DS – Capítulo 62

Uma dúzia de espectadores assistem conforme o tinido de ferro sobre ferro enche o ar. Avançando para frente, eu dou uma estocada em Dagen, que se afasta e me acerta no ombro.

— Óbvio demais, você rola o ombro quando está prestes a estocar. — Um sorriso está em seu rosto barbado, esfarrapado e sujo, e sua pele encharcada enruga devido à sua alegria. Tomando minha postura mais uma vez, eu ataco novamente. Dessa vez foi desviado, e nossa luta treino continua. Cada golpe que eu faço é bloqueado, cada bloqueio que eu coloco é quebrado. Contusões e vergões se formam por todo meu peito e braços, enquanto Dagen está na minha frente ileso. Logo, eu estou ofegante, minha espada de ferro no chão, enquanto ele está de pé. Relaxado e sorrindo sem nem ao menos suar.

— Como… Como você.. — Eu consigo falar algumas palavras entre arquejos.

— Eu consigo ler você porque você não tem astúcia. Você é um puto esperto, mas isso só torna seus movimentos mais fáceis de se ler. — Me dando uns tapinhas nas costas, ele tenta me tranquilizar. — Eu consigo ver que você está tentando adicionar fintas, mas elas são muito óbvias, sem sede de sangue, sem intenção de realmente acertar. Isso deixa fácil identificar. O truque é sempre estar pronto para tornar um ataque uma finta e uma finta em um ataque.

É incrível como tantas palavras podem significar absolutamente nada.

Assim que eu recupero meu fôlego, nós começamos a treinar mais uma vez, dessa vez com lanças. Apesar de sua aparência rude e selvagem, Dagen é um bom homem, e um bom parceiro de treino de combate. Eu estive treinando com todo mundo que eu posso, fiquei cansado da Sumila me espancando. Ninguém ri de mim por levar uma surra de uma garota fofa, com um nariz de botão e sardas, mas eu ainda me sinto humilhado. Além disso ela sempre parece tão feliz quando luta comigo, sem qualquer simpatia.

Um golpe errante me deixa aberto, e Dagen dá uma rasteira em minhas pernas.

— Você não pode fazer isso em batalha, golpeando dessa maneira selvagem. Você não terá apenas um inimigo, já que a guerra não é um duelo. — Sua mão estendida, Dagen me ajuda a levantar, sua barba e cabelo bagunçado e selvagem, mas não por causa da luta. Ele chegou assim, com suas sobrancelhas longas arqueadas dando a ele uma aparência sinistra. Se alguém não tivesse me dito que ele era um sentinela, eu poderia facilmente confundir ele com um bandido, ou pior. Ele parece completamente um vilão, como um assassino de olhos selvagens. É bem chocante como ele age, quase cômico. Nós continuamos a trocar golpes, suor descendo da minha testa debaixo do meu elmo de rosto inteiro.

Me deram uma armadura suprida pelo Arsenal Imperial. Se preparar com dinheiro Imperial é uma das vantagens que Akanai recebeu junto com a promoção dela. As vestimentas são bem chiques considerando-se que é algo usado para lutar. Uma camisa longa de seda cinza, com um peitoral lamelar, e saia por cima. Essencialmente, são pequenas placas de metal costuradas em couro, mas parece legal e robusto, uma vestimenta segura, pesada. Todo mundo fica ridículo nelas, como se eles estivessem vestindo camisas grandes demais, mas se me ajudar a ficar vivo, eu vou usá-la. Ela vem com proteções para as mãos, caneleiras, botas e elmo, e é uma merda de colocar e tirar, necessitando de ajuda. Não é divertido ajudar o Huushal a se vestir de manhã, e menos divertido ainda ele ter de me ajudar. Eu aposto que Fung tem serventes lindas ajudando ele.

