DS – Capítulo 327

Repassar minha apresentação não demorou muito porque eu não  preparei muita coisa. O encontro com o Embaixador é só uma mostra pública, uma competição de alto nível para ver quem tinha a carteira maior e Akanai só deu algumas sugestões em relação a entrega, escolha de palavras e tom. Com isso resolvido, ela me deixou com um afago na cabeça e voltou para sua yurt, me avisando para não trabalhar demais e descansar. Infelizmente, sono não vai vir fácil depois da revelação destruidora de mundos de mais cedo, então eu preferia não ficar deitado no escuro e pensar nos meus problemas mentais sérios, sem mencionar a ansiedade e medo existencial que vem com ele. Saber que eu tenho um problema não resolve ele por mágica, quem sabe quando eu vou agir no instinto e “esquecer” sobre isso depois do fato, ou ter outro ataque psicótico e criar outro amigo imaginário.

Olhando o monge de cima a baixo, eu checo mais uma vez minhas memórias para me certificar de que ele interagiu com outras pessoas e, assim, é real. Isso é algo que eu preciso saber, porque eu sou maluco pra caralho. 

Então em vez de me trancar na minha yurt, eu decido desvendar minha arma nova sob o céu estrelado, com apenas uma Pingping sonolenta e um monge Oculto para testemunhar. Enrolada dentro de camadas de couro lubrificado está o que só pode ser descrito como uma obra de arte transcendental, uma alabarda feita com amor pela minha amada Mila. Colocando a base da arma no chão, eu chuto que ela tem uns dois metros e meio de altura, com uma lâmina de gume duplo tomando quase um terço de seu comprimento. Há uma cruzeta na base da lâmina ou perto do nível dos olhos, enquanto uma alavanca solitária saí de um lado ao norte da minha canela, uma pegada a mais para quando eu entrar em justas¹ com os outros. 

Eu vou usar a alabarda mais como uma lança já que ela é uma arma pesada, boa para estocar, feita para ser usada nas costas de um quin ou cavalo. Eu só estou feliz que agora posso lutar enquanto estou montado em vez de ficar vivo por um fio e me agitar selvagemente. Eu vi os planos para essa arma quando Mila estava desenhando ela e ao lembrar de suas descrições entusiasmadas, eu mexo na cruzeta e encontro o gatilho, que me deixa girar o cabo como uma manivela. Emitindo um estalo suave, fresco, a porção “espada” da arma se divide em duas partes iguais e vai em espiral para baixo enquanto a cruzeta se dobra para baixo, transformando ela em um machado de lâmina dupla com um cabo longo, uma arma muito mais apropriada para o meu físico atual. Uma forma para estocar e investir enquanto estou nas costas de um quin, a outra para cortar e massacrar a pé. 

E não é só nisso que esse bebê é bom. Com a espada fora do caminho, isso libera o cabo oco para bancar também um barril de fusível, guardando uma mola de dois metros de comprimento altamente compressível. Pegando a alavanca inferior que serve também como o cabo de uma pistola, eu encontro o gatilho, mecanismos de carregamento e para pôr em marcha e dou uma girada, testando o processo de tiro sem munição. Leva quase dez segundos para a arma ficar pronta e quando eu pressiono o gatilho, a arma inteira ricocheteia com a força de um chute de cavalo e lança uma onda de dor pelos meus braços indo até minha coluna. Essa é a arma de mola mais poderosa que Mila já fez até agora, se beneficiando de todos os frutos do trabalho dela. Eu gostaria de testar com balas de verdade, mas eu prefiro manter nossas armas de fogo um segredo o máximo possível, no caso que eu tenha que mandar uma das minhas pessoas atirar em alguém importante. Se Siyar é tão bom quanto Jorani diz, eu posso mover ele para o topo da lista para ganhar uma nova Arma Espiritual. Com todos sempre em alerta contra peritos, um assassino comum e furtivo viria a calhar. 

E de novo, pode levar um tempo até a próxima obra prima de Mila considerando que ela não tem acesso a uma forja segura. Eu não tenho ideia de como Mila fez essa máquina intrincada a partir de um pedaço de metal. Sem molde ou modelo poderia ter feito isso o que significa que há mais em um Ferreiro Divino do que eu achava antes. Isso aí é com certeza é feitiçaria da braba, mas apesar dela estar feliz de falar horas e horas sobre metalurgia histórica ou métodos de temperamento, ela é incrivelmente secreta sobre o processo de fato por trás da criação de uma Arma Espiritual. Enquanto minha arma é feita do mesmo tipo de Coração que a de Bulat e a dos outros, é fácil de ver que Mila foi com tudo fazendo essa aqui. Tudo que ela aprendeu foi usado para fazer essa arma, o mecanismo de compressão comum, mas ainda complexo e conveniente, a câmera de carregamento lateral simplificada para facilitar recarregar a arma, as ranhuras internas no barril e uma estética linda pra caralho. Com um acabamento jaspeado preto brilhante, ela quase bebe na luz antes de refletí-la, uma obra prima de arma belamente criada. 

