DS – Capítulo 52

De pé sobre seu inimigo derrotado, o peito de Akanai se levantava com esforço enquanto ela ofegava, piscando sangue para fora de seus olhos. Lidaram com o outro demônio também, e icor escoava por todos os orifícios de seu corpo massivo. Seu próprio inimigo morreu bem pior, seus membros espalhados pelo chão e o peito aberto pela arma dela. Ela foi arremessada de Atir na luta, a quin fugiu da fera assustadora assim que estava fora do controle de Akanai. Uma pequena, tímida quin que iria precisar de mais treinamento. Mila merecia o melhor.

Uma vez mais, a energia fria fluiu dentro dela, fechando o cotoco do braço dela, impedindo que ela sangrasse até a morte. Era uma dádiva ter o Taduk por perto, eles teriam morrido dezenas de vezes sem ele. O marido dela chegou ao seu lado, levantando ela em seus braços, embalando ela como uma princesa de histórias infantis. Ela sorriu, se aconchegando em seu peito. A presença dele a confortava, a perda de sangue a deixando cansada.

— Velha esposa, você ficou mole. Havia um tempo quando você conseguia matar sem sofrer tantas feridas. — Sua voz estrondosa era agradável de se ouvir, as vibrações de seu peito a acalmavam. Entretanto, suas palavras eram um incômodo. Se apenas ele aprendesse a falar mais docemente, como o Charok fazia com a Alsantset.

— Era um oponente difícil, seu corpo bem formado e apropriado para combate. Ele até mesmo dominou diversas armas. Quem sabe por quanto tempo ele vagou pelos resíduos do norte? Eu mal conseguia cortar sua armadura. — Se os demônios que o filhote matou foram tão fortes quanto esse, então ela ficaria impressionada. Era verdade que ela estava velha, mas sua habilidade não declinou. Esse demônio era verdadeiramente poderoso, e se houvesse mais como ele, então a província corria grande risco.

Ele a trouxe para dentro do acampamento, a batalha encerrada, o Império vitorioso, mas por pouco. Taduk partiu para auxiliar com a cura, todos os soldados corteses e gratos. Ela recebeu sua parcela de saudações também, força pessoal sempre respeitada dentro do Império.

— Coronel Du Kang Bing reportando para a General-Major, aguardando ordens.

Puta merda.

— E o General de Brigada?

— Seriamente ferido e inconsciente, General-Major. Você é a oficial de maior patente presente. Estou esperando suas ordens.

Ela segurou um suspiro, gesticulando com seu cotoco para ser posta no chão. Ela não podia se permitir parecer fraca na frente de seus soldados, carregada por seu marido. Assumir o comando era uma coisa chata, mas que precisava ser feita. Ela partiu para organizar o acampamento, enviar relatórios e mensageiros, incomodada que a volta dela para casa seria atrasada, assim como a necessidade de se trabalhar com aquele puto inútil do Jin Kai. Se ele tivesse morrido, ao invés dos homens dele, isso seria justiça.

Pelo menos agora ela poderia mandar os soldados para proteger Mila e o resto. Alsantset e Charok provavelmente tinham tudo sob controle, mas ela ainda se preocupava de deixá-los para trás. O torneio deveria acabar logo, talvez eles tenham vencido, já se preparando para uma partida rápida para casa. Ela sorriu com o pensamento, uma tradição honrada pelo tempo, pois eram as chamas mais quentes que forjavam o aço mais forte.

Ficando em pé sobre o corpo, eu olho para meu oponente. Eu não sei se eu poderia matá-lo enquanto ele estava sentado no chão, tremendo de medo. Pelo menos ele morreu como um guerreiro, mas isso não me conforta nem um pouco, morto é morto. Alsantset bate no meu ombro, sorrindo para mim.

