DS – Capítulo 265

Yuzhen olhava para longe, vendo a Muralha ficar maior conforme ela se aproximava, a batida dos cascos das montarias pertencentes aos seus oito guardas afogavam todos os outros sons. Era tão estranho, como se ela estivesse vivendo em uma experiência irreal e estranha que começou no momento que que ela ouviu as notícias. Daquele momento em diante, nada parecia real, sua mente e corpo se movendo enquanto ela viajava para Ponte, onde seu distintivo de oficial estava lá esperando por ela. 

Apesar dela esperar acordar desse pesadelo a qualquer momento, ela lidou com tudo de maneira eficiente e calma. Anos de instrução meticulosa e orientação atenciosa combinados com meses de planejamento detalhados significaram que ela estava bem preparada e capaz de trabalhar sem pensar. Antes de sair de Sanshu, ela enviou mensagens pré-escritas para cada Magistrado e Tenente-Marechal no norte, exigindo o apoio deles em sua ascensão ao cargo enquanto mencionava o poder que ela tinha sobre eles. Então, ela pegou seus guerreiros de elite mais leais e foi para a Muralha, pronta para encarar o que viesse. 

Chu Tongzu ofereceu seu apoio antes dela ao menos perguntar, o que não era inesperado considerando as circunstâncias. Com Sanshu na beira do precipício de uma possível Purificação e Yuzhen no controle firme dos empreendimentos mercantis, Tongzu não podia ofender ela, abertamente ou de outra forma. Ela não pensava que ele iria mesmo se as circunstâncias eram diferentes. Eles tinham um bom relacionamento de trabalho e os veteranos capazes transformados em políticos podiam ser contados entre seus aliados mais ferrenhos.

O apoio de Chu Tongzu não era surpresa para qualquer um que soubesse de algo. Era o apoio esmagador dos outros Magistrados e Tenentes-Generais que confundiam Yuzhen. Porém, ela não desperdiçou tempo para enviar suas cartas, as respostas deles chegaram rápido demais, seu grupo viajando foi interceptado por vários mensageiros militares trazendo cartas seladas e assinadas com o apoio de toda a província. A maioria das cartas teriam sido seladas e enviadas antes dela saber da sua… promoção. Magistrada Situ Jia Ying até entregou sua carta pessoalmente para Yuzhen nos portões de Shen Yun, uma guinada inesperada considerando que a mulher era uma das rivais mais perigosas de Yuzhen para o ofício. 

Era assim que ela soube que estava sonhando. Vida real nunca era tão simples. Seus inimigos derrotados sem luta, sua posição segurada com facilidade, se isso fosse uma peça ela desdenharia da virada de eventos irreal. Os vários nobres e mercadores do norte nunca iriam oferecer um apoio tão forte para ter uma meia-besta como Marechal do Norte, não, eles lutariam com unhas e dentes para impedi-la de tomar o ofício. 

Usando sua autoridade, Yuzhen se apropriava de cavalos frescos sempre que necessário enquanto ela viajava dia e noite sem descanso. Uma jornada que deveria ter levado três decanas de carruagem foi feita em míseros seis dias, nada mal considerando os vários mensageiros viajando sem parar por três dias para entregar aquela primeira mensagem destinada para ela. Apesar do senso comum falar que ela devia estar exausta, ela não se sentia diferente de quando começou a viagem. O que isso importava? Logo, ela iria acordar desse sonho sem sentido e se encontraria de volta em Sanshu, tendo caído no sono em sua mesa mais uma vez enquanto ela trabalhava para salvar Sanshu e segurá-la como sua base de poder assim que ela subisse ao ofício. Isso não era nada mais que um sonho louco de uma oficial que trabalhou demais, trazido por uma dieta ruim e estresse demais. 

Chegando sem problemas no final da tarde, Yuzhen trouxe seu grupo para esperar na fila no ponto de checagem final. Só cinco quilômetros a separavam da Muralha e sua nova Insígnia de Ofício, tendo recebido apoio mais do que suficiente para tomá-la sem oposição. Todos os planos cuidadosamente pensados dela foram para nada enquanto a posição de oficial mais alta na Província Norte caía no colo dela. Era louco demais mesmo para um sonho. Sua ascensão de verdade devia ser muito mais tumultuosa, uma luta épica cheia de assassinos escondidos e conflitos abertos, coincidindo com um esforço concentrado de sujar seu nome e unir os nobres do Norte contra ela. Só depois de derrotar seus oponentes com astúcia ou força que ela ganharia seu lugar como a primeira meia-humana Marechal do Norte, o posto dela até vacilar ou não querê-lo mais. 

