DS – Capítulo 38

— Rainzinho olha, olha os passarinhos!

— Uhum, né, docinho. — Minhas mãos se movem para cobrir os olhos de Tali enquanto os mercenários levantam seus arcos. — Não vamos olhar para os passarinhos agora. — Porque eles estão prestes a ser fodidos.

As pequenas mãos dele puxam as minhas e ele quase fica em pé no topo do Zabu, tentando ver. Flechas voam, assobiando no ar até os jattuyas mergulhando, perfurando a carne deles. Uma meia dúzia deles cai do céu, gritos ferozes ecoam do resto, majestosos e aterrorizantes. A próxima saraivada de flechas toma conta do resto, e eu assisto enquanto eles caem, moles e dignos de pena, batendo no chão. Crianças pequenas não deveriam assistir pássaros bonitos serem massacrados. Eles parecem águias gloriosas vermelho-amarronzadas, com uma envergadura das asas de 10 metros, e olhos aguçados de pássaros. Claro, eles também são maus como o catiço, assim como quase todo animal nesse mundo. Até os cavalos são mais malvados aqui. Jattuyas vivem em bandos e gostam de mergulhar nos viajantes, matando uma pessoa instantaneamente antes de voarem para longe, esperando todo mundo ir embora para que eles possam comer em paz. Eu assisto Tali com cuidado para ver sua reação. Pobre criança.

Ele vira para mim, de olhos arregalados.

— Eles vão ser almoço, né? — Um sorriso largo mostrando os dentes, na expectativa de algo novo e possivelmente gostoso. Rindo, eu bagunço o cabelo de Tali, olhando para a Tate sentada com Mei Lin no riquixá do Taduk, o qual reage da mesma maneira basicamente. Crianças são difíceis, resilientes. Eu acho que eu não preciso me preocupar muito com eles. Eles sabem de onde vem a carne do almoço. Porém, eu odeio comer pássaros que foram mortos a flechadas durante o voo. A queda sempre quebra os ossos deles, estilhaçando eles. É um saco comer eles tendo que tirar pedaços de ossos toda hora.

— Provavelmente jantar, Tali. Nós não iremos interromper a viagem para fazer o almoço. Só alguns pães e carnes frias.

Ele emburrou e fechou a cara. Eu também não estou animado para isso, é difícil se acostumar com a comida de viagem depois de toda aquela comida caseira deliciosa. Eu pego uma longana¹ da minha bolsa e começo a cortar ela, bem longe do Tali, alimentando ele com fatias da parte carnuda azul e crocante.

É o nosso quarto dia na estrada e os gêmeos rapidamente perderam a paciência deles com a viagem. Eles só fizeram pirraça uma vez, mas só porque o Charok cortou o mal pela raiz abruptamente, pendurando cada um pela perna. Ele rapidamente transmitiu para eles os perigos de fazer barulho enquanto se viaja, uma lição que eles não vão esquecer tão cedo. O papai deles geralmente é de boa. Desde então, os malandrinhos estão muito obedientes e comportados, viajando com uma pessoa diferente toda vez que nós damos uma pausa. Eles se adaptam rapidamente, e quase parecem acostumados com os perigos. Eu tento manter eles entretidos com histórias, canções, quebra-cabeças, e jogos. É exaustivo.

Meu recorde continua, com 50 dias seguidos sem quase morrer. Meus últimos dias na vila foram dedicados ao treinamento, Akanai e Baatar elevando o nível. Sem mais treinamentos de combate com a Sumila, como se aquilo fosse “fácil demais”. Fácil demais o caralho, ela chuta minha bunda toda vez, e parece feliz quando ela acaba. Ao invés disso, eu pude experimentar a brutalidade toda de todos os membros do Estandarte de Ferro. Os 31 guerreiros mais fortes da vila, mais o Baatar, tiraram um tempo dos preciosos dias com suas famílias, só para me espancar. Eu me senti honrado. Eu não deveria. Taduk tomava conta da cura todos os dias, e nenhum deles teve misericórdia. Akanai está com a impressão de que eu vou aprender os movimentos só de experimentar eles, mas até agora, nada de bom veio daquilo. É difícil saber o que está acontecendo, quando eu estou sempre de cara no chão, com a cabeça rodando, ou vomitando meu café da manhã.

