DS – Capítulo 284

— Você espera que o Clã Lin pague pelo que é nosso por direito? Isso é um absurdo.

Não, o que é um absurdo é um diplomata realizado perder a cabeça tão prontamente. Resistindo a vontade de revirar seus olhos, Yuzhen esperou em silêncio estóico para Lin Xiang Gu perceber a severidade de suas ações. Apesar dele não ser um guerreiro, bater na mesa e avançar na Marechal do Norte era uma quebra de etiqueta severa a qual fez seus guardas pegarem em suas armas. Yuzhen estava bem no direito dela de mandar esse homem ser chicoteado ou pior e ele sabia. Ah, quão difícil era esconder seu sorriso enquanto ela assistia seu rosto ir de roxo de raiva para branco de terror, suas bochechas tremendo e boca trabalhando conforme o diplomata principal do Clã Lin lutava para inventar uma desculpa para suas ações. 

Papai ensinou a ela como usar o silêncio como uma arma e, apesar dela estar feliz em esperar, o assistente de Yuzhen sinalizou que era a hora do almoço. Gesticulando para seus guardas permanecerem no lugar, ela se levantou e foi embora do quarto sem uma palavra sequer, deixando o sapo gordo e suas contrapartes de toda a província para ficar de molho na ausência dela. Yuzhen já disse sua parte e seu desprezo para todos os presentes deve servir de dica para o quão pouco lucrativo esse contrato significava para ela. Se qualquer um deles pesquisasse um pouco, eles perceberiam que ela poderia facilmente cumprir o contrato ela mesma, mas seus esforços eram mais bem gastos em outro lugar. Longo se foram os dias quando aqueles homens e mulheres possuíam todo o poder econômico no Norte. Agora, ela jogava migalhas para seus Tenente-Marechais e esperava que eles o agradecessem pela generosidade dela. Para Lin Xiang Gu esperar que Yuzhen fizesse chover prosperidade no clã dele mostrava o quão duro Papai tinha que trabalhar para as coisas serem feitas. Graças ao sacrifício dele e do poder econômico de Sanshu em seus bolsos, Yuzhen tinha a liberdade que ele apenas sonhava. 

E ela trocaria tudo isso por cinco minutos ao lado dele, mas essa era a vida. 

Passando pelo corredor e entrando em quarto privado, ela sorriu ao ver seu amado sentado esperando. Mostrando um olho roxo e lábio cortado de sua prática matinal, Gerel, o marido perfeito, um homem quieto, forte e confiante, feliz em ficar ao lado dela sem precisar de massagens no ego a cada momento que eles estavam a sós. Papai teria odiado Gerel e sua atitude fria e estóica, aparentemente desinteressado em avançar sua carreira ou qualquer outra coisa não relacionada ao Caminho Marcial. Papai costumava chamar pessoas como ele de “cabeças de músculos”, fanáticos focados demais em força pessoal para ver mais longe que seus próprios narizes. Por tudo, Gerel se encaixava direitinho, envolto em um mar praticado de indiferença que beirava o desdém, mas Yuzhen sabia que ele era muito mais. Se escondendo por baixo de sua arrogância frígida estava um homem de paixão e calidez, um parceiro amoroso e inteligente que teve fome de afeto por toda sua vida. 

Órfão desde bebê, o talento de Gerel em combate e comando chamou a atenção da “Mentora” dele, uma mulher arrogante e pretensiosa que proíbia os outros de revelar o nome dela. Apesar de Gerel dizer que gastou meses rastreando ela e implorando para ela ensiná-lo, Yuzhen sabia que se a Mentora misteriosa dele não quisesse ensiná-lo, então ela nunca teria sido encontrada por um menino de quatorze anos. Pior, a vadia o levou pelo nariz e amarrou-o por mais de uma década agora, ensinando ele pedacinhos para mantê-lo no anzol enquanto negava o relacionamento deles até esse mesmo dia. Por causa disso, nem sua Mentora, suas pessoas, nem o Império o aceitavam totalmente como um deles, esse homem bravo e talentoso, de olhos ardentes um forasteiro onde quer que ele fosse. 

