DS – Capítulo 315

— … e se a Mãe permitir… nós teremos uma viagem segura de volta para a casa.

Assentindo em concordância com o caipira tagarela, Goujian se sentou ao lado de seus dois discípulos e aproveitou uma tigela de ensopado saboroso de carneiro. Esse ensopado era uma luxúria rara para esses pastores pobres, mesmo sendo feito com os pedaços de carne menos desejáveis e não ter sal e tempero, mas ainda eles não hesitaram em convidar Goujian e seus “filhos” para ter um pouco. Um dos mistérios da condição humana, por que pessoas com nada dão algo tão livremente enquanto pessoas que possuem tudo só querem mais ainda?

Se apenas nobres e oficiais tivessem ao menos um décimo da generosidade e benevolência desses plebeus, a tarefa de Goujian de salvar a alma do Império seria tão fácil quanto virar uma mão. 

A refeição era um tipo de celebração, um banquete de despedida após decanas gastas juntos. A tarefa deles era difícil e ingrata, apostando suas vidas no rolar de um dado, viajando centenas de quilômetros a pé para assegurar um local melhor para o pasto deles. Com todas as suas ovelhas vendidas e bolsos cheios de prata, a tarefa deles estava completa pela metade já que eles precisavam chegar sãos e salvos em casa. Essa reunião de pastores de ovelhas foi abençoada pela presença de Goujian, mesmo que nenhum deles soubesse disso. Depois de se juntar a eles, seus Aspirantes limparam o caminho deles de bestas e bandidos sem distinção e com isso seu trabalho em Nan Ping só começou, era aqui onde eles se separariam. Infelizmente, devido a viagem tranquila deles até aqui, a maioria dos pastores não viu a necessidade de gastar mais para viajar junto a uma caravana armada ou de barco apesar da insistência de Goujian para eles não fazerem isso.

— Aff, Cachorro Velho, não há nada para se preocupar. — Um pastor parrudo bateu em seu peito com orgulho e Goujian engoliu sua irritação com o apelido. Ele se orgulhava de seu nome “Goujian”, um que ele escolheu para si que significava “Espada que Engancha/Entrelaça/Enreda”, uma alusão a ambos sua arma favorita e seu Dever Sagrado de encontrar e enredar aqueles tocados pela corrupção do Pai. Infelizmente, os pastores confundiram seu pseudônimo de “Gancho Velho”, um nome apropriado para um pastor que usava um cajado encurvado , com “Cachorro Velho”, que soava parecido , mas muito mais ofensivo. Explicar as minúcias da articulação tonal de seu nome iria entregar seus status de alguém que foi educado, especialmente quando o primeiro caractere de seu nome não era muito comum, então tudo que ele podia fazer era aguentar e sorrir. 

Ignorante quanto a luta interna de Goujian, o pastor parrudo continuou, — A Mãe provê. Nós nem sentimos o cheiro de bandidos e bestas no caminho e vai ser o mesmo na volta. Os soldados do Império estão vindo em peso e mandaram eles correndo de medo.

Então era verdade, o maior dos males vêm de boas intenções. Ao guardar eles tão bem, Goujian sem querer condenou os pastores que teriam agido de forma diferente se algo tivesse dado errado na viagem. Com um suspiro arrependido, ele balançou sua cabeça e parou de repreender, se misturando com os arredores como ele estava acostumado a fazer. 

Como esperado, a maioria das conversas eram sobre o ataque de tubarões sensacional e falho dessa manhã, um assunto que irritava Goujian profundamente. Não só ambos o menino e a tartaruga escaparam ilesos, seus esforços em manchar o bom nome do garoto encontrara uma resistência inesperada. Por toda a Nan Ping, os cidadãos de classe baixa estão mostrando apoio a Falling Rain, espalhando notícias de seus atos bons e glorificando ele como o Filho Escolhido da Mãe que defendeu a Tartaruga Divina, dava comida aos necessitados e abrigava os sem teto. Em meras oito horas, a coisa chegou num ponto em que lutas ocorreriam sempre que seus Aspirantes e Discípulos disfarçados tentavam mudar a opinião pública com fatos sobre os jeitos sangrentos e ávidos de Rain. Até os pastores no meio do nada só tinham coisas boas para falar do menino e dos Bekhai, um resultado bem infortúnio que fez Goujian roer seus dentes de raiva. 

— Isso é a boa e velha Mãe que conhecemos, escolheu um atendente bom para a Guardiã Divina Dela. 

— Sim, aqueles Bekkies nun são de esbanjar muito, mas porra, eles põe a mão na massa.

— Mandaram os tubarões voando, nun vou esquecer tão cedo. 