— Você deixou as Pessoas orgulhosas na competição, irmãozinho. Não precisa ficar triste que você não poderia mais competir. — Eu sorrio para ela, mas este não alcança meus olhos. Ela não entende, não de verdade. Ninguém entende, ninguém aqui. Matar é uma segunda natureza para eles, só outra coisa que precisa ser feita. Vida é barata, e esse é só um lembrete feio de algo que eu preferia ignorar. Torna difícil eu aproveitar minha vida quando preciso me preocupar que todo estranho que eu conheço está querendo me matar em um instante, se não por medo da morte ou retaliação.

Alsantset vai embora, puxando sua faca.

— Matem alguns desses cavalos pela carne, nós iremos defumar hoje à noite. Iremos precisar de provisões. — Botando a mão na massa, eu assisto Zabu festejando em um dos cavalos, lábios batendo enquanto ele arranca pedaços de carne, cara coberta de sangue. Os outros quins estão reunidos no mesmo cavalo, dentes partindo pele e ossos como manteiga. Eu não posso acreditar que eu botei minha mão na boca do Zabu e arranquei um dente podre. Eu quase me mijei quando ele me atacou, pensando que ele ia comer minha cara. Pelo lado bom, ele realmente amadureceu depois que eu puxei o dente, não exatamente amigável, mas menos temperamental, o que é maravilhoso.

Eu nunca lutei nas costas de um quin antes, e nunca percebi o quão mortais eles são. De uma corrida simples em um ataque de longo alcance, o estouro de velocidade me surpreendeu. Contra um inimigo preparado, carregando lanças, avançar daquela maneira não é provavelmente uma idéia boa, mas nessa floresta, com visibilidade limitada e terreno difícil? Era tirânico. Flechas no terreno aberto, lanças na floresta, eles são montarias mais impressionantes do que eu já havia notado. Eu acho que é outra coisa para praticar, combate montado. E arquearia, eu quero ser tão impressionante quanto Alsantset.

Minha matança completa e a carne empacotada no Zabu, eu começo a revistar os cadáveres, ansioso para encontrar algum loot. Eles não parecem muito ricos, vestidos em roupas grosseiras e chapéus de palha com máscaras de pano no rosto. Nada que identifique de qual facção eles são, apenas algumas moedas de prata. Sem jóias, ou insígnias, sem manuais secretos, nada. Fala sério véi. Traga seus tesouros preciosos quando for caçar. Como um homem deveria ganhar a vida, se tudo que você traz é lixo? Eu sou só uma criança selvagem, pobre, só tentando passar o mês no azul.

Alsantset agarra minha orelha, me puxando até que eu fique de pé, minhas risadas virando barulhos de dor.

— O que você pensa que está fazendo?

Eu seguro minhas lágrimas, incapaz de escapar da pegada mortal dela. — Ah… procurando coisas de valor? — Por que isso dói tanto? Eu acho que ela quer arrancar minha orelha!

— Isso, eu falhei em te criar apropriadamente, falhei em te ensinar a se comportar de maneira honrada, como um bom homem deveria. Primeiro a bebida, então as prostitutas, mas eu botei a culpa disso naquele moleque, Fung. Mas então veio a extorsão na competição, e agora te encontro roubando dos mortos? Eu tenho de aceitar minhas falhas e te disciplinar apropriadamente. — Eu fico na ponta dos pés enquanto aguento o esporro dela, minha orelha latejando de seus dedos cruéis. Eu não entendo o problema. Matar eles é de boas, mas pegar as moedas deles não? Essas prioridades estão zuadas. Sumila ri enquanto Adujan assiste alegre, Huushal fazendo seu melhor para parecer simpático, mas falhando miseravelmente. Traidores.

