DS – Capítulo 325

Há um ponto quando auto-aversão completa fica tão intensa, que você nem sente mais vontade de se matar. Você se odeia tanto, que você pensa que morte seria fácil demais, então você quer sofrer, precisa sofrer, porque você merece sofrer. É um sentimento que eu sou bem familiar, mas hoje, eu descobri o que vem depois de auto-aversão: indiferença fria. É meio assustador o quão pouco eu ligo agora. Morto, vivo, tanto faz, não importa. Porém, solidão parece bom, — Eu gostaria de ficar sozinho por favor.

Se curvando até o quadril, o monge Envia, — Seria bom você refletir nisso. Paz vem de dentro, Irmão SanDukkha. Não a busque no lado de fora, mas há pessoas aqui para você caso precise delas. — Saindo pela porta, ele a fecha gentilmente, eu quase peço para ele voltar. Eu não quero ficar sozinho, porque a vida é uma merda quando você está sozinho, duplamente quando você acabou de descobrir que seu “irmãozinho” era só você falando consigo mesmo.

Não deve ser muito difícil para encontrar alguém para me fazer companhia. Os ursos e os gatos estão na yurt da Song com Lin e Mila, as três damas fofocando ou trançando seus cabelos ou fazendo coisas que jovens mulheres fazem durante uma festa do pijama. Enquanto isso, os pássaros, coelhos e quin estão ainda mais perto, bem do lado de fora, todos aconchegados ao redor da doce Pingping enquanto ela dorme sob o céu estrelado, sua barriga cheia e corpo cansado de seu dia cheio de natação e caça. Eu poderia sair agora e me sentar perto dela e deixar Mamãe Coelhin e Vinte-e-um pularem no meu colo. Ou eu podia ficar deitado ao lado de uma pilha de coelhos e deixar eles cavarem debaixo de mim ou até ir lá e pedir o Aurie de volta. Porra, se eu realmente quisesse companhia, eu tenho tipo uns oitenta soldados de guarda por aí para conversar.

Há muito que eu poderia fazer, mas não faço, porque quando vem o x da questão, eu não acredito que mereço ser feliz. Então em vez disso, eu fico sentado no chão e encaro a caixa aberta perto da chaleira gigante cheia com chá que te dá diarreia. Não é porque meus lábios secos e garganta doendo de tanto chorar e gritar na última hora ou mais, nem é porque eu estou esmagado pelas emoções e estou encarando o que está na minha frente. Como consequência da revelação destruidora de vidas, há uma coisa que eu não consigo entender.

Por que eu deixei a caixa de caule de mandrel aberta na mesa de jantar?

Quero dizer, eu consigo descobrir o motivo de eu ter feito tanto chá de diarreia. Você pode se livrar do chá de caule de mandrel com Chi do mesmo jeito que você consegue se livrar de outros fluidos ingeridos, como álcool ou venenos, mas o chá ainda tem que se mover pelo seu organismo. Sua mera presença é o bastante para fazer o cocô fluir, que é o que eu usei com o velho grupo do Jorani lá em Sanshu e também o motivo de eu inconscientemente colocar a caixa na minha despensa. Eu queria me envenenar “acidentalmente” e perder o encontro com o Embaixador e se eu levasse o monge falastrão comigo, então isso seria um bônus ótimo.

Então por que eu não fechei a caixa e guardei ela? Não é como se caule de mandrel seja algo raro ou caro, é um remédio comum para uma doença que ataca todos de plebeu ao Imperador sem distinção. Seria estranho se o monge não reconhecesse a coisa, então porque colocar a única evidência dos meus delitos bem na cara dele? Eu estava tentando ser pego? 

… eu sou um caso perdido.