Ouvindo eles glorificarem os atos bons de Falling Rain era um tormento por si só, mas o que aumentava sua frustração era como rumores se espalharam que o ataque de tubarão foi deliberadamente focado no menino porque ele ajudava os necessitados. 

— Você consegue acreditar? O Império todo tá numa crise só e os nobres ainda se recusam a ficar na linha. 

— Tortas de carne vão cair do céu antes dos nobres pararem de discutir por causa de honra. 

— Falling Rain espancou alguns filhos imprestáveis da Central e agora os papais deles tão aí em busca de sangue. Isso é uma maldita desgraça, uma puta desgraça. 

— O que me irrita mais é como alguém que nem eu e você vai saber quem fez isso. Vou te falar, se eu soubesse que filho da puta malandro pôs a Guardiã Divina da Mãe em risco, eu gritaria o nome dele para todo o Império ouvir. 

— Eu te ouvi. — Goujian murmurou, sua irritação se mostrando enquanto ele instruía Yuanyin para ficar de boca calada através de Envio. O jovem tolo de cabeça quente parecia com raiva o bastante para matar, mas Goujian não podia culpar muito ele. Como eles ousam chamar ele de “filho da puta malandro”? Tolos ignorantes, se eles soubessem o quanto ele sofreu para manter eles a salvo do Inimigo eles engoliram suas falas e o chamariam de santo e o idolatrariam. Em vez disso eles engoliam toda a enganação e mentiras de Falling Rain enquanto tropeçavam uns nos outros para agradecer a “natureza gentil e humilde dele”.

Por um tempo, Goujian se perguntava se o Império merecia sua dedicação. Talvez seria melhor se esconder com seus Ascendentes enquanto os Corrompidos arrasavam tudo. Que nem os pastores e a jornada deles até aqui, algumas pessoas só aprenderiam na base do sofrimento. Então, das cinzas do Império Índigo, ele daria um passo a frente e lideraria os sobreviventes para um novo começo, um novo Império onde a lealdade para a Mãe estava acima de todo o resto, como deveria ser. 

Não. Um pensamento sombrio, errático, uma fantasia tola pensada em um tempo de dificuldades. Tal pensamento era para covardes e derrotistas e Goujian não era nenhum dos dois. A Mãe provê, então tinha que haver uma solução

Contra seu melhor julgamento, Goujian se virou para Assistir Falling Rain. Apesar de vários quilômetros separarem as costas opostas da Baía de Nan Ping, a Visão de Goujian era sua habilidade mais praticada, capaz de aumentar uma área em até quase vinte e cinco vezes. Era mais do que o bastante para rastrear as ações gerais do menino, mas o que ele viu quase fez ele vomitar sangue. Enquanto Goujian se agonizava com a crise de sua nação, a fonte da dita crise parecia indiferente a tudo, brincando com suas mulheres, ursos e roosequins nas águas rasas. Ele quase parecia estar acima de todos os problemas mundanos como ataques de tubarão ou rumores desastrosos, meramente uma criança inocente sem uma preocupação no mundo.

Isso era enfurecedor, absolutamente enfurecedor. Quem iria crer que esse menino tolo e bobo, de boca aberta, carregador de urso, abraçador de coelhos e tartarugas era um malandro diabólico, manipulador e astuto, cujas ações eram todas deliberadamente calculadas para mascarar o que ele era de verdade? Como suas ações contra o Grupo Comercial Canston, só agora que Goujian apreciava o quão hábil foi aquele o movimento. Primeiro, ele visitou várias casas mercantis, desfilando com a Tartaruga Divina pelas ruas laterais menores e mostrando seu comportamento dócil e agradável para todos verem. Então, ele liberou sua tartaruga e fez com que ela esmagasse os prédios deles enquanto poupava as pessoas, fazendo todos se perguntarem o motivo da Guardiã Divina tão bem comportada ter atacado a casa em si. Com a reputação vil deles, não foi preciso muito para concluir que a Tartaruga Divina estava punindo o Grupo Comercial Canston pelos crimes deles e agora a reputação deles sofria por isso.

Fosse o próprio Falling Rain ou algum mestre de fantoches invisível puxando as cordas, Goujian sabia que ele encarava um verdadeiro mestre das sombras. Seu oponente nunca contou mentiras completas, só oferecia “provas” razoáveis e deixou as pessoas chegarem em suas próprias conclusões óbvias. Dessa forma, em dois anos curtos eles transformaram um jovem selvagem, sangrento e Corrompido que clamava sangue e assassinato em um exemplo de virtude e justiça, o defensor dos necessitados e o Filho Escolhido da Mãe. 

