DS – Capítulo 31

DuGu Ren tem mais guardas com ele hoje, assim como outro jovem mestre bem vestido. Eu aceno para eles.

— Olá. Nós podemos só… não lutar? Eu estava aproveitando a minha mais nova epifânia. — Perguntar não dói.

— Tragam esse camponês até aqui! — Aos gritos estridentes de Ren, seus guarda-costas se movem em direção ao nosso vagão. Eu pulo para fora, gesticulando para Sumila ficar no carroça. Os guardas do portão estão vindo também, e ao contrário dos guarda-costas, suas armas estão desembainhadas.

— Parem. Confusões não serão permitidas no ponto de inspeção. Todos os infratores serão tratados com severidade. — Um cara grande e barrigudo, em sua armadura vermelha e preta da guarda da cidade, grita de maneira assertiva. Os outros guardas apontam suas arma para todos nós.

DuGu Ren aponta para mim e grita:

— Você ousa sair desse ponto de inspeção?

Eu rio do desafio dele. Ele pediu por isso. É ridículo.

— Mas é claro que eu não ouso. Você tem tipo uns 10 guardas com você. Por que eu iria aceitar? — Que idiota.

O outro jovem mestre olha para mim.

— Foi esse cara que atacou você? — Ao ver a confirmação de Ren, ele anda em direção a mim, me examinando. Ele é um jovem homem alto, musculoso, de talvez uns 20, 22 anos de idade. O cabelo dele está bem arrumado, com um único rabo de cavalo longo. Suas unhas das mãos estão com uma base, e com pequenos adereços pontiagudos colados nelas. Parece estúpido, na minha opinião. Por que um homem precisa de unhas pintadas? — Uma aberração magricela, mal vestida, com olhos amarelos, conseguiu derrotar você? Alguém de uma linhagem inferior, uma aberração de algum lugar primitivo, sem dúvida. Que vergonhoso, pequeno Ren. A honra da família inteira foi manchada por sua causa.  — Ele dá uma leve bufada como uma menina. Mal vestido? De boa, então eu não estou no meu melhor dia, mas eu estava fazendo trabalho braçal. Ele tem um rosto bonito, perfeito para socar.

Não, não. Se acalme. Sem socos. Vamos no caminho da diplomacia. Eu junto minhas mãos.

— Ontem, nós dois estávamos errados, Jovem Mestre Ren. Eu me desculpo do fundo do meu coração por te acertar. O que acha de deixarmos isso para lá, não vamos chorar pelo leite derramado.

— Sua criança insolente, eu vou fazer com que você seja esfolado!  Como você ousa achar que pode me dar um sermão. — Ren está quase espumando pela boca, com o rosto vermelho de tanto gritar. Porém, ele não chega mais perto, ficando bem lá atrás, atrás de seus guardas e irmão. Covarde. — Você não passa de um patife sem nome. Eu sou um filho favorecido da família DuGu. Irmão, eu quero que ele seja espancado e torturado. — Acho que essa foi uma falha crítica naquele caminho da diplomacia.

Sumila sai do vagão, e Husolt volta também, ficando atrás de mim. Nenhum deles fala, mas Husolt me afaga nas costas, e diz suavemente:

— Não precisa se preocupar, rapaz. — Eu contei a todos eles do meu encontro com Ren, mas nenhum deles parecia muito preocupado. Bom, os guardas devem nos manter seguros, e uma vez fora da ponte, estaremos bem perto da casa de campo. Nós devemos ficar bem.

O irmão do Ren tira uma insígnia de madeira e jade, mostrando ela para os Guardas da Cidade. — Usando meus direitos como Subtenente do Exército Imperial, eu, DuGu Ang, por este meio ordeno a todos os guardas da cidade a se afastarem enquanto meus homens lidam com esses criminosos. Interferência irá resultar em uma audição militar. — Ele se vira para dar ordens aos seus guardas, — Aleijem os homens. Me tragam aquela garota ilesa. Eu vou me divertir um pouco com ela.

O guarda barrigudo de vermelho nos olha em sinal de desculpa, antes de se afastar, junto com seus amigos. Que porra está acontecendo? Ele balança uma insígnia por aí e estamos fodidos?

DuGu Ren começa a rir.

— Aleijem ele.