Não que isso seja muita surpresa. Eu já disse incontáveis vezes antes e eu vou dizer de novo: eu não fui feito para esse mundo. Eu deveria ter morrido em uma pilha gigante de cadáveres de escravos fora das minas, mas eu sobrevivi por pura sorte. Não só eu não morri, como eu também encontrei as únicas pessoas em um raio de cem quilômetros que tinham razão para me salvar. Talvez alguém estava cuidando de mim ou talvez karma decidiu não ser uma vadia pela primeira vez, mas de qualquer jeito, minha sobrevivência foi um milagre da porra. 

Depois de quatro anos abençoados treinando na vila, eu pensei que eu era duro o bastante para encarar o mundo, mas Shen Huo me provou errado. Não foi os Generais-de-Brigada ou crocodursos que fizeram isso, nem foi Dugu TianYi e seus filhos de merda. Não, a pessoa que me mostrou que eu não pertenço mesmo aqui foi o próprio Tong Da Hai. O Magistrado de Shen Huo e o Pai carinhoso de Fung, sua vingança contra DuGu Ren foi rápida e cruel, sentenciando um menino de dezoito anos a tortura inumana. Eu nunca vou esquecer a multidão reunida no palco, sentados nas arquibancadas e rindo enquanto viam Ren sofrer. Naquele dia, eu sabia que não importa o quanto eu tentasse, eu nunca me encaixaria. Até Akanai, que admitiu que a coisa toda era de mal gosto, me trouxe lá para ver o sofrimento de Ren, talvez esperando me animar ou talvez checar se eu era Corrompido.

Eu não era. Não ainda pelo menos. Uma pena. Se eu fosse, Akanai poderia ter cortado minha garganta e poupado todos de muitos problemas.

Eu queria poder culpar isso em outra pessoa, como toda a merda com a Competição da Sociedade. Não dizendo que os esquemas assassinos da Sociedade não contribuíram para minha queda da graça eventual, mas eu não consigo jogar toda a culpa neles também. Eu nem consigo culpar totalmente os Corrompidos por seus comportamentos atrozes porque eu sei como é ter os Espectros sussurrando no seu ouvido. Não há pensamento racional ou introspecção porque eles te enchem com tanta raiva, adrenalina e endorfinas, que é impossível ficar calmo. Especialmente quando é tão fácil ficar com raiva do que com medo.

Medo te abate.

Raiva encoraja.

Essa é a lição que eu aprendi quando entrei nas ruínas de uma vila silenciosa e vi aquele pedacinho de paraíso cheio dos restos maculados de seus habitantes. Tudo que eu queria fazer era me curvar e chorar, mas eu não podia. Eu tinha que ser forte. Yan, Huu e Mila estavam todos lá comigo e eles viram o que eu vi, mas nenhum deles quebrou, então em vez de ficar triste, eu fiquei com raiva. Eu aceitei as mentiras dos Espectros e peguei a força e coragem que eles davam e, dessa forma, quase condenei todas as pessoas que eu amo.

E eu só posso culpar a mim mesmo por quebrar sob pressão, porque como eu disse, eu não fui feito para esse mundo e os horrores que ele contém.

Olhando de volta agora, me maravilha como eu nunca somei dois mais dois e descobri que eu era Corrompido, ou perto disso. O que é ainda mais surpreendente é que ninguém descobriu também, mas eu imagino que é o problema de olhar pelo mundo através de lentes emocionais. Você nunca quer pensar que o pior aconteceu com aqueles que você ama. Os sinais estavam todos lá se eu apenas tivesse olhado, como as explosões de força inexplicáveis, a raiva descontrolada, o Discernimento repentino nas Formas. Os problemas para meditar e Afiar, somando ainda que algumas das minhas feridas se curavam sozinhas, como quando Man Giao rompeu meus tímpanos. Então havia todo tipo de pensamento desagradável sobre violar e abusar de cada mulher que eu via o que eu convenientemente “esqueci” depois da ilusão do Demônio Vivek.