Talvez fosse esse o motivo dele nunca ter perdido a chance de falar para ela o quão linda ela parecia ou o quanto ele a amava. Ela amava o jeito que ele olhava para ela, o jeito que ele dizia o nome dela, até o jeito que ele afastava o cabelo dela para olhar para os olhos dela. Quebrava o coração dela saber que ele não tinha amigos ou família própria, um pária em vez do herói celebrado que ela pensou que ele era. Um homem reservado, ele nunca falou do motivo dos Bekhai o tratarem tão mal e Yuzhen nunca pressionou por respostas, mas irritava ela profundamente. Seu encontro com os Espectros era recente demais para explicar sua completa falta de amigos, mas ela estava feliz em esperar até ele estar pronto para contar tudo para ela. Até lá, ter ele ao seu lado era o bastante. 

Sentando em seu colo, ela o beijou profundamente antes de se afastar, inclinando o rosto dele para olhar melhor para as feridas dele. — Ah, meu pobre cordeirinho, você parece pior do que ontem. — Cautelosamente cutucando suas costelas em busca de fraturas ou rachaduras, ela inclinou sua cabeça e disse, — Minha nossa. Aquele chato do Rainzinho te assediou de novo? Eu devia ter uma conversa com a Mentora dele? Eu não posso aceitar que meu marido perfeito venha para casa enfaixado toda hora, as tavernas vão estar cheias de rumores sobre minha mão pesada. 

Sua careta amarga fez ela rir e o beijou mais uma vez para compensar pela provocação. Se encolhendo quando seus dedos encontraram uma costela ferida, ele bateu em sua bunda levemente e balançou sua cabeça. — Você brinca demais beldade, mas eu temo que o dia chegará logo quando essas palavras serão verdade. O progresso de Rain não é nada além de espantoso. 

— Não se preocupe meu amor ferido. Brotos jovens crescem rápido, mas o gengibre velho é mais picante. — Correndo seu dedo ao redor do olho roxo dele, ela adicionou, — Isso, entretanto, é uma primeira vez. Como ele conseguiu passar pelas suas defesas para machucar seu rosto lindo? — Ela não estava muito chateada, as feridas faziam Gerel parecer mais selvagem e perigoso. 

— Um truque. — Gerel cuspiu as palavras, seu lábio se contorcendo em escárnio. — Eu não quero falar sobre isso. 

— Bom, você tem duas costelas feridas, um olho roxo e lábios cortados. — Dando uma mordiscada em sua orelha, ela sussurrou, — Como seu oponente acabou depois de hoje?

— … eu perdi a paciência e acabei decepando as pernas dele. Logo acima do joelho. — Ah, pobre criança, seu amor era um bruto. Talvez ela devia se “sacrificar” para temperar a agressão dele. — Não que ele ligou, o idiota reconectou elas sem piscar. Reclamou mais das calças arruinadas do que da dor em si. 

Homens e seus egos frágeis. Ele quase soava como se admirasse a resiliência de Rain, mas o herói jovem era um assunto delicado para a confiança normalmente suprema do futuro marido de Yuzhen. Ela mal podia esperar para anunciar o noivado deles, mas como uma filha fiel, ela pretendia lamentar o falecimento de Papai como o costume exigia, sem celebrações até que um ano e um dia tenham passado. Afagando sua bochecha, ela disse, — Você ainda terminou na frente, nada para preocupar essa sua cabecinha linda. — Saindo de seu colo e se sentando na sua própria cadeira, ela apertou sua coxa e sorriu. — Agora pare de ficar amuado e coma. Você vai precisar de força, meu cordeirinho. Eu tenho planos para você e um horário para cumprir, então se apresse. — Ao passo que ela não podia manter todos aqueles dignatários esperando por tempo demais, uma hora ou mais não era exagerar e havia tanta diversão que ela podia ter em uma hora. 