Os guarda-costas sacam suas armas, avançando contra nós. Minha mão está em Paz, pronta para lutar. Eu preciso proteger Husolt e Mila. Eu observo os guardas se aproximarem. Merda. O que eu faço?

Husolt se move para frente rapidamente, com um bastão de aço em suas mãos, girando ele, balançando para esquerda e para direita. Ele se move com muita graça para um homem tão grande. Cada balançar do bastão acerta vários guardas, quebrando membros e espinhas com facilidade enquanto ele os esmaga. O som de ossos quebrando e gritos de dor preenchem o ar. Husolt não está mostrando misericórdia. Em poucos momentos, diversos guardas estão mortos, o resto ferido, rastejando para longe ou inconsciente.

Ang empalidece visivelmente, ficando em pé, tremendo incontrolavelmente. Husolt o apanha pela lapela, pegando ele como um saco de batatas.

— Aquela garota, — Husolt diz de maneira venenosa, — é minha filha. — Levantando Ang sobre sua cabeça com uma mão, Husolt esmaga ele no chão. Um som desagradável ressoa através do ponto de inspeção enquanto a cabeça de Ang explode como um melão maduro. A rocha é pintada de carmesim enquanto pedaços do cérebro dele respingam.

Nota para mim mesmo: não irritar o Husolt, Papai Psicopata. Eu fico lá parado como um inútil, a espada nem sequer sacada. Eu tremo, aterrorizado pela performance que eu acabei de ver. Só sua aura de sede de sangue e raiva é o bastante para me paralisar com medo, e ela nem ao menos está direcionada a mim.

Husolt nem ao menos é um guerreiro profissional. Ele é um ferreiro. Todo mundo na vila é forte assim? Eu sou fraco pra caralho? Eu quero dizer, Sumila é fisicamente mais forte do que eu, e ela tem uma arma espiritual. Eu consigo ganhar dela em uma luta? Olhando para a cena sangrenta na minha frente, eu ao menos iria querer? Se algum dia ela me desafiar, eu posso só me deitar no chão e deixá-la me apunhalar. Seria mais pacífico do que o Husolt faria.

Ele está parado lá, coberto em vísceras, nem ao menos está ofegante, carrancudo para os espectadores. Fúria fervendo por baixo do seu exterior, uma bomba pronta para explodir. Os guardas da cidade ainda não se moveram, provavelmente com medo. Se virando, Husolt põe uma mão dentro de sua camisa e tira um decreto, o mesmo que ele havia usado o dia inteiro, manchando o papel com sangue. Ele o mostra para os guardas. Depois de uma longa pausa, o cara grande, que falou mais cedo, anda para frente com cautela, evitando diversos corpos quebrados e agredidos, e pega o decreto com as duas mãos, incapaz de olhar Husolt nos olhos. Ele olha para o papel por um momento, mal lendo as informações, olhos arregalados, joelhos tremendo, antes de se curvar em um ângulo de exatos 90 graus, estendendo o decreto ensanguentado na frente dele. Husolt o recebe calmamente e põe ele de volta em sua camisa antes de voltar para o vagão. Eu estou bem certo de que a mesma coisa aconteceria se Husolt desse a ele um pedaço de merda. Bom, ele não iria ficar com um pedaço de merda na camisa, mas se ele ficasse, eu com toda a porra de certeza não seria a pessoa que diria algo sobre isso.

DuGu Ren está encarando a cena com os olhos arregalados, aterrorizado. Ele é o único sobrevivente do grupo, poupado apenas porque ele estava mais longe. Suspirando profundamente, minhas pernas ainda fracas, eu rastejo de volta para o vagão, tremendo. Eu espero que isso não traga problemas para o nosso grupo. Seria minha culpa se sim, por ter arrumado confusão com o Ren. Por que os guardas da cidade só nos deixaram ir embora? Eles não parecem muito bons em seu trabalho. Sumila se senta em silêncio, um sorriso de orgulho em seu rosto.

O vagão se move através do ponto de inspeção, na ponte, enquanto a cena sangrenta desaparece no horizonte.

Longos minutos se passam antes que eu possa falar:

— O que acontece agora? Nós fugimos, deixamos a cidade?