O machado vem a vida nas minhas mãos enquanto eu dou uma balançada preguiçosa, encontrando conforto no tamborilar de metal cortando o ar. Bem equilibrada e confortável de usar com ambas as mãos, o machado precisa de uma mentalidade dominante e agressiva para ser usado no campo de batalha, mais apropriado para agressão descontrolada e fúria desenfreada. Ainda, não é tão diferente assim de usar uma espada larga mais longa e pesada, então deve ser simples o bastante descobrir como usá-la com um pouco de prática. Girando sua sessão média para transformá-la de novo em alabarda, eu giro a arma em uma sequência séria de balanços praticados. Pesada, mas ainda surpreendentemente flexível, eu me ajusto a usar essa arma desconhecida ao usar alguns movimentos familiares. “Cauda Tremendo”, “Pingos de Chuva Flutuantes”, “Perfurar o Horizonte” e mais, permanecer no controle da minha ação força meu corpo Reforçado até seus limites, mal consigo dominar a arma e movê-la para o próximo movimento. Um pouco mais longa ou mais pesada e essa alabarda seria difícil demais de manejar e provavelmente rasgaria meus músculos. Como ela está, seria bom eu crescer mais uns vinte e cinco centímetros de altura e talvez uns dez ou quinze centímetros de largura, o que é mais fácil falar do que fazer considerando que há um limite para o tanto de chá amanteigado que um homem consegue beber. Até chegar o tempo que eu não seja mais um tampinha, a forma de alabarda vai ser usada apenas quando eu estive em cima de um quin, ou talvez para uma investida de abertura antes de deixar ela de lado para usar meu conjunto de espada e escudo favorito. 

Como evidenciado por essa arma incrível, minha amada Mila é um gênio entre gênios. Linda, esperta e forte, ela tem tudo. 

O que me faz sentir péssimo porque tudo que eu tenho é um par de olhos bonitos, um corpo magricela e muita bagagem mental. 

Mas vamos deixar claro: Meus olhos âmbar são realmente muito lindos, então não está tudo perdido. 

… eu preciso parar de falar comigo mesmo.

— Eh-Mi-Tuo-Fuo. — A frase de efeito que o monge adora falar é ouvida mais uma vez quando ele torna sua presença conhecida, sentado com as pernas cruzadas em seu lugar favorito perto da porta da minha yurt. Balançando sua cabeça, ele começa mais uma lição através de Envio. — Quanta depravação, quanto pecado. A arma que você segura é uma ferramenta de morte. 

Tendo concluído que o monge é de fato real, eu não vejo mal em responder alto. — Sim, estou bem certo de que todas as armas são ferramentas de morte. Para que mais você usaria elas? Porra, você tem uma ferramenta de morte bacana aí guardada atrás de você, essa arma de haste grandona com cabeça de pá.

— Minha pá pode ser uma arma. — O monge Envia, assentindo em concordância. — Assim como a foice de um fazendeiro e o martelo de um ferreiro podem ser armas, mas elas podem ser muito mais. Se estou cansado, minha pá é um bastão para aliviar meu fardo. Se o tempo fica frio, é um machado para cortar lenha. Se um enterro é necessário, é uma pá para cavar túmulos e se a noite chega é uma vara para segurar minha lanterna. Só quando eu sou atacado ela é uma arma para me defender. Minha pá serve para muitas coisas, a última delas é ser uma arma. 

— Bom, quando eu precisar cavar uma latrina ou cortar madeira, vou te chamar, mas o que eu preciso agora é uma arma de destruição em massa. — Balançando minha nova arma que se transforma, eu adiciono, — Falhando nisso, essa ferramenta aqui vai servir bem ao propósito. Caso você não tenha notado, os Corrompidos estão vindo e eu dúvido que palavras gentis e intenções boas vão manter eles longe. 

— É preciso viver de acordo com o Nobre Caminho Óctuplo se você quiser escapar do Samsara, e para esse fim, o Primeiro Preceito da Irmandade é se abster de tomar uma vida, seja o menor dos insetos ou o Corrompido mais sádico. 

