DS – Capítulo 236

Vendo Dastan e os outros se ajoelhando diante de Rain, Song foi dominada pela inveja. Apesar de infelizes de se tornarem escravos, essas poucas dúzias de guerreiros e suas famílias deviam se considerar abençoados por servir os Bekhai. Eles seriam bem tratados, receberiam comida e camas macias, nunca seriam abusados ou humilhados, mas ainda eles ousavam mostrar insatisfação. Os novos escravos choravam e faziam careta enquanto Dastan ousava olhar seu novo mestre nos olhos, cabeça erguida em insubordinação trivial, desafiando Rain a exercer seu povo. Garoto tolo, encarando com olhos enegrecidos e inchados, seu desafio orgulhoso não ajudava sua causa. Não mais ele era um filho favorecido do Império e se ele quisesse se poupar da dor, então seria esperto saber seu novo lugar no mundo. Fosse qualquer outro mestre em qualquer outra facção, sua atitude teria ganhado a ele uma surra ou pior, tornar esse escravo audacioso em um exemplo para colocar os outros no lugar deles. 

Ao invés entregar punição, Rain encarou seus novos escravos distraidamente, perdido em pensamento enquanto seus dedos se fechavam no pendente. Depois de um longo silêncio, Mestra foi a frente para agradecer o administrador ainda se curvando e o mandando embora antes de se virar para Rain. Falando baixinho, ela afagou seu braço e perguntou, — Não acha que eles já se ajoelharam por tempo o bastante?

Acordando de seus pensamentos, Rain piscou e balançou sua cabeça. — Certo, desculpe. Por favor, se levantem. 

— Ao seu comando, Mestre. — Dastan e sua comitiva responderam em uníssono enquanto os civis murmuravam agradecimentos, lento demais para os gostos de Song. Ainda pior, as respostas deles não tinham o vigor e o zelo, inapropriados para escravos respondendo ao mestre deles. 

Felizmente para eles, Rain era um tolo de coração mole, não se ofendendo com a atitude sem brilho deles. — Chega dessa coisa de “mestre”, por favor. Me chamem de “Chefe” ou “Senhor” como todos os outros e um simples “Sim” vai servir. 

— Sim, Chefe. 

— Senhor Rustram, se você puder encontrar uma refeição e camas para nossos novos amigos, eu estou certo de que seria muito apreciado. Algum lugar bacana e éee… seguro, com algumas pessoas para se certificar de que eles possam se recuperar em paz. 

Pelo menos Rain era esperto o bastante para não confiar em serventes sem vínculo. Apesar de Dastan e sua comitiva eram vinculados pelos seus juramentos, suas famílias e retentores não possuíam a habilidade para fazer o mesmo. Esses plebeus livres representavam um risco sério considerando a afiliação deles com a Coalizão. A história se espalhou pela cidade como um fogo em mato seco, com cada língua sussurrando como Major XiaoGong, o duelista mais temido de Sanshu e líder da força mercenária da Coalizão, sucumbiu a tortura e se transformou em Demônio cedo pela manhã. A pergunta que estava na boca de todos: quantos mais o seguiriam nos dias por vir? Algum desses escravos podia ser Corrompido sem Juramento para prendê-los. 

Mesmo no evento improvável que nenhum deles estava maculado, sempre havia a possibilidade de que alguém matasse Rain por pura ganância. Quarenta e sete elites treinados valia uma pequena fortuna, especialmente em vista das habilidades de Dastan. Já capaz de demonstrar pureza e condensar sua Aura na idade de vinte e dois, Dastan estava na vanguarda de seus iguais, uma luta difícil para qualquer elite jovem no norte, além de Rain e seus talentos perversos. 

Mas só até Mestra condensar sua Aura. Quando ela o fizesse, ela seria invicta como a maior guerreira jovem que o Norte já viu. 

Ajustando sua funda, Song andava atrás de Mestra e Lady Mei Lin enquanto estas seguiam Rain em silêncio, preocupadas em como ele reagiria. Era um de suas poucas características que o redimiam, seu desgosto por escravidão, mas era tarde demais para ajudar. Esses escravos eram presos pelo seu Juramento e só a morte os libertariam. Enquanto ele passeava no campo, Rain parecia perdido em pensamento, arrastando seus pés e murmurando para si mesmo como ele fazia frequentemente. Parando para pegar uma cesta de maçãs, ele carregou os frutos até os quins interrompendo a soneca pacífica deles sob o sol. Cumprimentado com bigodes tremendo e chiados de alegria, as criaturas sonolentas se amontoavam ao redor de Rain com suas garras pegando nada, bem treinados demais para roubar. Com um sorriso abandonado, Rain deu a fruta pedaço por pedaço, seu humor melhorando enquanto os quins faziam fila de um jeito ordenado para estufar suas bochechas. 