Husolt ri, dizendo:

— Não rapaz. Aquele lixo estava abusando de sua autoridade como Subtenente, e nos ameaçou com ferimentos corporais, dentro de uma cidade do Império. Aquele sargento guarda irá reportar isso para seus superiores, e nós nos defendemos legitimamente. Nós somos cidadãos em uma boa posição, então não há necessidade de se preocupar. Eu estou surpreso que ele quebrou a lei de um jeito tão descarado. Mesmo que nós não tivéssemos resistido, o Magistrado iria ouvir sobre isso e iria puni-lo com severidade. — Ele parece o mesmo de sempre, uma viagem comum de compras.

Isso não pode ser tão simples. Apenas isso. Eu o pressiono por mais.

— E se o sargento for subornado por eles? Ele poderia falsificar seu relatório. Você não está preocupado com a retaliação da família DuGu?

— Os guardas da cidade são leais ao Império. Eles fazem um juramento aos céus para defender as leis. Eles não podem ser subornados. Quanto a família DuGu, — Sumila sorri para mim, com todos os dentes a mostra, ameaçadora, — deixa eles tentarem. — Ela tem uma lança curta de aço em mãos, a batendo contra sua palma. Acho que é a arma espiritual dela. Ela é tão sedenta de sangue quanto o pai. Onde ela estava escondendo essa lança? E de onde o Husolt tirou seu bastão? Ele foi tão selvagem e cruel, um verdadeiro deus da morte.

Eu me movo para frente, para falar a sós com Husolt, engolindo a seco para encontrar coragem.

— Como você fez aquilo? — Eu pergunto baixinho, — Matar sem hesitação daquele jeito? — Eu preciso saber. — E só… ficar normal, depois?

Sem sorrisos ou risos do Husolt dessa vez. Ele só olha para mim com tristeza.

— Você apenas faz. Você é um bom rapaz, mas se importa demais. Você precisa saber dividir as coisas, quem você ama, e o resto do mundo. Qualquer um que te ameaçar e àqueles que você ama, morre. Simples assim, rapaz. Simples assim. — Ele pausa, e olha para longe. — Fica mais fácil com a prática.

Essa é a mentalidade que eu vou precisar para sobreviver. Eu olho para minha espada, percebendo que eu não entendi completamente minha cerimônia de vínculo. Eu estava sendo tão presunçoso sobre isso antes. Eu sou um idiota.

A certeza e a determinação que Husolt mostrou, enquanto eu fiquei lá parado, Paz ainda na bainha, mostra o quão longe eu ainda tenho de ir. Eu não tenho escrúpulos sobre matar eles. Eles já tinham sido ordenados a nos aleijar, e  fariam pior com a Sumila, mas ainda assim, eu estava hesitando, tentando pensar em soluções pacíficas. Minha mais nova resolução para lutar empalidece em comparação com essa mentalidade. O padrão se repete. Outra vez, outra vez eles jogam a realidade desse mundo na minha cara. Todo mundo não se importa com a vida, porque estamos cercados pela morte

Eu me sento, pensando profundamente. Viver e morrer pela espada. Ou só morrer. Parece que essas são minhas opções. Eu continuo dizendo para mim mesmo que eu estou bem com relação a matar, que eu posso fazer o que precisa ser feito, mas eu estou só me enganando? Toda vez que eu encontro a morte, eu tenho uma crise. Eu penso sobre as pessoas que os mortos estão deixando para trás. O Olhos-Verdes tinha uma família? O Jovem Bandido tinha uma namorada? Aqueles guardas, eles tinham família, filhos? Como eu paro, e só ignoro aquela vozinha irritante?

Eu olho para Sumila, que me olha de volta, pacientemente me observando sem julgamento, calma e  imperturbada. Como ela faz isso? Ela não parece incomodada com a morte. Ela mal piscou os olhos enquanto o pai dela assassinava pessoas na frente dela, até sorria com a cena.

Entendimento bate na minha cara.

Não é assassinato para eles. É só… negócios, como sempre. Alguém te ameaça, você mata eles. Causa e Efeito. Simples assim. Sem morais envolvidas, só o forte contra o fraco. A bile no meu estômago começa a subir, e eu engulo ela, amarga e dolorosa. Sumila me dá uma água, e eu bebo. Álcool seria melhor. Ela afaga meu ombro e sorri gentilmente, ficando ao meu lado.  

— Eu sei que você teria lutado contra eles tão duro como Papai. Você hesitou, mas estava pronto para lutar, para nos defender. Papai só reagiu mais rápido. Não se preocupe com isso. Eu sei o seu valor. — Ela não entendeu porque eu me sinto mal. Porém, é a intenção que conta.

