DS – Capítulo 280

Carregando uma caixa de madeira enrolada de cobertores, eu caminho até a suíte de Akanai na Muralha Interna com Mafu e Aurie atrás de mim. Me abandonando para visitar sua querida, meu quin vai em direção ao estábulo com a presa do dia, três peixes grandes pegos do lago congelando. É difícil ser um solteiro, meu pobre quin já trabalha duro tanto para continuar gordo, mas agora ele está trabalhando ainda mais para cortejar a quin de Mila, Atir. Três peixes não parecem muito, mas considerando que ele comeu cinco e deu dois para Aurie, Mafu é um puta caçador solitário e eu desejo tudo de melhor para ele. 

E mais, os filhotes de Pafu e Suret já estão grandes demais para ficar agarrando e eu vou precisar de substitutos logo. Eu me pergunto se há lontras normais por aí? Elas não são tão legais, mas ainda fofas…

Enquanto subo a escadaria gigante com Aurie, nós encontramos uma careca familiar acabando de passar pelo corredor para a suíte de Akanai.  Sombrio e sisudo como sempre, Gerel nota minha aproximação e me dá sua melhor encarada desaprovadora. — Você está atrasado. Se mova homenzinho, não deixa pessoas como aquelas esperando. 

— Eae chapa. — Ele odeia quando eu chamo ele de chapa, mas eu não gosto de ser chamado de “homenzinho” também, então estamos quites.— É um jantar em família não um conselho de guerra, nada para se estressar tanto. — Parando só para ser o do contra, eu dou um leve empurrãozinho para Aurie cumprimentar Gerel. Sempre feliz em agradar, meu gatinho grandão vai com ambas as patas na cintura do guerreiro de olhos âmbar, peito roncando de alegria enquanto ele espera uma coçada na cabeça. Imune aos charmes de Aurie e peso prodigioso, Gerel afaga o gatão duas vezes antes de afastá-lo, gesticulando para eu me apressar. Só para ser educado eu pergunto, — Você já comeu? Você devia se juntar a nós, é melhor do que ficar esperando no canto até acabarmos. — Nós não somos os melhores amigos, mas ele me ajudou muito no decorrer dos anos, trabalhando para treinar ambas minha comitiva original e antiga sem pedir por nada em troca. Ele nem pegou sua parte justa das coisas da ilha de Yo Ling, meramente pegando algumas gemas brutas por todo o trabalho.

Com a minha sugestão, Gerel faz algo totalmente fora de seu personagem, empalidecendo visivelmente enquanto se afasta aterrorizado. Depois de balançar sua cabeça visivelmente, ele se acalma antes de alisar sua camisa e limpar sua garganta, fingindo que os últimos segundos nunca existiram. — Não precisa. — Ele diz, se recusando a me olhar nos olhos. — Como você disse, é um assunto de família. Eu estou feliz em esperar aqui. — Depois de uma pausa breve, ele adiciona, — Por favor transmita minha gratidão para Akanai. 

— Por que você não transmite a sua gratidão você mesmo? É sério mesmo, é ali no fim do corredor. — Vendo sua raiva ao ser pressionado, eu dou de ombros e desisto. — Fica a seu gosto. Eu vou pedir para alguém te trazer um prato. — Cara estranho. Por que ele está com tanto medo de ter um almoço com Baatar e Akanai? Eu acho que pode estar um pouco maravilhado sei lá, algumas vezes eu esqueço que os membros da minha família são alguns dos chefões das Pessoas. Ainda, eu nunca esperaria que Gerel fosse do tipo adorador, especialmente já que ele desafia Baatar para uma luta justa a cada primavera mesmo depois da Companhia do Estandarte de Ferro ter sido desfeita. Eu estou ansioso para assistir o espancamento de Gerel de novo. Verdade seja dita, por mais imponente que ele seja, eu nunca vi Gerel vencer uma luta real, só treinos de combate. Para um cara que se chama de talento número de sua geração, ele com certeza apanha muito.