Menos bem comportado do que os quins, Jimjam pressionou sua barriga na grama e graciosamente andou em direção a cesta. Estendendo uma pata carnuda, o gato selvagem tentou roubar uma maçã da cesta só para encontrar com um severo — Não. — de Rain. Indisposto a desistir, Jimjam se moveu para fora do campo de visão de Rain para tentar de novo. — Gato mal. — Rain admoestou, estalando seus dedos na frente do rosto de Jimjam. Olhos se arregalando em alarme, Jimjam pulou para trás e arqueou suas costas, dentes à mostra em protesto. Orelhas pressionadas contra sua cabeça, o gato selvagem bufava e miava, assustado pela repreensão de Rain. Estranho considerando que Jimjam geralmente não ligava para o tom severo de Rain. Se encolhendo de culpa, Rain estalou sua língua. — Acho que minha Aura foi um pouco duro demais. Vou trabalhar nisso. 

Com um suspiro alarmado, Mestra beliscou o braço de Rain enquanto Lady Mei Lin murmurou e correu para o lado do gato selvagem. Pondo suas mãos em seu pescoço, ela acalmou os nervos do animal aterrorizado com alguns afagos enquanto o consolava com um pedaço de carne seca. — Não assedie Jimjam! Usar Aura é demais, olhe, o pobrezinho está tremendo, né?

— Eu não estou assediando ele. — Rain resmungou, ainda entregando maçãs para os quins esperando. — Eu só dei a ele um “não” severo, deixar ele saber que estou falando sério. Vou ligar de volta na próxima vez.

Sua frase estranha foi ignorada enquanto Mestra o beliscava de novo. — Que próxima vez? Aterrorizar seus bichos não é jeito de treinar eles. 

Revirando seus olhos, Rain balançou sua cabeça. — Ah, por favor, ele é só um gato assustado. Foi só um pouquinho de raiva, nada para aterroriza-lo. Como isso. — Liberando sua Aura, Rain explicou suas ações. Apesar de nada mudar fisicamente com ele, Rain irradiava um sentimento de desaprovação severa, como um disciplinador rigoroso ou uma figura autoritária, fazendo Song pensar duas vezes antes de desobedecê-lo. — Viram? Nada demais. 

A mente de Song corria para compreender as ações de Rain enquanto Mestra arfava em incredulidade. Não era a expressão mais lisonjeira, mas ela mal podia ser culpada. O que Rain demonstrou era além da compreensão comum, contorcer sua Aura para um novo uso previamente inatingível. Aura era Aura, usada para aterrorizar seus inimigos, encorajar seus aliados, nada mais. Não havia uma segunda, terceira ou quarta funções para Aura, pelo menos até agora. Como Rain possuía um controle tão preciso para transmitir raiva sem induzir o terror de entorpecer a mente e fúria sedenta de sangue que vinham com ela? E de novo, se alguém poderia fazer, esse alguém seria Rain. 

Totalmente ignorante da incredulidade delas, Rain deixou de lado sua cesta e se abaixou com braços abertos. — Me desculpa meu bebê fofinho. Venha aqui. — A mudança foi imediata enquanto as orelhas de Jimjam se levantaram, indo para frente com Lady Mei Lin atrás para receber uma coçada de cabeça vigorosa. — Por que você está roubando maçãs, bobinho? Você é um gato. Você não come frutas. 

Se recuperando de seu choque, Mestra perguntou, — Como? Você… Você…

Sorrindo e dando uma piscadela de olho, Rain interrompeu o gaguejo de Mestra. — Eu sei certo? É muito fácil fazer ele vir com uma Aura de amor. Como essa. 

Dessa vez, Song sentiu nada já que Rain direcionou sua Aura só para Mestra, cujas bochechas ficaram vermelhas de vergonha enquanto ela continuava a engasgar em suas palavras. Vendo isso, Lady Mei Lin disse, — Injusto! Eu também, me mostra, me mostra. — Pondo seus braços no pescoço de Rain, Lady Mei Lin riu enquanto ela subia em suas costas. — Ahhhh, tão confortável e legal. Mostra para Lili!