No meio da refeição deles, as portas se abriram de repente e um esquadrão de soldados armados entraram sem ser convidados. Pegando sua arma, Yuzhen congelou ao ver o estandarte vermelho, com linhas de ouro colado nas costas do soldado na liderança. Um Mensageiro Imperial, aqui para entregar as ordens do Imperador. Ficando de joelhos, ela instruiu freneticamente para Gerel fazer o mesmo através de Envio. Um Mensageiro Imperial com o estandarte do Imperador representava o próprio Imperador, então ela rezava para que Gerel não  fizesse nada impensado. Curvando sua cabeça, ela disse, — Dez mil anos de longevidade sem fim para o Imperador. Servente Imperial Yuzhen espera suas ordens. — Cabeça ainda abaixada, ela mostrou ambas as palmas como demanda o protocolo. 

Pondo a missiva em suas mãos, o Mensageiro Imperial disse, — O Imperador Demanda. 

— E essa serva obedece. 

Em vez de se virar para ir embora, o Mensageiro Imperial deu passo para o lado a fim de ficar na frente de Gerel. Confuso, ela transmitiu através de Envio o que ele devia dizer enquanto ele repetia suas palavras e recebia uma missiva própria.

Ambos permaneceram de joelhos até o Mensageiro Imperial deixar o quarto com suas escoltas e as serventes dele fecharem as portas. Uma gota de suor fria escorreu pela espinha de Yuzhen enquanto ela imaginava o que teria acontecido se o Mensageiro Imperial tivesse chegado meia hora depois. Talvez fosse melhor deixar os romances deles para quartos com portas trancadas, mas metade da graça era a excitação da possibilidade de ser pega. Depois de checar o selo de cera em busca de sinais de alterações, ela desenrolou o pergaminho e leu suas ordens, seu coração ficando mais pesado com cada palavra. Apesar de transparentes e inócuo na superfície, essas ordens poderiam significar o fim do Império como ela conhecia. 

Seu cordeirinho Gerel tinha um sorriso raramente visto enquanto ele celebrava sua fortuna, incapaz de ver além da superfície. Em vez de dividir suas preocupações com ele, Yuzhen ofereceu suas congratulações e silenciosamente fez planos, buscando transformar essa crise em oportunidade. Para quem ela podia recorrer? Nian Zu? Não, ele sem sombra de dúvidas receberia suas próprias ordens, como iria seu sucessor Baatar e cada soldado ou Subtenente de nota. Talvez Akanai poderia ajudar Yuzhen a passar por esses tempos difíceis. 

Se não ela, então quem mais?

Nos braços de seu amor, Yuzhen fechou seus olhos e rezou pela segurança de Gerel, desejando a ele o melhor nos desafios e tribulações que estavam por vir.  

— Que notícias maravilhosas! — Zian assustado com a exclamação alegre de Tio Yang. Sua barba desalinhada e não cuidada o fazia parecer um homem louco enquanto ele dançava alegre ao redor do vestíbulo com o pergaminho em mãos, celebrando as notícias trazidas pelo Mensageiro Imperial. — Eu temia o pior, mas o Imperador não me abandonou. Isso é uma oportunidade dos Céus para consertar minha reputação. 

— Parabéns, Tio. — Zian disse. Esses últimos meses foram difíceis para todos eles, mas ele estava feliz de ver o homem sorrir de novo. 

Sorrindo, Tio Yang usou seu pergaminho para cutucar o gêmeo dele segurado por Zian. — Isso não são apenas boas notícias para mim, garoto. — Batendo em suas costas, Tio Yang o puxou para um meio-abraço, uma mostra rara de afeto estragada pelo seu odor fétido e suor amargo. Zian nem queria pensar quanto tempo fazia desde que Tio Yang tomou banho. — Seus talentos foram notados e seu futuro sem limites. Você vai conseguir grande glória para nossa família e Clã nos próximos meses, disso eu tenho certeza. 

Uma pontada de culpa passou por Zian enquanto ele assistia seu tio celebrar. A única razão que Zian não se retirou dos negócios do Clã e da Sociedade era por causa do futuro de Tio Yang que ainda não foi determinado por causa de seu erro aqui na Muralha. Agora que o Imperador falou, a carreira e vida de Tio Yang não estavam mais em risco, o que significava que Zian poderia renunciar a sua posição como jovem patriarca sem temer pela segurança deles. Tossindo para limpar sua garganta, Zian preparou sua mente e perguntou, — Tio? E se… e se eu me retirar dos negócios do Clã para focar no meu Caminho Marcial?