Nós carregamos o máximo de carne que podemos, indo mais fundo na floresta, Alsantset nos guia em direção aos outros em algum caminho desconhecido. Poderia ser apenas habilidades de rastreamento, mas eu não vi nada que valesse a pena notar. O clima está leve, e os outros conversando suavemente, e para ser honesto, eu estou feliz também. É um sentimento empolgante, vencer um confronto de vida e morte, e essa é primeira vez em que eu permaneço ileso. Alguns hematomas e pequenos arranhões, mas nada que valha a pena anotar. Ninguém ficou muito ferido também, o pior era o corte no braço do Huushal. Nada mal para quem estava terrivelmente em menor número. Porém, a maior parte é graças a Alsantset, e claro, aos quins. Esperançosamente, o pior já passou. Eu quero dizer, 40 pessoas estranhas mortas é uma contagem de corpos bem alta, então com sorte todos os outros iriam só desistir dessa caralha, e nós podemos ter uma passagem calma pela província antes de voltar para casa. Dúvido que isso vai rolar, mas um homem pode sonhar.

Nós encontramos os outros depois de uma viagem curta, acampados em uma caverna, as peles e os ossos de dois ursos grandes no lado de fora. Eu acho que nós tomamos a casa deles, pobres ursinhos. Porém, eu irei comer sua carne com gratidão, ensopado de urso é delicioso. A carne deles estava sendo defumada dentro da caverna, um chaminé natural dispersando as nuvens de fumaça, nos escondendo dos nossos perseguidores. Eu nunca comi carne de cavalo e eu tento imaginar o gosto enquanto nós adicionamos a carne ao defumador improvisado. Porém, elas parecem fibrosas e duras, provavelmente não tão boas. Todo mundo toma uma colherada do elixir também, exceto Mei Lin, que dá sua parte para Song. A pirralha sabe o que há dentro dele, mas ela não contou para ninguém. Eu mantenho minha boca fechada também, não querendo desencorajar eles. Eu acho que eu deveria comer também. Fazendo careta com o cheiro, eu engulo uma pequena colherada. Melhor que essa gosma funcione. Vesícula biliar, criaturas fetais, e pênis de animais moídos, nojento pra caralho. Onde está a ciência por trás disso? Não há um sentimento quente da força surgindo, nem formigamento pelo corpo todo, só um ronco desconfortável na minha barriga. Puta merda, eu espero não pegar disenteria.

O sol quente da tarde ainda está no céu enquanto nós nos reunimos ao redor de Alsantset para ouvi-la falar:

— Nós precisamos planejar nosso próximo movimento. A escolha óbvia é nos dirigirmos para a cidade Feng Huang e reabastecer, antes de irmos para Shen Yun. Embora a ameaça dos Corrompidos esteja alta, eu estou mais preocupada com a Sociedade por agora. Eu sou ignorante das políticas em torno dessa área. Song, você conhece alguma das conexões que essas cidades têm com a Sociedade?

Song permanece quieta, e só responde depois que eu peço para ela responder a pergunta. A voz dela está seca, desinteressada, simples regurgitação de fatos:

— O Magistrado da cidade de Feng Huang é neutro com a Sociedade, mas eles têm uma presença forte dentro da cidade, enquanto o Magistrado da cidade de Shen Yun é do Clã Situ. — Bom, lá se vai o plano.

À minha instigação, ela revela todos os laços que ela está ciente nas cidades da Província Norte. Nós iríamos precisar viajar para Shen Jin no oeste ou JiuLang no leste, antes de alcançar uma cidade que não é controlada por alguma facção da Sociedade. 1.600 quilômetros até Shen Jin. JiuLang é um pouco mais perto, a 1.500, mas isso não nos trará para casa em segurança, visto que nós precisaríamos cruzar diretamente a área em que os Corrompidos estão atualmente atacando. Sem barcos no oceano também, e todo mundo olha para mim como se eu fosse um idiota quando eu sugeri isso. Aparentemente, o oceano tem monstros que fazem os Saurophages parecer pequeninos e amigáveis em comparação. É seguro zarpar no Mar Índigo, navegando ao longo da costa, mas a Sociedade tem laços com todas as cidades portuárias, então não vai rolar. Já que as partes interiores da província pertencem às bestas ancestrais, esse caminho também está bloqueado. Então pelo visto nossa decisão está tomada, iremos para oeste em direção à Shen Jin por padrão. A rota cênica ao redor da província, não é uma coisa terrível.

