DS – Capítulo 25

Akanai estava de bom humor. Uma batalha fácil, para fortalecer os cadetes. Se apenas toda primeira batalha fosse assim, temperando lentamente, ao invés de ir direto para a verdadeira prova. Não houve casualidades, feridas pequenas exceto por um ferimento sério na perna. Tokta resolveu aquilo sem problema algum. Um bom treinamento de combate. Difícil planejar um melhor.

A caravana foi embora depois de remover os cadáveres da estrada. Os bandidos sobreviventes foram presos, para serem levados com eles até Shen Huo. Aos bandidos com ferimentos mais sérios, foram oferecidos duas escolhas: morrer ao lado da estrada, ou com uma adaga no coração. Os mortos iriam alimentar os carniceiros. Eles viajaram até o anoitecer, se divertindo depois do conflito. Os cadetes foram bem treinados, uma boa leva. Ela assentiu para si mesma. Suas noções básicas foram ensinadas por Alsantset, então refinadas por Tokta.

Ela sentou em uma tora ao redor de sua fogueira, com o braço ao redor de seu marido. Ela permitiu de má vontade que fogueiras fossem acesas. Enquanto eles tinham repelido o ataque mais cedo, sempre havia chance de que os bandidos iriam se reagrupar e atacar novamente, mas os cadetes precisavam de luz, para recuperar sua calma. Eles iriam precisar de vigias para avisar em caso de ataque. Se isso seria provável de acontecer, dependeria do quão leais os bandidos eram. O idiota na pele do lobo era seu líder, Zhong Shan. Um cara desagradável, gritando sobre morte e retribuição até que ela amordaçou e espancou ele.

O menino sentou silencioso, cuidando do fogo. Ele cozinhou para eles um delicioso ensopado, com alguns pães da viagem. Suas habilidades culinárias eram melhores do que o esperado. Ela assistiu ele cutucar o fogo, sem propósito, perdido em seus próprios pensamentos. Não era o mais sociável dos meninos, mas ela podia se relacionar. Sumila estava fora com seus amigos cadetes. Ela não era uma cadete, mas tinha muitos amigos.

— Menino. Você parece pensativo. No que está pensando? — O marido dela, sempre começando conversas.

O menino olhou para cima e sorriu.

— Nada em particular.

— Primeira vez matando? — Akanai falou, em um tom mais áspero do que o planejado. Ela não tinha paciência para tolos de coração mole.

Os olhos do menino se endureceram. Aí está aquele fogo nele.

— Não. — Ah, claro. Tinha escapulido da mente dela. — Eu só estava me perguntando por que os bandidos atacaram. Sua emboscada tinha claramente falhado. Eles só avançaram sobre um grupo fortemente armado sem qualquer tipo de plano. Mesmo se não lutassemos, todos nós tínhamos montarias. Eles não poderiam capturar a todos. Foi estupidez.

Husolt riu ao ouvir a pergunta do menino.

— Claro que parece dessa forma para você, menino. Mas pense na perspectiva deles. 50 guardas, com homens e crianças na sua retaguarda, encarando quase 400 bandidos. Eles pensaram que nós iríamos molhar nossas calças apenas com seus números, emboscada ou não. Ou nós os enfrentamos e morremos, ou nós corremos e eles tentam de novo outro dia. Não são o tipo mais inteligente.

O menino fechou a cara.

— Mas eles tinham que ter visto que nós estávamos bem armados, e que todo guarda carregava um arco. Por que eles nos presentearam se passando por alvos de prática?

Akanai balançou sua cabeça. O menino era ignorante.

— Eles não sabiam que estavam dentro de nosso alcance. Para eles, nós parecíamos estar carregando arcos curtos, com um alcance de menos de 150 metros. Mesmo se matássemos alguns, isso só significaria mais comida para o resto. Vida é algo barato aqui fora. — Ela levantou seu arco, para que o menino o visse. — Nossos arcos são o resultado de incontáveis gerações de pesquisa e experimentação, feitos com alguns dos melhores materiais disponíveis no Império. Um arco padrão como o que você usa é feito de cinco materiais, cada um de uma fonte diferente, e iriam custar dez moedas de ouro se fossem vendidos. Isso é o bastante para alimentar uma família de plebeus por um ano, se eles forem cautelosos. — Os olhos do garoto começaram a brilhar. É melhor ele não vender esse arco. Moleque ganancioso. — Um arco como o meu é feito por encomenda para o usuário com os melhores materiais. Para criar tal arco, um nobre poderia pagar pelo menos 200 moedas de ouros facilmente, não incluindo o custo dos materiais. Mesmo se nós vendêssemos eles, não há muitas pessoas que seriam capazes de usá-los. Talvez 1 em cada 10 pessoas do império seriam capazes.