No momento que Lady Mei Lin falou, Song notou uma calidez macia inundá-la, como submergir em um banho quente ou estar enrolada em um cobertor aconchegante, macio e seguro, um abrigo calmo da tempestade furiosa lá fora e permitindo ela se focar no que estava dentro. Suas preocupações levadas para longe pela onda gentil de segurança e estabilidade, suas preocupações mundanas incapazes de alcançar ela no abraço protetivo. Sua testa relaxou e seus ombros também, seu peito livre e sem correntes enquanto ela respirava fundo nessa sensação recém descoberta, luxuriosa. Pela primeira vez em sua vida, ela estava feliz em estar viva e amada. 

Então, sem aviso, a sensação desapareceu, deixando ela vazia e desolada. Piscando duas vezes, ela se focou novamente no mundo ao redor dela e encontrou Mestra e Rain encarando desapontados enquanto Lady Mei Lin escondeu um sorriso. — Nem um vislumbre de um sorriso. — Mestra lamentou. — Ela parece mais triste que antes. Você está certo de que está fazendo certo? — Rain deu de ombros enquanto Mestra bufava em desagrado. — Me ensina. Como você faz isso? Comece do básico por favor. 

Tomando um momento para organizar seus pensamentos, Rain se senta na grama e Lady Mei Lin se sentou em seu colo. Ficando ao lado deles, Mestra assistia os gatos selvagens, ursos e quins correr para conseguir um lugar ao redor deles. Bichos e pessoas sem distinção, todos eles pareciam tão felizes e Song não conseguia não pensar se o que ela experimentou da Aura de Rain era como eles sempre se sentiam, como se eles fossem dignos de amor e afeição. Uma toque de inveja surgiu nela, não porque ela queria Rain, mas porque ela queria o que ele dividia com Mestra e Lady Mei Lin.

—Song. — Mestra chamou, acenando para ela. — Senta aqui comigo?

Apesar de dito como uma pergunta, Song sabia que seus Juramentos a impediriam de recusar. — Sim, Mila. — Ela respondeu, se assentando enquanto Atir punha sua cabeça no colo de Song. Mestra não entendia, ela não poderia. Não importa o quão bem ela tratasse Song, no fim, Song era meramente uma escrava, uma ferramenta para ser usada até o dia em que ela morresse. De alguns jeitos, Song poderia ser mais feliz sendo tratada como uma escrava, saber seu lugar no mundo e nunca aspirar por mais. Tanto amor e afeição sendo mostrados a ela era quase demais, atormentada pela fartura da vida que seria para sempre negada a ela.

Puxando Song para um abraço, Mestra a segurou firme e Enviou, — EU VOU APRENDER O TRUQUE DE RAIN E, ENTÃO, VOU TE MOSTRAR O QUANTO EU TE AMO. SÓ ESPERE.

Com os braços de Mestra ao seu redor, Song engoliu seu pesar e fechou seus olhos. Inspirando profundamente para se acalmar, ela se apoiou contra Mestra e descobriu um pouco da calidez e segurança de antes. Fosse real ou imaginado ela não podia dizer, mas ela queria acreditar, precisava acreditar que era real. Antes de hoje, Song não se importava com amor ou afeto, mas agora ela tinha sede disso, pois sua ausência fazia toda a dor mais notável. Esgotada pela experiência e suas feridas, Song caiu no sono, lamentando sua perda enquanto aninhada nos braços de Mila.

Mostrar Song amor pode ter sido a punição mais cruel de todas, reacendendo algo que ela pensava estar a muito tempo morto dentro dela: esperança.

Minha explicação começa com um aviso. — Eu não estou certo de como explicar Aura. É complicado e eu tenho praticamente pulado.

— Só tente. — Mila sussurra. — Mas não fale alto demais. Song caiu no sono.

Caindo no sono em público? Ela devia estar mesmo exausta. É difícil lembrar que ela é só uma jovem e não um motor de destruição, incansável, feito em massa. Eu pensei que ela teria alguma reação a minha Aura “amorosa”, mas ela mal se mexeu. Fazer um juramento de escravidão deve realmente ter mexido nos parafusos em sua cabeça. Desde que eu fiz um Juramento para ficar quieto sobre a Purificação, se eu ao menos pensar em falar sobre isso, a Energia dos Céus me pressiona, um aviso para não ultrapassar meus limites. É um sentimento sufocante, como o fim pairando logo acima da minha cabeça. Eu nem consigo começar a imaginar como deve ser para Li Song, ser lembrada de sua mortalidade a cada segundo de cada dia. Escravidão é ruim o bastante, mas não ser capaz nem de sonhar com a liberdade? Eu imploraria pela morte antes de me tornar um escravo.