Melhor perguntar de uma vez.

— O quão boa você é como lutadora?

Minha pergunta extrai dela um olhar de surpresa, e um pequeno rubor no rosto.

— Mamãe diz que eu sou “aceitável”.

Eu rio. Akanai não é muito boa com elogios. O melhor que eu consegui foi “quase não aceitável”, e isso foi sobre meu ponto mais forte, a demonstração das Formas. Julgando pela resposta dela, Sumila é provavelmente muito mais forte do que minha avaliação de “absolutamente lamentável”. E eu estava todo orgulhoso de mim mesmo. Eu não sou forte. Eu não sou determinado. Eu sou só um sonhador, vivendo em um mundo que não se encaixa com a fantasia na minha cabeça.

Eu preciso pensar nisso, mas depois de clarear a mente. Hora de mudar o assunto.

— Então, aquela… roupa… que você estava olhando. Você tinha alguém em mente enquanto olhava para ela, não tinha? — Eu sorrio. Deixando o clima mais leve.

Ela faz careta e me dá uma cotovelada, forte. Acho que não somos tão amigos ainda.

A voz fria e severa de Husolt nos questiona.

— Que roupa?

Depois que nós voltamos e informamos Akanai do que tinha acontecido, ela ordenou que todos os aldeões fossem escoltados por sentinelas e cadetes dentro da cidade. Eu decido treinar um pouco no pátio, para tirar certos pensamentos da cabeça e ficar seguro. Faz um tempo desde que eu tive tempo de praticar as Formas. Concentrando na minha imagem mental, eu tento emular a performance de Akanai, suave e graciosa algumas vezes, mas brusca e dura em outras. Uma combinação de diversas formas diferentes. “Perseguindo o Dragão” da forma do tigre para “Levantando a Sequoia” da forma do touro. “Agarrar o galho” da forma do louva-deus para “Arremessando Presa” da forma da Cobra. É grosseiro e sem precisão, mesmo depois de várias tentativas. Nada bom. Isso exige foco demais para mim, me deixando incapaz de atingir a Iluminação. Parando a minha prática, já respirando ofegantemente, eu me sento e medito.

Não é só Akanai. Husolt é incrível também. Eu posso ver as Formas no estilo de luta dele. Uma estocada, “Perfurar o Horizonte” da Forma do Cervo. Girando seu bastão por cima da cabeça, “Gotas de Chuva Trêmulas” da forma do Pássaro. Esmagar o Ang no chão. “Esmagada do Papai” da forma do Husolt. Aterrorizante.

Eu não consigo entender todas as formas que os dois demonstraram. Elas são abstratas demais, variadas demais, mesmo nas pequenas demonstrações que eu vi. Perguntar a eles não vai ajudar, irá provavelmente me confundir mais ainda. Eu só preciso bolar as minhas próprias combinações das formas. Eu não consigo encaixar nada na minha cabeça. Eu só preciso me mover, deixar meu corpo me dizer o que precisa ser feito. Chega de descansar. Ficando de pé, eu tomo minha postura, e começo minha demonstração das Formas novamente. Não a repetição rotineira que eu faço toda manhã, mas ao invés disso, eu me imagino lutando com os bandidos de novo. Dessa vez, eu não atrapalho meu corpo, só deixo ele se mover, reagindo aos meus inimigos imaginários, formas randômicas formando diferentes ataques. Eu me movo contra os bandidos imaginários, algumas vezes matando eles, a maioria das vezes morrendo contra eles. Eu levanto eles novamente, só para derrubar eles ou ser derrubado de diferentes formas. Eles vêm até mim um de cada vez, ou todos de uma vez. Eu luto com eles de novo. E de novo. Eu os mato e morro por horas, e eu mato e morro um pouco mais.

Uma sensação no meu rosto e eu desvio, atacando logo em seguida com uma estocada em direção a nova perturbação. “Perfurando o Horizonte” da Forma do Cervo, parando no meio do caminho. Mei Lin está na minha frente, sorrindo. Minhas mãos estão vazias. Pulando para trás, sacudindo minha mão, eu faço careta e me esbofeteio duas vezes, levemente. Eu me perdi no meu treinamento, esquecendo que meus inimigos estavam todos na minha mente. Eu não estava realmente segurando uma espada, felizmente, ou eu poderia ter machucado a Mei Lin. Ainda poderia, se eu não tivesse parado no meio do ataque.

