DS – Capítulo 258 (parte 1)

Viajar de riquixá era uma experiência nova e empolgante para Song. Nunca permitiram que ela andasse em um antes, mesmo que ela os tenha visto várias vezes em suas viagens, ela era geralmente forçada a engasgar na poeira e sujeira enquanto seguia atrás a pé. Nunca nos sonhos mais doidos dela Song teria imaginado que um método de viagem tão simples podia ser tão intoxicante e de tirar o fôlego. Sentada acima do chão, ela assistia os tons outonais se misturarem enquanto a carruagem puxada por um quin corria pela estrada. O assento acolchoado e rodas presas à molas absorviam cada batida e sacolejo enquanto o vento passava em seus cabelos, criando uma atmosfera sublime na jornada, como se ela fosse uma deidade viajando nesse reino mortal. 

Quantos prazeres simples estavam escondidos debaixo do nariz dela, previamente negados a ela devido ao seu status?

Os filhotes de urso gorduchos compartilhavam o entusiasmo de Song, cabeças pendendo dos lados da carruagem com as línguas de fora e lenços esvoaçando no vento, analisando e adorando a variedade de cheiros. Da mesma forma, Lady Mei Lin se inclinava tanto para fora da carruagem que Song se preocupava que ela ia cair para sua morte, segurando no cachecol da garota lebre e cinto com uma pegada de ferro. Tranças belas e orelhas peludas seguindo atrás dela, a dama jovem vestida de forma elegante levantou suas mãos para o ar e riu alto, gritando com tanta animação que enchia Song com alegria e preocupação. Tão pura e inocente, havia algo sobre Lady Mei Lin que fazia Song querer roubá-la e guardá-la do pecado e corrupção desse mundo. 

Sem fôlego por causa da risada, Lady Mei Lin se sentou novamente em seu assento e deu um abraço apertado em Song. — Obrigada Lili. — Ela disse depois de recuperar o fôlego. — Isso foi tão divertido! Papai nunca me deixa fazer isso, ele fica sempre preocupado que eu vou cair e quebrar minha cabeça. 

Piscando em perplexidade, Song assentiu e se perguntou se ela devia manter Lady Mei Lin dentro da carruagem de agora em diante, lutando entre escolher a alegria de sua nova Mestra e bem estar. Ignorante do conflito interno dela, Lady Mei Lin sorriu e fixou seu cabelo e roupas, mudando e se mexendo no assento em um ritmo silencioso, alegre demais para ficar parada. — E obrigada por vir junto. Apesar de Tanna estar me esperando lá, Papai não quer que eu viaje sozinha. Isso vai ser tão divertido, depois que nós terminamos a tarefa nós podemos ir as compras!

Apesar de estar incerta ainda do que a missão se tratava, Song respondeu, — Esta aqui está sob seu comando, Mestra. 

A resposta costumária a ganhou um beicinho. — Não esta aqui, mas Lili e não é Mestra, mas sim Linlin. 

— Sim Linlin, Lili obedece.

O beicinho ficou mais fundo e se encontrou com um nariz enrugado e bochechas estufadas, Lady Mei Lin expressando seu desagrado com a conduta de Song. Longe de se preocupar, a visão aqueceu o coração de Song, encantada por essa mestra tão adorável. — Hmm… Tão difícil. — Lady Mei Lin murmurou, esfregando sua cabeça no braço de Song. — É tão difícil não te dar ordens… Tá, ignore a última ordem. Você pode me chamar do que você quiser Lili, mas eu realmente, realmente, realmente ficaria feliz se você me chamasse de Linlin. Toda hora, mesmo depois de eu entregar o seu colar de volta para Mimi, né?

Incapaz de recusar os olhos pidões, Song assentiu e respondeu, — Sim, Linlin. — Era uma coisa pequena que alegrou muito Lady Mei Lin, mesmo que Song não conseguisse entender o motivo dela insistir em usar apelidos infantis. 

Porém sem uma ordem, Song não conseguia se referir a si mesma como Lili. 

