DS – Capítulo 237

Seguindo seu guia, Dastan lutava para aceitar sua nova realidade. O sol quente da tarde beijava suas bochechas enquanto ele marchava pelo caminho de pedra em cadência ritmada, a brisa de verão carregando o cheiro de ervas queimadas e incenso. Folhagem verde e vibrante acentuava as limpas muralhas de tijolo branco, com mal uma folha fora do lugar para cobrir as linhas ordenadas dos telhados de telha curvados enquanto várias estatuetas de animais deitados ou sentados pontilhavam a serra e cantos, guardiões de cerâmica para quebrar a monotonia e supostamente proteger os habitantes de intrusos espirituais. Apesar dele notar tudo isso ao passar, parecia tão surreal, como se vida fosse apenas um sonho, suas ações não pareciam suas, seu corpo uma casca incitada pela Energia dos Céus, forçado a cumprir suas ordens. 

Cada milímetro dessa mansão parecia estar em condição perfeita, sem dúvida devido ao trabalho de um exército de serventes, o salário de todos mal capaz de alimentar suas famílias. Todos os nobres gordos de Sanshu mereciam morrer em uma conflagração flamejante, toda a ganância e corrupção um mal neste uma vez grande Império.

Dispensando seus pensamentos sangrentos como num vôo de fantasia, Dastan andava até alcançar a porta de seu novo quarto. A suíte no terceiro andar em uma casa para convidados, no lado do quarto havia uma capa de madeira luxuosa, suas cortinas abertas para revelar lençóis de seda em padrões e travesseiros gordos e macios. Gavetas douradas, baús ornamentados, poltronas esculpidas e vitrines polidas ladeavam as paredes, com vasos preciosos, lindas pinturas, pergaminhos de parede requintados e até mesmo um penico elaboradamente entalhado, tudo aqui para o agradar visualmente o convidado. Surpreso pela pura extravagância e honra, Dastan entrou cambaleante no quarto, se maravilhando com um item após o outro.

Vendo seu reflexo em um espelho, ele encontrou um estranho encarando  de volta. Apesar de nunca vaidoso demais, Dastan se orgulhava de sua aparência, sempre buscando parecer limpo e elegante como um guerreiro disciplinado deveria. Com seu cabelo ensanguentado, olhos negros inchados, roupas esfarrapadas e costas curvadas, ele parecia a parte de sua nova vida. Tão estranho, como um guerreiro não importa suas conquistas, levaria anos até ele ganhar o direito de dormir em condições tão luxuosas, mas ainda era aqui onde ele gastaria sua primeira noite como escravo. 

Sim, o Dastan Zhandos honesto, trabalhador, Subtenente do Império, o guerreiro que abateu o Carrasco Serrano, era agora um mísero escravo. Uma posse valiosa fazendo o que quer que seu Mestre exigisse dele, caso fosse lutar contra os Corrompidos, limpar meias sujas ou ser posto à mostra. Esse era o resultado do caminho que ele havia escolhido, um fim para seus sonhos de reforma e igualdade para todos. Não apenas seus sonhos, mas os sonhos de sua comitiva e as famílias deles já que todos se juntaram a ele em desgraça. Sua família também, seus avós, pais, tios e tias, irmãos e primos, sobrinhas e sobrinhos, todos arrancados de suas vidas confortáveis e forçados a serem escravos porque ele desafiou o Império. 

E pensar que isso era o melhor de uma situação ruim. 

Sob o espelho estava uma bacia de água, o líquido claro logo se turvando enquanto ele limpava a sujeira e sangue de seu corpo. Se sentindo refrescado, ele abriu a porta da varanda e encontrou uma vista linda para o pátio, a beleza e serenidade da mansão perfurando direto pela desolação vazia sombria de sua alma, dando nascimento a um pequenino pedaço de esperança em meio ao pesar e lamentação. Esse pedacinho foi imediatamente esmagado quando ele viu Falling Rain deitado na grama com seus bichos e três lindas jovens. 

Que inveja.

