DS – Capítulo 238

Esperando no pátio enquanto Dastan reune suas pessoas, eu ralo meus miolos em busca de um novo plano. Minha ideia original de limpar mentes em busca de Espectros parou de uma vez quando eu percebi que sou incapaz de limpar quando quero. Eu nunca testei antes porque estava aterrorizado em como as pessoas reagiriam quando soubessem que eu posso literalmente mergulhar em suas cabeças, mas Dastan se tornou uma cobaia ideal. Enquanto a prática de Juramentos de escravidão é atroz, eu tenho de admitir, ela cria um subordinado útil. Contanto que eu possua o pendente, Dastan não pode trair minha confiança, então eu me preparei para mergulhar no mundo interior dele e explicar meus poderes. 

Infelizmente, as coisas não funcionaram na prática. 

Quanto mais eu aprendo, mais perguntas eu descubro. Eu não entendo como eu entro no cérebro das pessoas e não importa o quanto eu tentasse, eu não conseguia entrar no mundo interior do Dastan, o que me deixa bem onde eu comecei. Tão frustrante. Eu nunca pedi por essa macumba da mente, mas a única vez que eu tentei usar, eu caio de cara no chão. Figurativamente. Eu acho que vou esperar Baledagh acordar antes de descobrir se as pessoas do Dastan estão livres de Espectros. Até lá, eu vou dormir com um olho aberto. 

É uma puta pena. Se tivesse funcionado, então todos meus problemas estariam resolvidos. Gotinha em si não detecta Corrompidos, só liga para Demônios e mercadorias demoníacas, então eu sou forçado a depender de Baledagh mais uma vez. O problema é, enquanto a habilidade de Baledagh de encontrar Corrompidos é útil, eu teria que revelar esses poderes e convencer o substituto da Picanço da validade deles. Eu imagino que atribuir minha proeza em detectar Corrompidos a Gotinha seja uma desculpa perfeita, a única solução que eu pensei que não termina no massacre de civis inocentes. Enquanto eu não estou certo de como o Império vai reagir a notícias da Água Celestial fluindo pelas minhas veias, eu vou assumir que irá envolver alguma ameaça a minha vida, mas eu vou cruzar essa ponte quando chegar lá. Eu não tenho outra opção. Sim, eu preciso ficar mais durão, mas se daqui a alguns meses, Sanshu for Purificada e eu não fiz nada para impedir, eu nunca vou me perdoar. Com a ajuda de Baledagh, só a gente poderia salvar centenas de milhares, se não milhões, de vidas. 

Tudo que eu preciso é convencer os poderosos que eu consigo sentir Corrompidos, sem ninguém descobrir que eu tenho um alter-ego quase Corrompido de boas na minha cabeça. Molezinha.

E de novo, toda minha luta interna é inútil se Baledagh não acordar em tempo, ou se ele não for mais Corrompido, o que é uma possibilidade distinta. Quero dizer, se os Espectros forem responsáveis pelo radar de Corrompidos dele, então nós estamos mesmo sem sorte considerando que Gotinha comeu todos os Espectros nadando no meu cérebro. Eu não estou reclamando, já que eu dormiria mais tranquilo sabendo que Baledagh não está mais em risco de se transformar em um psicopata doido, mas eu vou ficar na merda sobre o que fazer com a bomba relógio que é a família do Dastan. 

Isso é uma mentira. A resposta é fácil, eu escolheria minha família sobre a dele qualquer dia da decana. Quero dizer, caso o pior venha a acontecer, se Gotinha for revelado, eu vou me jogar na misericórdia do Imperador e me tornar seu cachorro para manter minha família a salvo, mas ordenar a morte de inocentes… Ninguém pode me proteger da minha consciência. 

Eu ainda tenho tempo para descobrir o que fazer. Eu não entendo, por que eu não posso olhar dentro da cabeça das pessoas? Eu fiz isso antes, com Dagen, Bei e Yo Ling, então por que não a do Dastan? Dagen estava sendo mentalmente atacado por um Demônio, Bei era um Demônio e Yo Ling… Controlava Demônios? É isso? Eu só posso entrar na mente de Demônios ou daqueles afligidos por eles? É por isso que Gotinha me escolheu, como um transporte para entregar almas demoníacas deliciosas para ele?

Serviço de delivery de Água Celestial do Falling Rain. Ha. 