E de novo, quem sou eu para falar algo? 

A porta está um pouco aberta e Aurie corre para dentro para cumprimentar sua segunda pessoa favorita no mundo, Li Song. Com um coro de miados retumbantes, Aurie toca seu nariz na mão de Li Song, como se pedisse para ela fazer a dor ir embora. Juntando suas mãos, Husolt sorri com alegria e ruge de felicidade. — Já estava na hora moleque, alguns de nós estão com a agenda cheia, diferente de você. — Piscando para mostrar que era piada, ele lambe seus lábios e pergunta, — O que está nessa caixa? Você cozinhou algo para nós?

— Nop. Espólios da minha viagem de caça. Vejam, os mais novos membros da nossa família. — Descobrindo a caixa com um floreio grande, minha revelação dos coelhos recebe respostas mistas. Tate grita de alegria e corre para dar uma olhada mais de perto, mas cauteloso da mamãe coelhin, eu previno ela a ficar na distância de um braço. Baatar, Alsantset e Charok sorriem e acenam, mais do que felizes em relevar minha obsessão em colecionar bichos. Revirando seus olhos, Akanai e Mila estão com a mesma meia careta de desaprovação/entretida enquanto Husolt e Li Song compartilham um suspiro desapontado, um par de pai e filha farinha do mesmo saco sofrendo enquanto esperam o almoço.

Até agora, todo mundo está reagindo a caráter, mas Sarnai e Lin quebram o padrão. Pondo a mão em sua boca, Sarnai abafa sua risada feminina enquanto os lábios de Lin se contorcem como se ela estivesse chupando um limão, olhos cerrados em desaprovação clara enquanto ela encara os coelhos bebezins adoráveis. Tão estranho, eu esperava que as reações fossem trocadas, mas ver Sarnai animada assim é acalentador. Depois de trocar com Baledagh, ele reporta que o quarto está livre de Espectros antes de escapar de volta para o nosso Palácio Natal, ignorando minha sugestão de ficar para o almoço em família. Sabendo que não há nada que eu possa fazer para ele mudar de ideia, eu volto minhas atenções para Sarnai, aproveitando a visão de seus ombros balançando com risada mal contida. 

É uma mudança bem-vinda de sua careta ardente ou olhar cheio de lágrimas e é bom saber que os Espectros deixaram ela em paz. Eles não a incomodaram enquanto ela estava em coma, mas no momento que ela abriu seus olhos eles vieram em enxames como lobos avançando em uma presa enfraquecida. Felizmente, nossa conversinha purificadora de ontem a noite parece ter animado os ânimos dela, seus olhos brilhando com vida enquanto Baatar a abraça. Eles raramente mostram afeição tão abertamente, mas eu não estou certo se é porque Akanai adotou Baatar e Sarnai se vê entre família ou porque ela parou de ligar para o que as outras pessoas podem pensar. De qualquer jeito, eu estou feliz em ver ambos tão animados, aninhados juntos e compartilhando uma conversa privada por Envios conforme a cauda de Baatar ameaça partir a cadeira que ele está sentado.

Por mais maravilhoso que isso seja, eu estou confuso pela reação dela. Por mais adorável que eles possam ser, meus quinze coelhos bebezins estão longe de ser hilários, se encolhendo de medo de Tate enquanto Tali finge que é velho e másculo demais para se interessar nos bebezins. Não vai durar muito porque eles são fofos, tremendo enquanto se viram de costas com tantos olhares e enfiam suas cabeças no pêlo branco e longo de mamãe coelhin. Apesar de todos compartilharem as mesmas orelhas caídas, apenas dois bebezins compartilham a cor dela enquanto oito deles possuem uma combinação de cinza e branco. Quatro são cinza puro e o último é o meu favorito com seu pêlo dourado-acastanhado, parecendo um mini-Aurie com orelhas de coelho. 

