DS – Capítulo 235

Sentada na posição de lótus, os pensamentos de Mila passavam em sua mente sem se focar em um particular. Seu peso pressionado na cama macia, o lençol de seda beijando seus calcanhares. Apesar de estar seus olhos estarem fechados, ela sentia o sol da tarde em sua pele, passando pela janela aberta junto com o cheiro doce e apimentado do incenso carregado por uma brisa leve de verão. Por perto, os sons rítmicos da respiração de Song formavam uma cadência reconfortante, a presença tranquilizante da garota doce  sempre bem-vinda. 

Este era seu tempo de cura e recuperação e nada mais importava.

Apesar de ser talentosa em muitas áreas, Cura era a maior falha de Mila. Por que se incomodar em aprender quando um dos médicos de Mamãe estava sempre por perto? Tokta amava encher o saco dela, estalando a língua e dando olhares mordazes para Mamãe enquanto ele cuidava de seus ferimentos ou queimaduras. Mila não se incomodava com os ferimentos, cada um deles ensinando ela uma lição valiosa, como não cruzar seus pés quando avançar em um oponente ou sempre tomar cuidado com a forja mesmo depois de horas esfriando. Mamãe não pressionava muito Mila para aprender Cura, porque ela acreditava que o tempo era melhor gasto aprendendo a evitar feridas e Mila concordava do fundo do coração. Se forçada a arriscar sua vida de novo e de novo, era só questão de tempo até a morte vir clamar você. 

Rain parecia uma exceção à regra. 

Esperançosamente. 

Fora da janela, um clamor alto se elevou conforme centenas de botas se moviam pela mansão. A comitiva de Rain rosnava ordens e insultos, tentando trazer ordem para tudo, mas só aumentava o barulho. Sua meditação pacífica quebrada, Mila franziu com a interrupção, se encolhendo quando sua bochecha em processo de cura rachou. Que enfurecedor, mesmo depois de um dia de cura, ela ainda não se recuperou das queimaduras. Checando suas feridas no espelho, o coração de Mila afundou com o rosto feio encarando ela de volta, escabrosa e pele descascando com nenhum sinal de progresso. Como Rain fazia isso? Ela entendia o conceito de criar Panaceia, mas a diferença em velocidade era excepcional. Rain teria curado essa queimadura em algumas horas, enquanto Mila ficaria parecendo um monstro por pelo menos outro dia. 

Mesmo com um buraco em seu rosto, Song parecia melhor do que Mila, um retrato de paz e serenidade enquanto ela buscava Equilíbrio. Song explicou seu método enquanto focava apenas na respiração dela, silenciosamente recitando sutras para regular tudo desde de movimentos abdominais até a frequência de sua respiração. Eventualmente, isso levava a mesma coisa, as outras percepções dela navegando sem consciência, mas a ferida de Song estava afetando sua habilidade de encontrar Equilíbrio, por causa do ar escapando por sua bochecha com cada expiração. Ainda, os resultados falavam por si próprios e alegrava Mila saber que Yan estava em boas mãos com Du Min Gyu.

Cobrindo seu rosto em bandagens, Mila se preparou para sair e ver qual era o problema. Apesar de Rain dizer que não ligava para a aparência dela, Mila ainda era uma jovem dama ainda não casada. Como ela poderia expor seu noivo a tal coisa hedionda? Apesar dela se mover o mais silenciosamente possível, quando ela abriu a porta, Song pulou para se juntar a ela, sempre ao seu lado. Pelo menos ela parou de chamar Mila de Mestra, o progresso de Song era lento, mas constante conforme ela se recuperava do tratamento cruel e inumano. 

Sorrindo para Song, Mila pegou sua mão e foi embora, ainda irritada pela interrupção. Caos e desordem esperavam ela enquanto Mila olhava para centenas de estranhos feridos entrando na mansão deles. Avistando Rain, Mila foi até ele para exigir uma resposta. As contribuições das Pessoas não foram poucas e Sanshu tinha muito espaço, então por que eles eram forçados a dividir o acampamento deles com estranhos? 

Prevendo sua interrogação raivosa, Rain sorriu enquanto se aproximava, abrindo seus braços para um abraço. Batendo neles para tirá-los do caminho, ela murmurou, — Não na frente de estranhos. — Perdendo a vantagem, ela corou enquanto ele punha seu cabelo atrás de sua orelha, o idiota mostrando suas feridas terríveis para o mundo. — O que está acontecendo? Quem são essas pessoas?