Esses tolos de mente fraca renderam tão facilmente suas almas eternas, satisfeitos com nada mais do que comida em suas barrigas e um teto sob suas cabeças. 

Conforme a noite chegava, ele se despediu de seus companheiros condenados e voltou para sua tenda com seus discípulos atrás. A idade visível de Goujian era velha o bastante que atrairia suspeitas se ele viajasse sozinho, mesmo que seu Chi o mantivesse saudável. Dessa forma, ele viajava com seus dois “filhos” de idade enquanto seus outros Discípulos construíam suas identidades falsas, como o guarda veterano Sochun, o marinheiro taciturno Sunsin e o mercador gentil Mapan. 

Uma pena que nenhum deles era útil nesse clima político atual. Liderados pelo mais novo Yuanyin, eles queriam revelar o status Corrompido de Falling Rain, mas fazer isso no momento que a popularidade do menino estava nas alturas seria tolo e imprudente. Com cada dia que se passava, a ausência de BoLao era mais sentida, uma perda tão forte para a causa de Goujian que ele suspeitava que poderia ter sido tudo orquestrado pelo seu inimigo misterioso. 

— Eh-Mi-Tuo-Fuo. — Um cumprimento dármico tradicional pegou Goujian desprevenido e ele ordenou que seus Discípulos parassem. Olhando para as sombras, ele rasgou o Ocultamento do invasor para revelar um monge gordo, idoso com lóbulos das orelhas longos e vestindo trajes esfarrapados, ascéticos. Carregando uma pá de cabo longo em uma mão, o monge levantou sua mão livre e mostrou uma mudra, fazendo um círculo com seu dedão e dedo indicador com seus outros três dedos estendidos, mas um pouco curvados. Um sinal de mão que Goujian era bem familiar, transmitindo intenção de discutir sem violência. — Cachorro Velho. — O Monge disse, suas bochechas gordas, rosadas esticadas em um sorriso enquanto ele se curvava em cumprimento. — Alegra meu coração ver que depois de todos esses anos, você finalmente aprendeu alguma humildade. Eh-Mi-Tuo-Fuo.

Reconhecendo seu antigo professor, Goujian bufou em resposta, comprando tempo para organizar seus pensamentos. Ele não sabia o nome do monge, porque a Irmandade Penitente nunca revelava seus nomes para os forasteiros. Tudo que ele sabia era que o Monge velho já era velho no dia que eles se conheceram e Goujian pensou em se juntar a ordem deles e, hoje, quase oitenta anos depois, o Monge velho parecia exatamente o mesmo que no dia que eles se separaram. Uma Besta Ancestral escondendo sua herança bestial? Ou talvez as histórias eram verdadeiras, que ascéticos idosos e Protetores do Dharma Imperiais evitavam a morte através de cerimônias ritualísticas, ocultas nas quais eles se enterravam vivos. 

Antes dele chegar numa resposta, o discípulo mais jovem de Goujian falou irado e atacou com suas mãos nuas. — Como você ousa insultar ele. — Yuanyin rosnou, começando com um golpe fatal mirado no pescoço, mas o Monge velho permaneceu despreocupado mesmo com o ataque.

Se movendo com mais agilidade do que sua forma corpulenta sugeriria, o Monge manteve a pá plantada na terra e respondeu com um simples balançar de quadril, fazendo Yuanyin cair de cara no chão. Com um olhar indiferente, o mudra do Monge mudou para um de aviso, um punho fechado com dedo indicador esticado para Yuanyin enquanto ele se levantava. — Quanta raiva, quanto pecado. Como um carvão em brasa que você segura para jogar nos seus inimigos, sua raiva só te fere. Isso não é apropriado. Largue sua raiva criança, sofra sem raiva, sem ódio e só então você irá entender a Verdade: Vida é sofrimento e no sofrimento nós encontramos a vida.

— Chega. — Goujian explodiu, parando seu discípulo antes que ele pudesse envergonhá-lo de mais. Gesticulando para seu Discípulo mais velho, ele instruiu, — Traga seu irmão mais novo para esfriar o temperamento dele. — Quando eles estavam sozinhos, ele ergueu uma Barreira para repelir o som e perguntou, — Então o que te traz para tão longe do seu monastério? Deve ser importante, porque se você está aqui, então não vai haver ninguém para chicotear e castrar seus novos recrutas. Que crueldade negar a eles a liberdade de desejos carnais. 

— Tão amargo, tão cego. — Dizendo uma pequena reza que soava como sílabas sem sentido, o Monge se curvou mais uma vez. — Não é tarde demais irmão. Desista da sua missão e volte para a Luz. Sofrimento imposto é sofrimento sem sentido. 