É assim que deveria ter sido, não assim…

A linha se movia lentamente, mas mesmo assim, a vez dela chegou mais cedo do que o esperado. — Papéis e identificação. — O soldado na frente de Yuzhen com sua mão esticada, entediado com a repetição. 

— Que papéis? — Yuzhen só tinha sua insígnia, denotando ela como uma Major, o que ela levantou para inspeção. 

O soldado revirou seus sem olhar para a insígnia dela. — Papéis de autoridade. Ou suas ordens militares ou licença de mercador te autorizando a viajar para Ponte. Ninguém passa sem papéis. — O soldado a dispensou. — Volte amanhã e você pode pagar alguém para enviar uma mensagem para Ponte. — Próximo!

Civis espertos ficavam longe da Muralha, não seria bom se notícias se espalhassem sobre a situação atual dela. Ela não podia parar aqui, mesmo que seus guardas iriam apreciar uma pausa mais cedo. Mantendo um olho nos estranhos nos arredores em busca de perigo, ela disse, — Eu fui chamada para Ponte. 

O soldado desdenhou. — Se isso fosse verdade, então você teria papéis. Próximo!

Problemático. — Eu não tenho papéis. — Ainda segurando sua insígnia, ela adicionou, — Eu estou aqui para assumir meu ofício. — Tão estranho dizer isso alto. Assumir ofício. Ela nem queria. 

— Agora escuta aqui, se mova ou eu vou… — Os olhos do soldado se arregalaram quando ele leu o nome na insígnia dela, sua boca abrindo de surpresa. Juntando suas mãos em uma saudação, ele caiu de joelhos e os outros soldados fizeram o mesmo. — Perdão, este mísero eu tem olhos, mas não conseguiu ver. 

— Não precisa de perdão, você estava realizando seu dever. — Yuzhen mordeu seu lábio, apesar de passar despercebido pelos soldados ajoelhados. — Posso passar agora? 

— Claro, este mísero eu não ousa barrar seu caminho. Pegue cavalos frescos para Mare… Major Yuzhen. 

— Obrigada. — Ela disse, desmontando de seu cavalo cansado e pegando suas coisas. Um pouco perturbador o quão fácil isso se resolveu, seria a oportunidade perfeita para atrasá-la para que seus inimigos pudessem atacá-la. Talvez eles já estavam a espreita esperando no caminho a frente e ansiosos para vê-la morta. Improvável, mas possível. 

A teoria foi pela janela quando um gigante de olhos castanhos, de barba e cabelos bem cortados chegaram com cavalos frescos. Carregando um martelo de guerra de cabo longo e andando em um roosequin igualmente bem cortado, ele a cumprimentou com um aceno. — Nome é Dagen. — Ele disse, ignorando cortesias padrões e modos como tantos Bekhai faziam. — Tenente-General Akanai me pediu para te escoltar. — Pelo menos cem Khishigs estavam com ele, cada um deles vestido para batalha e exibindo um ar de veteranos, sem um único rosto familiar entre eles. Mais guerreiros desconhecidos liderados por mais um dragão escondido dos Bekhai, por que ainda surpreendia ela, Yuzhen não conseguia dizer. Os Bekhai não podia mais ser considerados uma força novata, mas com potencial, julgando pela força que eles já revelaram, eles eram facilmente umas das facções top de linha no norte. Uma boa coisa que eles estavam firmemente no lado dela, mas desapontava ela não ver Gerel aqui a esperando.

Era uma mensagem velada? Gerel podia estar se distanciando por razões políticas? Ela não o culparia se ele fizesse isso, era a decisão certa. Apesar dos Bekhai apoiarem Yuzhen, ela precisava mais deles do que eles precisavam dela. Não apenas ela estava firmemente presa no acampamento deles, ela também não podia dar herdeiros para Gerel então qualquer aliança por casamento não fazia sentido. Como um Bekhai de sangue puro e oficial de alta patente, Gerel seria desperdiçado em Yuzhen quando seu casamento podia ser usado em vez para assegurar aliados entre os nobre mais proeminentes e nobres. 