Foco… Yo Ling não era um Demônio ou aflingido por eles, então como eu invadi sua mente? O que torna ele diferente de Dastan? Eram os seis humanos com colares no cérebro do Yo Ling? Gotinha foi direto neles, tratando a multidão de Espectros nos cercando como um mero acompanhamento. Seis humanos com colares no cérebro de Yo Ling, seis Demônios sob seu comando… É como Yo Ling os controlava? Roubando as almas dos seus hospedeiros e ameaçando a existência de cada Demônio?

Nem fodendo que eu sei. Tô chutando aqui fazendo insinuações demais porque eu não tenho informação o suficiente. Por que isso é tão complicado? Eu sempre li sobre protagonistas com mentores velhos, sábios como companheiro espiritual, mas nesse caso, eu sou o velho mentor sábio. 

Baledagh realmente foi enganado pela minha chegada. 

Ouvindo a aproximação de Dastan, eu guardo meus pensamentos para avistar a chegada de sua comitiva. Oprimido pelo anúncio do administrador, eu não consegui dar uma boa olhada neles mais cedo, mas eu devo admitir, eles são bem impressionantes. Costas retas e cabeças erguidas, seus passos fazem o chão tremer enquanto eles marcham em sincronia, dois a dois com armas prontas. Como um maestro estabelecendo o ritmo para sua orquestra, Dastan estabelece o passo para sua comitiva, seu rosto batido brilhando com orgulho enquanto ele os lidera em minha direção. Seguindo seus gestos com as mãos, eles se espalham em formação, cinco colunas com dez homens cada, olhando para frente até todos estarem no lugar e, então, todos ajoelham com um joelho para cima, curvam suas cabeças e juntam suas mãos em saudação. Como um, eles gritam, — Esperando ordens, Grandioso. 

Eu realmente não devia ficar intimidado pelos meus próprios guardas. Tecnicamente escravos, mas chamar eles de guarda-costas me faz sentir melhor com a situação toda. Idiotice e sem sentido, mas todos nós fazemos o que precisamos. — Por favor se levantem. — Eu digo, me aproximando de Dastan. Apesar de seus pés permanecerem no lugar, o antigo Subtenente se inclina para longe da minha aproximação, me fazendo me perguntar se estou cheirando mal. Provavelmente, considerando que eu gastei a tarde toda deitado com quins e o… almíscar único deles, leva um tempo para se acostumar. Respeitando seu espaço pessoal, eu paro na distância de um braço e dou um sorriso. — Impressionante, mas eu prefiro manter as coisas discretas. Não precisam marchar, se ajoelhar ou gritar. 

— Pelo seu comando. — Dastan responde, evitando meu olhar. O que aconteceu? Durante o jantar, ele não tinha problema em olhar nos meus olhos, mas agora ele age como uma garotinha assustada. O fardo da liderança, eu imagino, não agir amigável demais com seus soldados. Eu acho que fui mimado pela minha primeira comitiva, tendo forjado um senso de camaradagem com eles quando eu era um ninguém. Apesar de eu ser tratado com respeito, eles nunca ficavam tensos perto de mim a menos que eles estivessem quebrando as regras, sempre feliz em dividir uma birita ou contar uma piada. 

Eu não perdi só soldados, eu perdi amigos. 

Olhando para os substitutos deles, eu sou subjugado pela melancolia e culpa. Quarenta e nove guerreiros, cada um com um escudo, besta e uma ou duas armas da escolha deles. Totalmente desarmados, eles vestem roupas de serventes marrons ou cinzas simples varridas dos closets da mansão, embora, provavelmente, eles pareceriam ferozes vestindo trapos. Com quatorze Armas Espirituais entre eles incluindo a de Dastan, é um mundo de diferença comparado com a minha ralé de antigos aleijados que trouxeram um total de zero, a diferença entre plebeus e elites. 

No fundo do grupo estavam algum camponeses, amontoados em torno de um homem calvo e corpulento. Olhando em questionamento para Dastan, ele chama o homem calvo para frente e diz, — Grandioso, este aqui é meu tio. A viagem vai levar tempo, então eu pensei que seria prudente trazê-lo conosco. Os outros são artesãos que podem ter discernimentos para adicionar.

Tenho que dizer, eu gosto uns tecos de ser chamado de “Grandioso”. — Parece bom, vamos sair. — Pelo menos, Dastan não está sendo idiota e só cumprindo minhas ordens ao pé da letra, mas as coisa podem mudar se eu ordenar que sua família seja executada. Olhando pela varanda, as famílias dos meus novos guardas assistem com medo em seus olhos, amontoados juntos em busca de conforto. Ignore eles, não se apegue. Não importa se eles são inocentes, não importa se eles são crianças. Se eu não puder trazer eles comigo, então eu preciso ordenar a morte deles. 