— Obrigada Lili. — Depois de outro abraço, Lady Mei Lin pegou a corrente de Song e suspirou, estudando o colar e sua gema púrpura que brilhava na luz. — Tão linda, mas tão horrível também. Como alguém aguenta forçar um Juramento tão feio? — Guardando a corrente, ela sorriu e esticou sua mão para afagar a cabeça de Song. — Não se preocupe Lili, você está com a gente, né? Você é a irmã de verdade da Mimi e já que eu e Mimi somos como irmãs, isso significa que você é minha irmã também. Nós não vamos deixar que nada de ruim aconteça com você de novo. 

Ingênua, mas bem intencionada, então Song meramente assentiu ao invés de apontar a falácia dela. Contanto que a corrente existisse, ela podia ser tomada. Os Bekhai já fizeram tanto, Song não poderia pedir para eles ficarem com o fardo que era sua existência permanentemente. Não, ela iria merecer isso, como ela mereceu seu lugar na família de Mamãe Akanai. 

Que agora era a família de Li Song. O pensamento era o bastante para enchê-la de calor. 

Parecia tão surreal ter uma mãe e uma mestra que também era uma irmã. Mamãe Akanai tratava Song tão bem que fazia ela se sentir culpada e imerecedora, trabalhando ainda mais para não desapontar sua família nova. No almoço hoje, Song se sentiu tão desconfortável assistindo Mestra arrumar a mesa, só o abraço cálido, mas firme de Mamãe Akanai a manteve sentada. Mestra parecia estar com um péssimo humor ultimamente, acordando mais tarde do que o normal e resmungando mais frequentemente e Song não sabia o que fazer para ajudar. 

Era tudo culpa do maldito Zian, usando Mestra descaradamente para afiar suas habilidades marciais antes de humilhar ela de novo e de novo, declarando vitória sem vergonha na cara nos treinos deles apesar da inferioridade óbvia dele. A diferença em habilidade marcial logo seria esquecida e o mundo só lembraria das oito vitórias consecutivas que Situ Jia Zian obteve contra Sumila dos Bekhai. Não havia nada que Mestra podia fazer para responder exceto jogar fora toda honra e pedir alguém com Aura para protegê-la durante as partidas. Se não fosse pelas ordens explícitas de Mestra, Song teria tacado o foda-se nas consequências e teria incendiado os alojamentos do principezinho arrogante enquanto ele dormia. 

No pior dos casos, Mamãe Akanai podia entregar a corrente de Song para encarar justiça, onde ela admitiria livremente seus crimes feitos de livre espontânea vontade. Morte era um preço pequeno a se pagar por essa última decana cheia de amor e afeição de família. Mesmo Papai Husolt, que podia parecer assustador, mas era uma alma gentil, mesmo que ela ainda ficasse desconfortável na presença dele. 

Sua mente sabia que ele não tinha culpa, mas ela não conseguia impedir esses sentimentos. Homens com poder sobre ela a deixavam nervosa, essa era a vida.  

A jornada deles acabou logo quando os quins pararam devagar. No lado da estrada, uma multidão de tendas e pavilhões foram construídos onde um mercado improvisado e movimentado surgia a cada noite. Apesar do riquixá ser algo caro e chamativo, apenas os ladrões mais bravos pensariam em roubá-lo. Bem tosados e bem vestidos em suas camisas de seda azul, os dois quins de vagão eram uma visão encantadora até eles mostrarem seus dentes e presas para qualquer um que se aproximasse demais. Se juntando a ameaça estava a quin nua de Song, Erdene, se mexendo na grama para esfriar depois da corrida longa, carregando quinhentos quilos de gato selvagem na carruagem sozinha. 

Talvez depois Song podia comprar uma camisa para Erdene e algo para os gatos selvagens e ursos. Rain era muito avarento, não dando nada além de lenços para seus bichos apesar de toda riqueza dele. Jimjam iria ficar adorável em um vestidinho e chapéu e, apesar dele odiar usá-los, ele se acostumaria com tempo. 