— Entendo. Muito impressionante. — O menino se sentou em contemplação silenciosa, antes de finalmente perguntar: — O que acontece com os sobreviventes?

— Os prisioneiros, — Akanai corrigiu, — serão levados perante o magistrado na cidade de Shen Huo, e escravizados ou executados. Eu não ficaria surpresa se o lobo idiota tivesse uma recompensa por sua cabeça. Reunir 400 bandidos é um feito impressionante.

O menino suspirou, com um olhar de pesar em seu rosto. Akanai estava começando a se irritar.

— Chega da sua pena. Aqueles retardados inúteis pediram para morrer, e nós os ajudamos com isso.

O menino olhou para ela surpreso, antes que se tornasse raiva. Ele respirou e se levantou.

— As mortes são uma pena, mas eles trouxeram isso sobre eles mesmos. Eu lamento pelos sobreviventes. Seria misericordioso cortar suas gargantas, ao invés de mandar eles para a escravidão. — Ele se limpou e se despediu, dizendo que precisava levantar cedo para a vigia.

— Menino. — Ele voltou a olhar para ela. — Você fala como se houvesse uma escolha. Aqui fora, o forte manda, o fraco serve. Eles são fracos, e se recusaram a servir. Então nós os forçaremos. Cortar suas gargantas não tem propósito. Aqui não é um lugar tão gentil como lá na vila. — Akanai dispensou ele balançando a mão. Muita empatia, muito mole algumas vezes. Enlouquecedor.

— Melhor morrer livre do que viver como um escravo. — O menino foi se afastando, irritado.

Akanai bufou. E ainda por cima um romântico.

— Onde há vida, há esperança. Melhor viver como um escravo, do que morrer como um idiota. — De todas as pessoas, ela pensou que o menino teria aprendido este conceito simples. Suas palavras o fizeram parar, mas apenas por meio passo. Ele continuou em seu caminho. Um jovem triste, com um passado assombrado, Akanai tinha pena dele. Uma vida triste para Mila, se o marido dela sucumbisse à sua raiva, ou ao desespero. Ela estreitou os olhos ao pensamento. Talvez ela deveria convencer ela a se distanciar do menino. Entretanto, isso pode empurrar ela ainda mais para ele. Ela suspirou profundamente, incomodada por seu dilema.

O marido a beijou na testa.

— Deixe a natureza seguir seu curso, Velha Esposa. Ele é um bom menino. As crianças farão suas próprias decisões. Pequena Mila pode nem ao menos gostar dele.

Akanai sorriu para o marido tolo dela.

Eu volto para a tenda que eu estou dividindo com outros dois cadetes. Uma coisa minúscula, eu ainda não aprendi como levantar essa coisa. Entrando em meu colchonete, eu me enrolo, abraçando meus joelhos. Eu sinto falta da minha cama. Dormir em um cobertor não é muito diferente de dormir no chão. Eu odeio pra caralho isso.

Sumila parece uma garota doce e normal. Como ela ficou assim com aquela bruxa que ela chama de mãe é incompreensível. Sumila não aparece afetada pela batalha, rindo e contando piadas com os amigos dela. Todos eles são feitos de coisas mais duras do que eu, eu acho. A matança não me incomoda muito. É a razão por trás dela. Vale a pena ser um bandido aqui fora? Eles não pareciam bem alimentados, nem ao menos estavam bem armados. Por que não aprender um ofício, ou ser um fazendeiro? Caralho, eles podiam se juntar ao exército. Pelo menos assim eles conseguiriam armas e armaduras decentes. O que leva um homem a ficar à espreita por inocentes, a escolher matar e estuprar como estilo de vida?

Por isso, eles serão sentenciados à escravidão. Ninguém merece aquilo. Deveríamos só enforcar a todos. Um nó rápido e uma queda curta.

Ao invés disso, agora eu posso me chamar de traficante de escravos.

Eu me livro das palavras de despedida de Akanai. Ela está errada. Ela nunca foi um escravo. Melhor morrer do que voltar para aquilo.

Eu fecho meus olhos e tento calar as memórias.

Eu mal posso esperar para voltar para casa.

Um cadete me acorda para o meu turno de sentinela. Eu me alongo e pego minha arma, enquanto ele se acomoda para dormir. O terceiro cadete se move um pouco, mas não acorda. Saindo no escuro, eu tropeço por aí, tentando achar meu posto. Eu nunca fui um vigia antes. Pelo visto eu não estava perdendo muita coisa. É chato e eu mal consigo ver nessa escuridão, mas é só grama por todas as direções. Oportunidade perfeita para praticar.