Não apenas eu consigo estocar ervas medicinais, mas eu também recebi armas, uma lança longa de ferro e um escudo. Com sorte, minhas armas não vão mais quebrar depois de um único golpe, apesar do escudo de ferro não ter pequenos coldres para guardar uma lança curta. Tudo está maravilhoso, mas pesado e difícil de se acostumar, então eu estive lutando com armadura completa para me ajudar com isso. É mais cansativo do que eu tinha imaginado, e logo nós damos outra pausa. Sorrindo com maldade enquanto eu ofego, Dagen traz sua arma espiritual, um machado de guerra de cabo longo e com pontas de ferro, parecendo um machado normal com anabolizantes.

— Não, não, eu não quero lutar com armas espirituais. — Minha espada é curta demais. Não é justo.

Balançando ele como um cajado, ele ri perversamente.

— Infelizmente, seus inimigos não vão ligar para o que você quer, Sentinela. Eu vou ser gentil com você e esperar você sacar sua arma, desde que você o faça dentro de cinco batimentos. — Nossa audiência previamente em silêncio começa a conversar, rindo da merda em que eu estou e fazendo apostas.

Porra. Dando tudo que eu tenho, eu ponho em prática meu treinamento em Empuxo. Circulando meu chi com um pensamento, eu permito que ele me preencha, para me fazer ficar mais leve, diminuindo meu peso. Acelerando, eu me movo para atacar, minha arma chiando sempre que ela entra em contato com o martelo de Dagen, as reverberações se movendo pelo meu braço e por todo meu corpo. Nós continuamos nossa troca furiosa, Dagen me acertando com vários golpes leves, usando apenas o eixo de sua arma, deliberadamente evitando usar a cabeça do martelo. Depois de mais alguns golpes, meu corpo não consegue mais aguentar, e eu tiro meu elmo, vomitando na grama.

Desde que a história de como Ghurda me fez vomitar se espalhou, todos meus parceiros de combate parecem ter isso como meta. Os espectadores se alegram e gemem enquanto moedas mudam de mãos, o resultado das apostas em quantos golpes iria levar até que eu chamasse o Raul. Viagens ficam chatas, e soldados tendem a ser uma galera apostadora. Um copo de água está na mão de Dagen quando eu me levanto, me incitando a beber.

— Você mandou bem moleque, custou alguns Sentinelas uma boa quantidade de moedas, isso você fez. — Ao contrário de como ele parece, Dagen é uma manteiga derretida, muito gentil com todos. — Você é natural em Ressonância. — Bela merda. Mais coisas que eu estou fazendo sem saber.

— O que é Ressonância? — Balançando sua cabeça, ele ignora minha pergunta, gesticulando para que eu vá andando.

— É minha vez, pequeno Rain. Se afaste. — Adujan se aproxima com arma em mãos e bate seu quadril no meu levemente com um pequeno sorriso zombeteiro, antes de se curvar ligeiramente para Dagen. Ela ficou muito mais atrevida, balançando seus quadris quando anda. Ela não costumava fazer isso, ela só pisava duro, mas agora, ela rebola. É bem perceptível com os quadris dela balançando de um lado para o outro, e bem encantador. Se não fosse pela atitude espinhosa dela, eu tenho certeza de que ela teria tantos pretendentes quanto Sumila. Grande Huu e pequeno Rain, nenhum de nós gosta de nossos apelidos, especialmente do jeito que ela fala. Eu ia jogar o Fung para ela, esperando usar ele como uma barreira para a zombaria incessante, mas ele não caiu. Não ainda, pelo menos, porque ele parecia extremamente interessado. Ela parecia bem interessada nele também, e eu gostaria de ver os dois juntos. Eu acho que eles dariam um belo casal, a orfã e o príncipe. Uma verdadeira história da Cinderella.

Até agora, a viagem em si não foi ruim, com apenas algumas horas de escolta que requerem minha atenção. O resto do meu tempo eu gasto praticando meu chi, usando o Empuxo enquanto eu sento totalmente armado e com armadura em cima de Zabu. Eu consigo dizer quando está funcionando porque Zabu irá virar para olhar para mim, me julgando por ser tão pesado. Eu não sou gordo, só tenho ossos largos. Sério mesmo.