O plano é evitar contato enquanto viajamos, e infiltrar Elia e Chakta a pé dentro de Feng Huang para comprar suprimentos, antes de nos dirigimos até Shen Jin. Será uma jornada longa e perigosa, com mais responsabilidades para mim e os outros cadetes, agora que Akanai e os outros não estão mais conosco. Meramente pensar sobre isso me deixa ansioso. Dois ou três meses de viagem difícil, enquanto somos caçados pelo nosso loot e exércitos hostis marchando ao redor.

Não há muito a se fazer além de sentar e esperar. A menos que eles mandem alguns assassinos ninja escaladores de rocha, nós estamos bem seguros aqui considerando que eles não têm a nossa localização. Song se agacha por perto, olhos no chão, me encarando. Ela é uma jovem mulher adorável com orelhas de gato triangular e uma calda inquieta, com pelo marrom-dourado realçado contra seu cabelo marrom-escuro. Ela fica sentada lá, a menos que eu fale para ela fazer algo, quase como um robô, incapaz de tomar decisões por conta própria. Eu disse que ela podia fazer o que ela quisesse, e tudo que ela responderia era:

— Eu desejo servir. — Sem entusiasmo, só… a resposta apropriada, como ela vê.

Escravidão está mais impregnada no Império do que eu tinha pensado. O exército até mesmo tem um esquadrão de escravos, soldados criados desde o nascimento para lutar e defender o Império, até o dia que morrerem. Assim que eles são capazes de manipular a Energia Celestial, eles são obrigados a jurar para os Céus, jurando obediência ao Imperador, forçando eles a uma vida de escravidão. Song é desse jeito, mas treinada privadamente, seu juramento feito para a corrente no meu bolso. Quem possuir a corrente é o mestre dela, a tornando bem conveniente de se vender e treinar. Destruir a corrente faz dela uma escrava, permanentemente, da última pessoa que a segurou. Song será uma escrava até o dia que ela morrer. Ela nem ao menos pode ficar a mais de cinco quilômetros da pessoa que está segurando a corrente, ou ela morre. Ela foi deixada para trás pela seita apenas porque estava participando na competição, sua corrente segurada por um de seus companheiros. Parece que minha experiência como escravo não foi tão horrível como poderia ter sido, visto que eu fui julgado como não sendo bom o bastante, ou velho demais para se treinar. Até que enfim alguma sorte por ser magricela.

— Oi. — Ela retrocede ao som da minha voz, se virando para mim, olhos no chão. — Um, eu não sei muito sobre a sua situação antiga, mas as coisas serão diferentes agora. — Sem resposta ou qualquer mudança nela. — Você tem alguém que você possa confiar com a sua éee… corrente, eu acho? — Eu não consigo pensar em uma palavra melhor, e Song simplesmente balança a cabeça, ainda em silêncio. Alguém não gosta de falar muito. — Olha, só… você está tão livre quanto você pode ser, eu acho. Você sabe… só… não mate todo mundo no nosso sono, por favor. Você está presa conosco, mas… — Merda eu sou terrível nisso. — Ahh… só… tente esquecer sobre isso, e aja como se fosse uma pessoa livre. E se você encontrar alguém que você queira… ficar junto, só me diga, e eu vou dar para eles a sua… corrente. — Caralho, qual a porra do meu problema? Eu estou pedindo para uma pessoa escolher seu próprio mestre. Como a minha vida ficou tão fodida?

Ainda sem resposta dela. Daria no mesmo se eu tivesse dito a ela que estava chovendo, por toda a profundidade emocional que ela mostrou. Tanto faz. Talvez ela só precise de um tempo para processar tudo. Eu ando para fora da caverna e encontro um lugar para começar a praticar, socando uma pedra grande, de novo e de novo. O movimento me acalma, me concentra enquanto eu continuo tentando Amplificar meu golpe. Quando meus punhos estão ensanguentados e feridos, eu me sento e os curo, me levantando assim que eles estão consertados, para continuar outra vez. O sol começa a se pôr, e eu ainda continuo socando, obtendo sucesso em mais de uma dúzia de vezes. Eu estou melhorando, pelo menos.