Vivek se transformou no Demônio exato que eu precisava. Mais sorte, eu acho. Eu ainda não sei o motivo, mas eu soube no primeiro momento que eu vi as ilusões do Demônio que elas não eram reais, mas eu não me importei. Suspensão de incredulidade deliberada é algo que eu sou muito bom, com décadas de prática no meu cinto. O Demônio me mostrou tudo que eu queria, misturando todas as minhas memórias em um amálgama masturbatória que era para afagar meu ego e me fazer cair em complacência abençoada. Estranhamente, isso foi a queda dele. Por mais divertidas que as fantasias hedonistas fossem, eu prefiro muito mais uma boa história de alguém oprimido vencendo na vida, com um bom conflito para resolver e chances baixas para superar. Apesar de eu ter gostado de assistir incontáveis interações harmoniosas da minha vida, o pessimista em mim não poderia aceitar uma existência agradável e despreocupada, enquanto o sobrevivente em mim sabia que era fazer ou morrer.

E assim ocorreu a cisma. De um lado, nós tínhamos o sonhador, o idealista, o defensor das morais e no outro, nós tinhamos o guerreiro, o realista, o sobrevivente. Irmão e Baledagh, dois lados da mesma moeda, mantidos separados por pura e teimosa ignorância.

Eu precisava ser forte então criei a versão mais forte de mim que eu conseguia imaginar, a versão que sobreviveria nesse mundo cruel. Está até no nome dele, Baledagh. Guerreiro. Confiante, ousado e destemido, ele é a pessoa que eu queria ser, a pessoa que eu precisava me tornar. Seus sonhos eram meus sonhos, desejando que eu tivessem me achado antes do meu tempo nas minas, crescendo feliz, amado e aceito pelos Bekhai em vez de um recluso auto-exilado transformado em pária social, carregando o peso de memórias secretas e neuroses aleijantes. Diferente de mim, ele pertencia aqui, iria prosperar de um jeito que eu nunca poderia.

Conhecimento obscuro e mítico tirado do nada? Que bom que Baledagh é um crente.

Duelos até a morte? Finalmente, Baledagh saboreia a chance de glória.

Os Espectros e seus pensamentos Corrompidos? Facilmente ignorados, porque Baledagh tem uma vontade de ferro.

Meio-afogado, trucidado ao ponto de ficar irreconhecível e sem ninguém para ajudar? Sem problema, porque Baledagh é um sobrevivente.

A quanto tempo eu sabia que isso tudo era uma farsa?

Por mais tempo do que eu gostaria de admitir, mas eu acho que esse é o tema de hoje, encarar verdades desagradáveis. Meu “primeiro” Despertar falhou por uma única razão: eu rejeitei o que ele me contou, que eu era um louco de pedra e precisava de uma verificação mental séria. O outro eu era só eu falando comigo mesmo através de um construto mental, sem cérebro, sem alma, evidenciado por como ele caiu no sono logo depois, enquanto eu lutava com a verdade. Naquela época, Baledagh nem tinha um nome. Eu o chamava de “outro eu” e isso era exatamente quem ele era. Eu, só que imaginado como melhor de cada jeito possível e capaz de pensar os pensamentos que eu não ousava pensar. Eu criei ele porque eu precisava dele, dependia dele, não só porque ele era corajoso e eu estava com medo ou porque ele era alguém com quem eu podia confiar e depender, mas também porque ele me absolvia dos meus muitos, muitos erros.

Tão assustado que meu cérebro entra em curto e eu avanço de maneira suicida contra um Demônio? Isso foi o outro eu, ele é novo e não muito esperto.

Não consigo encontrar Equilíbrio por causa de toda a minha raiva? Não, isso é a raiva do outro eu, eu sou calmo que nem um pepino.

Avançando no palco em busca de glória e morte? Desculpa, o outro eu ficou animado e pôs a carroça na frente dos bois.

A Aura do Zian era esmagadora demais para fingir bravura? Bom, então está na hora do irmão perpetuamente assustado ir a frente e ser um herói.

Se apaixonar pela garota da vila doce que cuidou de mim até eu me curar? Desculpa Lin, desculpa Mila, isso é o outro eu, mas ele merece amor, certo?