— Eu não sinto prazer em matar, mas… 

Me interrompendo, o monge Envia, — O Quarto Preceito é se abster de mentiras. 

Aff, quantos preceitos eles têm? — … tá. — Então eu gosto de matar Corrompidos, porcos e nobres arrogantes, que coisa horrível, não é o fim do mundo. Eu mereço odiar um pouco, todas as coisas em moderação. — Eu não mato Corrompidos só porque eu gosto. Se eles meterem o pé para onde eles vieram e ficarem lá, eu não me importo de deixar eles em paz. — Só me dá mais tempo para focar em matar porcos e nobres arrogantes. — Além disso, se você acredita em reencarnação, matar Corrompidos não devia ser uma coisa boa? É como libertar eles das garras do Pai e mandar eles para um caminho novo na próxima vida deles. 

 — Quanta ignorância, quanto pecado. — Fazendo outro gesto de mão estranho, ele estica suas palmas para frente e faz dois círculos com o dedão e o indicador de cada mão. — Deixando de lado como tirar uma vida também vai te ferir, você de todas as pessoas deveria simpatizar com os Corrompidos e o sofrimento deles. Eles são pecadores, mas todos nós também somos. Enquanto eles ainda respirarem, não é tarde demais para trazer o indivíduo de volta para a luz. Que direito você tem para pôr um fim forçadamente no Dukkha deles e negar eles a salvação nessa vida?

Sem outra escolha, eu vou até ele com arma em mãos para falar em particular. Tocando sua palma com um dedo enquanto me sinto estranho, eu Envio, — Você não está errado, mas na minha experiência, Corrompidos não podem ser salvos. — Depois de explicar minha teoria dos indivíduos Maculados de janela/porta/chá e como eles são diferentes de ajudantes totais de fantasmas assassinos, eu digo a ele sobre limpar Sanshu e os membros da minha comitiva, assim como meus experimentos em um membro de tribo Corrompido no calor da batalha. — Chega um ponto onde o indivíduo faz mais do que permitir que os Espectros o controle, mas ainda não se rendeu completamente e se transformou em Demônio. Quando isso acontece, os Espectros estão ligados tão fortemente na alma do indivíduo que se torna impossível separá-los. Eu ajudei pessoas que estavam perto chegaram perto de se entregar, mas quando eles chegam no ponto onde não há mais volta, eu sou impotente como todos os outros.

Concentrado profundamente, o monge franze o cenho e fica em silêncio, considerando minha explicação com cuidado, eu amaria saber mais sobre minhas habilidades de absorver Espectros. Um, se eu puder limpar os Corrompidos dos Espectros como eu consigo com os Maculados, então a horda massiva e aparentemente sem fim de psicopatas infectados por fantasmas vai se tornar bem menos aterrorizante. Tudo que eu tenho que fazer é sugar, engolir todos esses Espectros deliciosos e tcharã obrigado senhora, o problema está quase resolvido com o benefício a mais da Energia Celestial maravilhosa na minha barriguinha. Eu vou precisar da minha gotinha celestial preventiva de volta antes de começar a dita sugada para me proteger de Herpes Espectral, mas não deve ser muito difícil.

Interrompendo meus devaneios estranhamente homoeróticos, o monge Envia, — O que você sabe sobre Talentos?

Não muito. — Não é algo que alguém é muito bom fazendo? Bom tipo “Abençoado pela Mãe”? Lin é muita boa com empuxar, eu sou bom com Aura e Mila é boa com tudo, esse tipo de coisa.

— Não, nada disso está correto. Um Talento é uma habilidade que não pode ser duplicada pelas massas, geralmente é algo único de seu criador por exemplo a Colisão Meteórica de Nian Zu, a Tempestade Carmesim de Du Min Gyu ou o Pisão que Desmorona Montanhas de Mitsue Juichi. Este aqui acredita que o Talento do Irmão SanDukkha seja capturar e consumir Espectros, algo adquirido durante seu tempo gasto como Corrompido. Yo Ling é outra pessoa com um Talento, ao julgar pela sua habilidade de se comunicar efetivamente com os Espectros, da mesma maneira que o jovem da vila que você lutou, Gen. Ao passo que você absorve Espectros para se fortalecer, ele facilita que outros aceitem os Espectros e se fortaleçam. 

Mãe amada dos Céus… Meu talento é literalmente Sugar. Eu odeio minha vida. — E daí, eu sou egoísta e ele está espalhando o amor? E como você sabe tanto sobre Gen e Yo Ling? A Irmandade sabia sobre eles antes de Sanshu?