— Você está tentando demais, idiota. — Sumila vêm até mim e agarra meu braço antes que eu caia. — Eu te disse isso antes. Você está desbalanceando seu chi com o quão violento você está sendo. Descanse comigo. — Ela me leva até a borda do penhasco, sentando com as pernas balançando no declive, e batendo na rocha para que eu me junte a ela. Honestamente, eu acho melhor não. Eu estou de boas com alturas, só não com sair para curtir na borda de um penhasco. Eu tenho limites. Cautelosamente indo até a borda, eu me sento com as pernas cruzadas, não exatamente na borda. Sumila revira seus olhos e recua para sentar ao meu lado. Ela não diz nada, só olhando para a cena perante nós.

É uma bela cena, encarando o homônimo do continente, o Oceano Índigo. Um corpo de água massivo que se estende por todas as quatro províncias, Norte, Oeste, Sul e Central. Ele quase divide o continente em dois, requerendo uma incrível quantidade de tempo para se transpor, mas é tão claro e azul como o nome implicaria. As pequenas velas de navios distantes pontilham o horizonte laranja-vermelho e eu quase consigo distinguir o movimento dos remos, impulsionados por escravos azarados. Porra. O que eu vou fazer sobre a Song? Nós sentamos lá por longos minutos, aproveitando a serenidade juntos.

— O que você está pensando? — Sumila se inclina em mim, ombro a ombro.

Distraidamente, eu respondo:

— Sobre a Song.

Ela permanece em silêncio por um longo momento, só sentando ao meu lado enquanto aproveitamos a vista, confortáveis na presença um do outro. É legal que ela não está mais zangada comigo, mas eu ainda não tenho idéia do que eu fiz. — Me dê o colar, Rain. — Colar! Por que eu não só chamei aquela caralha de colar?

— Tá. — Estranho, ela não iria pegar isso mais cedo, quando eu estava em pânico sobre ter um escravo. Colocando ela na bolsa em seu quadril, ela levanta e vai embora sem outra palavra. Eu acho que a vista em conjunto do mar acabou. Observando a vista um pouco mais, eu retorno para o meu treinamento, tentando ser menos violento, tentar menos. Não é um conselho muito útil. Eu continuo a socar, minha raiva se acumulando. Entre ser arrastado até aqui, deixado para trás para a guerra, visado pelos cuzões e canalhas da Sociedade, e lidando com a Song, eu tenho muita coisa para extravasar. Depois de algumas dúzias de socos, a rocha começa a se estilhaçar, cada golpe bem sucedido, a pedra quebrando perante meu poder. Respirando ofegante, eu tiro os estilhaços do meu punho e rosto, limpando o sangue o melhor que posso. Eu acho que estou melhorando. Parece ligado às minhas emoções. Eu preciso estar bravo para isso funcionar. Eu acho. Preciso testar mais.

Me sentando e fechando meus olhos, eu começo a curar a pior das minhas feridas, meus punhos quebrados e um corte fundo de um estilhaço errante. Quando abro meus olhos novamente, Charok está na minha frente. Ele parece chateado, mas não diz nada por um longo tempo.

— Você está treinando de maneira errada.

— Eu sei que você está preocupado com minhas feridas, mas eu estou velho o bastante para tomar minhas próprias decisões. — A raiva ainda está aqui, e eu sou mais duro do que eu queria.

Ele bate forte na minha testa, instantaneamente esvaziando minha raiva e trazendo lágrimas para meus olhos.