Apesar de eu saber que não devia nomeá-los ainda, eu já decidi que ele ou ela vai se chamar Fulvo Um¹ ou Fulva Um. Funciona para um menino ou menina e se esses coelhos falharem então meu próximo coelho dourado-acastanhado será Fulvo Dois. É tudo sobre maneirar as expectativas. No melhor caso, eu revoluciono o negócio de caça a ervas e fico ainda mais rico. No pior caso, meus gatos selvagens e ursos vão ter coelho fresco para comer por um dia ou dois. 

Mantendo um olho atento em mamãe coelhin, eu adiciono rapidamente meu último pedaço de fruta seca e raízes para a pilha de comida dela cada vez menor, esperando manter ela calma por mais alguns minutos. Ignorando seus bebês, mamãe coelhin come como se ela tivesse passado fome por dias, mas ela está comendo assim pela maior parte de uma hora agora. Com pouco mais de vinte quilos, eu estou impressionado com quanta comida ela consegue comer. Pobrezinha, é provavelmente devido ao estresse de dar a luz a quinze coelhinhos. Comer é a única coisa que a mantém calma e não sei o que vou fazer quando ela estiver cheia. Corajosa ao ponto de ser imprudente, mamãe coelhin gastou meia hora dando cabeçadas nos meus calcanhares enquanto andávamos para casa, tentando inutilmente “resgatar” os bebês dela. Eventualmente, ela desmaiou de exaustão ou uma concussão e eu coloquei ela na caixa com os bebês dela. Com sorte, depois que ela acordou, ela parecia ter esquecido a coisa toda do rapto e mastigava com alegria a ração de viagem. 

Pelo menos, ela não se matou me dando cabeçada. Pelo que eu li, é uma possibilidade real. Eu estou pensando que em um mundo cheio de pessoas e animais sádicos, morrer rapidamente não é um mecanismo de defesa terrível.

Ficando entre os gêmeos e mamãe coelhin, eu chamo minha esposinha desapontada para ver os bebezins. Ela não é exatamente uma supremacista das lebres como o papai dela, mas é difícil para crianças não pegarem os maus hábitos de seus pais. Andando relutante, o franzido de Lin diminui quando ela estica a mão para afagar mamãe coelhin. Com pêlo branco sedoso e orelhas longas e caídas, mamãe coelhin parece ridiculamente fofa enquanto ela bate seu pé em desagrado, alternando entre agradada e zangada enquanto decide se o toque é tolerável. Felizmente, Lin tem um jeito com animais e mamãe coelhin eventualmente decide que minha esposa com orelhas de coelho não tem más intenções e volta a comer a toda velocidade. 

Eu quero afagar ela também, mas ela reage ao meu toque com violência desenfreada. Eu preferia que ela não se matasse antes dos bebês dela desmamarem então eu mantive minhas mãos longe. 

Me dando o olhar mais frio que ela já me mostrou, Lin torce o nariz e diz, — Maridinho, você devia libertar eles, né? Eles são animais selvagens e não bichos de estimação para brincar. 

— Eu não trouxe eles para serem bichos de estimação. — Bom, não apenas isso. — Eu tenho boas razões para rap… Éee… olha, meu plano…

Minha visão de coelhos caçadores de ervas não me ganha pontos enquanto Lin balança sua cabeça, apesar dela não parar de fazer carinho na mamãe coelhin, apaixonada pelo casaco de inverno macio e felpudo dela. — Papai não vai gostar. Você sabe como ele é quando se trata de coelhos.

Pegando uma linha do Ulfsaar, eu respondo, — Toda criatura tem seu propósito. Professor vai deixar passar minha heresia quando eu trazer uma braçada de Plantas Espirituais graças aos meus amigos orelhudos aqui. 