Sabendo que ele poderia ter o mesmo, o coração de Dastan doía com a perda, mas aquela vida era negada a ele para sempre agora. Não mais ele estava competindo com Falling Rain, o Subtenente de Terceira classe mais jovem em 10.000 anos se transformando no Subtenente de Segunda Classe mais jovem da história. Os rumores de seus apetites se espalharam muito e, embora todos os rumores brotem de um grão de verdade, Dastan pensava previamente neste como nada mais que uma calúnia falsa. Não importa, todos os homens grandes tinham seus vícios e Rain parecia decente o bastante. Um jovem quieto e contemplativo cujos olhos âmbar perdiam pouco, ele era um guerreiro corajoso e compassivo que simpatizava com o homem comum. Servir ele não seria a pior coisa do mundo. 

Olhando para as pedras abaixo, Dastan brevemente se perguntou se a queda de três andares seria o bastante para matá-lo. 

Por pouco, se ele pousasse de cabeça. 

No momento que ele considerou se jogar da varanda, Energia Celestial desceu sobre ele, tirando o ar de seus pulmões como uma pegada de aço em seu peito. Se curvando, ele lutou para respirar enquanto bania o pensamento de suicídio, gemendo em uma mistura de prazer e alívio enquanto a pressão desaparecia. Tais eram as restrições postas nele, prevenindo ele de até tomar sua própria vida. Não, como um escravo, sua vida era um bem precioso, um para ser valorizado e possivelmente vendido em um capricho. A mesma coisa aconteceria se ele pensasse em matar seu Mestre, desobedecer uma ordem ou uma multidão de outras coisas, sua vida não era mais sua. 

Lamentando seu destino, ele se arrastou de volta para dentro do quarto para prosseguir com suas ordens: descansar, comer e se recuperar. O esplendor e luxúria do lugar não mais o tocavam, pois uma gaiola dourada, não importando quão bonita, ainda era uma gaiola. Pondo seu escudo e besta na cama à distância de um braço, ele começou a limpar seu machado com um trapo. A rotina familiar trouxe um semblante de paz para sua nova existência desoladora, acalmando sua mente. Terminado com a tarefa, ele se sentou na pequena mesa de chá, distraidamente notando o contraste gritante da mesa de jade branca cara com os marrons, vermelhos e ouros do esquema de cores do restante do quarto. 

Prova positiva de que dinheiro não compra bom gosto. 

Um baque em sua porta acordou Dastan de seus pensamentos. Abrindo-a, ele encontrou comida esperando no chão, uma tigela de ensopado, três pães, um prato de vegetais cozidos e uma cabaça de água. Rezando para estar livre de cuspe ou outras sujeiras, sua barriga roncando venceu toda precaução enquanto ele devorava um pão em seu caminho de volta para a mesa. A refeição era mais deliciosa do que qualquer coisa que ele tenha comida em memória recente, embora seja porque a última vez que ele comeu foi a quarenta horas atrás. Os pães escondiam um centro de carne suculenta, os vegetais crocantes e suculentos e o ensopado cheiroso, calorosa, deliciosamente apimentado. Até a água parecia mais fria e fresca do que qualquer uma que ele já tenha tomado, esvaziando a cabaça de uma vez só. Barriga cheia e mente exausta, ele trocou de roupa e rastejou até a cama, afundando nos lençóis macios de seda com um suspiro alegre. Sendo um criminoso de guerra, ele tinha que admitir, esse tratamento era muito mais do que ele merecia. Fechando seus olhos, ele disse a si mesmo que tudo ficaria bem. 

Conte a mentira várias vezes e ela pode virar verdade. 

O descanso pacífico foi negado a ele conforme ele passeava por sonhos de carnificina e derramamento de sangue. Neles, ele trazia a Coalizão a vitória contra a União e Aliança nefastas. Talhando um caminho pelos guardas, Dastan abatia o Magistrado gordo, pondo um fim no arquiteto da queda de Sanshu. Com machado em mãos, ele liderava sua comitiva contra os tolos mal orientados, ficando ao lado de heróis como o Capitão da Guarda Jianghong, XiaoGong… e Yo Ling? 

