DS – Capítulo 321

Soltando um gemido de dar dó, Mila rezou pelo fim desse sofrimento inumano. Xingando a mente distorcida que bolou essa máquina de pesadelos, ela tentou aliviar sua miséria balançando para frente e para trás em sua cadeira, mas falhou miseravelmente e só deixou tudo pior. Estômago revirando em protesto, ela pegou seu balde, apertou contra seu peito e encarou na escuridão do seu interior nojento, se perguntando se ela ainda tinha algo para oferecer. 

— Papai. — Ela chorou, depois de parar de vomitar. — Você é um mentiroso! Você disse que o pior passou, que já estava acabando. Por que não acabou ainda Papai? Por que…

Ela continuou nisso por algum tempo antes de Papai finalmente responder, ocupado porque ele também estava sofrendo. — Não falta muito agora garota. — Ele resmungou, voz fraca e rouca. — Seja forte filha, nós podemos passar por isso – Urg…. blarggggh… isso… pior já… 

Lágrimas escorrendo de seu rosto, Mila olhou para a forma encolhida de seu Papai deitada na cama, sua cabeça pendendo estrategicamente em cima de um balde. Apagando e acordando inconsistentemente, Papai ainda assim conseguia murmurar encorajamento e banalidades para tentar aliviar o sofrimento dela. Doía ver ele assim, tão fraco e vulnerável, totalmente diferente do seu eu forte e robusto de sempre. Apesar de Mamãe ser a guerreira famosa da família deles, Papai não era menos impressionante nos olhos dela, seu protetor brincalhão, de natureza boa e imperturbável. Fosse proteger ela dos treinamentos mais ambiciosos de Mamãe ou espancar até a morte um jovem nobre mimado e futuro estuprador, Mila sempre podia contar com seu pai para tomar conta dela.

Até agora. Nada poderia salvar eles dessa aflição abominável, então Mila rezava pelo abraço cálido da Mãe para levá-la embora. Choramingando para alguém vir salvá-la, Mila chorou e abraçou seu balde, a muito tempo acostumada com o cheiro horrível. Ambos afetados pela mesma calamidade, pai e filha sofreram lado a lado por nove dias e hoje era o décimo. A liberdade tão doce estava tão perto, mas ainda parecia tão fora de alcance, Mila temia que ela não sobreviveria até o fim. Só ficar sentada em sua cadeira necessitava de tudo dela, mas ela sabia que as coisas piorariam se ela se deitasse. Até fechar seus olhos fazia a cabeça dela rodar, então ela encarou para fora da janelinha aberta da cabine deles e se focou no horizonte, a única coisa que ela encontrou que aliava sua miséria. 

Isso não estava certo… ninguém devia ser tratado assim, nem mesmo os piores criminosos e Mila estava longe de ser um. Se ela pudesse voltar no tempo e fazer isso de novo, ela teria ido embora no primeiro dia –  não primeira hora e ido para casa. A porta de madeira frágil não era nada para ela, mas agora, depois de tantos dias de sofrimento e miséria, ela estava fraca como um gato de um dia de idade e sem condição de andar, muito menos correr.

Humanos não foram feitos para viajar em barcos. 

Como alguém conseguia aguentar o balançar constante do barco era um mistério completo. O Capitão e marinheiros não eram úteis também, falando para Mila que ela se acostumaria logo, nada além de mentiras cruéis e enganação maldosa, oferecendo um fio de esperança onde nenhum existia. Senão fosse por Papai sofrendo ao lado dela, Mila teria suspeitado a muito tempo que isso tudo era apenas uma piada cruel, com todos escondendo o remédio para que eles pudessem ver ela sofrer. Ah como ela queria que fosse verdade, porque significava que havia alguma cura e ela não teria que passar por isso uma segunda vez. Melhor voltar a pé, não, melhor morrer lutando contra os Corrompidos do que repetir a experiência angustiante e fosse decisão dela, nenhum barco jamais navegaria em mar aberto novamente. 