Pondo minha simpatia de lado, eu ralo meus miolos em busca de uma explicação. — Bom. — Eu começo, dando voz aos meus pensamentos enquanto prossigo. — Usar minha Aura normalmente é como… pegar toda minha fúria, medo, frustração e esmagar isso na cabeça dos meus inimigos. Não há direção, só intenção, tocar no reservatório de emoções reprimidas e liberá-las no mundo. Minhas emoções amplificadas através de Chi antes de explodir, como uma onda de poder irradiando para fora comigo no centro. Eu ajudei?

Com sua cabeça descansando no meu ombro, eu não consigo ver a reação de Mila, mas ela balança sua cabeça. — Nem um pouquinho. Como você consegue condensar sua Aura ao pensar em coisas que te dão raiva? Se fosse tão fácil, então eu já teria a minha a muito tempo, com você me irritando sem parar. — Suspirando, ela resmunga. — Um idiota que é natural em usar Aura, não devia me surpreender com você não conseguindo explicar. Uma pena que não há cura para estupidez. — Se aconchegando contra meu braço, ela adiciona, — Se você bolar um conselho melhor, lembre-se de dividir.

Tão fria com suas palavras e tão amável com suas ações, eu não consigo cansar disso. — Claro, meu amor. — Sorrindo, eu adiciono, — É difícil explicar meu brilhantismo usando meras palavras, tal é o fardo dos gênios. — Eu quase consigo ouvir os olhos dela se revirar enquanto bufa, me acotovelando gentilmente. Meu sorriso desaparece enquanto eu contemplo a verdadeira razão por eu ser tão apto usando Aura: Todos os Demônios despertam com uma. Eu contei para Gerel, Tursinai, Tenjin e a Líder da Guarda sobre minha Aura Beyblade, mas até agora, nenhum deles conseguiu replicá-la, então eu só posso assumir é algo único às minhas circunstâncias. Passou da hora da minha transmigração vir a calhar, mesmo com anos de atraso. É uma vantagem foda, mas cansativo de usar. Quero dizer, eu estraçalhei seis Auras e esvaziei minhas reservas de Chi. Em comparação, usando normalmente, eu posso fortalecer minha Aura e cortar e matar nas linhas de frente por três ou quatro horas. Uma ferramenta útil, mas melhor usada com moderação.

Pelo menos, eu não tenho que me preocupar sobre duelar com Zian mais. Eu duvido que a Aura dele é o bastante para aguentar a minha, mesmo se ele é de algum jeito ridiculamente bom em duelos. Como alguém luta sete duelos antes de uma batalha? Ele é humano ainda? Fung não conseguia dizer quão mais forte meu “rival” se tornou, já que Zian estava escondendo sua força de verdade, fazendo cada vitória parecer difícil para comprar tempo. Ele tem bolas, mas se ele me desafiar para um duelo, eu estou confiante que consigo acabar com tudo em um instante usando minha Aura.

E de novo, agora que eu já amaldiçoei isso, eu estou preocupado que ele vai milagrosamente resistir a minha Aura e me matar.

Como coragem desaparece rápido.

Deixando de lado meus pensamentos melancólicos, eu saboreio o momento, abraçado com Mila e Lin debaixo do sol da tarde. Um coral de quins, gatos e ursos roncando forma uma atmosfera tranquilizante, acalmando minha mente enquanto meus problemas derretem, me permitindo aproveitar a paz e a serenidade desse dia lindo, cercado pelas pessoas que amo e bichinhos. — Se eu pudesse falar com animais, eu falaria para eles nunca se tornarem Bestas Ancestrais.

Virando sua cabeça para trás, as orelhas de coelho de Lin roçam na minha bochechas, seus olhos castanhos belos arregalados e questionando meu pensamento aleatório. — Por que?

— Porque animais são melhores do que pessoas. — Correndo meus dedos no pêlo de Mafu, o quin gordo lambe seus lábios de alegria. — Eu ponho uma cesta de maçãs no meio de um bando de quins e cada um deles consegue algo para comer. Tente isso com pessoas e dinheiro. Eu ficaria surpreso se não houvesse derramamento de sangue. Olhe para Sanshu, a cidade mais rica na província norte. Eles lutaram e mataram para acumular riqueza, conforto e luxúria, explorando plebeus em nome do lucro e não se importando pelas vidas deles ou bem estar. — Suspirando, eu aponto para os animais felizes e me aconchego para uma soneca. — Esses caras estão felizes contanto que estejam seguros e bem alimentados. Se eles se tornassem humanos, só os tornaria piores. Pessoas são horríveis.