Não, isso não estava certo. Yo Ling, o Espectro dos Algozes da Baía, bandido e assassino, não era um herói do Império. 

Nem Dastan Zhandos.

Acordando um susto, a revelação quase o esmagando enquanto desespero e arrependimento enchiam seu ser, lamentando suas decisões imprudente. Ele sabia que algo estava errado, mas se recusou a parar e pensar, seguindo ordens como um bom soldadinho. Major XiaoGong era seu ídolo, um guerreiro disciplinado que ele aspirava imitar, um nobre a classe dominadora que não maltratava aqueles abaixo de si. Sob a orientação de XiaoGong, Dastan se elevou a excelência, evitando os ensinos tradicionais por práticas mais radicais, como tirar força da fúria justa e se entregando a Iluminação. Pois servir sob XiaoGong era o sonho de Dastan, ficar ao lado de seu herói para acabar o estado presente das coisas e, eventualmente, destronar o Imperador. 

E, então, XiaoGong traiu a todos eles, sucumbindo a tortura antes de se tornar um Demônio. 

A memória assombrava Dastan enquanto ele estava na cama, lembrando seu herói no palco com braços acorrentados atrás das costas. O servo humilde de Fung se aproximava do pilar, sua sacola de ferramentas tinindo no mesmo tempo de seus passos. Sem mais delongas, o trabalho cruel começou e Dastan fechou seus olhos, incapaz de aguentar a visão horrível, mas os gritos… parecia que foram horas com XiaoGong resistindo da melhor forma que podia, mas seus gritos estrangulados de dor logo se tornaram uivos de vingança enquanto o herói de Dastan se tornava algo menos humano. Clamando morte e destruição, ele cuspia veneno odioso enquanto o torturador continuava seu negócio, cada palavra martelando pregos no coração de Dastan. 

Então, a multidão arfou e Dastan abriu seus olhos bem a tempo de ver um vislumbre do sorriso feroz de seu ídolo. A carne de XiaoGong se rasgou por debaixo do que restava de sua pele, se transformando em algo… profano. Uma onda de malevolência pura explodiu do Corrompido torturado, uma Aura maligna de puro ódio, anátema a tudo que era bom. 

E assim, um Demônio nasceu. 

Só para morrer nas mãos do servo humilde do jovem magistrado de Shen Huo.

Uma batida na porta assustou Dastan, pulando de sua cama para pegar sua arma. Percebendo o absurdo, ele deixou sua arma de lado e tentou controlar seu corpo tremendo, engolindo seco antes de perguntar, — Quem é?

 

— Rain.

 

Foi necessário alguns momentos para realidade se estabelecer. Sabendo que era ruim manter seu novo mestre esperando, Dastan correu para abrir a porta. Carregando duas tigelas, Falling Rain sorriu nervoso e disse, — Eu trouxe jantar. Está na hora de nós conversarmos, mas isso pode esperar até comermos. 

Enquanto Falling Rain trazia as bandejas para dentro, Dastan olhou para fora da janela a fim de ver o sol se pondo. Se movendo para a mesa de chá, ele percebeu tarde demais que ele deveria ter pego as bandejas de seu novo Mestre, mas Rain não parecia notar ou ligar. Sentado na frente dele, Rain gesticulou para ele comer. Uma tigela de macarrão com carne assada, delicioso e aromático, com alguns acompanhamentos e um pequeno pote de álcool, de novo, era uma refeição melhor do que Dastan esperava. 

Ou merecia. 

— Por que? — A pergunta escapou, incapaz de segurar suas curiosidade. — Por que me tratar tão bem? O quarto bom, a comida boa, a conversa educada, você pode muito bem tocar uma música para uma vaca. Eu sou seu escravo. Não há necessidade de fazer tudo isso.

Levantando uma sobrancelha, Rain disse, — Nada de errado tocar uma música para um vaca. Todas as vacas amam música, assim como todos os humanos amam comer. Além disso, não é nada de especial. Eu como o que meus soldados comem, então não seja tímido. Ou você está chateado por ser tratado bem?