Se fosse necessário, Mila iria fazer um Juramento para os Céus de nunca mais pôr um pé em outra armadilha mortal de madeira flutuante de enfermidade e enjôo. 

Caindo num sono pacífico, ela voltou a si enquanto era jogada para fora de sua cadeira, caindo no chão da cabine e parando em um canto. Com suas costas no chão e pés contra a parede, ela esperou seus músculos pararem de doer e o quarto parar de girar antes dela tentar se levantar. Lutando para ficar de pé, ela agradeceu a alma gentil que pensou em segurar o seu balde de vômito enquanto ela dormia e simultaneamente xingou a mesma pessoa por colocá-lo tão longe. Se apoiando pesadamente contra a parede, Mila se arrastou pelo quarto, mirando em seu balde no outro lado e rezando para ela conseguir antes de outro enjôo alcançá-la e ela começar a vomitar.

De novo.

Depois de três passos árduos e vacilantes, ela percebeu que o convés não estava mais balançando debaixo dos pés dela, apesar de suas pernas insistirem no contrário. Incapaz de se ajustar a essas novas circunstâncias, ela caiu de joelhos em uma mistura de alívio e exaustão, mente agitada pelas implicações. Se o convés não estava balançando, isso significava que o barco não estava se movendo e se o barco não estava se movendo, isso significava que…

Ah graças a Mãe! Acabou! Nós chegamos!

Entrando de repente no quarto sem bater, o sorriso presunçoso de Tursinai fez ela querer estapear a ex-membra do estandarte. Como ela ousa estar tão feliz enquanto Mila sofria tanto? — Olá pequena Mila. — Ela disse, passando por Mila para colocar uma bacia de água na mesa. — Você vai ficar feliz de saber que nós atracamos e todos estão lá fora esperando para te cumprimentar, mas não dá para você ir com essa aparência terrível.

Tursinai deve ser uma santa enviada pela própria Mãe. 

Conforme o pano úmido e quente esfregou seu rosto, Mila se sentou inquieta no chão com lágrimas escorrendo em seu rosto. — Obrigado Tursi. — Ela chorou, segurando a manga da mulher mais velha. — Me desculpe por cada coisa rude que eu já pensei sobre você. Eu sou uma pessoa terrível, tão horrível.

Entre sua inabilidade de manter comida ou líquido em seu estômago e o quarto ainda girando, Mila se viu com um leve problema em controlar suas emoções. 

— Tudo bem, pequena Mila. — Tursinai disse, trabalhando cuidadosamente no cabelo encrostado de Mila. — Não precisa me agradecer ou se desculpar, só me chame de irmã mais velha uma vez ou duas. — Olhando para Papai, Tursinai mordeu seu lábio, respirou fundo e sussurrou, — Eu ficaria ainda mais feliz em ajudar o Papaizão ali, mas eu acho que a Tenente-General não iria gostar nada disso. Se você realmente quiser me agradecer, então que tal você ficar sentadinha aí enquanto eu dou uma bela esfrega no seu Papai e nós deixamos esse segredinho entre nós duas. 

Depois de vários minutos de comentários inapropriados, Tursinai desistiu em deixar Mila apresentável e a carregou para longe. Enquanto eles saiam do interior do barco e desciam a rampa, Mila encarou o trecho de areia e grama parecendo não ter fim, celebrando sua vitória contra a morte e ter solo estável parado debaixo de seus pés. Resistindo a vontade de se desvencilhar dos braços de Tursinai e beijar a areia, ela ouviu os gritos animados de Lin e buscou o rosto de sua melhor amiga entra a multidão. Usando um louro de flores em seu cabelo e com um sorriso radiante no rosto, Lin parecia tão adorável quanto um dia de verão enquanto ela corria em direção a elas. — Mimi! Mimi! Finalmente você está aqui! Há tanta coisa para… — O coração de Mila quebrou quando Lin contorceu seu nariz e parou na distância de um braço. Se afastando em nojo claro, ela beliscou seu nariz e disse, — Ecaaaaa Mimi… que fedor. O que aconteceu?