— Não isso, irmãozinho. — Ele gesticula para que eu me levante. — Você está treinando para lutar com raiva. Você precisa praticar no Estado de Equilíbrio. Nem raiva demais nem de menos é útil para você, e da mesma forma para qualquer outra emoção. Você deve ficar no meio do caminho, em mais de uma maneira. Não force suas emoções fora do equilíbrio em prol do combate.

Segurando um estilhaço de rocha para que eu veja, Charok se vira para a floresta. Segurando ele entre seu dedão e dedo médio, ele atira o estilhaço mais rápido do que meus olhos conseguem acompanhar. Eu ouço um baque na escuridão, e ele me leva a uma árvore a mais de 15 metros de distância. O estilhaço de rocha está cravado dentro da casca, com talvez 10 centímetros de profundidade.

— Amplificação não é sobre poder, mas controle e tempo. O jeito mais fácil de treinar é com movimentos pequenos, simples. Seus socos tem partes demais se movendo, ombro, cotovelo, pulso, quadril, complicando o problema. — Seu sorriso é visível na luz difusa, dentes brilhando quase tanto quanto seus olhos. — Com um peteleco, você pode esperar até que você sinta o chi explodir antes de tomar uma ação. Quanto mais você pratica e se torna familiar com a sensação, mais fácil ela vai ficar.

Eu olho para ele, então para o buraco que ele fez com só um dedo, então de volta para ele. Que. Porra. Isso é assustador… o que ele pode fazer com uma faca de arremesso? Ou dardos ou qualquer coisa.

— Por que você não me disse isso mais cedo?

Ele dá de ombros e dá um peteleco na minha testa, ainda sorrindo. Eu quase me mijei por um momento.

— Apesar da sua insistência do contrário, eu não leio mentes. Eu pensei que você só estivesse fortalecendo seu punho de novo. Você tem métodos estranhos de treinamento, e você ainda não aprendeu a pedir ajuda, irmãozinho. Além disso, é melhor se você errar por conta própria. Apenas dessa forma você pode aprender sobre eles. — Seu sorriso desaparece, se tornando uma carranca. — Não é por isso que eu estou aqui. Eu quero falar com você sobre a escrava.

Perfeito.

— Ah bom, eu pensei que você não iria querer falar sobre ela. Eu estou perdido sobre o que fazer, com todas essas restrições, como nós podemos ajudar ela a viver uma vida normal, feliz?

Soltando um suspiro, Charok permanece em silêncio por um longo tempo, antes de me abraçar.

— Você é gentil demais, pequeno Rain, é uma das melhores coisas sobre você, mas eu me preocupo que isso irá te matar um dia. Só a trate como você faria com qualquer outra pessoa, e deixe o tempo curá-la. Não se esforce demais no treinamento. Haverá dias longos pela frente. — Ele se vira e vai embora, me deixando com meus próprios pensamentos.

Eu não sou gentil demais. Eu posso ignorar o sofrimento dos escravos nos navios, ou nas minas, ou em qualquer lugar, mas porque não é meu problema porra. É triste, mas o que eu posso fazer? Porém, não tem como ignorar isso, não importa o quanto eu gostaria. Eu não posso simplesmente dar ela para alguém, ou vendê-la, ou matá-la. Eu nunca mais seria capaz de dormir à noite se fizesse isso. Não sem uma pílula pelo menos.

Perambulando de volta para a pilha de estilhaços de rocha, eu pego alguns. As rochas voam, fazendo um arco até o chão, e eu continuo até não ter mais rochas, meu dedos ensanguentados, unhas começando a descascar.

 

Puta que pariu.

 

Isso dói mais que socar.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

7 Comentários

  1. Eu quero ver como isso vai se desenvolver, ele não sabe como tratar a escrava apenas por ser sua própria escrava…

  2. To ficando com raiva dessa merda de equilíbrio já, se vc tiver 100% de raiva qnd lutar vc vai ter equilíbrio pq n vai ter nada pra desbalancear, e como diria o sábio Itachi ” Vc não e forte o suficiente pq lhe falta ódio”

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