Qingqing correu e morreu? Tudo certo. Outro eu ama ela, não…

Mãe do Céu, Qingqing. Ela merecia mais. Uma trabalhadora diligente e sonhadora idealista, alguém que queria ver o mundo, mas estava assustada demais para pôr o pé no lado de fora da vila. Tão gentil, mas ainda determinada e otimista, vivendo sua vida sozinha a despeito da sua falta de força, nós tinhamos tanto em comum, como eu poderia resistir a me apaixonar por ela? Se apenas eu tivesse apoiado e tranquilizado ela mais, então talvez ela não teria fugido para se certificar de que suas pessoas estavam seguras. É minha culpa que ela morreu e eu nunca vou me perdoar…

Chega um ponto quando desculpa só não é mais o bastante, mas é tudo que eu tenho. Qingqing, me desculpe por ter te amado. Lin, me desculpe por não te amar tanto quanto você me ama. Mila, me desculpe por ter um pouco de medo de você e pensar que você é mandona demais. Me desculpem…

Em um certo nível, eu sempre soube que Baledagh não era real, mas eu não conseguia desistir dele. Depois da minha primeira tentativa falha de Despertar, eu construí uma fortaleza mental para guardar ele, proteger ele da verdade dentro do meu Palácio Natal. Diga o que quiser sobre desordem dissociativa, mas pelo menos ele me ajudou no Caminho Marcial. Múltiplas personalidades deixa moleza dividir seu foco. Porém, eu não recomendaria, as coisas podem sair muito do controle. Eu caí num padrão: quando eu precisava de Baledagh, ele estava sempre lá e quando eu não precisava, ele desaparecia no fundo, dormindo ou treinando no Palácio Natal. Eu forcei todos meus piores traços e falhas nele enquanto colhia todas as recompensas, tudo enquanto dizia a mim mesmo que ele não ligava porque ele era tão grato pelo seu irmão mais velho brilhante. Ele era tão forte ou fraco quanto eu precisava que ele fosse e conforme minha confiança foi crescendo, Baledagh se tornou menos útil, mas eu ainda gostava de ter ele por perto. E porque eu não gostaria? Ele se tornou o ferrado, o trapalhão, o beta para o meu alfa, um suporte para me fazer sentir melhor sobre mim mesmo, algo que me deixava saber que eu estava fazendo as coisas certo.

Para manter a auto-enganação indo, eu até recusei Gotinha quando nos encontramos pela primeira vez, enquanto eu vagava pelo Lago dos Tesouros Ocidentais. Gotinha me limpou da influência dos Espectros e me manteve vivo, mas ele tentou se livrar de Baledagh. Ele sabia que ele era uma anomalia, então eu o rejeitei e a verdade porque eu não conseguia largar Baledagh, me fazendo se sentir culpado ao transformar ele no “hospedeiro original”. Agora, seria errado matar ele. É a vida dele, provado porque ele é mais apropriado para esse mundo do que eu. 

Eu já tirei tanto dele, como eu poderia tirar ainda mais? Não, eu sou uma boa pessoa, eu vou dar um corpo para ele algum dia, porque essa é a coisa certa se fazer. Eu até dei um propósito para ele, meu irmãozinho buscador de Espectros, trabalhando duro para expiar seus erros. 

O monge estava certo, “A mente é tudo. O que você pensa, você se torna”. Distorça a verdade o bastante e você pode justificar qualquer coisa.

Meu segundo Despertar me forçou a encarar a verdade, mas verdade à minha natureza, então eu fugi para me esconder. Baledagh é o guerreiro e eu… eu sou o covarde que estava tão assustado que ele se separou da própria consciência para escapar. O primeiro para consertar um problema é admitir que você tem um, então eu admiti. Eu sou fodido na cabeça. Eu sou um maluco esquizofrênico que perdeu vários parafusos na caixola. E agora? O que eu faço agora? Eu estive preso nos dois extremos por tanto tempo, que eu não sei mais o que fazer. Quais instintos eu sigo? Eu me sento na minha yurt e choro ou eu deveria gritar e me irar porque sou tão imprestável?