Rindo tanto que ela teve que largar Mila, Tursinai rolou na areia e gargalhou de alegria, ignorante dos olhares estranhos que ela atraiu. Encarando sua suposta melhor amiga enquanto amassava a areia macia, maravilhosa, Mila piscou para afastar suas lágrimas de alegria ou indignação e perguntou, — É assim que você me cumprimenta depois de todas essas decanas separadas? — Todos estavam encarando igual a Lin, eles também se afastaram. Mila não podia estar fedendo tanto, podia?

Chutando a areia, Lin pelo menos teve a cortesia de parecer envergonhada, tão adorável em sua contrição que fez Mila queimar de inveja. — Mas Mimi — Ela disse com um beicinho fofo, — você tá fedendo mesmo mesmo, né?

Contrário a repulsa de Lin, Song, com seu cabelo em um coque trançado e usando um louro de flores similar em sua cabeça, foi até Mila sem hesitar. Abraçando Mila, Song esfregou sua bochecha na dela sem ligar para cheiro ou sujeira, agindo como uma verdadeira irmã deveria. — Obrigado Song. — Mila disse, se apoiando contra sua irmã ambos para apoio emocional e físico. — Eu te amo tanto. 

— Eu te amo também, irmã.

Com um chiado de alegria, Mila apertou Song o mais forte que podia, o que era o mesmo que dizer que era bem fraco. — É sério?

Sorrindo lindamente, Song assentiu com confiança. — Sim irmã. — Que maravilhoso, Song finalmente estava se abrindo depois de todo tempo delas juntas. Estranho como só foi preciso um mês de separação para fazer isso acontecer. — Mamãe entrou para encontrar Papai, então talvez você gostaria de tomar um banho antes de ver ela? Lin… não está errada.

Bom… talvez elas tenham razão. Mila não conseguia lembrar da última vez que ela tomou banho desde que ela entrou no barco a dez dias cheios de vômito atrás. Apesar deles atracarem toda a noite, depois de doze ou quatorze horas no mar, Mila não estava em condição de fazer nada além de colapsar em uma pilha de lágrimas e catarro. Pelo menos Rain não estava aqui para cheirar ou ver ela desse jeito. 

… espera, por que Rain não estava aqui para cumprimentar a noiva dele? Ela sentiu tanta a falta dele, ele não sentiu a dela?

— Éee…  Olá Mila. — Saindo do meio da multidão como se invocado por seus pensamentos, seu noivo chegou segurando um louro de flores com ambas as mãos. Ao contrário dos de Song e Lin, este aqui era mal feito, as flores espaçadas de maneira irregular e anguladas de um jeito estranho como se uma criança de cinco anos tivesse juntado elas. Bochechas vermelhas e sem olhá-la nos olhos, Rain colocou o louro na cabeça dela e murmurou, — Você cortou seu cabelo, está mais curto e enrolado. Você parece bem adorável. Eu fiz isso para você. 

Está tudo bem. Então seu noivo não era um artesão. Mila achou adorável saber que ele não era incrível em tudo, apesar dela estar irritada dele notar só agora que o novo corte dela, três meses depois do ocorrido. Esticando suas mãos, ela choramingou, — Me carrega?

Enrijencendo de surpresa, a careta de Rain quebrou o coração de Mila. Ela fedia tanto assim? O amor dele por ela era tão superficial assim? Felizmente para ele, a hesitação de Rain só durou um instante antes dele assentir concordando. Depois de fechar seus olhos e respirar profundamente, ele hesitou, tentando pensar no melhor jeito de se aproximar dela, quase como se tivesse medo de tocar nela. Bobinho, ainda pensando sobre a dignidade dela, ser carregada por Tursinai era um pouco humilhante, mas ser carregada por seu noivo seria romântico. Dando um empurrãozinho para ele, Mila pôs seus braços em seu pescoço, se aninhou contra seu ombro e esperou para ele levá-la para longe.