— Bom te ver também meu amor. — Seu sorriso derreteu sua raiva enquanto ele pegava a mão livre dela, assentindo em cumprimento para Song. — Essas pessoas, — ele disse gesticulando ao redor dele, — São os remanescentes da Milícia da Mãe e os mais novos membros da minha comitiva. Eu posso ter mil certo? Isso é tipo… metade disso. Provavelmente menos. Merda, eu vou ficar pobre comprando quins para eles…

Atônita com a resposta, Mila fechou seus olhos e fechou sua boca, controlando seu ultraje. Esse idiota, ele nunca aprendia? Primeiro ele fez amizade com um bando de aleijados e vagabundos e agora ele busca bandidos e assassinos para encher suas fileiras? Pouca melhora, mesmo se esses bandidos parecessem levemente mais fortes, com algumas dúzias de armas espirituais espalhadas entre eles. 

— Qual o problema amor? — A veia na sua testa está pulsando debaixo das bandagens.

Incapaz de ficar com raiva não importa quanto ela tentava, Mila suspirou. — Rain. — Ela disse, olhando para seus olhos âmbar preocupados. — Você é o idiota mais esperto que eu conheci. Você é um Subtenente de Segunda Classe, o que significa mais pessoas de influência vão notar você. Uma comitiva de mil elites não é pouca coisa, mas você escolheu esses, esses… criminosos para ficar do seu lado! Por que? — Essa era uma honra que devia ir para os Sentinelas e machucava saber que Rain pensava tão pouco de suas pessoas. 

Suspirando, trouxe a mão dela para seus lábios. — Não havia o que fazer. Seu “bandido nobre” me pediu para cuidar de Jorani e esses criminosos todos fizeram Juramentos para me seguir pelos próximos anos. Não podia deixar eles voltarem a serem bandidos podia? — Trocando para Envio, ele contou a ela sobre seu encontro com o Ascendente. Inflando suas bochechas, Mila fez beicinho enquanto considerava a história de Rain. 

Não era surpresa que os Ascendentes Índigos roubavam qualquer um. Tirava o romance de tudo, já que ninguém queria ofender uma besta ancestral livre, especialmente uma tão forte para clamar um território contendo uma cidade, muito menos seus arredores. Mila nunca encontrou com uma besta ancestral, mas ela ouviu histórias e vendo o olhar ferido fez ela rir. Pelo menos era um homem, conhecendo Rain, ele provavelmente perderia o controle se fosse uma mulher. 

— Tá bom. — Ela disse quando sua história terminou. — Você não teve escolha além de aceitar Jorani, mas e quanto ao resto deles?

— Eu imaginava que precisamos de toda a ajuda que conseguíssemos. Não é como se pudéssemos ir para casa e pedir mil Sentinelas para sua mãe. 

Ah. Certo. A Ponte estava sob cerco. Resistindo a vontade de se encolher, as bochechas de Mila esquentaram enquanto ela concordava. — Entendo. Você tem uma estrada longa a frente. Força não é o único requerimento para um soldado, você deve se certificar que eles sigam ordens. Você vai pedir um juramento até a morte. 

— Eu estava pensando neles conseguirem o mesmo tratamento do primeiro grupo. — Ficando em silêncio, Rain lamentava a perda de seus soldados, uma alma gentil não apropriada para guerra. Capaz de ser responsável e sério enquanto ainda estranhamente infantil e ingênuo, ela achava irritante e cativante ao mesmo tempo e o amava ainda mais por isso. Puxando ele para um abraço, ela deu um abraço apertado nele, sorrindo enquanto ele beijava sua testa. — Obrigado amor. — Balançando sua cabeça, ele continuou. — Mas sim, mesmo juramento dos outros, eu pedi para Bulat e Ravil organizarem isso, então agora nós vamos esperar e ver quantos vão aceitar. Aqueles que não aceitaram ainda estão presos conosco por alguns anos, mas eu vou encontrar papéis não combativos para eles. 

— Um bom começo. — Mila murmurou, se aconchegando em seu peito. Ao lembrar que eles estavam em público, ela se afastou de repente, ignorando seu sorriso. — Uma comitiva de mil homens é um mundo de diferença de uma com cem. Há muitas coisas para fazer, como escolher líderes que você confia, comprar armas e armaduras, contratar cozinheiros, lavadores e muito mais. Suprimentos vão ser um problema na jornada de volta, então envie alguém para coletar a moeda que nós guardamos, não vamos ter o bastante sem ela. Ah, e você devia escolher um núcleo composto de elites para sua comitiva aspirar e pague eles de acordo. Você tem um talento incrível para se meter em problema, então dessa maneira, pelo menos você vai ter alguém do seu lado para te apoiar. 