— Quem é você para me julgar, Monge? Minhas mãos são as mãos da misericórdia, realizando o trabalho da Mãe. — Goujian respondeu, confiante em sua fé. — Tudo que vocês fazem é se esconderem em seus monastérios e deixar o rebanho Dela a mercê do Pai e nós dois sabemos que Ele não tem nenhuma para dar. 

— Sofrimento sem sentido só gera lamento e angústia, o que gera mais sofrimento sem sentido, — O Monge respondeu, fechando seus olhos. — um ciclo, que se não for quebrado, vai causar o nosso fim. Verdadeira iluminação só pode ser encontrada através de sofrimento com propósito, sofrimento com sentido, sofrimento escolhido. Chicoteie um cavalo sem propósito e o cavalo só aprende a odiar e ódio no seu coração é uma arma nas mãos Dele. Eh-Mi-Tuo-Fuo.

Bendita seja a Mãe de fato. Goujian desdenhou. — Você sempre tem uma resposta para tudo, exceto o que nós deveríamos fazer para ajudar aqueles que precisam. 

— Nós não podemos ajudar aqueles que não vão ajudar a si mesmos. — O Monge respondeu, olhos ainda fechados em tranquilidade serena, parecendo completamente relaxado como se fosse um com o mundo ao seu redor. — Salvação não pode ser forçada em outra pessoa nem a iluminação pode ser explicada ou dada, só ganhada pelo seu próprio esforço.

— Então você diz e então será? Eu devo só aceitar sua palavra e assistir enquanto o mundo cai em ruínas ao nosso redor?

Dando de ombros, o Monge respondeu, — A Verdade é o que ela é, provada pela causalidade de novo e de novo. Este aqui é tolo demais para explicá-la e você cego demais pelo ódio para vê-la. Quanto mais sofrimento você precisa inflingir antes de você  ver a Verdade?

— Viver é sofrer, — Goujian citou, usando o mesmo catecismo do Monge contra ele mesmo.

— E sofrer é viver. Nossa existência é uma de desafios e tribulações, mas a Mãe sempre deixa um caminho para a segurança. Quem é você para agir como o juiz e executor Dela, condenando inocentes a tortura indiscriminada e massacre no Nome dela? Quanta arrogância, quanto pecado. 

— Meu caminho é um de sangue e adversidade, meu fardo é fazer o que os outros não podem. Alguns morrem antes da hora deles, mas tal é o preço da redenção. Corte o braço para salvar o corpo e sacrifique o corpo para salvar a alma, não é assim?

Balançando sua cabeça, o Monge perguntou, — E quanto mais você precisa sacrificar antes de perceber que a alma não precisa ser salva?

— Ha. — Goujian sabia que chegaria nisso, como aconteceu toda vez que eles conversavam. — Quantas vezes mais precisamos ter essa mesma discussão?

Dessa vez, o Monge pausou, pensando em sua resposta antes de responder, olhos ainda fechados, mas testa ainda franzida em pensamento. — Até chegar o momento que um de nós consiga convencer o outro. — Puxando seus lóbulos alongados, o Monge sorriu timidamente e adicionou, — ou até que um de nós morra. Este aqui teme que será a segunda opção, mas tais são os meus desafios, a punição para os meus pecados. Se alegre, pois até a rocha mais dura deve ceder caminho para a água pingando e a mais alta das montanhas é desgastada pelos ventos. Volte para a Luz irmão. No fim do seu caminho só há escuridão sem fim. 

— Eu já olhei para a escuridão, — Goujian disse, estufando seu peito, — e eu não encontrei nada. 

— Sua fé é forte, inabalável, — O Monge respondeu, — mas os outros em sua companhia nem tanto. 

Sempre um risco em sua linha de trabalho, mas Goujian tinha a confiança em seus Discípulos. — Um lapso temporário de julgamento, trazido pelo sua chegada repentina e fala franca. — Balançando uma mão para dispensar as preocupações do Monge, ele adicionou, — Meu segu- … meu Discípulo mais jovem nunca te viu antes e ele não sabe do seu jeito. 

— Minhas condolências pela sua perda, irmão. — Se curvando para rezar, o Monge concluiu, — Seus caminhos e os nossos caminhos são  apenas dois lados da mesma moeda, por mais distorcidas que as suas interpretações sejam.