Eu consegui assistir todos eles lutarem uns com os outros também, o que foi interessante. As lutas não duram muito, acabando bem decisivamente. Enquanto todos eles carregam um arco, escudo, e lança curta, o resto dos equipamentos deles varia muito. Alguns carregam alabardas e lanças longas, outros têm espadas gigantes e martelos. Alguns preferem adagas e espadas curtas, e um tem até mesmo uma foice e corrente. Eu quase resetei minha contagem depois de lutar com ela, mas Tursinai me mostrou o quão bem ela realmente podia controlar a arma dela. Eu decidi que eu não estive em perigo em nenhum momento, que era só uma lição. Eu também tomei nota de não encarar ela muito nos banhos. Ela não parece irritada com isso, mas qualquer um capaz de cortar uma fruta daquele jeito de longe é alguém que eu não quero irritar.

A maioria dos mercenários que me resgataram há mais de 4 anos se aposentaram e estão vivendo na vila. Gerel ainda está no Estandarte, já não parece tão jovem, um adulto severo agora, aparentemente mais velho do que sua idade de 29 anos deveria ser. Ele é o mais assustador, na minha opinião, com sua alabarda gigante e olhos âmbar brilhantes. Careca e boa pinta, sempre com uma expressão neutra e um tom seco toda vez que eu falo com ele, ele parece viver pelo Estandarte. Eles têm torneios todo ano perto do final do inverno, lutando pelos seus lugares no Estandarte, desafios vindo da expectativa de serem mercenários. Ninguém nunca desafia o Gerel. Até mesmo Baatar é desafiado todo ano… embora pelo Gerel. É sempre uma luta épica, os dois correndo por aí, pulando pelo ar, armas batendo. Porém, o Baatar sempre ganha no final.  Quando os ranks estão todos separados, todos os nomes dos membros aparecem no estandarte, como mágica. Porém, eles nunca irão me contar como funciona, só dizendo que é um segredo. Cinco ou seis rostos familiares permanecem na companhia, mas diferente disso, eles são todos “rostos”. Eles viajam em formação ao nosso redor, nos guardando do perigo. Eu mal consegui levantar um dedo nos últimos dias. Agora sim, isso que é viajar. Eu deveria conseguir uma carruagem ou algo assim.

O resto de nós consiste de alguns Sentinelas, Akanai, Taduk, Alsantset, as famílias completas deles respectivamente, assim como algumas novas adições. As pessoas novas incluem um garoto-lobo de cabelo prateado, grande e encorpado, chamado Huushal, e um garoto bonito, magro, alto, de cabelos escuros e com um semblante triste, chamado Adjuan. Ele tem chifres saindo de sua cabeça, curvando para trás e indo direto para cima, como chifres de demônio com quase 15 cm de comprimento, fazendo ele parecer ainda mais alto do que já é. Eu acho que ele é algum tipo de cervo. Os chifres parecem desconfortáveis e são pontudos o bastante para furar um olho. O pai do Huushal é o carpinteiro com orelhas de raposa, Chakha, que virá para o torneio, junto com sua esposa padeira com orelhas de gato, Elia. A outra esposa do Chakha, a com orelhas de urso, é a Ghurda, que faz parte do Estandarte, e é um dos meus salvadores de quatro anos atrás. Esses três são a minha primeira confirmação de verdade que poligamia existe na vila. Eu sabia que as pessoas nas cidades tinham muitas esposas, mas é um assunto meio difícil de se falar naturalmente. Porém, esse cara tem gostos muito variados em mulheres, a Elia é pequena, de aparência frágil, com cabelos castanhos, e a Ghurda é uma mulher boa pinta, grande, com cabelos cor de fogo. Eu respeito isso.