Finalmente, sucumdindo a curiosidade, Tali se junta a sua irmã em encarar os coelhins assim que mamãe coelhin termina de comer. Se movendo como um raio, mamãe coelhin pula da gaiola para explorar seus novos arredores, acreditando estupidamente que os bebês dela estão seguros no novo “lar” deles. Avistando Jimjam agachado e pronto para ação, a mamãe coelhin suicida avança contra a ameaça e dá uma cabeçada em Jimjam. Reagindo de um jeito bem menos espetacular que o irmão, Jimjam se encolhe surpreso enquanto encara esse agressor curioso e ameaçador, tentando decidir como proceder daqui. Com um alto — Nãaaao! — Lin pega mamãe coelhin nos braços logo quando Jimjam decide que quer dar uma mordida, confundindo o pobre gato selvagem mais ainda. 

“Comida ou amigo?” ele parece perguntar, encarando estupefato.

Escapando dos braços de Lin em um instante, mamãe coelhin bate o pé no chão em mostra de dominância antes de decidir descuidadamente que o confuso Jimjam não é uma ameaça e prosseguir. Levando Lin em uma corrida divertida, mamãe coelhin manda Banjo, Baloo e Sarankho voando antes de pegar onde ela deixou mais cedo, atacando “cruelmente” minhas canelas machucadas por razões desconhecidas. Com instintos como esse, eu estou surpreso que coelhos bicornudos ainda existam. Jimjam e Sarankho já tiveram o bastante e estão olhando para mamãe coelhin como a próxima refeição deles, mas felizmente o primeiro que eu ensinei a eles foi “deixe para lá”. 

Isso mostra que força não é o único fator definitivo na sobrevivência. Como eu disse antes, quantidade tem uma qualidade própria. 

Seriamente, quinze bebês em uma ninhada só? Minha vagina inexistente arde em simpatia. 

Não encontrando sucesso em suas tentativas de acalmar mamãe coelhin, Lin faz beicinho e apela, — Faça algo antes que ela se machuque. Esses pobres bebezins precisam da mamãe deles. — Afagando a cabeça da minha esposinha doce, eu a abraço. — Não se preocupe, ela é um coelhin durão. Deu um bom e velho tapa no Aurie e, então, quase quebrou meu nariz logo depois. Levou uma boa meia hora de cabeçadas até ela desmaiar, então por que não deixamos ela se cansar enquanto comemos?

— Fortuna favorece os ousados e tolos, apesar de existir uma linha fina entre os dois. — Me virando surpreso com a voz desconhecida, eu encontro a Líder da Guarda velada sentada ao lado de Sarnai na mesa. Como eu não vi ela até agora eu nunca vou saber, já que uma mulher coberta dos pés a cabeça em seda negra é difícil de não notar. Depois de vários segundos olhando na minha direção, ela pega seu copo até seu véu e bebê seu chá antes de falar, — Essa criatura possui um corpo mais forte que o normal e está prestes a formar um Coração. Sem dúvida comeu muitas Plantas Espirituais pelos anos. — Em um tom presunçoso, ela adiciona, — Taduk vai pirar quando descobrir.

Leva um segundo para eu entender suas palavras e meus olhos se arregalam em pânico. — Shhh! Você devia usar Envios para informação perigosa como essa, e se alguém ouvir? — Mesmo se é um coelho que ainda não formou um, pessoas matariam por um Coração. Eu já tenho inimigos o bastante, muito obrigado. Eu não preciso de mais razões para pessoas quererem me matar. 

Desculpa mamãe coelhin. Quando seus bebês desmamarem, parece que você vai virar sopa. 

Com uma bufada elegante, Líder da Guarda dispensa minhas preocupações. — Qualquer um forte o bastante para bisbilhotar na minha presença não vai ligar para um Coração do tamanho de uma uva passa. Cuide bem da criatura, ela pode muito bem ser a coelha bicornuda mais forte em existência, a primeira entre trilhões.

… bom que porra. Eu preciso mesmo? Mamãe coelhin nem é carinhosa, ela ainda está tentando pulverizar minha canela. 

Como se lesse meus pensamentos, Alsantset Envia, — Só faça como ela diz, é o mínimo que você pode fazer depois de ser tão rude durante sua viagem para Sanshu. Nós vamos falar sobre os seus maus modos quando o almoço terminar. — Batendo suas mãos, ela diz alto, — Chega de enrolar, eu temo que a barriga do vovô vai se devorar se o almoço atrasar mais. 