Preso com indecisão, eu me sento e reviso cada decisão que eu já tomei e imagino o que teria acontecido se eu não fosse insano. Se eu não tivesse avançado para o palco, Mila teria lutado no meu lugar e provavelmente esmagado seus oponentes com facilidade, o que significa que ela teria poupado seus oponentes. Menos mortes significa que a talvez a Sociedade recuasse mais cedo e nós deixamos as mágoas para lá, não seríamos amigos, mas não inimigos também.

Se eu não tivesse espancado e humilhado Gen, talvez ele não teria se Corrompido e eu teria escapado com Qingqing e sido espancado até a quase morte por Mila. Se eu tivesse aceitado Gotinha da primeira vez que o encontrei e o revelado para BoLao, então talvez eu poderia ter salvo todos da Purificação e BoShui teria se reunido com sua prima a muito tempo perdida. Tantos “e se”s, porra, e se meu primeiro Despertar não tivesse falhado? Quão forte eu estaria no tempo que chegasse em Sanshu? Eu desperdicei tanto tempo e energia cuidando da minha loucura, com medo demais de aceitar a verdade, com medo demais de aceitar meus erros e ainda eu sou deixado com a mesma pergunta.

E agora?

Caindo com um baque, eu fico deitado de costas e encaro o teto, tentando limpar minha mente e falhando miseravelmente. Vendo Paz ao meu lado, eu estico minha mão e pego em seu cabo, estudando o gume afiado e fim pontudo. Com um balançar do pulso, eu a jogo no ar e assisto enquanto ela gira em um círculo perfeito, o tinir do metal no ar um bálsamo tranquilizante para minha alma. Mais alto e mais alto até ela vai até a gravidade vir e minha espada fica parada no espaço por um segundo perfeitamente imóvel, sua ponta apontada diretamente entre meus olhos.

Paz mergulha para baixo com a ponta indo primeiro.

Eu fecho meus olhos e entro no meu Palácio Natal.

A réplica vazia da vila é uma visão familiar, tão parada e sem vida que dói. Não é real e nunca vai ser. Não importa o quanto eu queira, eu não posso voltar aqueles primeiros anos na vila e mudar meus planos. Refletindo nas memórias de tempos melhores, eles voltam a vida ao meu redor, criações de mente me tentando a ficar para trás e esquecer dos meus problemas. Acalmar os gêmeos enquanto seus dentes crescem, ouvir eles falando as primeiras palavras, ou rir enquanto eles perseguiam os filhotes pelo pátio, o melhor dos amigos desde o primeiro encontro. Estudando com Taduk ou lendo com Lin, cozinhando o jantar para todos para dar um tempo para Charok e Alsantset, todas memórias que eu guardo com carinho no meu coração.

Se eu pudesse voltar no tempo, eu mudaria as coisas? Eu desistiria do meu Treinamento Marcial e me dedicaria totalmente ao herbalismo? Onde eu estaria agora? Sentado em uma casa na vila, me preocupando sobre minha família que estão lutando contra os Corrompidos, provavelmente ainda resistindo os esforços de Lin para casar comigo. Eu não teria feito amizade com Fung, Huu, BoShui, Dastan e (aff…) Zian, Song não teria ido viver com a gente, Mila e Yan nunca teriam se interessado em mim e eu não teria conhecido Qingqing. Sem gatos selvagens, ursos, pássaros ou Pingping também, não se eu ficasse em casa em todas aquelas excursões. Eu poderia ter conseguido alguns coelhos, mas definitivamente não a Mamãe Coelhin, o tempo não teria sido certo. Além disso, sem o Treinamento Marcial, eu estou bem certo de que Mamãe Coelhin teria me matado num instante, um fim ruim se eu já vi um.