Eu entro no Estado de Iluminação. Depois de três anos de constante prática, isso é tão fácil como respirar bem fundo. Meus sentidos ficam mais apurados. A escuridão não se ilumina, mas se torna mais definida. A folhas individuais de grama, balançando com o vento. O vento frio da manhã quase parece uma faca na minha pele, abrasivo e quase dolorido. Uma desvantagem para sentidos elevados. Eu posso ouvir a respiração dos sentinelas em qualquer lado de mim. Lenta, irregular. Eles estão cansados. Não se pode culpá-los, ontem foi difícil para os cadetes. A maioria deles viu seu primeiro combate de verdade. A maioria matou pela primeira vez. É fácil rir quando você está com seus amigos. É quando você está só que os pensamentos tomam conta.

Eu continuo a praticar, simplesmente me segurando à Iluminação. É mentalmente exaustivo, se agarrada a ela sem Demonstrar as Formas. Os movimentos por si próprios são quase um tipo de meditação, permitindo a você cair em um padrão bem praticado. Isso liga uma parte do seu cérebro no automático, o que te possibilita dedicar mais recursos para a análise de seus sentidos. O único jeito de aumentar o tempo de uso ativo da Iluminação é praticando. Eu não tenho horas o suficiente no meu dia para me dedicar a todas as coisas que eu pratico. O que eu preciso aprender é como fazer um clone das sombras, para praticar enquanto estou dormindo. Não, melhor ainda, algum velhote deveria só transferir todo seu conhecimento, direto no meu cérebro. Isso seria muito melhor. Tudo toma tanto tempo para aprender. Eu mal consigo usar o arco, e eu faço isso todo o dia por três anos.

Há um farfalhar na grama. Concentrando meu sentido, eu tento descobrir de onde isso está vindo. Olhando para a esquerda e direita, eu encaixo uma flecha, me preparando. Algo não está certo. Um arranhar de pedra em metal, quase imperceptível. Eu assobio o alarme, um pio de pássaro baixo-para-alto, repetido 3 vezes. Há movimento na grama e uma flecha voa até ele. Não é minha. Um grito penetra a escuridão da manhã.

— Nós estamos sob ataque! — gritando enquanto eu atiro cegamente na direção de outro ruído. O pio é repetido. Formas escuras saltam para fora da grama, pouco visíveis exceto pelo reflexo em suas armas. Bandidos provavelmente. Eles estão perto. Eu atiro mais uma vez, então largo meu arco e pego meu escudo e lança curta.

Eu bato meu escudo em uma forma escura, perfurando-a enquanto ela cai. Sem tempo para acabar com ele, pois mais bandidos estão à caminho. Eu preciso ganhar tempo para o acampamento se levantar.

Uma espada golpeia meu escudo, me desequilibrando. Porra, ele é forte. Há mais deles, eu não posso retaliar. Eu só preciso sobreviver. Me escondendo atrás de meu escudo, minha postura e minha lança estão baixos, eu bloqueio e desvio, faço fintas para enganá-los. Meus couros amenizam o dano dos ataques que penetram minha defesa. Como eles sequer conseguem ver nessa escuridão?

Alguém com uma tocha se aproxima por trás. Finalmente, alguma luz. Três oponentes. Todos com armas, e com linhas escuras manchando seus rostos. Eu ataco por baixo, fazendo o inimigo cambalear. Os outros atacam, me impedindo de matar ele, me forçando para trás depois de um corte no ombro. Eu preciso mudar as coisas. Eu mudo para uma pegada frontal com a minha lança. Bloquear e perfurar. Muito melhor. Eu só preciso manter eles para trás. Ajuda virá. Eles precisam ser mais cautelosos agora, recuando das minhas estocadas. Eles desaceleram seu avanço, e tentam se dividir para me cercar. Perfeito.

Minha lança arremessada acerta o bandido mais a esquerda no peito. Não esperava por essa, não é, vadia.

Os outros dois avançam até mim gritando por morte, confiantes agora que eu não tinha uma arma na mão. Um golpe de escudo usando as duas mãos derruba a espada da mão do bandido grandão. Mantendo o bandido desarmado entre mim e seu amigo, eu círculo ao redor deles, sacando minha espada de modo estranho. Preciso de um lugar melhor para prender ela, além de acima da minha bunda.

O bandido desarmado avança contra mim, me levantando do chão. Que merda. Isso foi inesperado.

Meus braços são presos junto a mim enquanto eu sou levantado e arremessado no chão. Meus pés ficam debaixo de mim, por pouco. Não posso deixar ele me levar para o chão. Espetando ele loucamente com a espada, tentando tirar ele de mim, ele grita e me joga contra o chão de novo, tirando a espada da minha mão.