— … hum, claro, parece… bacana. — Esmagado pelas sugestões dela, Rain ficou parado no lugar com um rosto pálido. — Alguma… é… sugestão? Para líderes, quero dizer.

Esticando sua mão, Mila beliscou suas bochechas. — Rain, talento é bom, trabalho duro é melhor, mas você também precisa ficar mais esperto. Por que me perguntar? Você é tão esperto, mas você nunca pensa, sempre procurando os outros para orientação e feliz em deixar a corrente te levar. Esses antigos bandidos são da sua comitiva e eles representam as Pessoas agora. Garanta que eles não façam nada para nos envergonhar. 

Assentindo em pensamento, Rain parecia finalmente entender a gravidade de sua posição, provavelmente infeliz com todo trabalho extra. Tão estranho, apesar dele ter alcançado tantos dos sonhos dela sem tentar, ela não conseguia ficar com inveja, orgulhosa de suas conquistas e entristecida que ele as achava um fardo. Seu noivo doce e talentoso, ele seria muito mais feliz com qualquer coisa fora guerreiro, ficando em casa para cuidar de sua família. Algo em seu passado escuro, não dizido o fazia se esforçar e lutar, buscando erros para acertar e conflitos para resolver. Não importa o quanto ele reclamassem por ser jogado na batalha, ele sempre lutava com um sorriso temível no rosto, como se provocando a morte a vir clamá-lo. 

Ele não sabia ainda, mas ele era viciado na adrenalina da batalha. Ele nunca seria feliz sentando parado sem fazer nada, combate era uma parte dele agora. 

Escondendo seu sorriso, Mila o levou para longe, permitindo-lhe ver a amplitude de sua experiência. Era uma boa prática, já que não demoraria muito até ela ganhar sua patente. Talentoso, trabalha duro e um gênio, Rain não era o único que possuía esses atributos. Ela era Sumila, Filha de Akanai e Husolt e ela se recusava a passar sua vida na sombra de Rain.

Era só questão de tempo até ela ter a sua própria sombra.

Coçando meus olhos, eu repasso minha lista de candidatos mais uma vez, checando se eu esqueci alguém. Mila me disse para escolher candidatos e estabelecer uma linha de comando, então eu voltei para meu ofício para fazer exatamente isso. Até agora, eu tenho Rustram, Bulat, Ravil e Jorani. Quem mais?

Por falta de uma idéia, eu me viro para meus escolhidos e pedi, — Alguma sugestão? — O franzido de Mila me diz que eu devia ser mais decisivo, mas é difícil de mudar minha natureza. Ela é mais parecida com a mãe dela do que eu gostaria de admitir, direta e dominadora enquanto aponta meus erros, mas ela está certa. Com grande poder, vem um grande pé no meu saco, mas eu preciso me certificar de que está sendo feito direito. 

Bulat é o primeiro a responder. — Chey. Essa é uma das sobreviventes, mas feroz ao proteger os dela. Leal e esperta, não pode dar errado. 

— Ulfsaar. — A opinião de Ravil não vem com uma explicação, mas ele não precisa de uma. Eu li o cartaz de recompensa de Ulfsaar e o meio-urso poderoso é uma força a ser reconhecida, apesar das suas orelhinhas negras de urso adoráveis. 

Tossindo educadamente para interromper meus devaneios, Jorani oferece sua sugestão. — Chefe, se cê quer o mais forte, então é o Wang Zombeteiro e sua gangue. Eles são um bando de bastardos durões. 

Os antigos Algozes. Franzindo, eu balanço minha cabeça. — Não posso dizer que eu gostava de pôr um possível Corrompido no comando. — Eu preciso de Baledagh para verificar minha comitiva, não posso convidar uma raposa para um galinheiro, mas meu irmãozinho ainda não está respondendo e julgando por experiência, pode levar decanas até ele acordar. 

Dando de ombros, Jorani defende sua escolha. — Se ele é Corrompido, então ele tá brincando de um jogo que eu nunca ouvi falar. Teve muitas chances de se virar contra nós e não fez. Não teria saído vivo sem ele e o bando dele. 

