DS – Capítulo 4

Charok sentou em sua montaria, Pafu, aproveitando a viagem de volta para sua terra natal. Um lindo cenário montanhoso, noites límpidas e quietas, e com sua linda esposa e amigos ao seu lado. O que mais alguém poderia querer? Eles foram contratados por alguns mercadores os quais estavam animados pelo fato de a “famosa Companhia Mercenária Estandarte de Ferro” estar se juntando a eles para a viagem. A fronteira norte abrigava muitos perigos. A companhia precisava se mover devagar para acompanhar o ritmo dos vagões, mas não havia muita pressa. Eles tinham muito tempo para retornar ao seu lar antes do inverno. Ele começou a cantar uma melodia que sua mãe cantava para ele na infância.

— Tenha piedade, marido. Minhas orelhas se submetem à sua tortura. Você não canta bem.

— Nem todos são abençoados com uma voz tão linda quanto a sua. — Charok sorriu para Alsantset. Ele amava tudo sobre ela, da ponta das suas orelhas peludas, até os dedos dos pés. Eles estavam casados há seis anos, e todo momento que tiveram juntos foi uma benção. Tanto que quando ela decidiu se juntar ao Estandarte, ele precisou tentar três vezes até finalmente passar no desafio e receber o direito de se juntar ao Estandarte também. Embora ele não seja tão talentoso na arte do combate como sua esposa, ele era obstinado.

— Olhos para frente. Amado, nós ainda não estamos em casa. — Alsantset o advertiu gentilmente. O sorriso dela guardava a promessa de intimidade. Ela também estava contente de estar quase em casa. Charok sorriu para ela e voltou a olhar para o horizonte. Alsantset começou a cantar a mesma música, de onde ele tinha parado. O sorriso de Charok se arreganhou ainda mais. Este era o terceiro e último ano deles juntos ao Estandarte. Quando chegassem em casa, ele e Alsantset poderiam finalmente começar uma família, como sempre planejaram. Incapaz de conter sua felicidade, Charok cantou ao lado de sua linda esposa,  para o grande desgosto de todos ao redor.

Baatar estava contente. Os mercadores alcançaram o seu destino no começo da noite. Um trabalho simples, eles mal se desviaram do trajeto original, sem nenhum incidente digno de menção. Com suas obrigações cumpridas, eles não precisavam mais ficar nas estradas. Ele liderou a companhia por vinte quilômetros de terreno difícil antes de montarem acampamento dentro de um bambuzal. Acampamento pronto, os turnos de vigia organizados e o jantar cozinhando.

Foi uma temporada ótima para o Estandarte de Ferro. Sem casualidades, apenas ferimentos leves, nada que Taduk e o seu time de médicos não pudesse consertar. A fortuna que eles receberam foi gasta na compra de bens, os quais  já estão empacotados em seus quins. Havia o bastante para a vila inteira passar o inverno confortavelmente. Usar o Gerel como a voz do Estandarte foi uma escolha boa. Ele tinha um jeito com as palavras, sendo charmoso sem puxar muito o saco, coisa que Baatar nunca conseguiria aprender.

Eles caçaram um par de veados na viagem de volta. Uma mudança agradável das rações e carne seca. Baatar podia sentir a fragrância da carne sendo ensopada em uma panela. Charok não era o soldado mais forte no Estandarte, mas puta que te pariu se ele não era um dos melhores cozinheiros de acampamento que já serviu a companhia. Entretanto, ele cantava mal pra caralho.

Baatar pisou fora de sua tenda para dar uma rápida vistoriada no acampamento. Não se pode deixar os soldados relaxarem demais. Soldados descuidados não vivem por muito tempo. Uma palavra de conselho aqui, uma pequena correção ali. Eles estavam quase em casa, mas isso não era desculpa para vadiagem. Mesmo assim, não havia necessidade de ser muito rígido. Lentamente, ele fez seu caminho até o pote de ensopado, e coincidentemente chegou na hora de a primeira tigela de ensopado ser servida. O que ele aceitou com graça, fechando seus olhos e sentindo o cheiro do aroma.

— Capitão. Notícia do sentinela. Ele avistou uma criança solitária se aproximando do acampamento. Ele parece estar em perigo. Sentinela pede para auxiliá-lo. Suas ordens? — Alsantset apareceu com uma saudação militar antes que pudesse provar o ensopado.