 

Abaixando sua cabeça em vergonha, Dastan respondeu, — Minhas desculpas Mes… Chefe. Este mero escravo não quis ofender. 

— Não estou ofendido e, por favor, sem essa merda de “mero escravo”. Eu não consigo lidar com mais um. Fale normalmente.

Hesitando, Dastan assentiu. — Como você comanda, mas eu devo aconselhar, fazer isso em público pode levar outros a te subestimarem, Chefe. Um escravo é um escravo e sempre deveriam conhecer seu lugar. 

Suspirando, Rain desdenhou. — Tudo sobre honra. Estúpido. Tanto faz, quem liga. Se te incomoda tanto, então aja como um subordinado, mas não como um escravo. 

— Sim, Chefe.

Eles comeram o resto da refeição em silêncio e muito antes, Dastan sentava na frente de seu novo “Chefe” enigmático. Incerto de como agir, ele se contorcia no lugar enquanto Rain bebia sua tigela de sopa, terminando com um suspiro contente. Na luz diminuindo do dia, a satisfação de Rain durou apenas um momento enquanto ele estudava Dastan, uma expressão melancólica aparecendo em seu rosto. Por que motivos ele estaria deprimido? Não foi ele que foi feito um escravo. 

Limpando sua garganta, Rain começou a conversa. — Bom, sem sentido adiar o inevitável. Verdade seja dita, eu não sei o que fazer. Eu odeio escravidão e não quero ter escravos. Eu não posso te libertar, mas se você tiver alguém que você confie, eu poderia, éee… Te entregar. 

— Não! — Sua insistência assustou Rain, Dastan acalmou seus nervos e tentou de novo. — Por favor Mes… Chefe, eu só concordei com o Juramento depois de garantir que você seria meu Mestre. Eu queria fazer o juramento diretamente na sua presença, mas se eu tivesse esperado mais, meus pais teriam sido executados.

Piscando em surpresa, Rain perguntou, — Você me escolheu? O administrador fez parecer que você foi um presente do Magistrado. 

Dastan bufou. — Ele iria, o político pegajoso buscando vantagem onde quer que possa. — Controlando sua raiva, ele respirou fundo e reuniu seus pensamentos. Tratar o Magistrado com hostilidade aberta não o traria vantagem, considerando que ele sabia nada como Rain se sentia sobre aquela víbora. — Se não fosse pela minha família e as famílias dos meus soldados, eu teria aceito a morte com alegria, mas minha família… Eu não podia deixar eles morrerem uma morte horrível por causa dos meus erros. Sem sua proteção…

Deixando seu assento, Dastan se moveu ao redor da mesa e caiu de joelhos, pronto para se prostrar em busca da misericórdia de Rain, mas uma única palavra o parou no lugar. — Pare, você não precisa se ajoelhar. — Ajudando ele a voltar ao seu assento, Rain caiu em sua cadeira e suspirou. — Você está pedindo muito. — Incapaz de responder, Dastan manteve silêncio. Rain era um homem esperto, percebendo que se ele abandonasse Dastan e suas pessoas, era o mesmo que já enforcar todos eles. 

Seria uma misericórdia. 

Depois de um momento de silêncio, Rain suspirou de novo. — Eu não posso confiar nas suas pessoas. Você pode ser preso pelo Juramento e capaz de mostrar Pureza, mas e se suas pessoas forem maculadas? Se eu trazer vocês de volta para minha vila e o substituto da Picanço decidir Purificar todos envolvidos nessa guerra, então eu vou estar trazendo calamidade para o meu povo. 

— É parte do plano do Magistrado.

Vendo o franzido no rosto de Rain, Dastan segurou sua língua, mas Rain rapidamente completou o quebra-cabeça. — Ah. Ele está esperando que quem for vir da próxima vai pensar duas vezes sobre Purificar Sanshu, já que significaria que eles teriam de purificar os Bekhai. 