— Infelizmente não. — Curvando sua cabeça, ele murmura uma reza breve, ininteligível pelos caídos antes de continuar. — Esse conhecimento foi obtido pelo Abade depois do ocorrido, caso contrário alguém teria sido enviado para a área mais cedo. — Dispensando minha próxima pergunta, que era como o Abade obteve tal conhecimento, o monge Envia, — O importante a se notar é seu método de limpar Espectros é muito diferente do método do Abade. Os Corrompidos podem ser salvos, mas o indivíduo primeiro tem que querer ser salvos.

É necessário cada gota de força de vontade que eu tenho para manter meu sarcasmo contido. Claro, vamos só convidar todos eles para se sentar conosco e tomar um suco de laranja com biscoitinhos para que nós possamos discutir os méritos de não ser canibal que ama tortura. De algum jeito, eu dúvido que daria certo para qualquer lado, mas vai fundo cara. Provavelmente forte o bastante para sobreviver também, se ele tiver sorte. — Infelizmente, a maioria dos Corrompidos não parecem querer ser salvos, visa toda a morte, estupro e tortura que eles fazem, então nós vamos concordar em discordar nesse assunto. — Porra, então ou eu tenho que praticar mais dar aquela sugada ou muito melhor matando se eu quiser fazer a diferença na guerra que está vindo. 

— … concordar em discordar… um jeito imaginativo de colocar as coisas. — Desagradado, o monge suspira e volta a meditar em um argumento melhor para me convencer a não matar os Corrompidos ou qualquer coisa já que estamos no assunto. Eu estou começando a gostar desses nossos papinhos, especialmente agora que ele se mostrou disposto a escutar. Não é que eu tenha algo contra a fé dele, eu só acho que eles são estúpidos e não quero ter nada a ver com a maioria deles. É tudo legal na teoria, mas se esconder em um monastério quando você tem tanta força como o monge tem parece quase irresponsável. Eu não estou dizendo que ele tem obrigação de ajudar, mas qual o motivo de ter força se você não vai usar ela?

Finalmente deixado em paz, eu me sento ao lado de Pingping com minha nova Arma Espiritual no meu colo e ponho meu conhecimento novo em bom uso, me vinculando com a arma nova do mesmo jeito que eu fiz com a água. Canalizando meu Chi, eu sinto Paz e Tranquilidade ao meu lado e a presença deles me lembra da minha perda amarga. Mesmo não sendo real, Baledagh parecia real e teve um impacto significativo na minha vida. Isso não o torna real o bastante? Eu sou permitido a lamentar sua perda, eu só queria que outros pudessem lamentar também. 

Passou (brevemente) pela minha mente contar a Akanai, Taduk, Baatar ou alguém sobre meu pequeno colapso mental e logicamente, eu deveria, mas… eu não quero que eles pensem menos de mim. E mais há o medo irracional, desenfreado e sempre presente de rejeição. Eu sei que minha família me ama e vai provavelmente me apoiar durante esses tempos difíceis, mas e se eles não apoiarem? E se doença mental é algo que passa dos limites? Ou viver com estranhos transmigrados de outro mundo? Fraqueza não é desprezada entre os Bekhai, a maior parte só é escondida e ignorada, então eu pensei em ser fiel às tradições dos Bekhai e manter minha insanidade debaixo dos panos, por enquanto pelo menos.

Até eu reunir coragem o bastante para superar meus medos possivelmente irracionais, eu vou manter isso em segredo e usar o monge como um termômetro de insanidade/pseudo psiquiatra.

Foco. Fique com medo depois, nós estamos aqui… eu estou aqui para me vincular com minha Arma Espiritual.

… e aqui estou eu falando comigo mesmo de novo. Velhos hábitos não vão fácil, eu acho.

A Energia dos Céus é um rio furioso ao meu redor, mas eu fico sentado protegido no meu Palácio Natal, isolado de seus efeitos. Um sinal de progresso eu acho, meu dantian estável, sólido e cálido na minha barriga, absorvendo Chi e movendo ele por todo meu corpo e Armas Espirituais sob minhas direções. Com cada revolução, meu Chi acelera e minha mente clareia enquanto eu reflito nas Cerimônias de Vínculo anteriores.