Suas palavras trouxeram um fim abrupto à celebração de Tio Yang. Por longos segundos, Zian se xingou internamente por abrir sua boca enquanto suava sob o olhar silencioso e severo de seu Tio, o Guerreiro Marcial revigorado pela absolvição do Imperador. Correndo distraidamente seus dedos por sua barba embaraçada, Tio Yang suspirou enquanto seus olhos encaravam o longe, refletindo nas memórias de um passado distante. Depois do que pareceu uma eternidade, ele finalmente falou, sua voz pouco mais alta que um sussurro. — Me dói admitir isso garoto, mas eu não sou um homem talentoso. Esqueça ser o primeiro entre meus iguais, eu não ousaria dizer que estou no top cinquenta, mas ainda eu sobrevivi onde homens melhores morreram, minha carreira avançando enquanto talentos maiores estagnaram. Isso me levou a acreditar que eu era abençoado pela Mãe e destinado a grandeza, então eu gastei meus dias e noites sonhando em liderar o Clã Situ para a prosperidade. — Balançando sua cabeça, ele continuou, — Mas o que o homem propõe os Céus se livram. A verdade é, eu devo tudo que eu tenho a nascer um nobre, sorte fenomenal e trabalho duro. Eu soube faz anos que nunca me tornaria o Patriarca do Clã, mas eu não conseguia abandonar meus sonhos de uma vida. Quando eu soube dos seus talentos enviados pelo Céus, eu sabia que você me superaria em tudo e uma parte minha esperava ir atrás de você para o sucesso que eu uma vez sonhei. Eu estava errado em fazer isso. 

— Tio…

— Quieto menino. — Não havia raiva na voz de Tio Yang, só direção de aço, comandando a conformidade através de pura força de vontade. — Você, Situ Jia Zian, é um dragão entre homens. É o meu maior orgulho poder me chamar de seu tio e minha maior vergonha de admitir que eu não tive parte em te moldar no homem que você se tornou. — Dessa vez, Tio Yang o deu um abraço com toda força e Zian nem notou o cheiro. — O que quer que você escolha para sua vida, eu vou te defender com o melhor das minhas míseras habilidades. — Se afastando, Tio Yang franziu e disse, — Seria melhor se você esperasse até nós estarmos fora do alcance da sua Mãe antes de você informar ela. Ela te ama muito, mas ela pode… exagerar. Você sabe como ela é. 

Tragado para um redemoinho de emoções, Zian teve problemas em compreender o que acabou de acontecer. Pelo menos Tio Yang não era contra ele abandonar as políticas do clã o que era um alívio bem-vindo. — Me defender do que? Por que minha Mãe se oporia a minha escolha? Ela nunca quis que eu fizesse parte das políticas do Clã, mas o Patriarca me fez o sucessor dele independente das objeções dela. 

— Verdade, verdade, mas sua decisão ainda vai chatear ela. Seu pai tentou algo similar e… bom, eu tenho certeza que você sabe o resto. 

— O resto do que? — Quase tudo que Zian sabia sobre seu Pai, ele aprendeu lendo seu marcador de lápide, Lu An Jing, Marido de Situ Jia Ying. Zian nem foi mencionado porque ainda faltava meses para ele nascer. Na verdade, ele só descobriu que seu Pai usava sabres duplos por causa das Armas Espirituais inertes penduradas na parede do quarto de sua Mãe. 

— Mesmo? Eu estava certo de que ele já teria te contado tudo. — Levantando uma mão para impedir Zian de continuar, Tio Yang balançou sua cabeça. — Eu prometi para sua mãe nunca falar disso na sua presença, então não pergunte. Se você quer saber mais, então pergunte aquele maldito impertinente que você chama de Mentor. 