Seria uma misericórdia. 

Eu odeio isso aqui.

Com Dastan em comando dos meus guardas, eu saio da mansão pela primeira vez desde que cheguei, saindo com Lin no meu braço. Li Song segue atrás com os gatos selvagens e filhote de urso em fila enquanto minha adorável e dando beicinho Mila clama minha outra mão livre e me dá a honra de um olhar severo. — Lembre-se, nós só estamos pegando os pássaros porque você precisa das penas deles. Você já tem bichos o bastante. 

Dando um sorriso para ela, eu ignoro seus avisos enquanto finjo ouvir o discurso dela. Eu não ligo, eu sou rico, posso ser excêntrico. Eu quero mais bichos e que se fodam as consequências. Um cachorro seria legal, apesar de eu duvidar que encontraria um em uma coleção de animais exóticos. Eu não pedi por detalhes, porque eu prefiro ser surpreendido, mas eu espero que haja algo fofo e abraçável para eu amar e apertar. Assistindo Aurie passeando ao meu lado, seu sorriso de queixo caído traz um sorriso em meu rosto. Apesar de eu amar ele e os irmãos dele, eu seria o primeiro a admitir que eles não são os animais mais bonitos. Com uma cabeça pequena demais para o torso deles e um corpo pesado, eles parecem estranhos na luz do dia e pior na luz de uma lanterna. Enquanto os atributos deles os tornam predadores de tocaia temíveis, a aparência deles está seriamente em falta, como caricaturas mal desenhadas e desajeitadas feitas por alguém que nunca viu um gato de verdade. 

Mentalmente me desculpando com meus gatinhos feios, eu decido amar todos eles do mesmo jeito, não importa quantas lindezas fofas, de pêlo macio, de olhos grandes, adoráveis que eu adote. 

Enquanto Mila dá uma pausa do sermão, eu me viro para cumprimentar o tio de Dastan. — Olá, eu sou Falling Rain. Essas duas são minhas noivas, Lin e Mila e esta é nossa amiga, Li Song.

Felizmente, o ainda a ser nomeado tio de Dastan entende a deixa, respondendo com um áspero, — Diyako. — Depois de dizer seu nome, sua mandíbula se fecha com um estalo audível, não se incomodando em introduzir seus companheiros. 

Pelo menos eu espero que seja seu nome e não algum insulto colorido em outra língua. — Prazer te conhecer. Dastan me disse que você ajudou a desenhar as bestas?

— Sim. 

— Então você é um fabricante de arcos?

— Não. 

— Então… Um carpinteiro?

— Não. 

Notando minha frustração, Dastan intervém. — Por favor perdoe ele, meu tio é um homem de poucas palavras Tio, conte ao nosso novo Chefe sobre seus antigos deveres. 

— Por que? — Me dando um olhar de desdém, Diyako levanta seu queixo em desafio. — O selvagem sedento por sangue vai nos entregar para seu carrasco de todo jeito. Nada que eu diga vai mudar sua mente. 

Parece que eu subestimei o pequeno assunto da minha reputação horrível. Já que não há sentido em bancar o cara bonzinho, eu posso muito bem ir com a onda. — Eu não posso prometer que vou te salvar, mas se você for valioso, então eu posso ficar mais motivado a tentar. — Vendo seu desinteresse, eu tento algo diferente. — Eu até que gostei das suas bestas, apesar das muitas falhas. 

— Hmph.

A bufada pode ser desdenhosa, mas eu sei que tenho sua atenção. O melhor jeito de pegar esses artesãos é criticar o trabalho deles. Passando Lin para Mila, eu pego a besta de Dastan como um suporte. — Enquanto o mecanismo de puxar e os materiais da corda sejam inovadores, a estrutura básica da besta deixa muito a desejar. Como esse gatilho por exemplo, uma alavanca de metal paralela à haste. Por que é tão longa? Você está me dizendo, para abaixar essa alavancazinha aqui por um único centímetro, eu tenho que abaixar essa abominação de um gatilho quase cinco centímetros? É ridículo. — A alavanca chia enquanto eu demonstro, continuando antes que Diyako tenha uma chance de se defender. — E mais, você não pode deixar dedos entre a haste e o gatilho, porque se você fizer, a alavanca não vai abaixar o bastante para soltar. Isso te impede de manter uma pegada firme enquanto atira e pior de tudo, te força a tirar do quadril ao invés de apoiar a haste contra seu ombro, o que ofereceria melhor precisão. Há mais, mas o gatilho sozinho é o bastante para desqualificar isso aqui. É uma peça bacana, mas eu apostaria que seu criador nunca atirou com uma besta de verdade. 