Era bom falar com uma pessoa competente. Os Bekhai não eram selvagens, não importava o que qualquer um dissesse. — Não apenas os Bekhai. Eu apostaria que o Magistrado irá dar presente escravos para Situ Jia Zian, Tong Da Fung, Han BoShui, Jin ZhiLan, Major Yuzhen e qualquer um que possa tirar a bunda dele do fogo. — Incapaz de esconder informação que possa ferir seu Mestre, Dastan adicionou relutantemente. — Apesar de ser provável que todos esses escravos serão mortos antes de sair da cidade. Os riscos são muito maiores que os benefícios e todos irão querer se distanciar de Sanshu. 

Rain suspirou novamente, esfregando seus olhos com sua mão. Depois de uma pausa longa, ele olhou Dastan nos olhos e perguntou, — Por que você se rebelou?

— Porque eu acreditava que os fins justificavam os meios. O mundo que vivemos está quebrado e alguém precisa consertá-lo. Eu nunca fui de só ficar sentado e deixar outras pessoas agirem no meu lugar. A Coalizão era uma parte do problema, mas Major XiaoGong era diferente. —Vacilando na menção de seu antigo herói transformado em Demônio, Dastan continuou, — Ou pelo menos, eu pensava que ele era diferente. Eu não sabia do conluio com Yo Ling até nós estarmos fora das muralhas de Sanshu. Eu fui dito que a Coalizão estava usando Yo Ling para limpar a imundice de Sanshu e, pelas ordens deles, eu expus o flanco esquerdo para o exército Corrompido. A ideia era afastar os elites de Yuzhen e impedi-los de interferir, comprando tempo para as forças da Coalizão dentro de Sanshu limparem ambos Yo Ling e as forças do Magistrado. Então, eles colocariam XiaoGong como próximo Magistrado e… Bom, eu não estou certo.

— Você faz isso parecer tão inocente, mas você matou soldados do Império. Você quase matou meu amigo.

Engolindo seu suspiro, Dastan era culpado. — Sim, eu o fiz. Mas eu tentei me esconder e matar o mínimo possível, eu fui forçado a agir quando Major Yuzhen enviou ordens para eu me reagrupar. Eu não tive escolha além de atacar, para que minha ausência fosse notada e o buraco nas defesas deles notados. Antes da batalha, eu avisei Fung que ele devia fugir caso as coisas dessem errado, então eu esperava que algumas lutas o mandariam correndo, mas ele ficou e lutou até o último homem. Descobrindo meu envolvimento, ele chamou meu nome, exigindo me encontrar em combate, então eu o fiz. — Quase morrendo no processo. Apesar dele odiar admitir isso, Dastan não facilitou as coisas para Fung e se não fosse pelo servente/torturador revelando sua presença, ambos teriam se matado no campo em destruição mútua. 

Perdido em pensamento, Rain se sentou em silêncio por vários minutos, deliberando o destino de Dastan e suas pessoas. Depois de uma eternidade esperando, Rain balançou sua cabeça e o coração de Dastan parou. — Eu posso usar você e sua comitiva, mas eu ainda não posso confiar nas suas pessoas. Talvez se meu… Se coisas mudassem e eu tivesse certeza de que eles não possuíssem mácula, então eu poderia argumentar para trazê-los para longe, mas do jeito que as coisas estão, é perigoso demais. Eu tenho que responder a minha Grande-Mentora e ela não é uma mulher para se ofender com leviandade. 

Tremendo no lugar, Dastan forçou as palavras pelo nó em sua garganta. — Você será misericordioso?

— Eu não assinei a morte deles ainda. Vamos deixar isso como um último recurso. Vai levar uma decana ou duas até nós estarmos em condição de viajar, então eu ainda tenho tempo para pensar. — Se levantando, ele deu de ombros e adicionou, — Quem sabe, talvez nós teremos sorte e a decisão sairá das minhas mãos. — Indo para cama, o alívio de Dastan rapidamente se transformou em apreensão. Falling Rain pretendia dormir aqui? Com ele? Olhando para sua escolha em mulheres, os gostos de Rain variavam ferozmente, talvez ele até gostasse de homens.