E esperou. 

E esperou. 

Grunhindo com o esforço, as veias no pescoço de seu noivo saltaram enquanto ele lutava para levantar ela, incapaz de levantar um centímetro sequer. Que estranho, faz decanas desde que ele começou a carregar ela sem ajuda e ela estava cansada demais para se Empuxar mesmo se ela quisesse. Por que ele estava fingindo ter trabalho agora? — Qual o problema?

— Nada. Eu consigo fazer isso. —  Veias pulsando e coração acelerado, Rain cerrou seus dentes e deu tudo de si em levantar ela da areia, mas era inútil. Depois de um minuto de luta fútil, ele rosnou e gritou, — Cala a boca!

Pega de surpresa, Mila soltou sua pegada no pescoço de Rain. Sem seus braços para se apoiar, Rain cambaleou para trás e caiu na areia com um baque pesado, arfando enquanto o ar saía de seus pulmões. — Como é que é? — Ela perguntou,  irritada com seu tom. — O que você disse? 

— Não… falei… com você. — Rain arfou, gesticulando ao redor de si. — Monge. Oculto. Não para de Enviar. Enchendo o saco… sobre celibato e pecado. — Procurando pela multidão, ele explodiu, — Vai tomar no seu cu! Eu não sou seu irmão, nem sou um monge! Eu vou tocar em qualquer mulher que eu quiser e nada que você disser vai mudar minha mente. — Notando as expressões azedas nos rostos de Lin e Mila, ele se corrigiu rapidamente. — Quero dizer, eu só vou tocar as minhas noivas. Não de um jeito sexual, mas de um jeito casto, puro… é… — Suspirando, Rain se levantou e tirou a areia de suas roupas. — Desculpe. Estou muito cansado por causa dos problemas recentes que passei, então acho que eu devo ir para cama agora. Você parece adorável como sempre Mila. Desculpe. 

Deixando ela sentada na areia sem nem um sorriso, Rain voltou para a multidão. Esmagada por suas emoções, Mila não conseguia decidir se ficava furiosa ou desolada e olhou para Lin em busca de explicação. Estufando suas bochechas, Lin esticou seu braço e afagou o ar ao redor do rosto de Mila, ficando o mais longe possível. — Não fique zangada Mimi, maridinho passou por muita coisa recentemente e agora ele está agindo estranho, todo assustado e tristonho. Ele dorme muito e só saí da yurt dele para nadar. Ele até pegou os ursos e falou que eu não devia ser tão egoísta e devia aprender a dividir…

O resto da noite passou como um borrão e quando ela abriu seus olhos de novo, Mila se encontrou em um cobertor quente dentro da yurt de Song. Se aquecendo no conforto aconchegante do lugar, ela dormiu e acordou mais algumas vezes por vários minutos, preguiçosamente adiando o dia novo o máximo que ela podia. Nesse exato momento, as coisas estavam perfeitas e ela não queria arruiná-las com as complicações da vida. Dando uma espreguiçada de estalar os ossos, ela esticou suas costas e aproveitou a falta completa e total de náusea. Na verdade, pela primeira vez em dias, ela estava com fome de verdade, seu estômago roncando em antecipação pela refeição que ela tão merecia. Incapaz de encontrar suas roupas, ela pegou emprestado as de Song e saiu da yurt para cumprimentar o dia. Protegendo seus olhos do sol da tarde com sua mão, ela respirou fundo e admirou os céus azuis majestosos e as gramas verdejantes da Província Central. 

E a tartaruga magnífica e ameaçadora tirando um cochilo nem dois metros de distância. 