Dando uma coçada vigorosa no gato selvagem mal humorado para distraí-lo do cachecol, Song seguia Lady Mei Lin para mais fundo na floresta e no mercado cheio, a multidão abrindo caminho para Jimjam e Sarankho. Todo tipo de itens estavam a mostra para serem vendidos, de conjuntos de seda caros até fardos de feno custando uma fração de cobre, enquanto homens e mulheres pechinchavam e barganhavam para fazer suas moedas valerem o máximo possível. Em vista da incursão de Sanshu, medidas foram tomadas contra infiltração de Corrompidos, o que significa que qualquer pessoa não relacionada estava impedida de se aproximar dentro de cinco quilômetros da Muralha. Dessa forma, um grupo de indivíduos empreendedores organizaram esse bazar de beira de estrada aqui na beira da fronteira, satisfazendo a necessidade de cada trabalhador comum ou aristocrata ainda posicionado na Muralha. 

Ficando de olho para cada elemento desagradável escondido nas sombras, Song mantinha sua mão na empunhadura de seu sabre, ousando ladrões a testarem ela. Ansiosa para tentar as sugestões pessoais e correções de Mamãe Akanai, Song estava disposta a se rebaixar para lutar com bandidos se necessário, mas Jimjam e Sarankho eram motivo o bastante para assustar os varredores. Uma pena, mas tornava a tarefa de Song mais fácil. Apesar dela ser ousada e aventureira, Lady Mei Lin não mostrava evidência de treinamento marcial. 

Não que isso fosse dizer que Lady Mei Lin era uma donzela indefesa, não, longe disso.Apesar dos talentos dela estarem mais em caçar e curar do que lutar, suas habilidades em arquearia, herbalismo e Empuxar poderiam ser facilmente usadas para coisas mais sombrias, como rastrear prisioneiros foragidos ou atirar flechas envenenadas do alto antes de escapar pelas copas das árvores. Cada pessoa trilhava seu próprio caminho no Caminho Marcial, então quem era Song para dizer que o de Lady Mei Lin estava incorreto?

O pensamento da alegre Mei Lin trabalhando como uma assassina ou caçadora de recompensas pôs um sorriso nos lábios de Song, uma fantasia absurda e sem sentido. Ela era a filha e estudante do Médico Celestial Taduk, por que ela teria que arriscar sua vida de maneira tão tola? Mesmo assim, Song admirava a coragem e tenacidade de Lady Mei Lin, o sorriso doce da garota mimada nunca sumindo mesmo sob ameaça de morte, fosse nas mãos da Sociedade ou dos Corrompidos. Algo difícil de se fazer para alguém não treinado no combate, ela ganhou o respeito de Song dentro de dias no primeiro encontro delas. 

— Tanna. — Lady Mei Lin chamou, facilmente pulando o dobro de sua altura acima da multidão. — Tanna, aqui! — Em coordenação perfeita, a multidão abriu caminho na frente delas, indispostos a ficarem entre os gatos selvagens e os destinos deles. Tanaraq sorriu quando Lady Mei Lin correu para seus braços, compartilhando um cumprimento doce como se elas não se vissem a anos ao invés de dias. 

— Diabinha, seu maridinho dá tarefas difíceis. — Tanaraq declarou, dando um sorriso cálido para Song. Apesar delas não serem muito familiares uma com a outra, Song conhecia Tanaraq da viagem deles para casa da Sociedade. Alguém que acabou de perder o marido, a ex-Khishig ainda tinha presença de espírito o bastante para cumprimentar Song calorosamente. — Eu concordei em tomar conta da escola e orfanato dele, mas ele está acabando comigo com todas as suas tarefas e compromissos. 

— Desculpa Tanna. — Lin respondeu, a cabeça enterrada no peito da mulher mais velha. — Só vai ser assim por um tempinho, nós ainda estamos tentando descobrir em quem podemos confiar. Você pode voltar para Ponte depois que nós encontrarmos alguém, né? Rainzinho não sabia que haveria uma proibição então nós não tivemos escolha, além de começar essa segunda escola aqui. Há muitos órfãos cujos pais costumavam ser soldados ou trabalhadores, não é certo deixar eles congelarem e morrerem de fome. 