Franzindo com minhas palavras, Diyako franze seus lábios, encarando a besta em pensamento. Ao seu pedido não verbal, eu passo a besta enquanto ele experimenta por si só, antes de passá-la e discutindo com seus companheiros em tons calados. 

— Colocar o nível mais para cima, perpendicular…

— … nível com mola, volta direto para o lugar…

— … apoiada no ombro, não vai precisar se preocupar tanto como recuo…

Depois de alguns minutos de discussão quente, Diyako retorna a besta antes de assentir em concordância. — Você tem bons pontos. Desculpe pelo meu desrespeito. — Seus olhos queimando com interesse e esperança enquanto ele introduz os outros. — Nós somos funileiros por assim dizer. Nós temos todo tipo de habilidades, com madeira, metal, vidro e tudo mais. Eu suponho que você possa dizer que nós consertamos coisas que não estão quebradas, tornamos elas melhores.

— Você desenhou as catapultas? — Quando ele acena, minha mente se enche de armas de destruição em massa montadas em quins, fazendo chover morte em meus inimigos de longe. Ah não… Eu preciso dessas pessoas. Eles são pensadores, resolvedores de problemas, um cérebro que eu posso confiar para descobrir todas as coisas estúpidas que eu lembro, como papel, concreto e pólvora, motores a vapor, telescópios e aquelas malditas fivelas em mochilas.

Tá, não vamos se precipitar. Calma, eu não posso garantir a vida deles ainda, não ainda. Depois de mais algumas perguntas, eu escondo minha animação enquanto eu corro e volto para Mila e Lin. Minha garota coelhinha me dá um sorriso triste, mas mantém silêncio e Mila segue o papel, seus olhos falando muito. Eu entendo a preocupação delas, mas eu não consigo me parar. Eu finalmente tenho a chance de pôr em bom uso minhas experiências da vida passada, sem tirar meu tempo do meu treinamento. 

Terceirização é uma coisa maravilhosa. 

Ainda sonhando com as possibilidades sem fim, nós chegamos no nosso destino sem enrolação. Apesar dos guardas da cidade não estarem muito felizes em ver Dastan e a comitiva dele, suas atitudes dão um giro de 180° quando eu pego minha nova insígnia de jade de gravura prateada. Feliz em obedecer, eles abrem as portas sem problemas, apesar deles mandarem alguém para notificar os oficiais administradores. Eu não ligo, eles estão fazendo o trabalho deles e no pior dos casos, eu vou pagar por todos os animais que eu adotar. 

Familiar com o lugar, Diyako lidera o caminho, minha antecipação crescendo enquanto nós seguimos o corredor com chão pavimentado com rochas em direção a uma linha de gaiolas. Uma cacofonia de grasnidos e chilros nos cumprimentam enquanto eu abro minhas orelhas, ouvindo em busca dos sons felizes dos meus novos amigos peludos. E esperando. E ouvindo. 

… onde estão os rosnados? Os uivos? Os latidos e os chiados? Tudo que eu ouço são sons de pássaros. 

Descendo o corredor, eu passo de gaiola em gaiola cheias com todo tipo de pássaro, se agitando em um frenesi de cores e som. Lindos como eles são, eu não sou muito fã de pássaros. Um, eles são deliciosos e eu não posso amar algo se eu pensar nisso como comida. Dois, a maioria dos pássaros tem aqueles olhinhos estranhos e lustrosos, sempre abertos e incapazes de expressar emoções. Então, há o projétil de cocô e eu não preciso explicar por que isso é algo negativo.

Enquanto ainda estou procurando a seção de mamíferos, Diyako para na frente de uma gaiola, apontando para a fonte das cordas das minhas bestas futuras. Esbanjando um corpo gordinho e encorpado, garras afiadas e curvas e bicos longos e pontiagudos, esses pássaros são sem sombra de dúvida predadores, um chute ainda mais confirmado quando eles sentam em seus poleiros nos olhando em silêncio, tranquilos pela nossa aparência. Do tamanho de um falcão, suas asas são em maioria marrons com um salpico de azul, com um pouco de marrom e branco em cima de suas cabeças, como um caso ruim de cabelo matinal. Barriga branca e maravilhosamente macios, eles são bem fofos para pássaros, apesar de maiores do que o esperado. 