Além disso, apesar de Gerel ter rejeitado a ideia, Yuzhen suspeitava que olhos âmbar tinham alguma importância entre os Bekhai. Como então ela podia explicar dois heróis de olhos âmbar emergindo dos Bekhai na mesma hora? Eles eram raros o bastante que não podia ser mera coincidência, os Bekhai de olhos âmbar criados para grandeza. 

Engolindo seu desapontamento com a ausência do seu amante, Yuzhen agradeceu Dagen e pôs seus guardas sob comando dele. Vazia, é como ela se sentia, mas não importava. Nada disso era real. Se fosse, Gerel teria encontrado ela na estrada a dias atrás, correndo para confortá-la nesses tempos difíceis. Ele não era de brincar de política ou seguir ordens cegamente. Ele teria que saber que ela precisava dele e fazer tudo que podia para ficar ao lado dela, porque ele amava ela. 

Certo?

Uma multidão de auxiliares e dignatários esperavam ela quando ela chegou na Muralha, mas os Khishigs de Dagen mantiveram eles longe e a escoltaram para a cidade sem atraso. O dano na Muralha Externa foi significante e, apesar dela estar mentalmente preparada, a visão daquelas estruturas uma vez imponentes agora arruinadas petrificaram ela até o âmago. Poucos sabia o quão perto eles estavam de compartilhar o destino da Província Ocidental, abandonados pelo Clã Imperial e deixados para lutar por nós mesmo enquanto dezenas de milhares de Corrompidos corriam soltos pelo Império. Eram tempos turbulentos e ela tinha seu trabalho para fazer, mas ela ainda não começou a planejar suas próximas ações. 

Não parecia importante. Se o Imperador não ligava para suas pessoas no Norte, então por que ela deveria? 

Ela sabia o motivo, mas ela queria fingir um pouco mais. 

Andando pela cidade uma vez industriosa, Yuzhen estudou o mar de tendas arranjadas em todo lugar. Essas estruturas frágeis deveriam abrigá-los no inverno? Esteticamente, elas pareciam melhores do que os casebres de lama e palha nos quais a maioria dos aldeões viviam, mas elas eram longe de ser as estruturas resistentes de pedra do passado. Fazendo uma nota mental de olhar o assunto, sua testa se franziu enquanto ela tentava se acalmar. Eles estavam andando para o oeste da cidade, mas o motivo, ela não conseguia imaginar. Seu ofício estaria sem sombra de dúvidas na Muralha Interna, aparecendo ao longe atrás deles. — Khishig Dagen. — Ela Enviou. — Onde você está me levando?

Ela provavelmente devia ter perguntado mais cedo. Assentindo educadamente, Dagen respondeu, — A Tenente-General me pediu para trazer você até ela. Não vai demorar muito. 

Uma emboscada? Não, se Akanai queria Yuzhen morta, então ela não teria enviado Dagen para escoltá-la até aqui. Uma tática de braço forte então, buscando assediá-la a submissão. Tão incômodo, mas esse era o trabalho dela. Contanto que as exigências de Akanai não fossem excessivas demais, Yuzhen não tinha escolha além de aceitar. Os Bekhai eram uma das únicas facções que ela não podia chantagear ou assediar até se submeterem, a completa e total falta de acordos políticos ou aspirações a deixavam sem uma arma. Se algo, o Império devia os Bekhai um débito de gratidão já que a defesa gloriosa de Akanai do norte foi paga com desdém e condenação a cinquenta anos atrás. 

Ela não conseguia imaginar o motivo de Akanai ainda lutar pelo Império. A história mostrou que ela não seria agradecida pelos seus esforços, mas Yuzhen estava feliz de ter uma mulher formidável como ela ao seu lado. 

Supostamente. 

Esperançosamente. 

Chegando em um campo na fronteira da cidade, Yuzhen notou os Bekhai reunidos. Alguns rostos familiares se destacaram, Tenjin, Tursinai, Rain, jovem magistrado Fung, Mei Lin, Médico Celestial Taduk e outros guerreiros que tomaram parte na Batalha por Sanshu todos estavam de pé esperando para cumprimentá-la. Doce Sumila correu para seus braços sem uma palavra, abraçando ela um pouco forte demais enquanto Akanai andava para encontrá-la.— Deixe ela garota. — Akanai disse, puxando Sumila e gesticulando para Yuzhen seguir. Os Bekhai abriram caminho enquanto elas andavam pela multidão. Seus guardas ficaram para trás pelas ordens de Dagen e fosse qualquer outra facção, então nesse mesmo dia no ano seguinte seria o aniversário da morte dela, mas ela não tinha nada a temer dos Bekhai. 