— Tolinha, não leve a série o que eu digo. Só estou extravasando, eu estou feliz de poder ajudar. Me dá algo para fazer além de ficar sentada o dia inteiro. Venha, me deixe mostrar o que nós fizemos. — Depois de uma caminhada curta, Tanaraq endireitou suas costas e gesticulou para uma clareira, sua voz cheia de orgulho. — Isso é o começo de algo maravilhoso. Oitenta almas rebeldes e mais para chegar, então diga para seu maridinho se apressar e enviar mais abrigos. Roupas não são um problema, nós temos moeda mais do que o suficiente para comprar tudo que nós precisamos, mas não há professores ou guardas o bastante. Eu vou precisar de mais ajudantes porque os bandidos estão à espreita, achando que somos um alvo fácil. Eu tenho uma lista de coisas que…

Conforme Tanaraq e Lady Mei Lin fechavam os detalhes, Song permaneceu por perto e estudou a clareira. Homens, mulheres e crianças estavam todos espalhados por todo o lugar, ocupados com tarefas e jogos. A maioria estava ferida, várias bandagens e talas, feridas tomadas ou cumprindo seus deveres como soldados ou enquanto evacuavam a Ponte. Os filhotes de urso curiosos cambaleavam por aí, seguidos de perto pelo protetor Jimjam. Os habitantes se afastavam sempre que os animais se aproximavam e buscavam acalmar seus nervos, Song chamou os animais com um assobio antes de dar um petisco para eles, maçãs para os ursos e carne seca para os gatos selvagens. 

Um menino magricela de talvez dez anos se aproximou, fingindo bravura mesmo quando seus joelhos tremiam. — Posso fazer carinho nele. — Ele perguntou, seus olhos nunca deixando Jimjam. — É seguro?

Song assentiu. — Sim. — Um pouco pelo menos. Eles ainda eram animais selvagens e propensos a ações irracionais como guarda de recursos. — Venha,s e agache na frente de Jimjam. Não faça movimentos repentinos e estenda sua mão devagar, pare perto para que ele te examine. Se ele te ignorar, então espere, para que ele não pense que você está aqui para roubar a comida dele. 

Foi necessário vários minutos de paciência, mas depois de terminar sua carne seca, Jimjam cheirou a palma do menino e bufou antes de olhar para longe. — Vá em frente. — Song disse, olhando com cuidado para o gato selvagem. Lady Mei Lin não ia gostar de ver uma dessas pessoas estraçalhada e, verdade seja dita, Song também. Timidamente esticando seu braço o máximo que podia, o menino correu a ponta de seus dedos no pelo de Jimjam, sua apreensão cautelosa lentamente derretendo em um sorriso.

Vendo o sucesso do menino, as outras crianças lentamente se reuniram para fazer carinho nos animais sob instrução cuidadosa de Song. Mesmo que os ursos estivessem felizes em correr e brincar, Jimjam fechava seus olhos e tolerava a atenção das crianças ao passo que Sarankho as evitava sempre que podia. Da próxima vez, seria melhor trazer Aurie aqui, o gato selvagem mais novo era muito mais amigável que seus irmãos. Essas crianças mereciam um pouco de alegria. 

— Ah, é bom ver você sorrindo criança. — A voz de Tanaraq fez Song acordar de seu estupor, se virando para olhar a mulher mais velha sorrindo de alegria. — Estava preocupada que você esqueceu como fazer isso. — Ruborizando, Song olhou ao redor em busca de Lady Mei Lin, mas Tanaraq gesticulou para Song segui-la. — Venha, pequena Lin vai ficar aqui por um tempo, há feridos para tratar, documentos para olhar e moeda para gerenciar. Todo esse trabalho de caridade não é barato, especialmente já que parece que o Rain quer acabar com a escravidão ao comprar todo escravo no Norte. Eu digo que é loucura, mas o menino tem boas intenções.

O sorriso no rosto de Song cresceu um pouco mais enquanto ela se sentava ao lado de Tanaraq, ouvindo enquanto a ex-Sentinela introduzia as crianças uma a uma. Mesmo com todos seus vícios e erros, Rain era um homem gentil e generoso, buscando ajudar aqueles menos afortunados que ele.

 

Era quase o bastante para igualar as outras várias falhas dele.

 

Quase.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!