Uma criança? Aqui fora sozinha? Provavelmente um escravo que escapou das minas.

— Traga-o aqui. Não fale com ele. — A garota faria promessas. Tola. Baatar saboreou a primeira colherada do ensopado. Deliciosamente apimentado, com uma textura satisfatória. Um bom trabalho. Ele comeu rapidamente, e conseguiu acabar com uma segunda tigela antes que a garota retornasse, trazendo com ela um garoto, o qual estava lutando e gritando coisas sem nexo.

Baatar inspecionou o menino. Extremamente magro, bem cicatrizado, vestido em trapos imundos. Definitivamente um escravo, sem dúvidas quanto a isso. A vila mais próxima ficava a dez dias de viagem em direção ao sul, de carroça. Cabelo negro com uma pele bronzeada de sol. Talvez uns dez anos de idade e quase não conseguia ficar de pé, cabeça baixa, tremendo com a brisa da tarde. Ele se inclinou para frente para checar o cheiro do escravo. Sujeira, ferro, doença e morte. Perturbador.

Ele terá de ser escoltado de volta para os mercadores. Ajudar o garoto a escapar seria um crime, não vale a pena o trabalho. Deixar ele aqui seria igual a matá-lo. Por algum animal, exposição ao tempo, doença ou fome. Retornar com ele é a única opção. Um vida de escravo é melhor do que uma morte de cão.

— Sentinela requisita permissão para ajudar. — Alsantset falou mais uma vez. Internamente, Baatar soltou um suspiro. A garota tinha um coração mole.

O garoto parou de lutar quando ouviu ela falar.

— Oh… Uh… Eu muito agradeço ajuda. Também gostaria de dar comida eu?

Todas as pessoas ao redor ficaram surpresas. A linguagem das Pessoas não era ensinada a estrangeiros.

 — Como você consegue falar essa língua?

Baatar se inclinou e apanhou o rosto do menino, para vê-lo diretamente nos olhos. Desfocados, amedrontados, mas de um marrom áureo. Âmbar. Um irmão de tribo de sangue puro. Como ele foi pego? Por que ninguém soube?

— Um.. Eu abro boca e som sai? — O garoto disse precariamente. Ele provavelmente foi pego ainda bem jovem. Quem eram seus pais? A vila não teve nenhum irmão de tribo desaparecido em décadas. Exaustão começou a aparecer no rosto do menino, derrota pesando seus ombros.

— Qual é seu nome? O nome dos seus familiares? —  Baatar disse devagar.

— Nome eu Rain. Mãe, Pai nome não ter eu. Sumiram.

As Pessoas criaram BaatarSua mãe o abandonou quando era um fraco filhote. Eles o encontraram largado na natureza, e o criaram como se fosse um deles. Eles o sustentaram e o amaram, e cada membro das Pessoas insistiu que ele também era um membro da família. Como retribuição, Baatar se devotou a eles, lutando por eles, protegendo eles. Baatar ergueu guerreiros para fazer o mesmo e, além de lutar, ele não sabia fazer outra coisa.

Ele faria tudo pelas Pessoas. Suas Pessoas. Sua tribo. Sua alcatéia.

E agora ele olhava para um dos seus. Escravizado. Ele sabia o que precisava ser feito.

Baatar ordenou com um rosnado.

— Lave-o, alimente-o, cure-o. Ao amanhecer, nós retornaremos às minas.

O garoto começou a correr imediatamente. Baatar riu, e aquela vista o encheu de orgulho. O menino estava doente, fraco, exausto, cercado por guerreiros e ainda assim não desistiu. Um sobrevivente. Digno do sangue.

Alsantset lidou com ele facilmente, ignorando seus chutes e agitação. Ela pegou ele e o abraçou gentilmente.

— Se acalme pequeno Rain. Você estava perdido e agora você retornou para nós. Nunca desistiremos de você novamente.

 — Por que eu voltar as minas? — O garoto perguntou.

 — Eles machucaram você. Escravizaram você. Um dos nossos. Nós retornaremos para buscar respostas. Retornaremos para ver sangue. Retornaremos por vingança.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

8 Comentários

  1. sorte(?!) de protagonista, ou destino de quem não desiste? Gosto desse prota. Luta com o que tem , sem desistir.

  2. Aaaahhhhh to tao feliz ♥️
    So espero que nao seja aquela felicidade de pobre…. Que dura pouco….

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