Confuso e sem palavras, tudo que Zian conseguia fazer era gaguejar como um tolo bêbado. — Mas o que? Men…  Mentor? Quem? Eu nunca… — Como ele sabia? Eles foram tão cautelosos para manter as coisas em segredo…

Revirando seus olhos, Tio Yang se virou, ficando de costas retas com as mãos nas costas enquanto olhava pela janela. — Eu não sou uma dama para ser deitado gentilmente. Você escolheu bem aceitando Jukai como seu Mentor. — Indo até seu quarto, Tio Yang terminou a conversa com, — Depois de tudo, quem melhor para te ensinar o estilo do seu pai do que seu irmão marcial mais confiado?

A porta se fechou e Zian foi deixado sozinho boquiaberto, lutando para entender a revelação deslumbrante. Não era surpresa que um homem com as habilidades e patente dele estava disposto a servir um mero Subtenente, Jukai estava cuidando de seu Sobrinho Marcial. Reunindo sua coragem, Zian saiu do vestíbulo em busca de seu Mentor, mentalmente repassando tudo que Tio Yang falou. 

Seu Pai quis se retirar dos negócios da Sociedade. Estranho considerando que não havia Clã Lu e Zian não tinha ligação alguma com nenhuma das várias seitas. Qual era a posição de seu Pai? Foi essa decisão que levou a sua morte? É por isso que sua Mãe deixou o Clã para viver sua própria vida? Ou o por que dela nunca ter falado de seu Pai para ele, para impedir ele de buscar retribuição? Era vingança que a fazia reunir poder pessoal, o bastante para rivalizar a Sociedade?

Qualquer que seja a resposta, Zian estava determinado a tê-las. Se a morte de seu Pai foi devida a traição ou manobras políticas, então como seu filho único e herdeiro era dever de Zian vingá-lo. Para isso, ele precisaria de poder e aliados, ambos em pouca oferta se seu inimigo fosse a Sociedade. Ah Mãe dos Céus, isso significava que ele teria de se aliar com os Bekhai?

Agarrando o pergaminho com as ordens do Imperador, Zian balançou sua cabeça e sorriu. Como Tio disse, essas ordens representavam uma oportunidade enviada pelos Céus, uma chance de fazer novos amigos e aliados. Apesar de não ser mais o talento número um do Norte, ele ainda era um solteiro altamente qualificado e Mãe sempre disse que casamento era uma ferramenta poderosa. Se necessário, Zian iria encantar a mulher mais feia, gorda e fedorenta no Império contanto que ela viesse de uma facção com poder o bastante. 

Qualquer coisa era melhor do que pedir ajuda do Rain. 

Qualquer coisa. 

Pressionado contra o precipício, Huushal lutava contra a vontade sempre presente de olhar para o vazio imenso abaixo de si. Os ventos do inverno uivantes batiam nele em todas as direções enquanto o frio amargo penetrava seus ossos. Exausto e entorpecido, ele fechou seus olhos e acalmou sua respiração, sabendo que esse poleiro pequenino do tamanho de um punho era sua última chance de descansar antes da parte final do trajeto. Diretamente acima dele estava uma saliência, o que significava subir quase paralelo ao vazio abaixo antes de chegar no topo, facilmente a parte mais perigosa da sua escalada mortal de dois quilômetros. Era loucura fazer isso sem uma rede para pegá-lo ou uma corda para segurar sua queda, com apenas um fardo em uma mochila em seus ombros para “ajudar” ele. 

Como se ouvisse seus pensamentos, o fardo se mexeu na sua mochila e quase fez Huushal perder sua pegada. — Hmph. — O fardo bufou, cutucando Huushal pela mochila. — Ainda não chegou lá em cima? Imprestável! É isso que Ghurda chama de talentoso? Meses desperdiçados tentando ti ensinar e cê ainda nun vale porra nenhuma. Chega de enrolar, você tem um visitante esperando. Sobe, sobe, sobe!