Concordando em discordar, ambos ficaram em silêncio enquanto Goujian assistia o pôr do sol ao longe no Mar Índigo. Quando o último raio de luz solar desapareceu, Goujian perguntou, — Por que você ainda está aqui? Você geralmente vai embora quando nossa discussão chega ao seu fim inevitável. — Enquanto ele nunca admitiria alto, a presença do Monge deixava Goujian nervoso. Apesar dele se contar como um expert do Império e nunca ter visto o Monge lutar, a força dele ainda era inimaginável, sua presença tão pesada quanto uma montanha e tão profunda quanto um oceano. 

Finalmente abrindo seus olhos, o Monge olhou para Goujian com um olhar frio, ameaçador. — Eu vim para te avisar: Falling Rain é um dos nossos. Aja contra ele e sua vida será perdida. Tais são os preceitos da Irmandade Penitente. Você não será avisado de novo. 

Por mais rigorosas que o processo de iniciação deles fosse, era impossível para um Corrompido entrar na Irmandade Penitente sem revelar suas cores de verdade. Ele estava errado ou o Monge estava errado? Sua mente em caos, Goujian deu um passo em direção ao Monge que levantou seu bastão em defesa e ofereceu um mudra de aviso. Parando no lugar, Goujian cerrou seus punhos e perguntou, — … como você soube que era eu?

— Eu não sabia, — O Monge respondeu com um sorriso sem vergonha, — mas uma mente culpada se revela, não é mesmo Confessor? — Balançando suas sobrancelhas, o Monge continuou, — O próprio Abade ordenou isso e este aqui talhou o nome de Dharma na muralha com suas próprias mãos. Nós acolhemos Falling Rain como um irmão, então um irmão ele será e um irmão ele é. Aja contra seu irmão de novo e este aqui não poderá te salvar. 

Não poderá. Não disse não irá, mas não poderá. Quem era o Abade? Goujian sempre achou que o Monge era a figura de mais autoridade na Irmandade, mas aparentemente ele estava errado. Coração doendo com esse resultado desastroso, ele jogou fora toda a precaução e disse, — Falling Rain é Corrompido.

— Impossível. — A resposta foi instantânea conforme o Monge dispensava sua fala. — Apesar dele ainda não ter abandonado os Três Desejos e aceitado as Quatro Verdades nobres, ele não pode ser Corrompido. Se você soubesse o que nós sabemos, você entenderia. 

— Eu senti em primeira mão a Aura dele e é a Aura do Inimigo. — Desesperado para mudar o pensamento do Monge, Goujian cortou sua palma com sua unha e invocou a Energia dos Céus. — Eu, Goujian, juro em nome dos Céus que… 

Interrompendo ele com uma varrida de sua pá, o Monge derrubou Goujian no chão. Com um balançar lento de sua cabeça, o Monge disse, — Morte não é algo para se temer para alguém que viveu sabiamente, mas você, irmão, devia temer morrer uma morte tola. Me permita te mostrar, mas eu temo que você não vai entender. — Respirando fundo, o Monge liberou uma Aura que esmagou a de Goujian sem resistência alguma, uma Aura tão profana e Demoníaca que parecia que o próprio Pai estava na frente dele. Garganta fechada com medo, ele assistia estupefato enquanto a Aura Demoníaca de ódio e terror mudava gradualmente para uma de amor, uma aceitação pura, sem máculas irrestrita. — Você viu a Verdade por trás de olhos velados e acreditou que você viu tudo que ela tinha a oferecer. — Dando um passo para trás, o Monge se curvou e ofereceu uma mão para ajudá-lo a se levantar. — A Verdade é imutável, mas a percepção é algo que sempre muda. Eu te peço mais uma vez, volte para a Luz irmão. Não tema a punição pela sua raiva, porque você já está sendo punido pela sua raiva. 

Batendo na mão do Monge, Goujian fugiu de volta para sua tenda, incapaz de compreender o que acabou de acontecer. Tremendo dos pés a cabeça, ele se escondeu dentro do abrigo de lona e reavaliou o que ele sabia da vida. O Monge era um mentiroso e uma fraude. A Irmandade Penitente era o Inimigo. O Império era corrupto e impossível de salvar. A Verdade, o Caminho, a Luz, era tudo uma mentira, uma mentira na qual Goujian baseou toda a sua vida. 

A aba da barraca se abriu e Goujian olhou para seu discípulo mais novo, se agachando com uma mão esticada. — Não se preocupe Mestre. — Yuanyin disse, sorrindo enquanto oferecia sua mão. — A Verdade é o que nós criamos. A verdade é o que fazemos dela.

 

 

Sim. 

 

A verdade é o que fazemos dela.

 

Pegando a mão de seu Discípulo mais novo, Goujian piscou seus olhos cheios de lágrimas e sorriu. 

 

Finalmente, o mundo fazia sentido de novo.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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