Não há exatamente qualquer mudança na massa, porque isso seria impossível. Direcionando meu chi, eu o faço me “levantar”, dessa forma reduzindo a força para baixo que a gravidade exerce sobre mim. É como me encher de hélio, ou pelo menos é como eu imagino. É como todo mundo pula nas copas das árvores, mas isso requer uma grande quantidade de concentração, e eu meu chi rapidamente acaba depois de alguns minutos no máximo. A chave é usar explosões curtas de empuxo, nos tempos certos. Eu acho esse modo complicado demais, então ao invés disso eu estou indo devagar e constante. Não há necessidade de me fazer ficar sem peso, só um pequeno impulso para que Zabu não se incomode com todo o peso extra do meu equipamento, ou então eu posso só me mover um pouquinho mais rápido.

— Chega de descanso. Venha. — Tanaraq me dá um toque na cabeça com a parte chata de sua espada. — Ponha seu elmo. — Treino de combate não é o mesmo que guerra, mas qualquer prática é melhor do que nada. Com uma inspiração profunda, eu sombriamente encaro mais punição nas mãos de Tanaraq.

O céu está escuro quando todos nós terminamos de lutar, Huushal mancando para nossa tenda comigo. Ele geme conforme se deita em seu colchonete ao meu lado.

— Pela Mãe, como todos eles conseguem nos machucar tanto, especialmente através da nossa armadura?

— Eu acho que tem a ver com vibrações. — Minhas costas para ele, e nós conversamos baixinho. — Ancião Bolin fez o mesmo comigo, eu acho, mandando chi através de seus ataques, abalando nossos órgãos internos. Essa é só outra versão disso.

Ele ri.

— Essa não é uma explicação muito boa.

Eu dou de ombros, mesmo sabendo que ele não pode me ver.

— Se eu soubesse como, eu não estaria com tanta dor como você está.

— Bah. Inútil. — Ele fica quieto por um momento antes de falar novamente: — Eu não quis encher, mas como seu amigo, eu sinto que eu preciso falar. Você deveria repensar sua posição com Mei Lin. Ela realmente te ama. É algo que você deveria valorizar. Eu não estou te julgando, só oferecendo meus pensamentos. Se alguém me amasse como ela te ama, eu nunca deixaria seu lado.

— Ah, você também, não! Me deixa. Eu amo a garota, mas como uma irmã menor. Eu não vejo como isso é difícil de entender.

— Você diz muito isso, mas você não vê como você olha para ela, Rain. Vocês dois foram inseparáveis nesse último mês.

Bom… ele não está errado sobre isso. Eu posso ter exagerado com a pirralha, mas ela é tão doce e vulnerável, é difícil dizer não para ela. Além disso, ela de alguma forma consegue cheirar bem a todo momento, como uma briza fresca de primavera.

— Eu estava só satisfazendo ela. Ela é tão adorável, e montar comigo deixa ela tão feliz. Eu faria qualquer coisa para fazê-la feliz, Huu, ela é família.

— Esse é o problema, Rain. Você satisfaz ela. Você deveria tomar uma posição, ou recusá-la, ou aceitá-la totalmente. É uma coisa cruel dar falsas esperanças se você não tem intenção de se casar. Porém, eu ainda acho que você deveria casar com ela. Um homem poderia fazer coisa muito pior do que casar com uma mulher tão apaixonada.

Tch. Eu não posso discutir se ele está certo. Eu deveria virar homem, e só dizer não. Um não firme. Não mais compartilhar a sela, não mais dormir perto dela, sem mais massagear as costas dela quando ela pede. Eu não posso deixar ela pensar que ela tem uma chance, não quando eu sei que ela não tem. Ela precisa parar de me perseguir, e sou eu que tenho que fazê-la parar. Em uma carta severa, mas amorosa. Não, essa é uma ideia horrível.

— Eu entendo. Obrigado por falar, Huu. Você deveria fazer algo sobre Sumila também. Você não pode só ficar definhando por ela, um homem deveria tomar partido.