Esmagando a compulsão de soltar a mochila e deixar o velho maldito cair para sua morte, Huushal cerrou seus dentes e voltou a subir. Polida por anos de ventos batendo contra sua superfície, o lado de baixo da saliência oferecia poucos lugares para os dedos ou pés se apoiarem, mas recuar nem desistir eram opções. Sanshu e a morte de Tio Kalil mostraram a Huushal quão pouca força ele tinha de verdade e ele estava determinado a consertar isso. Sem risco, sem recompensa e se essa era para ser sua morte, então pelo menos ele levaria esse fardo enrugado com ele, o mundo um lugar melhor sem sua presença. 

Não, não, isso não é jeito de tratar o seu grão, grão… sei lá grão, grão-mentor. Mesmo se ele for um velhote caquético que fede a álcool quando fala. 

O pé de Huushal escorregou e seu coração pulou para garganta. Suas pernas pendendo do lado do penhasco e ele se Empuxou e Reforçou pela sua vida, se agarrando a rocha com a ponta de seus dedos enquanto gritava com o esforço, ambos os pés balançando em tentativas fúteis de encontrar apoio. Músculos queimando e pulmões vazios, Huushal lutava uma batalha perdida contra a gravidade e fatiga, seus braços tremendo enquanto ele tentava desesperadamente manter sua pegada, mas não era para ser. Por um momento breve e eterno, seu corpo pareceu não ter mais peso, como se estivesse suspendido no ar contra toda a lógica. Então, o tempo voltou e o lado do penhasco se afastou acelerado enquanto ele caía para o seu fim. 

Então, ele parou de repente e caiu de quatro, rosto plantado na neve com terra dura por baixo dele. 

O que?

Como?

Isso é o pós-vida? Por que ainda está tão frio?

— Imprestável. — Mesmo no pós vida, o velho maldito ainda estava lá para infernizar ele. — Não consegue nem escalar um penhasquinho de nada. Como eu vou ensinar esse tolo? Ele não é nada comparado a você. 

A voz áspera de Mainha soou e Huushal se perguntou ociosamente o que ela estava fazendo aqui. — Com todo o respeito, mas faz décadas desde que eu escalei esse penhasco. Abra seus olhos cegos e dê uma olhada, o penhasco está mais liso do que as costas de um bebê. Eu estou surpresa que ele avançou tanto. 

— Bah. Desculpas. — Uma bota cutucou Huushal nas costelas e ele correu para se levantar. — Para de ficar deitado aí moleque e vá cumprimentar o Mensageiro Imperial. — Eu estou velho demais pá ajoelhar. Garota maldita, sempre encontrando mais trabalho pá eu fazer. Agora eu imagino que cê queria que eu encontre um penhasco novo…

Sua mente em desordem, Huushal seguiu os Envios de Mainha e andou cambaleando antes de se ajoelhar no chão, incapaz de levantar sua cabeça mesmo se ele quisesse. Depois de dizer tudo que era necessário, ele caiu no chão com pergaminho em mãos, exausto demais para ligar para o que o Imperador queria que ele fizesse. O que quer que fosse, poderia esperar. 

Uma sonequinha, uma refeição rápida, então de volta para o fundo para tentar de novo. 

Essa era a vida. 

Deixando cair a missiva Imperial na mesa, Fung estalou sua língua irritado. Sabendo que Fu Zhu Li a leu por cima de seu ombro, Fung se virou para o homem e levantou uma única sobrancelha em questionamento. — Então… E agora?

Em vez de responder alto, o “servente” sempre cauteloso Enviou sua resposta. — O Imperador anda no fio da navalha. Haverá tempos difíceis à frente. 

— De fato. — Fung Enviou, pegando seu copo de chá com ambas as mãos. — Nossa mão foi forçada. Ou obedecemos e arriscamos perder tudo ou nos rebelamos abertamente e arriscamos tudo mesmo assim. O Imperador não nos deu outra opção. — Enviar sem contato físico era uma coisa incrivelmente exaustiva, mas ser capaz de fazer algo melhor que Rain dava um senso de conquista gigante para Fung. O maníaco obcecado por animais era talentoso demais para palavras. — Então, a pergunta permanece: e agora?