Ignorando todo o resto, eu estaria mais feliz como um herbalista?

Talvez. Talvez não, mas esse caminho está perdido para sempre. Eu escolhi meu caminho, meu Dao e agora eu devo ir até o fim. Conjurando uma cópia minha, eu estudo ele com atenção, encarando seus olhos frios, mortos e esperando contra tudo que meu irmãozinho irá olhar de volta e dizer, “Psíquico!”, mas ele não irá. Essa cópia é como todas os outros autômatos que eu fiz para popular minha vila falsa, ele só faz o que eu faço ele fazer. É por isso que os outros sempre me deixam desconfortável, eles mostram para mim o que eu estava tentando ignorar, que o “outro eu” com quem eu estava falando era só um facsímile de mim mesmo que eu conjurei. Eu estava atuando como eu mesmo enquanto controlava outra versão de mim para que eu pudesse conversar… comigo mesmo.

Bem ferrado né?

… com quem eu estou falando?

Resolvendo tomar mais cuidado quando falo comigo, eu estico minha mão e afago o ombro do facsímile. Obrigado irmãozinho. Você não era real, mas eu não teria chegado tão longe sem você, o que te torna real o bastante.

Adeus.

O outro eu desaparece da existência como faz o resto da vila, deixando só o quartinho branco que Baledagh… que eu sempre amei ficar. Por mais falso que ele seja, deixar uma cópia no Palácio Natal torna mais fácil manter e me ajuda a ser multitarefas, mas eu preferia não ter que olhar para mim mesmo por um tempo. Não é muito problema, esse quarto é fácil de manter e mais do que o bastante para o que preciso. Subindo na cama, eu encaro o teto intrincadamente talhado com cenas de coragem e glória. Eu copiei elas do pagode na vila e cada uma conta uma história, algo para inspirar e encorajar as gerações futuras, mas hoje, tudo que ele faz é trazer lágrimas aos meus olhos. Eu escolhi essas imagens para Baledagh por essa mesma razão, porque elas davam a ele… a nós… a mim algo para aspirar. Baledagh não é real e ele nunca foi. Eu criei ele, um escudo para me esconder, uma muleta para me apoiar, uma invenção da minha psique neurótica.

Então por que dói tanto saber que ele se foi?

Uma batida na porta interrompe meu pesar e a voz de Rustram ecoa. — Chefe? Desculpe te acordar, mas Jorani voltou e ele tem algo para você.

— Eu já vou sair. — Abrindo meus olhos, eu encaro o cabo da minha espada ainda tremendo, a lâmina enterrada no chão a milímetros da minha bochecha. Seja um suspiro de decepção ou e alívio, não estou inteiramente certo, mas não importa muito, não agora. Não haverá Paz hoje, nem Tranquilidade. Eu não tenho tempo para focar nos meus problemas mentais ou tentar entender minha vida distorcida, eu tenho uma comitiva para liderar e deveres para cumprir. Jorani chegou tarde, o que não poder ser bom e eu preciso me preparar para meu encontro público com o Embaixador. Antes disso, eu deveria dar boas-vindas direito para Mila, vincular com minha arma nova e pegar Gotinha de volta, o que significa que não há hora melhor do que agora para começar. Eu ainda não estou inteiramente certo aonde estou na escala de personalidade Irmão-Baledagh, mas eu vou precisar do melhor dos dois se eu quiser sobreviver. Eu fingi confiança por anos agora enquanto fingia ser Baledagh, então eu não vejo razão para parar agora.

Finja até conseguir, certo?

Com espada e escudo em mãos, eu saio para cumprimentar meu primeiro dia como Subtenente Falling Rain, Guerreiro…

Dos Bekhai? Nem, eu dúvido que eles iriam querer que eu os representasse.

Do Norte? Não posso dizer que eu ligo para a província como um todo.

Do Império? Éee… politicamente correto, exato, aí nem tanto.

….

Foda-se, os detalhes eu resolvo depois.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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