Ah doce Mãe tenha misericórdia, meu crisântemo está em perigo…

— Sente-se na cama. — Incapaz de resistir o comando de Rain, Dastan fechou seus olhos e esperou. Pegando a mão de Dastan, Rain ficou em silêncio pelo que parecia uma eternidade enquanto o coração de Dastan martelava em seu peito, seu estômago ameaçando esvaziar todo seu jantar em seu novo mestre. Depois de um momento longo, Rain soltou sua mão e estalou sua língua e murmurou. — Gota imprestável do caralho…  Não faz porra nenhuma. Acho que eu vou ter que esperar por confirmação…

Levou algum tempo até Dastan reunir coragem o bastante para abrir seus olhos, soltando um suspiro de alívio enquanto assistia Rain estudando a besta, seus olhos âmbar arregalados com intriga. Testando a tração da corda, ele perguntou, — Fung me disse que essas coisas eram poderosas então como a puxada na corda é tão leve?

Grato que seu crisântemo foi poupado, Dastan se apressou em explicar os pontos mais finos da besta. — Essa arma é o resultado de décadas de teste, com muitas melhorias não encontradas em mais nenhum lugar. A haste contém um sistema de polias fazendo com que puxar a corda seja mais fácil sem afetar negativamente seu poder. 

— Polias, por que eu não pensei nisso… Idiota.

— A corda em si também é especial, feita com os tendões da perna de gatos selvagens. — Vendo o horror nos olhos de Rain, Dastan se lembrou dos bichos felinos de preguiça lá fora e continuou com pressa. — Há outras escolhas melhores, como coelhos de briga ou cervo chifrudo, mas não é só os tendões que fazem a corda especial. Eles são reforçados com as penas de um pássaro exótico nativo da província sul, adicionando poder e durabilidade. Há mais que isso, mas eu não sou um expert.

— Quanto eles custam? Parece que demora muito para encomendar penas.

— Nós pagamos quase nada pelas penas. — Estufando seu peito com orgulho, ele explicou, — Há um mercador na Coalizão que coleciona pássaros exóticos e as penas deles frequentemente caem nas ruas. Meu tio descobriu as penas por acidente e nós coletamos penas o bastante para fazer centenas de bestas. Você também pode clamar os pássaros se quiser, o dono deles está morto ou logo vai. Havia mais de vinte pássaros da última vez que eu cheguei. — Apesar de serem criaturas lindas, Dastan pensou que era melhor não citar o chamado estridente e chocante deles, melhor descrito como uma risada humana estranha, zombeteira e irritante.

Felizmente, Rain estava mais interessado na besta, apesar do porquê, Dastan não poder dizer. Os Bekhai ganharam muita fama devido as habilidades incríveis deles em arquearia. Depois de fazer mais algumas perguntas, Rain olhou para cima e sorriu. — Eu não sou um grande fã de pássaros, mas quem sabe. Eu não me incomodo de ter mais bichos e se eles forem irritantes demais, então talvez eles tenham um gosto maravilhoso. Vamos lá pegar eles e, então, eu quero ter uma conversa com seu tio. Ah, — Ele adicionou, — você e sua comitiva são agora meus novos guarda-costas. Reúna eles por favor, eu não me sinto seguro andando nas ruas de Sanshu a noite.

Transbordando com orgulho, Dastan saudou e correu para prosseguir com suas ordens. Talvez ainda havia esperança, com o tio de Dastan provando seu valor. Além disso, ele nunca sonhou em receber uma posição de muita honra. Qualquer um que insultasse eles estaria insultando a honra de Rain, permitindo eles a manterem suas cabeças erguidas apesar dos status deles como escravos. Apesar de ser longe do seu antigo status, Dastan estava disposto a servir para pagar por seus crimes. 

Não havia desgraça em estar lado a lado com o dragão em ascensão Falling Rain, embora Dastan Zhandos nunca fosse encontrar fama, defendê-lo e segui-lo até a grandeza. Se necessário fosse, Dastan estava disposto a desistir de seu crisântemo.

 

Não seria a pior coisa do mundo… seria?

 

Ele rezava para nunca ter que descobrir.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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