Mesmo se eles matassem ela, seria tão ruim assim?

Se movendo para o lado, Akanai deu um tapinha ombro de Yuzhen e Enviou, — O que quer que aconteça, saiba que estou do seu lado. — Assentindo em resposta, a respiração de Yuzhen ficou presa em sua garganta enquanto ela avistava Gerel na frente. Sua cabeça e rosto normalmente raspados possuíam decanas de barbicha e cabelo e ele carregava três incensos acesos na mão enquanto estava ajoelhado na terra fria e dura. Um santuário inócuo na estrada estava diretamente na frente dele, guardando uma urna linda de jade branca não marcada. Jazia inscrito no santuário um tributo: para o pai desconhecido, sem nome, um verdadeiro herói que morreu para salvar sua filha. 

Realidade acertou ela como um martelo e ela não podia mais negar. 

Isso não era um sonho ou um pesadelo. Isso era real. 

Seu velho morreu. Ele morreu para manter ela a salvo. 

Nunca mais ele ia beber o chá que ela fazia ou comer a comida que ela cozinhava, reclamando enquanto ele terminava cada gota ou migalha. 

Nunca mais ela ouviria sua voz instruindo ela em etiqueta apropriada ou ver seu sorriso quando ela tinha sucesso em usar as habilidades que ele a ensinou. 

Nunca mais ele iria afagar seu cabelo, segurar sua mão ou ouvir ele chamá-la de sua “garotinha” e falar o quanto ele a amava. 

Ele deu sua vida para erradicar seu clã como um exemplo para os poderes do Norte, deixar cada facção saber o quão longe ele estava disposto a ir. Como sua sucessora escolhida por ele e conhecedora de todos os segredos sujos deles, o título de Marechal da Província Norte era dela para tomar. Ela só precisava esticar sua mão e aceitar graças ao sacrifício dele. Ela nunca quis isso, nunca esperou segurar o ofício por mais de um dia e pensava que ele era louco por acreditar o contrário, mas ainda ela se devotou no último ano para trabalhar para cumprir esse objetivo, pronta para aceitar a morte para tornar os sonhos dele realidade. 

Pelo visto, ele estava disposto a fazer o mesmo.  

Soluçando em angústia, ela cambaleou para se juntar a Gerel de joelhos, chorando enquanto ela se prostrava diante do santuário. Ela não podia dar seu Papai um funeral apropriado, não depois do que aconteceu apesar de sua admissão de culpa o ganhou uma morte limpa, sem dor, cada membro do Clã Shing foi executado pelo crime de regicídio e ela não podia ser vista simpatizando com um “traidor”. Ainda assim, aqui estava Gerel ajoelhado como um genro apropriado, dando meios para ela lamentar e chorar publicamente sua perda. Nem o santuário nem a urna tinha o nome de Papai, mas todos presentes sabiam que este era o lugar do descanso final de Shing Du Yi, porém eles negariam se alguém perguntasse. 

Com seu futuro marido ao seu lado, ela lamentou sua perda. Amanhã, a despeito de suas reservas, ela tomaria o manto de seu pai como Marechal do Norte e se tornaria o meio-humano com a maior patente na história do Império. Entre os materiais para chantagem de Papai e os recursos de Sanshu, ela estaria em posição de força como nenhum outro Marechal antes dela. Todos os nobres arrogantes, mercadores gananciosos e generais sedentos de sangue do Norte eram apenas peixes na tábua de corte se ela assim quisesse e ela usaria tudo isso para unificar a província como nunca antes. Mesmo se o Imperador abandonasse o Norte, ela seguiria os passos de seu pai e defenderia essas terras até seu último suspiro. 

Porque mesmo que ela não ligasse, Papai amou esse país então ela o protegeria na ausência dele. Alguém tinha que impedir o Império de se virar contra si mesmo e é precisamente isso que Papai fazia. Mesmo ele sendo taxado como traidor por seus esforços e seus títulos despojados, seu título mais importante estava intocado. 

 

Shing Du Yi, pai amado de Yuzhen. 

 

Descanse bem Papai. Sua garotinha vai te deixar orgulhoso. 

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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