— Você é tão bobo, Rainzinho. Está quase na hora do jantar. Você pulou o almoço, mas não vai pular o jantar. Vá tomar um banho, eu não quero sentar perto de você todo suado assim. — As bochechas fofas de criança dela, sorrindo inocentemente para mim, ignorante de que eu ataquei ela. Eu agarro as bochechas dela e aperto levemente. Perigoso, eu preciso praticar em algum lugar mais seguro daqui para frente.

Me desculpo mentalmente com ela enquanto a afago na cabeça, eu ando até os banheiros. Um banheira está pronta para mim, arranjada por Mei Lin com antecedência. Ela é boa demais comigo, uma irmã menor adorável e amorosa. Uma servente fica atrás de mim, cortando meu cabelo depois de uma rápida enxaguada, deixando ele um pouco mais longo do que eu gostaria, mas ainda parece legal. Eu poderia me acostumar a esses mimos. Ela me deixa só para me lavar. Eu estava meio que esperando que ela ficaria para trás, talvez insinuando alguma coisa, mas pelo visto não. Eu entro na banheira, aproveitando o calor.

Eu não bolei nada útil ou novo durante o meu treinamento, mas ainda foi de alguma forma produtivo. Na sua maior parte ideias meio-construídas que não funcionariam em um combate real, mas eliminar o que não funciona é útil. É uma boa prática, lutar com oponentes imaginários, mas eu preciso de uma imagem mais sólida de um oponente, alguém mais perto do meu nível. Se eu usar Akanai, Baatar, ou Alsantset, eu perderia muito rápido. Eles são fortes demais. Eu me pergunto quantos dos aldeões são tão fortes quanto eles? Os bandidos, pelo outro lado, eram fracos demais. Se eu tivesse lutado contra eles com uma boa iluminação, um contra um, seria muito fácil derrotar eles, morte instantânea para todos eles. Eu preciso de um bom parceiro para praticar. Talvez a Sumila, se ela quiser. A menos que ela seja forte demais também, o que seria vergonhoso. Há muita igualdade na questão do papel dos gêneros lá na vila, mas ainda assim, eu não acho que o meu orgulho poderia aguentar levar uma sova de uma garota adolescente.

Novas roupas estavam esperando por mim, uma bela jaqueta azul de colarinho alto com o que eu acho que são botões de pérola branca, e punhos de pelo branco. Sem estúpidas mangas frouxas também. Uma gravura cênica está costurada na jaqueta, três pássaros em uma ponte, com uma ameixeira cheia de flores. As calças completam o conjunto, e tão ornamentadas quanto. Uma servente ajuda a me vestir, me enrolando em uma faixa branca, enquanto a servente com um corte de cabelo bonito penteia meu cabelo. Ela até mesmo põe um chapéuzinho ridiculamente pequeno em mim, mais como decoração do cabelo do que qualquer outra coisa. Como um pequeno coque de pano na minha cabeça. Eu gosto.

— Por que eu preciso me vestir de maneira tão chique? — Se eu for honesto, eu meio que estou gostando disso. Não é todo dia que eu sou vestido por adoráveis damas, e em roupas tão legais também. Me faz sentir… encantador. Eu nunca vou admitir isso em voz alta.

— Jovem mestre irá jantar com O Estimado Magistrado, Tong Da Hai, hoje a noite, em seu Palácio. — Minha estilista sorri para mim, com seus lábios grandes e carnudos. Eu me pergunto qual o gosto deles. Porra. A diversão de ontem não diminuiu meu tesão em nada. Eu sorrio de volta para ela. Como eu seduzo uma mulher? Especialmente uma servente, eu não quero que ela pense que eu estou pressionando ela a fazer algo. Eu me mantenho quieto, devido a minha falta de culhões. Provavelmente, ela não iria querer nada comigo de qualquer forma. Esse é só o trabalho dela. Quando elas acabam de me vestir, eu vou embora, espada enfiada na minha faixa. Vestido para impressionar, mas ainda confortável para me movimentar. Eu poderia lutar com essa roupa se eu precisasse. Eu preciso de mais roupas assim. Chique. Mal vestido uma ova.