Eu ainda não estou super animado com eles, mas está tudo bem. Eles são recursos, não companheiros. Pondo a mão na minha bolsa, eu pego um pedaço de peixe seco e coloco contras as barras enquanto preparo minha Aura. Os pássaros todos olham a comida, provavelmente com fome desde que seus cuidadores todos foram levados em custódia. Escolhendo o pássaro mais gordo e fofo do grupo, eu estendo minha Aura ao redor dele, transmitindo um sentimento de amor e companheirismos para seduzi-lo. 

— Éee, eu não faria isso — Diyako dá voz a sua preocupação enquanto eu coloco minha mão dentro da gaiola, mas eu dispenso isso, concentrando na tarefa em mãos. Usando Aura para outras emoções requer muito mais concentração  do que o normal, incapaz de cobrir dois seres vivos ao mesmo tempo, em vez da falta de limite aparente da Aura normal. Se eu conseguir que o pássaro maior, mais gordo fique do meu lado, então os outros teoricamente vão seguir junto. Depois de inclinar sua cabeça para direita e esquerda algumas vezes, o pássaro gordinho voa para um poleiro mais perto, ainda fora de alcance. Pulando de um apoio para o outro, ele olha para mim e para a comida várias vezes, indisposto a chegar na distância de um braço. Me abaixando, ele parece pelo menos três vezes mais fofo de perto, seu peito e crista eriçados, parecendo um pássaro adoravelmente com raiva. Cuidadosamente estendendo meu braço, o peixe entra mais fundo na gaiola, mas ainda, o gordinho não se move. 

Itiii, não fique com medo passarinho. Está tudo bem. Eu só vou te dar alguns peixinhos. Você gosta de peixinhos, certo? Venha aqui e pega os peixinhos, então eu vou te dar carinho e te amar. Vá laaa, não seja tímido. 

Quando meu braço está totalmente estendido e na metade da gaiola, o pássaro gordo voa e pega o petisco da minha mão, pousando na minha palma para comer. Comendo o peixe em meros segundos, o pássaro voa em um pequeno círculo  antes de me olhar no olho. Itiii, que fofo, eu acho que vou te chamar de Roc, como o pássaro mític…

Se soltando com um grasnido profano, Roc bica meu pulso, arrancando um pedaço de carne. 

Na cultura aviária, isso é considerado um movimento cuzão. 

Chiando de dor, eu puxo minha mão e encaro o pássaro enquanto ele engole minha carne e se afasta. Virando sua cabeça de volta, Roc abre seu bico e solta uma risada zombeteira parecida com a humana, me dando um calafrio na espinha. Mas que porra… Isso é um humano em forma de pássaro? Isso é possível?

— Eles são pequenos malditos maldosos. Espertos também. É um verdadeiro pesadelo pegar as penas deles. — O sorriso de Diyako não ajuda meu orgulho, mas eu só posso me culpar. 

Bom, pelo menos, eu aprendi uma lição valiosa. Minha Aura, embora capaz de transmitir emoções, não é um método para domar bestas poderoso como eu imaginei. Enquanto eu posso usar isso para deixar o animal saber que eu sou amigável, isso não os faz amigáveis também. Melhor aprender agora com os passarinhos do que mais tarde com lobos grandes. Ordenando os soldados de Dastan para colocarem a gaiola no vagão, eu me viro para Diyako e pergunto, — Então, onde estão os outros animais?

— Outros animais?

— Você sabe, os lobos, tigres, elefantes e tudo mais. Algo com pelo, embora nesse ponto, eu até aceito escamas. 

— Nun tem pêlos ou escamas para se encontrar aqui. — Ele responde. — Isso aqui é um aviário. 

Sangue se esvai do meu rosto enquanto eu repasso minha conversa com Dastan. Ah, ele disse “coleciona pássaros exóticos”. Eu fiquei animado demais e ouvi o que eu queria. Sem cachorrinho fofo ou coelhinho macio para mim… Engolindo meu desapontamento, eu engulo um soluço enquanto Roc e seus companheiros continuam rindo, como se zombando dos meus sonhos arruinados com companheiros peludinhos. Me inclinando para afagar a cabeça de Aurie, o gato selvagem doce ronca em agrado, trazendo calidez ao meu coração. Está tudo bem, eu tenho meus gatinhos e ursos e eu sempre posso encontrar outros bichos adoráveis. 

No caminho para sair, eu peço os guardas para encontrar alguém para alimentar os pássaros ou libertá-los. Apesar do meu ódio crescente por pestes aviárias, pelo menos, eu posso impedir que algo em Sanshu morra de forma lenta e agonizante. 

 

Não é muito, mas é o melhor que eu posso fazer. Por agora. 


Inspiração do autor para Roc, em toda a sua benevolência pomposa

Olha pra esses olhos sem alma…

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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