Adujan, por outro lado, é do orfanato da vila. Sempre há mais crianças do que pessoas capazes de adotá-las, mesmo com a demanda alta como é. Os mais ferozes arquétipos, os lobos, gatos, ursos, etc, geralmente são escolhidos primeiro pelas famílias de guerreiros. Tem alguma coisa a ver com sangue ou genética ou algo do tipo. O resto demora mais para ser escolhido, e alguns nunca encontram uma família, crescendo no orfanato e ajudando com trabalhos avulsos, enquanto esperam ser escolhidos por uma família para aprenderem um ofício. É uma vida difícil, mas é muito melhor do que a vida nas favelas da cidade. O fato de que o Adujan foi escolhido para vir na viagem, apesar de não ter um mentor, mostra o quão forte ele é. Eu tentei ser amigável, mas ele parece meio recluso, quieto perto de mim, até mesmo hostil algumas vezes.

Então, com Huushal e Adujan, nós somos os representantes da vila, incluindo Sumila e eu. O melhor, do melhor, do melhor. Na verdade não, já que tenho certeza de que há outros tão fortes quanto, mas muitos jovens guerreiros frequentemente se juntam ao exército real e não tem tempo para viagens à lazer ou competições. É um pensamento desanimador, imaginar crianças de 16 anos de idade correndo para se juntar ao exército. Todo ano na primavera, uma nova leva vai para cidade, suas famílias dizendo seus adeus, lágrimas em seus olhos, tentando parecer calmos e solidários. Serviço militar é de no mínimo 10 anos, mas você recebe um salário e equipamento bom, se comparado com a lavoura. É uma coisa tentadora para as crianças mais pobres, vendo as pessoas voltando para casa como heróis, cobertos de medalhas e honras, com riqueza e histórias, maridos e esposas. Eles nunca vêem aqueles que não voltam para casa, que morrem gritando, ou sozinhos ou com frio e fome, sonhando com seu lar.

Depois de um dia inteiro viajando, Baatar diminui o passo até ficar ao meu lado e aponta para frente. Eu sigo seu dedo, levantando Tali para ver, começando a aparecer no horizonte, uma construção de proporções monumentais feita pelo homem, mas que parece pequena se comparada com as montanhas ao seu lado. Bandeiras cobrem quase todas as ameias, indicando as facções, seitas, escolas e clãs. Uma mistura de grupos, cada um competindo pela glória, enquanto guardam um dos três pontos mais defendidos do continente. A Ponte não é uma estrutura feita pelo homem, é só como eles chamam o pedaço de terra que conecta o Continente do Mar Índigo com a Tundra ao norte.  

É aqui onde nós iremos nos separar do Estandarte de Ferro, onde Baatar e seus poucos guerreiros escolhidos vem para receber suas ordens. Na maioria dos anos, eles recebem uma área para patrulhar, se certificando de que nenhum inimigo passe despercebido pelas montanhas, e que os monstros locais causem muitos danos. Esse ano, eles foram escolhidos para defender a muralha, o que parece chato, mas aparentemente é uma grande honra. Apenas 32 homens no total, dentre o que devem ser centenas de milhares, senão milhões, mas eles são todos famosos. Toda patrulha que nós encontramos saúda o Estandarte, dando lugar e nos permitindo passagem. Respeito mostrado, consideração dada. Esse é o meu Mentor. Minhas costas ficam mais eretas no meu assento, orgulhoso com o quão bem tratado ele é, que tantos reconhecem sua força, e eu não sou o único. Os olhos do Huushal parecem que vão saltar para fora da cara, sua cauda balançando furiosamente atrás dele. Filhote de lobo idolatrando o Capitão Lobo, é quase adorável.