Mei Lin está me esperando no corredor. Ela tem um pequeno adorno na cabeça parecido com o meu, dentre os muitos alfinetes e clipes com pequeninos sinos, imobilizando as orelhas dela. Ela agita os sinos conforme faz uma mesura no seu curto vestido azul, frouxo, uma segunda camada mais longa embaixo, com uma bainha de pelos brancos, combinando com as minhas roupas. Um padrão chamativo está costurado na roupa dela, repetido em diversas áreas do vestido, e um cachecol de seda branca ao redor dos ombros dela, envolvendo os braços dela. É feito com joias e uma corrente se estende por todo o seu comprimento, e é tão longo que parece restringir seus movimentos. Se ela pôr suas mãos para baixo, o cachecol vai raspar no chão. Moda, eu acho.

— Você parece adorável, pequena Mei Lin. — Eu me curvo de volta, sorrindo. Ela arruína a parada ao dar de língua para mim, e passa o braço pelo meu enquanto nós saímos para o pátio.

Taduk, Husolt, Akanai, e Sumila estão nos esperando. Todos nós combinamos, azul e branco, mas em tons, padrões e cortes distintos. Sumila parece adorável também, e eu recebo a mesma reação quando digo a ela, exceto pelo entrelaçar de braço. Por que ninguém consegue receber um elogio? Husolt parece tão feroz e imponente como sempre, adicionando “majestoso” às suas qualidades, tirando os ornamentos de cabelo. Akanai é um estouro, sem o vestido interior mais longo, vestida em uma peça curta e justa, suas panturrilhas nuas, brancas como pérolas à mostra, sapatos abertos de pano nos pés. O efeito no geral é um pouco arruinado, vendo que os dois estão armados até os dentes, Husolt com seu bastão, Akanai com um machado duplo com uma ponta de lâmina. Adagas e espadas alinhados em seus cintos, braceletes em seus punhos. Até mesmo os ornamentos de cabelo de Akanai são pequenas adagas ao invés de sinos. Sumila está similarmente armada, carregando um escudo moldado, redondo, de aço polido, em adição a sua lança curta, ambos carregados em um só braço por correias como uma bolsa. Até parece feminino.

Taduk bate nas minhas costas, parecendo charmoso em sua vestimenta, lebres por todo lugar, segurando só um leque.

— Você parece elegante, meu garoto. — Ele gesticula na direção de um servente, que anda para frente me entregando minha lança longa. Aceitando minha arma, eu pendo a cabeça para o lado em direção do Taduk, para mostrar a minha dúvida.

— Você também parece Professor. Por que nós estamos tão armados? Me disseram que iríamos jantar com o pai do Fung. Nós fomos… convidados? — Por favor eu espero que sim.

Taduk ri.

— Claro que fomos, meu garoto, mas não se refira a ele dessa maneira fora dessas paredes. Cortesias e tudo o mais. Mei Lin irá te explicar. Nós fomos convidados para uma reunião, com boa comida e bom vinho. Só que pode haver um pequenino derramamento de sangue também. Não se preocupe, você não estará em perigo, e se você estiver, só não morra, e eu posso te curar rapidinho. — Ele me afaga no ombro, e minha boca vai até o chão. Antes que eu possa dizer qualquer coisa, ele sobe em seu riquixá e vai embora. O riquixá de Husolt e Akanai vai logo em seguida, com Sentinelas marchando ao lado, totalmente armados.

Jantar e derramamento de sangue? Eles não fazem nada pacificamente aqui. “Só não morra”, ele diz. Obrigado pelo aviso. Eu ajudo Sumila e Mei Lin a entrarem no último riquixá, e subo também. Eu espero que nós consigamos comer antes que a luta comece. Eu estou morrendo de fome. Não iria querer morrer de estômago vazio.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

8 Comentários

  1. Tranquilo, parece vc indo conhecer a família da namorada, nunca esqueça suas armas nessa ocasião amigos

  2. “todo mundo nao se importa com a vida porque estamos cercados pela morte”
    Qnto mais rápido se acostumar com isso, menos chance de hesitar

    Ele treinou por hrs sem perceber 👏👏👏

  3. Os pensamentos do MC são sem duvida o que mais me vendeu esta obra, parece mentira que ele esta no corpo de um adolescente de 14 anos.
    Irei me lembrar das “Armas”, quando estiver em uma situação como conhecer os pais da namorada! kkk

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