DS – Capítulo 6

Eu estou chorando muito ultimamente. Eu realmente não entendo o motivo. Durante seis meses de trabalho duro, surras constantes, comida de merda e uma barraca imunda para dormir, eu realmente só chorava uma única vez ao dia, antes de cair no sono. Talvez duas vezes se eu levasse uma surra muito dura. Agora, eu caio nas lágrimas tipo umas dez vezes ao dia, uma estatística ainda mais impressionante se considerarmos o fato que eu passo a maior parte do dia dormindo.

Quer dizer, eu finalmente estou livre. Eu deveria estar feliz. Sem mais surras. Sem mais trabalho nas minas. Eu fui resgatado por um clã de ninjas assassinos. E ainda consegui de algum jeito convencer eles de que eu era um deles, para que eu pudesse me juntar à tribo. E ainda assim, eu choro por qualquer coisa. Ontem, eu derrubei um pouco de água e simplesmente desabei. No dia anterior eu comecei a berrar quando Charok cantou uma melodia triste. E agora? Eu estou chorando porque eu choro muito. Na maior parte das vezes, eu nem ao menos sei por que estou chorando. Porra, eu sou um inútil assim.

Eu nem ao menos consigo esconder minhas lágrimas. Já que eu estou  literalmente amarrado a Alsantset. Em circunstâncias normais, eu ficaria muito feliz em fazer um leve bondage com uma linda mulher-gato. Infelizmente, as circunstâncias são qualquer coisa, menos normais. Eu estou amarrado nela porque, além de ser pequeno demais para sentar direito em uma sela, aparentemente, eu vivo desmaiando. Ela tem medo que eu caia da sela enquanto viajamos. Adicionando a isso ao fato de que eu choro toda hora, faz com que ficar amarrado a ela seja extremamente humilhante. Eu não tenho esse tipo de fetiche. Não ajuda muito ela notar o meu choro e tentar me confortar. Ela é muito legal em relação a isso, mas essa atitude só me faz chorar ainda mais. Viva Livre e Chore Muito: A História de Rayne.

Ao anoitecer, damos uma pausa na viagem e todos começam a montar o acampamento. Alsantset me desamarra e se certifica de que eu estou confortavelmente enrolado em alguns cobertores. Ela me trata muito bem. Não chore. Ela também machucou o Gortan por mim. O que traz um sorriso ao meu rosto. Maldito porco estúpido. Queria ter um vídeo. Ou pelo menos uma selfie com o cadáver dele. Estou feliz que todos estão mortos. Aqueles porquinhos não tinham a menor chance. Eu estou contente que eles experimentaram como é se sentir impotente antes de morrer.

Meus salvadores são assustadores e possuem uma aparência tribal. Todos estão vestidos com coletes e calças de couro forradas com peles, luvas de couro com placas de metal , botas grossas e capacetes arredondados, sem viseiras. Eles vestem camisas por baixo feitas com algum tecido muito colorido. Alguns não vestem coisa alguma debaixo dos coletes, exibindo músculos impressionantes. Infelizmente, todas as mulheres estão completamente vestidas. Alguns dos ninjas assassinos pintam seus rostos, enquanto outros têm suas roupas enfeitadas com diversas penas, chifres e escamas. Eu acho eles completamente aterrorizantes.

Pelo menos eu não vi alguém coletando orelhas, couro cabeludo, mãos ou coisas do tipo, então eles são bem civilizados. Exceto pela parte da matança, mas eles fizeram aquilo por mim, então eles tem uma nota 10 no meu conceito. Eu não vi eles usando magia alguma nas minas, então eu imagino que eles sejam apenas lutadores corpo-a-corpo. Ainda assim, a magia dos guardas não salvou eles de uma surra violenta antes de serem mortos. Porquinhos estúpidos.

Arcos parecem ser sua arma favorita, com lanças curtas e facas perdendo por pouco. Eles são bem diversificados, em questão da cor da pele e do tipo de animal. A maioria tem orelhas de bicho e rabos, mas alguns são humanos, como Charok. A maioria tem traços asiáticos, mas não todos. Tem alguns parecidos com europeus, como Baatar, e até alguns semelhantes a africanos. É tudo muito familiar, mas diferente o bastante para me abalar. Eles são um grupo animado, com sorrisos e cantoria, mas eu fico um pouco receoso em perguntar muito sobre eles. Quero dizer, eu deveria SER um deles, então eu não posso realmente perguntar sobre qualquer coisa.


Taduk veio para checar minha saúde. Ele é o médico com orelhas de coelho. Se eu tivesse de fazer uma comparação, ele parece filho de um casal Indiano-Chinês. Ou talvez de um um daqueles países ao redor da China, perto do Oriente Médio. Ele se veste de forma diferente dos outros, com calças e uma camisa realmente longa, quase um vestido. Parece seda, mas pesada e quente. Ele me deixou tocar em suas orelhas uma vez. Eu nem precisei perguntar, ele só se inclinou para frente e apontou. Taduk me disse que ele consegue usar elas para escutar um mosquito peidar à 20 passos de distância. Ele é um cara engraçado. Além disso, ele fez todos as minhas lesões sumirem. Com magia! Ele apenas põe as mãos sobre a ferida, ela some e eu me sinto melhor. Eu perguntei se ele poderia me ensinar, mas ele só sorriu e me disse para melhorar primeiro. Eu sinto que estou sendo ludibriado. Ele mistura um tônico de ervas para que eu beba. Ele me fez um todos os dias em que eu estive aqui. Eles têm um gosto desagradável, mas eu parei de tossir desde ontem, então está provavelmente funcionando também. Ciência! Ou herbalismo?! Tanto faz.