Mesmo descansando, a criatura formidável exalava um ar de vigor e majestade, poder e fortitude dados forma. Sua pele suave, parecida com couro parecia tão macia de se tocar, brilhando na luz com um matiz verde musgo lindo. Conforme Mila se aproximava, os olhos da tartaruga se abriram num instante para inspecionar a intrusa desconhecida, com o sol em posição perfeita para revelar o brilho dourado e lustroso em seus olhos escuros e insondáveis. Inclinando sua cabeça de um jeito estranhamente humano, a tartaruga chiou de alegria e esticou seu pescoço para acariciar Mila de um jeito gentil e amoroso. 

Rindo de pura alegria, Mila esticou seus braços o máximo possível e abraçou o bico da tartaruga, tratando a criatura afetiva com um abraço caloroso. — Olá você. — Ela falou gentilmente, abraçada com uma tartaruga grande o bastante para engoli-la inteira com uma só bocada. — Você não é carinhosa? Você deve ser a Pingping. Eu sou Mila, prazer te conhecer. 

— Então você é a filha da moleca. — A voz desconhecida e áspera fez Mila pular de susto e ela se virou para encontrar um cavalheiro mais velho sentado na grama perto delas. Usando um chapéu cônico de palha de aba larga e uma túnica esfarrapada, o estranho fumava com um cachimbo belamente feito e estudou ela com seus olhos castanhos penetrantes. Com o indício de desdém no seu rosto, ele soltou uma nuvem de fumaça branca, fina, acre e desagradável ao nariz. — Você é mais baixa do que eu esperava.

Apesar de seu exterior duro e hábito atroz, Mila se sentiu atraída instantaneamente pelo homem mais velho quando ela viu sua cauda felpuda, anelada de panda-vermelho balançando atrás dele. Finalmente, depois de todos esses anos, Mila encontrou um meio-irmão, apesar de ao julgar pelas suas sobrancelhas e barba prateadas, ele era um meio-irmão muito, muito, mas muito mais velho, um quase no fim de sua vida. Mal capaz de conter sua animação, Mila graciosamente ignorou o comentário sarcástico sobre Mamãe e se curvou para cumprimentá-lo, uma tarefa difícil com Pingping exigindo outro abraço. — Esta aqui é Sumila, Discípula de Akanai, Estudante de Husolt, Irmã de Li Song e Capitã dos Sentinelas. Como eu poderia te chamar, bom senhor. 

— Ora, ora, ora. — O estranho disse, se sentando um pouco mais ereto enquanto punha seu cachimbo de lado. — Pelo menos a piveta ensinou bons modos a sua filha. Este senhor aqui se chama Guan Suo do Protetorado, guardião  da… Pingping. 

A última parte foi dita com um suspiro, mas Mila estava ocupada demais tentando não perder a cabeça. Como ele ousa chamar Mamãe de “piveta”? Só porque ele era mais velho não significa que ele pode menosprezar ela. Hmph, se Mila não precisasse ainda questionar ele, daria uma boa peça para o homem ouvir, meio-irmão ou não. Melhor ir direto ao ponto antes dela perder a paciência. — Meus cumprimentos, Guan Suo. Como você pode provavelmente dizer, nós dois compartilhamos um… progenitor. Eu estava me perguntando se você já conheceu ele ou ela e se sim, se poderia me contar onde ele ou ela está?

— Ohh? — Levantando uma única sobrancelha longa e cheia, o velho perguntou, — A piveta nunca te contou sobre sua parentela?

— Eu não conheço piveta alguma e meus pais se chamam Akanai e Husolt. — Mila corrigiu, um pouco mais seca do que o pretendido. — Mas não, eles nunca me contaram nada sobre a pessoa que me gerou. 

— Filhotinha mal-humorada não é mesmo? — Dando de ombros preguiçosamente, Guan Suo voltou a se apoiar contra seu monte de terra e afagou sua barba. — Justo, te dou essa, mas se você fica tão sentida sobre o assunto, então por que procurar seu… progenitor?

Sua paciência estava acabando, Mila se perguntava se o velhote ao menos tinha resposta para dar a ela, mas ainda assim ela persistiu. — Eu tenho algo importante que ele ou ela precisa ouvir. 

