafu nos acertando com uma série de chiados tremidos. Esfregando sua cabeça contra mim, suas mãozinhas afagam e agarram minhas roupas, se certificando que eu não possa me afastar. Se isso era uma investida feliz, eu nunca quero receber uma brava.

Lin alterna entre sorrir e chorar enquanto ela descansa sua cabeça contra a minha, seus braços presos firmemente ao redor do meu peito. Seus guardas irritados chegam com o restos dos Sentinelas logo atrás, Mila na liderança. Antes que eu consiga dizer algo, um segundo round de cumprimentos, entusiasmados até demais, começa quando Aurei voa do vagão de viagem. Me virando para proteger Lin, eu me encolho e rio enquanto o gato de um quarto de tonelada se agarra em meus ombros, seus ronronados estrondosos reverberando até meus ossos. Sofrendo em silêncio, eu tiro Aurie de mim e o acalmo com beijos e abraços. Alguns machucados e cortes valem muito a pena em troca de amor incondicional.

Felizmente, Jimjam e sua irmã são bem mais contidos em seus comprimentos, feliz em andar lentamente com Mila e Li Song. — Olá Li Song. Sentiu minha falta? — Sua testa franze mais ainda, ignorando a pergunta enquanto eu cumprimento os outros gatos, Aurie rosnando em descontentamento. — Olá Jimjam, olá princesa fofenha. Você sentiu falta do papai? Eu aposto que não, seus malvadinhos.

— Esse não é o nome dela. — Li Song intervém, bufando enquanto os gatos toleram minha afeição. — Com a aprovação da Mestra, está aqui a nomeou de “Sarankho”.

— Garra do Luar, uma escolha adorável. — Já estava na hora. Ha, encontrar meus gatos, Aurie, Jim e Sara. É bom ver Li Song me olhar nos olhos, mesmo que ela não goste muito de mim. Deixando Jimjam e Sarankho, eu finalmente me viro para Mila com um sorriso provocativo. Ela está pronta para explodir por ser ignorada, mas orgulhosa demais para fazer o primeiro movimento. Eu não consigo não dar uma espetada, ela é tão fofa quando está brava, seus lábios fazendo beicinho e testa franzida fazem meu coração acelerar. Com Lin ainda segurando firme, eu estico minha mão e aceno para Mila se juntar a nós. — Olá minha princesa. Não fique com ciumes e venha cumprimentar o seu noivo.

Sua raiva visivelmente derrete enquanto ela se move para me abraçar, fungando e escondendo seu rosto. — Idiota. O que você pensou que estava fazendo, ficando na frente dos barcos daquele jeito? E perdendo sua Insígnia? Você estava tentando me provocar? Me deixando com todo seu trabalho, você é tão sortudo que eu sou compreensiva e tolerante. Mas eu juro que se você fizer isso de novo…

Sorrindo enquanto eu abraço minhas futuras esposas, eu mando uma mensagem para Baledagh. — Saia para abraços?

— Me deixa sozinho.

— Mafu encontrou os filhotes de urso. Eles estão se abraçando. Ele acha que eles são filhotes de quins. Jimjam pegou um para lamber, e o ursinho ama. Saia para ver.

— …

A presença de Baledagh surge de dentro, compartilhando meus sentidos sem tomar o controle. Abraçando Lin e Mila mais forte, eu tento transmitir o calor e o amor para ele enquanto assisto os ursos, gato, e quins, todos els se dando bem. Gerel e os Sentinelas assistem calorosamente, as Pessoas nunca esquentam com privacidade, enquanto minha comitiva sorri para mim em resposta. — Lembre-se, essa é sua vida também.

 

Um pesar melancólico ecoa em meu peito. — Não irmão. Essa é a sua vida, não tem nada haver comigo.

 

— Não seja tolo, o que é meu é seu. — Nós vamos fazer isso dar certo.

 

De algum jeito.

 

… provavelmente.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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