A espada é Paz, a paz tranquila da rendição e paz calada do túmulo. Eu me vinculei com a espada ao perfurar meu estômago e Dantian, um gesto imaginado e simbólico de rendição. Eu estava preparado para morrer na hora, estava com tanto medo de sofrer que eu me joguei na luta, esperando encontrar um fim rápido para essa existência assustadora. Isso não é paz de verdade, pois paz de verdade vem de dentro. Se eu quero paz mental, emocional e mundana, então vai ser necessário trabalho duro e esforço exaustivo. Mesmo assim não é certeza que vou ter resultados, mas ir pelo caminho fácil é inútil. Suicídio é meramente uma forma de não existência, um desejo mundano o qual eu devo superar. 

Só porque eu não concordo com tudo que o monge diz não significa que ele está errado sobre tudo.

O escudo é Tranquilidade, a tranquilidade sufocante de um equilíbrio estagnado no qual nada muda. Eu me vinculei com o escudo ao derrotar a mim mesmo, uma batalha por supremacia entre duas personalidades diametralmente opostas, o Guerreiro e o Irmão. O Irmão venceu, mas em vez de pôr um fim no Guerreiro, um acordo foi feito para manter ambos os lados separados, mas presentes, um acordo no qual nenhum lado perdeu, mas trouxe desastre para ambos. No meu desejo desesperado de evitar conflito e tumulto, eu quase cheguei no ponto onde não há volta, abrigando Espectros em uma parte de mim mesmo enquanto negava a existência deles, até eu não conseguir mais negar.

Paz e Tranquilidade são ideais, mas uns sem esperança. Na maior parte do tempo, violência é a resposta correta e morte a melhor solução. No resto do tempo, elas são meramente as resposta e solução mais fáceis. O Lobo caça o Coelho, o Tigre caça o Boi, tal é a vida nesse mundo e em todos os outros. Vida é construída em conflito e todos nós ficamos mais fortes por causa desses desafios e tribulações. Sobrevivência dos mais aptos é uma parte fundamental da natureza, mas também são sorte e coincidência. Coisas mudam num piscar de olhos, seja um incêndio florestal ou uma enchente turbulenta e nós devemos lutar ou morrer. Os Corrompidos não são diferentes de uma força da natureza e para sobreviver nós não podemos só depender de Paz e Tranquilidade. E quanto a discórdia e angústia, conflito e medo? Eles também são parte fundamental da natureza, partes que eu relutei em aceitar por tempo demais, mas não mais. 

Paz e Conflito, Tranquilidade e Tumulto, cada um é uma parte necessária do quebra-cabeça e deixar uma de fora é arruinar todas as outras. Eu estive olhando para tudo de forma errada e agora eu vejo a figura maior. Medo e coragem, amor e ódio, conflito e resolução, não rejeite nenhum deles e aceite todos. Não há nada de errado em querer Paz e Tranquilidade, você só tem que se certificar de que não está sacrificando as coisas erradas para atingir isso. 

A nova Arma Espiritual aparece num instante dentro do meu Palácio Natal, uma alabarda, um machado e um fuzil, tudo em um só. Voando da minha mão, a arma me guia em uma dança perigosa de morte, me mostrando como usar ela do melhor jeito que posso. Não há rendição, não há conflito, só há união mútua, a arma e eu trabalhando juntos como um, passando de um ataque para o outro em um ciclo sem fim de destruição. A dança continua e eu me perco nas Formas, dando tudo que tenho em memorizar as habilidades que minha parceira está passando. Por um momento breve e inexpressível, parece que meu irmãozinho está de volta, me mostrando algo novo que ele aprendeu e me deixando compartilhar sua alegria, mas cedo demais isso termina e eu sou deixado sozinho dentro do meu Palácio Natal. 

Engolindo meu desapontamento, eu olho para a arma na minha mão e algo estala na parte de trás da minha cabeça. Essa arma muda de alabarda, para machado, para fuzil, mas no fim, é a mesma arma. É um pouco como eu. Claro, eu vou de um lado para o outro entre Irmão e Guerreiro, e ao passo que as circunstâncias mudaram, não significa que meu irmãozinho se foi, não inteiramente. Baledagh não era real, mas ele representava uma parte de mim assim como o Irmão representava a outra, dois lados diferentes da mesma moeda. Eu sou Baledagh e eu sou o Irmão e juntos, nós somos Falling Rain. 

Ele não se foi. Nós só… mudamos. Para melhor.

… contanto que eu pare de referir a mim como “nós”. Bizarro pra caralho. 

Mente em paz e coração tranquilo, eu agradeço minha arma nova por essa clareza recém descoberta e a chamo de “União”. 

 

… harmonia?

 

Solidariedade…?

 

Aff. Eu sou uma merda em dar nomes, então por que eu continuo tentando?


1 Justas: aqueles duelos dos cavaleiros medievais pra quem esqueceu. 

Esboço da União

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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