As muralhas exteriores se elevam perante nós enquanto nós passamos pelos portões, com a cidade militar movimentada se alastrando atrás deles. Não há terras agrícolas, o solo é duro demais para isso, mas a infraestrutura necessária para sustentar tantos soldados é impressionante. As muralhas exteriores têm 25 metros de altura e se estendem por pelo menos cinco quilômetros, com a cidade paralela a ela, havendo uma grande faixa de terra entre as duas com uma corrente constante de vagões, soldados, e serviçais indo e voltando. Baatar nos leva até um pátio, bem simples e utilitário, onde nós iremos passar a noite. Um senhor corpulento nos espera, e uma multidão de serventes estão prontos, nos ajudando a descarregar e levando nossos quins para serem escovados. Eu realmente espero que o Zabu não morda ninguém, ele está carregando um filhote, o que deixa ele muito na defensiva. Isso seria humilhante. Porém, o servente parece bem versado no trato com quins, e o guia gentilmente.

Não há muito para eu fazer. Nós iríamos partir novamente de manhã, então não faz sentido desempacotar as coisas, e Charok tem um exército de serventes para ajudá-lo a cozinhar. Baatar avisa a todo mundo para ficar dentro do nosso prédio, mas eu não estava indo a lugar algum, não em uma cidade cheia de soldados sedentos por sangue. Uma pessoa normal já é irritável o bastante nesse mundo, então eu realmente não quero arranjar treta com soldados. Eu me ajeito e brinco com os gêmeos enquanto nós esperamos o jantar.

— Rainzinho, Rainzinho, nós temos tempo, você quer que a gente te acerte com os bastões um pouco mais? — Mei Lin parece aproveitar seu papel no meu treinamento, visto que ela segura a vara na mão, batendo ela contra sua palma. Se me perguntassem, eu diria que ela gosta disso um pouco demais. Eu espero que seja só porque ela gosta de me ajudar, e não porque eu despertei algo dentro dela.

— Depois do jantar. Senão eu posso acabar meditando no jantar, e ele tem um cheiro bom demais para perder.

— Por que não luta comigo então? — Huushal brota do nada. Para um cara tão grande, ele é muito sorrateiro. Ele está me encarando com intensidade, como se suspeitasse que eu tivesse roubado o jantar dele ou algo assim. Com 19 anos de idade, ele é o “mais velho” dos quatro representantes jovens. Eu pensei que nós iríamos trazer um pouco mais de gente, mas lugares são limitados, pelo que parece. Eu nunca falei realmente com ele antes dessa viagem, e ele parece meio bravo e intenso, o tipo de pessoa com quem não me dou bem. Eu torro meus miolos para pensar em uma desculpa.

— Parece uma boa, garoto, se prepare. — Akanai, puro mal em um pacote maravilhoso.

Suspirando profundamente, eu ponho Tate  no chão e pego minhas armas.

— Combate desarmado. Armas seriam perigosas demais, nós ainda precisamos viajar.

Ótimo, vou cair na porrada com o mini Baatar.

Animação vêm de ambos os lados, todo mundo torcendo para o seu favorito enquanto formam um círculo solto ao nosso redor. Nossa torcida parece igual, mas eu gosto mais do meu lado. Os gritos agudos dos gêmeos, gritando — Luta! Luta! Luta! — meio que aquecem o meu coração. Não posso perder na frente desses pequenos monstros sedentos de sangue, eu preciso parecer forte ou eles iriam querer folgar sobre mim.