Sorrindo por ser chamado de “vovô”, Husolt bate na mesa em aprovação. — Boa noite, a única cuidando desses olhos velhos. — Beliscando a bochecha de Mila, ele adiciona provocativamente, — Viu como a pequena Alsantset é apropriada e fiel? Você podia aprender com a sua sobrinha. 

É engraçado pensar que Baatar, Mila e Li Song são irmãos. Para começar  eu sou noivo da minha tia, um conceito que eu acho muito erótico. É como incesto sem o risco de crianças doentes e deformadas. 

Incesto? Está mais para wincest². 

Distraindo mamãe coelhin com algumas folhinhas, eu deixo ela para aterrorizar meus bichos e espero que Jimjam ou Sarankho resolvam o problema para mim, mas não parece provável. Eu treinei eles bem demais e eles estão tratando mamãe coelhin como uma criancinha irritante e curiosa com indiferença extrema. Olhando ao redor, eu estou feliz de ver rostos sorridentes, apesar da ausência de Taduk e a visão da Líder da Guarda arruínam a atmosfera. Eu entendo o motivo de meu Professor não estar aqui, ele provavelmente perdeu a hora enquanto fazia sua pesquisa, mas o motivo da Líder da Guarda estar aqui e, mais importante ainda, por que ela come com o véu? Eu aposto que ela está escondendo uma deformidade nojenta por baixo e Taduk está ajudando ela a tratar. Não consigo pensar em outra razão para uma perita como ela se rebaixar para guardar minha esposinha doce. 

Depois de devorar uma refeição suntuosa e lembrar tardiamente de enviar algo para Gerel, eu me recosto para uma espreguiçada pós-comida e aproveito a sensação estranha de espaço pessoal. Tali e Tate estão ocupados com Baatar e Sarnai enquanto Lin está no seu melhor comportamento hoje, agindo toda apropriada e como uma lady. Acima de tudo, meus bichos estão todos ocupados evitando mamãe coelhin para vir pedir comida, me deixando livre para aproveitar minha refeição em paz. Ela pode ser um saco de pulgas estúpido, com orelhas caídas cuja existência vai pintar um alvo nas minhas costas, mas ela tem seus usos. 

Aff, olha para mim usando todos esses xingamentos preconceituosos contra coelhos. Acho que eu sou um supremacista das lebres enrustido. E de novo, eu ainda não sei como diferenciar coelhos e lebres. Talvez eu devia conseguir uma lebre como bicho de estimação para acalmar o ultraje inevitável de Taduk, mas estranhamente, eu nunca vi uma lebre antes. Eu encontrei muitos animais exóticos como pássaros do terror, jatuyas, ursagons, crocodursos, saurofages e garos, mas nenhuma lebre. E de novo, se dá para acreditar no Taduk, as lebres nesse mundo correm pelas nuvens e se alimentam de carne, então eu não estou certo se eu quero ver uma, muito menos ficar com uma como um bicho de estimação. 

… ah, quem eu estou enganando? Eu ficaria com um lobo ou tigre se eu pudesse, então por que não uma lebre? Contanto que seja fofo e amigável, eu quero ficar. Eu posso ter um problema em colecionar bichos, mas se todos os meus bichos são bem cuidados, limpos e não matam ninguém, é mesmo um problema? 

Quando o lanche termina e todas as conversinhas terminam, pessoas começam a ir embora sozinhas e em pares. Sarnai e Baatar são os primeiros a ir seguidos por Husolt e Mila voltando para trabalhar. Pretendendo voltar com Li Song para nossa luta em grupo diária, Akanai me pede para ficar para trás. Tomando isso como a deixa para eles irem embora, o quarto fica vazio exceto por Akanai, Líder da Guarda, eu e mamãe coelhin que passeia pelo quarto o marcando como território dela com cocôs sem cheiro e mijos fedorentos. Se não fosse pela presença da Líder da Guarda, eu estaria preocupado que isso era um esporro de Akanai por trazer essa maquininha de fazer cocô para dentro da casa dela. 