— Uma mensagem? — Entretido, ele sorriu e perguntou, — E por acaso o que seria?

Isso era tudo um jogo para ela, tratando com leviandade assuntos importantes para ela. Mila quase se virou para ir embora, mas algo nos olhos dele fez ela ficar. Mais do que curiosidade ociosa ou humor insensível, ela viu uma necessidade intensa de saber escondida através de um verniz de indiferença. Contra seu melhor julgamento, Mila optou por honestidade. — Eu diria a eles quem eu sou, uma filha esquecida que foi abandonada e deixada para morrer. Que eu tenho dois pais amorosos, uma irmã maravilhosa, amigos incríveis e um noivo valente. Que eu sou uma guerreira sem comparação com meus iguais que aos doze anos, rastreou e matou um crocodurso com mil anos de idade sozinha. E, então, usei a pele dele para fazer uma Arma Espiritual, o escudo que você me vê carregando agora e que aos dezoito anos, fui Inspirada pela Mãe e consegui o título de Ferreira Divina. — Respirando fundo, Mila acalmou seus nervos antes de continuar, segurando o dilúvio de emoções se acumulando dentro de si. — E mais importante de tudo, eu diria a eles que apesar do melhor esforço deles, eu vivi uma vida cheia de amor e afeição e que estou bem melhor sem eles. 

Encarando ao longe, Guan Suo segurou um bocejo e perguntou, — Você considerou escrever isso e enviar uma carta em vez de falar? Quanta coisa. 

Rangendo seus dentes com um rosnado audível, Mila resistiu a vontade de rasgar as sobrancelhas dele. — Você pode. Me direcionar. Até nosso progenitor?

Em vez de responder, o velho revirou seus olhos e disse, — Eu acho que você não sabe muito sobre Bestas Ancestrais então. Você está chateada sobre ser abandonada quando criança? Aff! Você teve sorte de não ter sido morta na hora. Não procure simpatia de uma Besta Ancestral. Elas podem parecer humanas, mas elas sempre vão ser uma besta no coração, escrava aos seus desejos mais básicos. Apesar de todas as suas conquistas e habilidades, nos olhos de uma Besta Ancestral você não é nada além de uma falha fraca, deficiente, alguém cuja morte seria uma misericórdia. — Balançando sua cabeça, Guan Suo desdenhou e adicionou, — Alguns fingem e bancam humanos, mas é só isso, um jogo. Elas são criaturas da selva e nem todo o tempo nesse mundo vai domar eles. Prossiga com seu caminho, Sumila. Esqueça essa fantasia boba de falar com seu progenitor. Como você disse, Akanai e Husolt te criaram e te amam. O que mais você precisa?

Com isso dito, Guan Suo se levantou e foi embora, se misturando no mar de Sentinelas de forma tão perfeita que tinha que ser Ocultamento. Fervendo de raiva, Mila encarou na direção geral de Guan Suo antes de de voltar sua atenção para a tartaruga afetiva. — Pobre Pingping. — Ela disse gentilmente, dando outro abraço na gigante gentil. — Como eu, você também está cercada de homens enfurecedores. — Olhando para a yurt de Rain, ela se frustrou ao pensar em vê-lo de novo. Por mais curiosa que ela estivesse quanto ao segundo Despertar dele, uma pequena parte dela se perguntava se sua recepção fria não foi por causa de cansaço, mas por outras razões. 

Ele foi educado e respeitoso, mas não cálido ou afetivo, como se ele estivesse fazendo o que ele pensava que ela queria em vez de estar genuinamente feliz por ela estar lá. E se ele teve uma mudança de sentimentos durante o tempo deles longe? Indo pelo caminho covarde, Mila se despediu de Pingping e foi embora em busca de Mamãe, Lin e Song. 

 

Não importasse qual o problema do noivo de Mila, era sempre melhor encarar más notícias de barriga cheia.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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