Bulat e Ravil ambos concordam, então eu ponho Wang Zombeteiro na lista de finalistas. Hmm… Se apenas nós tivessemos os tesouros do esconderijo dos Algozes, há provavelmente toneladas de grana lá. — Mais alguém? — Isso são sete, eu preciso de pelo menos mais um. Apesar de eu ter apenas 413 soldados novos, eu imagino que posso colocar cada líder a cargo de pelo menos cinquenta como um teste antes de escolher os melhores. — E quanto a Pran ou Saluk? Eles são líderes de esquadrão, então não deve ser um salto tão grande. 

Bulat balança sua cabeça. — Eles não vão aceitar. Tive que importunar eles para cuidar de dez e mesmo assim Rustram fazia a maior parte do trabalho. Eles estão melhor como seus guardas. E quanto a Kabi. 

— Ele não conseguiu. — O sussurro de Jorani é respondido com silêncio, cada um de nós sofreu perdas. — Mesma coisa com Yu Dedos Leves, caso contrário ele estaria na lista também. 

Voltando para o assunto em mãos, eu repasso minhas opções. Os outros únicos nomes que eu sei são Silva, Viyan e Birca, mas eles são os membros mais irresponsáveis da minha comitiva, um trio de bêbados e apostadores degenerados. Eles são boas pessoas, mas em séria falta em qualidades de liderança. Nenhum dos Sentinelas quer nada com liderança, vindo só para acompanhar Tursinai ou Mila, então quem sobra?

Ugh. Liderança. Tão problemático. 

Acho que tenho líderes o bastante por agora. Enquanto os outros partem para reunir os outros, eu me sento ao lado de Mila e suspiro. — E pensar que eu estava preparado para umas férias relaxante, mas então os Corrompidos tinham que vir estragar. 

— Ha. — A bufada adorável de Mila põe um sorriso em meu rosto, mesmo com as circunstâncias sombrias. É demais, eu não posso ficar tristonho o tempo todo. — Trabalhe duro Rain. Treine sua comitiva nova, mas não se deixe cair para trás. 

— Sim amor. 

— Você aprendeu muitas habilidades novas, então se lembre de praticá-las. Não esqueças das suas habilidades antigas também, ou aquelas que você ainda não aprendeu. Apesar de você ser capaz em Afiar e Guiar, você ainda está longe da compreensão. Seu período de crescimento explosivo pode continuar, mas não conte com isso. Muito do que você sabe é baseado em instinto, o que é estranho considerando como você gosta de questionar as coisas. Aprenda, domine e você vai ser inigualável nas décadas por vir. 

É bom saber que ela tem tanta fé em mim, mas é um pouco intimidante. E se eu falhar? E se eu desapontar ela? Como se sentisse meus pensamentos, Mila aperta minha mão e me dá um sorriso lindo e desse jeitinho, tudo está bom. Descansando em seu ombro, eu digo, — Você é boa demais para mim. 

— Eu sei. 

— Chefe. — Rustram enfia sua cabeça pela porta, fazendo Mila me empurrar. Honestamente, coisas seriam menos escandalosas se ela só deixassem as coisas como estavam, mas agora Rustram vai se perguntar o que nós estávamos fazendo. — O Magistrado enviou alguém. Você vai querer ver isso. 

Isso não soa muito bom… Saindo, eu sou cumprimentado por um rosto familiar, machucado e batido enquanto ele se ajoelha na grama com seus companheiros. Ao lado dele está um administrador, que limpa sua garganta e oferece uma caixa com ambas as mãos. — Por ordem do Magistrado Chu Tongzu, Dastan Zhandos e seus companheiros traidores foram garantidos clemência, suas vidas poupadas. O Magistrado oferece essa insígnia como gratidão pela defesa heróica das Pessoas de Sanshu. Que você use esses escravos bem na defesa do Império. 

Pegando a caixa por reflexo, eu olho para o pendente dourado lá dentro, engolindo com todo o peso repentino de toda a situação. Espancado e quebrado, o antigo Subtenente mal orientado se prostra três vezes, sua família, comitiva e todos os seus amados fazendo o mesmo. — Nossas vidas são suas, Mestre. — Dastan diz, seu tom amargo e pesaroso fazendo uma lança de dor passar pelo peito. — Nós esperamos seu comando. 

 

Pelo crime de ter nascido na facção errada, Dastan Zhandos agora sofre um destino pior do que a morte, junto com o resto de sua família. 

 

Apesar de toda a beleza que eu vi e o amor que eu encontrei, são coisas como essa que me fazem odiar esse mundo.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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