Eu não deveria me surpreender. Esqueça lutas e tribulações. O verdadeiro caminho do mundo é comida entra, cocô sai. 

Já que nenhuma dessas mulheres poderosas estão prontas para falar, eu me ocupo limpando as merdas de mamãe coelhin, muito para o desalento do saco de pêlo. Ignorando as tentativas dela de me bater até a submissão, eu espero pacientemente para alguém me dizer o que está acontecendo enquanto esfrego cocô e mijo do chão de pedra, eternamente grato pelo desgosto de mamãe coelhin por carpetes. Eu fui mimado por quins, eles são tão chatos para escolher onde fazem suas necessidades que eles treinaram meus outros bichos. 

Ei, talvez Pafu ou Suret comam a mamãe coelhin. Então eu não tenho que me preocupar em andar com um Coração respirando e andando. 

Depois de minutos longos e sufocantes de silêncio, Líder da Guarda perde o desafio de quem consegue ficar em silêncio por mais tempo. — Eu ainda acho que é melhor exilar ele. Esse menino não trouxe nada além de problemas. 

… espera, o que? Eu estive em risco de ser exilado?

— Esse menino — Akanai respondeu, seu tom seco e direto ao ponto, — salvou seu Discípulo mais novo.

— Hmph. Um fracote por se deixar ser tão influenciado. Eu estaria melhor sem ele. Exile ele também.

— Sem Rain, nós não teríamos descoberto até as coisas serem tarde demais. A história poderia ter se repetido com Gerel na liderança.

— Ainda pode. Nós só temos a palavra do menino que eles foram limpos. Ele poderia estar errado ou pior, mentindo.

— Ou ele poderia estar certo e ter uma arma contra a corrupção. — Bebendo seu chá, Akanai parece calma e no controle e, apesar da Líder da Guarda estar velada, mas seu corpo se remexendo levemente traí sua ansiedade. Ela realmente quer tanto que eu vá embora? Eu sabia que as Pessoas não estavam muito felizes comigo, mas eu não achei que as coisas eram tão severas assim.

Encontrando minha voz, eu pergunto, — Ninguém pode nos ouvir? — Quando eu recebo confirmação, — Isso tudo porque eu fui Maculado?

Akanai hesita por meio segundo, não muito, mas o bastante para ter significado. — Em partes. — Ela responde, sem divulgar mais. 

— Pela sua própria admissão, você quase se tornou Corrompido. — Líder da Guarda fala e eu posso imaginar o olhar frio atrás do véu dela. — Você viu em primeira mão que vai acontecer se notícias da sua Mácula se espalharem. O Império vai nos caçar até a extinção. Se você realmente se importasse com sua família, você iria embora agora e nunca voltaria. Fosse ir para o sul viver em reclusão ou oeste para morrer lutando contra os Corrompidos, o que quer que você faça, sua família estará mais segura.

— Um passo de me tornar Corrompido? — Depois de repetir suas palavras, eu vou até a janela e olho para fora antes de me virar. — Agora eu estou a um passo da morte. Exceto que como antes eu escolhi não dar aquele passo. — Atrasadamente me preocupando que ela possa me jogar para fora, eu volto para o centro do quarto, com as constantes cabeçadas de mamãe coelhin interrompendo meu passo e tirando toda a minha seriedade. Coelha burra, aprenda a ler o ambiente. — Os Espectros são uma praga e eu vítima deles. Sim, eu cheguei perto, mas eu não dei aquele último passo, nem acredito que algum dia o darei. — Nem irá Baledagh, não enquanto eu existir.