Seu amigo grita para que ele fique abaixado, e move para me matar. Sua espada desce do alto.

Tudo o que eu posso fazer.

Caindo para trás em um rolamento, com meus joelhos eu levanto o cara que estava me segurando .

A espada bate nele e ele finalmente me solta, gritando. Tirando ele de cima de mim, eu fico de pé com um salto e me viro para o último bandido. Foco. Bloqueando golpe após golpe, um pedaço do meu escudo é mandado para longe, a espada corta meu ombro. Meu braço cai, pendurado inutilmente.

Eu tateio para pegar uma flecha, apontando ela para o último bandido. Melhor do que nada. Eu dou a ele minha melhor encarada, esperando que ele só caia morto.

Ele grita e avança. Por que avançar? Apenas golpeie fora do meu alcance, retardado. Dando um passo para frente, a espada passa por mim, e eu enfio minha flecha em sua lateral. Ele tensiona, e eu apunhá-lo ele de novo, e de novo, enquanto ele me encara nos olhos. Olhos verdes claros. Eu não posso parar. Sua raiva se transforma em medo com cada apunhalada progressiva. A flecha finalmente quebra, se rompendo dentro dele. Ele cai no chão, morto, ou a caminho. Tudo parece o mesmo quando você está morrendo.

Eu solto o fôlego que eu não sabia que estava segurando.

Foi sorte. Sorte até demais. Eu preciso ficar mais forte.

O bandido que me arremessou tenta levantar, mas meu gancho de direita colide com a sua mandíbula. Ele caí no chão, e começa contagem! É NOCAUTE. Seu filho da puta.

Se empurrando para cima, o bandido tenta se levantar com todos os membros. Chutando um braço de debaixo dele, eu pisoteio de novo, e de novo, até que ele para de se mover. Eu disse NO-CAU-TE CARALHO. Só fica no chão.

Minha respiração está ofegante, mãos tremendo enquanto eu checo para ver se alguém precisa de ajuda. O bandido apunhalado ainda está respirando ofegante, lutando por sua vida. Eu acabo com ele com minha espada, e vejo a luz se extinguir de seus olhos. Por que eu continuo encarando os olhos dele? A luta parece ter acabado. Não havia tantos bandidos assim. Eu acho que eles estavam se garantindo na furtividade. Plano estúpido do caralho. Os sobreviventes estão sendo desarmados, logo se juntando aos prisioneiros que já temos. Eu não vejo guarda algum morto, então isso é bom.

Eu olho para o bandido sobrevivente. Suas feridas não são sérias o bastante para matá-lo. Eu deveria matá-lo também? Salvar ele da escravidão?

Ficando lá parado pelo que parece uma eternidade, minha mente está em branco. Eu estou esperando por uma resposta brotar na minha cabeça.

Ele não vai levantar tão cedo. Eu tenho tempo para decidir.

Eu pego minha espada e vou até minha outra vítima. Um jovem de talvez uns 20 anos, saudável. Não é o maior boa pinta por aí, mas sem deformidades ou marcas de nascença desagradáveis. Ele poderia ter sido um fazendeiro, ou um carregador, ou um marinheiro, ou uma infinidade de outras profissões honestas. Ao invés disso, ele escolheu ser um bandido, e me fez matar ele e seu amigo. Retardado. Me fazendo matar vocês dois. Aquele olhar de surpresa quando ele percebeu que estava morto. O medo nos olhos verdes de seu amigo. Filhos da puta preguiçosos, deveriam só ter arranjado a porra de um trabalho. Porra.

Arrancar minha lança de seu peito toma esforço, e ela sai com um som repugnante. Um arrepio rasga meu corpo.

 

Realmente, eu deveria só ter ficado na vila. Eu não sou feito para essa merda.

 

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

10 Comentários

  1. “É fácil rir quando você está com seus amigos. É quando você está só que os pensamentos tomam conta” Bem vdd isso, Rain a pessoa com mais pensamentos internos que um filósofo.

    1. Mulher muito egoísta, diz que o mundo não e fácil, mas trata os demais da mesma forma ou ate pior. Detesto pessoas assim.
      Experimenta passar uma semana onde o MC estava e ver se gosta de ser escravizada!

  2. Fico pensando se a mulher ao menos se deu conta de que estava falando com um garoto de 14 anos de idade que ate onde se sabe nasceu escravo, e fica soltando que e melhor ser escravo do que ter uma morte rápida.
    Nunca ficaram dias a fio, por um pedaço de pão seco, aguardando ficar vivo para o dia de amanha. MC esta começando a ganhar meu respeito em não ouvir estas baboseiras egoístas e hipócritas.

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