— Você está pronto, Huushal? — Ele sorri feroz para mim, aquele mesmo não-sorriso que eu costumo receber muito, e se lança para frente. Eu desvio para o lado, acerto seu queixo levemente com um golpe por baixo usando minha palma. Ele está facilitando muito, avançando daquele jeito, não rápido o suficiente, fácil de contra-atacar. Seu momento foi desperdiçado, e então meu pé engancha o tornozelo dele, e eu empurro ele para trás, arremessando ele no chão, enquanto espero pelo segundo round. Em breves instantes, ele pula de novo até mim, braços posicionados para me derrubar. Rolando com o impacto, eu jogo ele por cima do meu ombro, rolo junto com ele e caio de pé, então solto um soco em seu peito. Ele fica sem ar, e eu me endireito e dou um passo para trás. Cara, eu espero que ele seja melhor lutando com a espada. Esse negócio de investir como um touro é uma tática horrível sem uma habilidade maior do que o seu oponente.

Ficando de pé grogue, ele se vira para mim mais uma vez. Braços levantados, punhos cerrados. Bom, posso ao menos me juntar a ele para uma porradaria. Afrouxando os ombros, eu tomo a mesma postura, enquanto nós lentamente rodeamos um ao outro, um passo de cada vez. Minha cabeça vai para trás com um soco rápido demais para que eu ao menos veja, e parece um martelo na cara. Um segundo e terceiro seguem, mas eu desvio de ambos e mando um soco na barriga dele. Ele nem ao menos se encolhe, me pegando pelos ombros, e ele solta um soco de gorila na minha cara, com o impacto ressoando em meu cérebro como um sino. É quase injusto o quão forte ele é. Eu sinto meu nariz quebrar quando ele me soca pela segunda vez. Que se foda isso, cansei de ser bonzinho. Eu cabeceio o próximo soco dele, e sou recompensado com o som de algo quebrando e um gemido. Ele solta meu ombro, embalando seu punho quebrado. Pegando ele pelo colarinho, eu levanto meu punho direito. Vamos ver se ele gosta de ser esmurrado na cara.

— Chega. — Akanai intervém por ele, terminando o treino. Mas que porra? Mostrando favoritismo? Eu não vi ela intervir por causa do meu nariz quebrado. Taduk vai para frente, olhando para a mão do Huushal, o qual está tentando segurar as lágrimas. Né, dói, não dói, vadia? Arrastado para longe por Akanai, ela se vira para mim uma vez que estamos sozinhos. — Por que?

Um pouco mais de informação seria útil.

— Por que, o que? — Minha voz soa anasalada e lisa, estranho, já que meu nariz está quebrado.

Ela cruza seus braços e olha para mim.

— Por onde começar? Por que você deixou a luta prosseguir daquela forma? A investida inicial, você se segurou com o golpe no queixo dele. Deveria ter deixado ele inconsciente. Ele te subestimou grosseiramente, e você deveria ter feito ele pagar por isso. Você poderia ter quebrado as costelas dele depois de contra-atacar a investida, mas ao invés disso só acertou ele uma vez, então se afastou, permitindo que ele se recuperasse. Finalmente, você se aproximou de um oponente que é maior, mais forte e mais rápido do que você, para trocar socos como iguais. O pior disso, você ficou com raiva de ser socado. Você praticamente pediu por aquilo, menino. Por que se irritou?

Eu reviro meus olhos.

— É uma luta treino. É pela prática. Não se espancar brutalmente. Ele quebrou meu nariz.

Ela me encara, intensamente.

— Luta treino é um substituto para combate de verdade entre dois oponentes. Quando alguém é mais habilidoso do que o outro, entretanto, é uma oportunidade de ensino. Você deveria ter ensinado Huushal, ao invés disso você deu a ele uma falsa confiança e quebrou a mão dele. — Ela me cutucou no meu nariz quebrado. — Reflita nas suas ações. — Isso doeu pra caralho, você sabe.

Me encolhendo enquanto eu arrumo meu nariz, eu me sento para curar. Fortalecer meu nariz. Isso é algo que eu não tinha pensado. Eu espero que não inche muito e pareça rídiculo. Eu não entendi qual o problema. E daí, eu deveria ter espancado ele no ínicio? Como ele poderia aprender com aquilo? Além disso, ele é maior, mais forte e mais rápido. Por que eu deveria ser aquele que deveria ensinar? Tá, então talvez eu tenha perdido minha compostura, mas ele não estava se segurando mesmo naqueles socos, esmurrando minha cara.