Suspirando levemente, Líder da Guarda balança sua cabeça. — Você disse que escolheu, mas eu acredito que você fez o contrário. Você foi salvo por um encontro fortuito. A Purificação te forçou no precipício e você se coçava para se rebelar, destruir seus inimigos e impor sua vontade não importasse o preço. Se tivesse os meios, você teria matado a Picanço e que se fodam as consequências. — Afagando minha bochecha de um jeito estranhamente carinhoso, ela sussurra, — Sua determinação e convicção te tornam mais perigoso em mais jeitos do que você pensa. Vocês humanos brilham tanto, como uma vela prestes a se apagar. Vocês ligam pouco para o futuro porque vocês não estarão vivos para vê-lo, mas nós devemos olhar para frente. 

Inacreditável. — Você acha que eu estava errado em me opor a Purificação? Você acredita que infringir dor e sofrimento em milhares de inocentes é a coisa certa se fazer?

— Uma gota no oceano se comparada as vidas que seriam perdidas se os Corrompidos conseguissem uma base no Império.

— Eles têm agora não têm? Eles tomaram a Província Ocidental.

— Então, e as vidas perdidas se o Império se virar contra as Pessoas. — Suspirando mais uma vez, Líder da Guarda se vira para Akanai. — Você vê? Ele é teimoso e insubordinado, antagonista e dissidente. Ele já arriscou nossa segurança pelas vidas de estranhos impotentes, simplesmente porque ele acredita que é o certo a se fazer. Ele é um perigo para todos nós e deve ser lidado antes de ser tarde demais. Você acha que ele vai ficar parado sem fazer nada quando ele tiver poder próprio? Ele já está destinado a ascender a proeminência, ganhando famílias nobres para o seu lado através de suas ações e treinando guerreiros leais a sua causa em vez dos nossos. Marque minhas palavras, este aí é um prenúncio do caos e desordem, uma centelha perigosa em um mundo cheio de lenha. Exile ele e acabe com isso.

O silêncio de Akanai dura uma eternidade enquanto eu cambaleio entre incredulidade e ultraje. As acusações da Líder da Guarda encaixam bem demais para o meu conforto. Eu nunca pensei sobre como minhas ações colocariam todos em perigo. Apesar de parecer certo e justo, ao me opor a Picanço e a Purificação, eu cheguei perigosamente perto de pôr as Pessoas em oposição direta ao Império, algo que eu só posso imaginar que acabaria em um fim trágico. Se não fosse pela mediação de Yuzhen ou a tentativa insana da Picanço de me levar como prisioneiro, a coisa toda poderia ter explodido na minha cara. Akanai sempre falava sobre fugir para as montanhas, mas elas só servem como um impedimento aos exércitos imperiais, não uma barreira. 

Talvez eu seja estúpido e egoísta, preso demais em como as coisas deveriam ser para aceitar como elas são. Uma provocação bêbada dos meus lábios causaram um conflito massivo entre as Pessoas e a Sociedade. Minhas ações durante a Purificação, não importa quão bem intencionadas, colocaram todos que eu conheço em risco grave. 

Quem vai falar que eu não farei isso de novo?

Líder da Guarda está certa. Os Bekhai estão melhor sem mim. 

Antes que eu junte a coragem para falar, Akanai quebra o silêncio. — Eu não tenho nada para falar. Exilar ele é decisão sua, não minha. — Se levantando para ficar do meu lado, ela põe um braço no meu ombro e sorri antes de continuar. — Saiba disso: Rain é meu Grão-Discípulo e neto. Exilar ele significa me exilar e o resto da minha família. Tome sua decisão mulher. Meu neto tem um compromisso para um treino de combate. 

Eu sempre acreditei que eu dei sorte em encontrar uma família que me amava. 

Dessa missa eu não sabia metade.


1 Fulvo: sei que é uma palavra horrível, mas é um amarelo-acastanhado

2 Wincest: para quem não é fã de Supernatural, ou mais específico as fanfics da série. Wincest é um termo comumente usado para descrever fanfictions que retratam um relacionamento romântico ou sexual entre os irmãos Sam Winchester e Dean Winchester.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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