Fu Zhu Li deu de ombros quase imperceptivelmente, a primeira vez que o conselheiro meio-doninha falhou em oferecer resposta ou guiar Fung para uma. — Eu vou enviar notícias para seu Pai. Qualquer que seja a decisão dele, nós iremos segui-la. — Com essas palavras simples, Fu Zhu Li saiu do quarto. 

Ainda com seu copo de chá nas mãos, Fung se afundou mais na cadeira e ponderou sobre o que o futuro tinha guardado para eles. Onde seu pai ficaria? Com o Imperador ou com o Norte? Enquanto ele se movia para beber seu chá, Fung se encontrou tremendo dos pés a cabeça. Zombando com sua apreensão mansa, ele engoliu seu medo e parou seu corpo. Que vergonhoso. Então seus dias pacíficos na Muralha acabaram. E daí? Então, ele pode estar contra o Imperador. Grande coisa. Qualquer um que aspirava chegar no pináculo da força estaria mentindo se dissesse que nunca sonhou em destronar o Imperador. 

Pondo seu copo de chá vazio de lado, Fung sacudiu suas mangas e foi em direção aos campos de treino, ansioso para ver o que seus amigos pensavam sobre as ordens dele. Rain estava feliz pra caralho, fingindo objeção e relutância enquanto se preparava para esmagar qualquer um que ousasse ficar no caminho dele. Um amigo bom e um inimigo temível, este era Falling Rain. 

Quem sabe? Talvez em algumas decanas, Falling Rain não seria apenas conhecido como o talento número um do Norte mas talento número um sob os céus!

Com um suspiro de alívio, eu me levanto e estico as costas, irritado pela necessidade de me ajoelhar e curvar. É um mensageiro, por que eu tenho que tratar ele como se fosse o próprio Imperador? Além disso, que se foda aquele cara, o que ele fez ultimamente além de abandonar a Província Ocidental? Me virando para Dastan, eu sorrio e digo, — Graças a Mãe você estava aqui ou caso contrário eles estariam me arrastado para me executarem nesse instante. — Não olhe para o mensageiro, não fale com o mensageiro, não se vire de costas para o mensageiro, tantas regras não escritas, como eu deveria saber todas elas?

Como o subordinado mega zeloso que ele é, Dastan toma minhas palavras como ofensa pessoal. — Não enquanto eu estiver vivo e respirando, Chefe. 

Esse cara não sabe relaxar. — Algum dia, nós vamos nos sentar e você vai me sentar tudo que que você sabe sobre modos corteses e protocolos e essas coisas. — Desenrolando o pergaminho, eu sou cumprimentado por uma parede de texto belamente fluído. “No vigésimo sétimo dia do primeiro mês do trigésimo quinto ano… “ É assim que eles escrevem as datas? Tão complicado e ineficiente. “Sua Majestade, o Filho dos Céus, Imperador do… “ Santa Mãe e eles não param com a encheção de linguiça. Como o nome de um homem pode ser tão longo? Mais preâmbulo inano e cumprimentos… ah, finalmente. “… convida Subtenente de Segunda Classe, Falling Rain dos Bekhai e sua comitiva para participar da Primeira Grande Conferência Imperial, onde heróis condecorados e jovens promissores de todo o Império irão se reunir para discutir medidas para combater a ameaça Corrompida crescente, com competições e prêmios para serem entregues aos guerreiros mais valentes e generais capazes do Império. Que ocorrerá na cidade de Nan Ping na Província Central no Equinócio de Primavera, atendência é mandatória e ausência será tratada como traição, punível com…

Bom, lá se vão meus planos de virar um ermitão. Sem problema, eu consigo fazer isso. Eu vou ficar fora de problema e não ofender ninguém enquanto estou cercado pelos guerreiros mais arrogantes e moleques nobres mimados do Império. Molezinha. 

 

 

……

 

………

 

Talvez eu devia fingir minha morte…

 

Nem. Eu estou exagerando. Vai dar tudo certo e mais talvez eu até consiga ver Yan de novo. 

 

Além disso, qual a pior coisa que poderia acontecer? 

 

– Fim do Volume 15 –

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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