— Maridinho, você não está sendo justo. Tudo que esses animais fazem é para sobreviver. — Abraçando um filhote de urso dormindo em seus braços, Lin suspira. — Os quins dividem porque estão bem alimentados e não tem ambição, mas e se eles estivessem famintos? Na selva, animais vão comer seus filhotes se não houver o bastante para comer. Se você se trancar em um quarto com Aurie ou Mafu, não vai demorar até eles tentarem te comer. Não seria diferente se eles fossem humanos. — Cutucando minha bochecha, ela continua. — Você é tão doce e atencioso e eu te amo por isso, mas você não pode ser tão ingênuo Rainzinho. Eu estou preocupada que vão se aproveitar de você.

Lin acredita que eu sou doce e inocente demais, que fofa. Inflando suas bochechas enquanto eu rio, Lin me dá uma encarada fofa. — Sem risada, eu estou falando sério. Como por exemplo você ficando todo tristinho sobre Dastan e a comitiva dele, agindo como se fosse uma injustiça grave. Eles cometeram um crime, Rainzinho. Eles traíram o Império, mataram soldados e quase mataram o Fung também!

Uh oh. Eu nunca vi ela sendo tão teimosa sobre algo. Eu esqueci que ela viu tudo acontecer, deve ter sido traumático. É por isso que eu não queria que ela viesse junto, para manter a inocência dela por um pouco mais, mas eu imagino que ela nunca foi tão inocente quanto eu imaginava. Entristecido pela revelação repentina, eu assinto em concordância. — Sim, eles cometeram um crime, mas dois erros não fazem um acerto. Eu não desejaria escravidão para o meu pior inimigo. Eu nem estou certo que Dastan realmente sabia o que ele estava fazendo. Eu não acho que ele seja uma pessoa ruim, só alguém pego no lugar errado na hora errada.

— Talvez você esteja certo, mas o arroz já está cozido. — Lin assenti decisivamente, a moralidade do assunto completamente ignorada, não é um problema para ela. — Eles são escravos agora, mas pelo menos eles são seus escravos. Você os tratará bem maridinho, eu sei que vai. — Pondo um fim na discussão, Lin se aconchega contra meu peito com um bocejo e sorri. — Além disso, se você é realmente tão contra eles serem escravos, então você pode só matar eles, né?

Oh Mãe tenha misericórdia, me proteja dessa coelhinha sedenta de sangue. Tomando mais uma nota para nunca irar minha doce Lin, eu beijo sua testa enquanto ela se junta aos outros para uma soneca da tarde. Eu não acho que algum dia eu vou me acostumar com a diferença drástica de mentalidade, vivendo em um mundo onde até uma garota doce e pura como Lin considera escravidão como uma punição aceitável. Para ela, é meramente a ordem natural das coisas, onde pisar nos outros é o jeito que as coisas são feitas. Talvez eu esteja sendo ingênuo demais, pensando que as coisas poderiam ser diferentes, que todo mundo poderia viver em harmonia pacífica.

Pensando de novo no assunto, meu plano de aposentadoria não teria funcionado independente do que acontecesse na Ponte. Sem força, eu não sou nada além de um cadáver vivo esperando para ser pisado. Se eu quero proteger Lin, Mila e todas as pessoas que eu amo, então eu preciso me tornar mais forte. Apesar das minhas conquistas e habilidades recém encontradas, não é hora de ser complacente. Eu dei apenas um único passo no Caminho Marcial, com uma jornada longa por vir. Yo Ling foi o inimigo mais forte que eu já vi, mas há pessoas mais fortes do que ele. Eu sou um “jovem” talentoso, mas há limites até onde apenas talento me levará.

A questão é: Eu posso me tornar mais forte enquanto permaneço verdadeiro a minha natureza? Não, uma pergunta melhor: Eu ao menos quero isso? Há uma expressão apropriada que diz “Misericórdia com seu inimigo é crueldade consigo”. Talvez está na hora de eu me adaptar ao mundo ao invés de esperar que o mundo se adapte a mim.

 

Segurando Lin e Mila apertado, eu fecho meus olhos e lamento a perda de ambas a minha inocência e a de Lin.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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