Quando eu abro meus olhos, Mei Lin está agachada na minha frente. Ela sorri e me dá uma tigela que estava segurando em seu colo. Macarrão de Jattuya. Está quente e fumegante, uma segunda tigela foi usada como tampa.

— Obrigado, Mei Lin, você é a melhor.

Ela me dá um peteleco no nariz.

— Bobinho. Eu continuo te dizendo. Me chama de Linlin. — Ainda está quebrado, para de fazer isso. Ignorando meu olhar, ela volta a se apoiar nos calcanhares. — Você é muito legal com as pessoas Rainzinho. Até mesmo durante lutas. Isso é perigoso, pode matar as pessoas. — A atitude sem misericórdia. Eu sei, eu faço isso. Matar ou morrer, eu aprendi minha lição na cidade.

— Só foi uma luta treino, Mei Lin. — Eu sugo meu jantar, mastigando a carne macia. — Eu não quis machucar ele.

— Mas você machucou, Rainzinho.

Me virando para cuspir alguns pedaços de ossos de pássaro, eu respondo:

— A mão dele não estaria quebrada se ele não estivesse socando tão forte.

— Não a mão quebrada, Rainzinho. — Ela parece séria. — Você deixou ele pensar que a forma dele lutar era boa. Ele pensou que estava ganhando, e que você foi sortudo. Ele é durão o bastante para investir contra seus inimigos, sem preocupação. — Ela me vê comer e pensa em suas palavras. Porra. Ela está certa. É a mesma coisa que Akanai estava dizendo, mas eu tendo a discordar com ela por instinto. Se Huushal fizer algo assim contra um inimigo, ele morreria em um instante. Eu acho que eu não fiz nenhum favor a ele, não dando o meu melhor ou perdendo a cabeça. Quatro erros da parte dele e ele não aprendeu nada com eles.

— Eu acho que eu deveria me desculpar. E o que, lutar com ele de novo? — Eu não tenho idéia do que fazer agora.

Rindo de mim, ela responde.

— Eu sabia que você entenderia. Não precisa se desculpar, e você não pode lutar com ele de novo, a mão dele está quebrada, bobinho. Nós temos outra luta treino para você, dessa vez, contra Ghurda. Mostre para o Huuhuu o quão forte você realmente é, né? Diferentemente de você, ela não vai escutar.

Puta que me pariu. Provavelmente, a Ghurda vai ficar brava sobre a mão quebrada. Ela vai me fazer vomitar de novo. Suspirando profundamente, eu deixo de lado o resto da sopa e fico de pé, andando para frente para receber minha punição.

Eu só deveria ter nocauteado ele. Isso é o que eu recebo por tentar ser legal.

 

— Ei, não deixe os gêmeos assistirem, tá?

 

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1Longana: é uma fruta típica da Ásia Oriental

Resultado de imagem para longana

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

10 Comentários

  1. o prota ainda não sacou o quanto é habilidoso. Ponto pra ele, que sabe enxergar o que lhe falta, sem menosprezar o que já conquistou.

  2. Uma coisa que ainda não me acostumei com esta obra, e nem pretendo pois acho isso uma péssima influencia, o fato de tudo se resolver na porradaria e matança. Serio?
    Admito que estou ansioso para ver o MC porradeiro e forte, mas o fato de a obra jogar na minha cara estas lutas e sermões desenfreados de que o “mundo e um lugar ruim e injusto e por isso você tem que matar ou morrer”, ai não aguento, a mina pediu pro prota acabar com o colega num treino, se fosse eu dizia, “Você e louca, por acaso?”.
    Se fosse um lugar de guerra, sofrimento e injustiças, eu ate entenderia mas o lugar esta em paz e tudo o que o povo fala e tenta resolver e na matança! Foda-se.

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