Depois que Taduk vai embora, eu assisto Alsantset pentear sua roosequin, Suret. Embora eu não tenha visto muito desse mundo ainda, roosequins são a minha descoberta favorita até agora. Os ninjas assassinos os usam como montarias, essas criaturas parecem lontras bípedes gigantes, eles são as coisas mais fofas que eu já vi. Cerca de dois metros e meio de comprimento do nariz até a calda, pernas traseiras grandes e musculosas permitem que eles transportem cargas pesadas por longas distâncias. Uma sela no meio deles, que deixa o montador em uma posição meio ajoelhada em cima da parte inferior de suas costas, o que te permite sentar para lutar ou se inclinar para frente e sentir o pelo incrivelmente macio e fofo deles. Você controla os roosequins pressionando com os joelhos e panturrilhas, ou usando as rédeas, as quais são anexadas em uma barra segurada pelos roosequins com suas pequenas patas. Eles podem até mesmo ser treinados para puxar vagões e carroças.


A melhor parte é o quão carinhosos eles são com seus donos. Suret chia de felicidade enquanto Alsantset penteia ela e esfrega o nariz na escova. Roosequins vivem nas montanhas e podem comer quase qualquer coisa orgânica, de coelhos e pássaros até raiz e cascas de árvore, então alimentar eles é bem simples. Embora sejam mais lentos que cavalos, eles podem correr por distâncias muito maiores e em um terreno mais acidentado. Eu quero um. Eu me pergunto se eles podem ser treinados em casa?

Eu me sinto inútil ficando só sentado por aí admirando os roosequins, então levanto e procuro algum jeito de poder ajudar. Todo mundo me manda embora e me fala para descansar, exceto Charok. Eu acho que ele entende o quão frustrado eu me sinto. Ele me dá uma faca, alguns vegetais de aparência estranha e me pede para descascar e cortar eles. Ele é um cara muito legal. Alto, peludo, meio asiático, com um grande sorriso e olhos gentis. Eles são de um marrom bem claro, quase brilham, mas ainda assim gentis. Ama contar histórias, a maioria delas sobre ele e Alsantset. Ele conta uma história de como ele parou no meio de uma luta para dar flores a ela. Charok é tão ridiculamente apaixonado, que é reconfortante. E um pouco enjoativo. Eu seco minhas lágrimas, me acalmo e deixo minha mente se focar em descascar e cortar.

 


Enquanto comemos nosso jantar, eu me sento perto do fogo ao lado de Baatar. É delicioso como sempre, carne grelhada, alguns vegetais assados e uma sopa com grãos dentro. Eu chorei no meio da minha primeira refeição com eles. Eu tinha esquecido o sabor de tudo que não fosse a sopa marrom. Especiarias parecem ser comumente usadas aqui. A menos que Charok esteja usando elas porque eu estou aqui? Eu sou um fardo tão grande. Porra, eu estou chorando de novo.

Eu olho para Baatar e tento entender ele. Ele é o chefe por aqui. Oh Capitão, meu Capitão. Um homem-lobo alto, muito musculoso, de uns trinta e poucos anos, com cabelos prateados, bem cortados, e olhos azuis assustadores pra caralho. Um verdadeiro Adonis. Ele tem um ar de quem não está para brincadeira, andando por aí, arrumado, com uma postura ereta, e olhos sempre flagrando tudo. Quando ele sorri que é mais aterrorizante. É como se você fosse a presa e ele o predador. Eu não tenho ideia por que ele me salvou.


Porém, ele não é tão mal assim. Perto da hora das refeições, quando a comida está quase pronta, Baatar vai aparecer do nada, com o mesmo olhar triste de sempre. Embora sua cauda sempre entregue ele. Ela balança furiosamente perto da hora de comer. Ninguém comenta sobre isso, mas todo mundo que vê a cena sorri. Eu não sei se o silêncio é devido ao respeito ou medo, mas é provavelmente por ambos.

— Como está se sentindo garoto? — Baatar sempre fala lentamente e em um tom baixo para mim, como se eu fosse retardado.

— Muito melhor do que ontem. Eu parei de tossir.

— Bom, bom. Bom. — É o mesmo diálogo todos os dias, mesmo sorriso feroz. Baatar se levanta para ir embora.

— Eu ainda não te agradeci do jeito certo. —  Baatar se virou para mim com um olhar meio duvidoso. — Por me salvar. Te agradeço tanto. Eu não sei como vou retribuir a você e todo mundo pelo tanto que vocês fizeram por mim, mas eu irei, mesmo que eu seja tão inútil. Por me alimentar com comidas deliciosas e me dar roupas quentes e me ajudar tanto, com os traficantes de escravos e… — Puta que pariu, eu vou cauterizar meus dutos lacrimais.

Baatar fica por perto enquanto eu choro, o que levou um tempo. Depois que eu me acalmei um pouco, ele disse.

— Me olhe nos olhos garoto. Perceba que eu te falo a verdade.

Eu olho para ele timidamente. Será que ele vai gritar comigo por chorar tanto?

— Não há necessidade de agradecimento ou retribuição. Você é alguém que nós perdemos, e agora você retornou. Tudo o que fizemos foi acertar o que estava errado. Em dois dias, você estará em casa. E uma vez lá, você pode começar a se curar. Fique tranquilo. —  Seu sorriso não é tão assustador dessa vez.

 

Porém, eu desisto. Eu não acho que algum dia eu vá para de chorar.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

10 Comentários

  1. vila da folha! sociedade dos poetas mortos reconhecida com sucesso! O que significa, provavelmente, que já perdi dezenas de referências…

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