— O que? — Eu ouço ele se mover, virando para encarar minhas costas. — Como você sabia? Meu Painho te contou?

Porra. Seria rude não se virar, mas isso parece… juvenil. Sussurando no escuro, face a face, compartilhando sobre relacionamentos e coisa e tal. Eu me arrependo de trazer isso à tona. Suspirando internamente, eu me viro para encará-lo, me movendo um pouco para trás quando vejo que ele está mais perto do que eu tinha imaginado. Seus olhos amarelos de lobo quase brilham no escuro.

— Ninguém me disse. Você encara tanto que é um milagre que seus olhos ainda estejam no lugar. — Pelo menos está escuro o bastante e eu não consigo ver o restante dele.

— Você… você acha que ela sabe?

— Ela seria cega e estúpida se não soubesse. Você deveria cortejá-la. Traga flores para ela, elogie sua aparência e ações, fale mais com ela. Só encarar te faz parecer estranho. — Pobre coitado não tem jeito com as mulheres. Sua estratégia é babar enquanto ela anda, o grande idiota, e Adujan parece ter superado ele. — Ela é uma mulher adorável, e outros homens não vão esperar sentados enquanto você anseia por ela em silêncio.

Ele suspira bem alto.

— É inútil. Ela não tem sentimentos por mim, disso eu sei. — Puta que pariu. Ele soa como um filhotinho perdido.

— Bom, então talvez você deveria focar nas suas fãs. Muitas mulheres têm te observado recentemente, especialmente com todas as histórias que nós contamos.

— Sério? Como quem? O que elas disseram sobre mim?

Grande Huu tem duas irmãs gêmeas bajulando ele, e o cara nem sequer nota. Maldito Senhor Popular, apaixonado por Sumila, que provavelmente seria receptiva a ele de qualquer maneira.

Eu me pergunto se eu posso só jogar uma pílula do sono em sua garganta sem ele notar.

Se movendo pela floresta escura da montanha, meus olhos estão abertos enquanto eu observo através da escuridão, buscando sinais de alguma emboscada ou armadilha. Nós usamos essa carta frequentemente contra a Sociedade, então é compreensível que eu esteja paranóico. Até agora, depois de 11 dias de viagem de Shen Huo, tudo ocorreu sem complicações, assim como eu gosto. Entretanto, tudo isso foi nas planícies abertas, e a última parte da jornada é por um terreno de mata fechada e irregular, exceto pelo caminho principal. Pouco mais do que uma estrada de terra, os soldados marcham junto ombro a ombro, quatro em uma fileira, seus passos quase agitam o chão. Cercados por árvores e afloramentos rochosos, cada virada e curva guarda uma possível emboscada, e é o trabalho dos Sentinelas investigá-las. Isso significa que eu estou na frente de todos os soldados profissionais, exatamente onde eu não queria estar.

Sumila lidera nós cinco, se movendo como uma unidade, cobrindo terreno e nos certificando de que não há nenhuma surpresa à frente. O cheiro de terra e árvores enchem meu nariz, enquanto gotas de suor se formam para afastar o calor do verão, visto que eu estou usando minha armadura ridiculamente abafada. Parece a porra de um forno nisso aqui, meu elmo fechado faz com que o barulho da minha respiração ecoe nos meus ouvidos. Sumila gesticula para nós pararmos e todos nós pausamos, cada um de nós apurando nossos ouvidos e olhos para o que chamou sua atenção. Nos movemos lentamente, enquanto passamos por umas árvores, a luz do sol brilhando nas ruínas de uma pequena aldeia. Talvez 30 cabanas, formando uma linha de ruínas, com destroços patéticos de cercas de bambu cercando o espaço inteiro, que não ajudou os habitantes a afastar seus agressores.

Sumila sinaliza para que nós investiguemos as cabanas, dividindo o grupo. Pela primeira vez, eu sou grato pelo meu elmo, porque ele esconde minhas lágrimas enquanto eu ando sob os cadáveres dos antigos habitantes, a carne apodrecida deles pendurada em ossos, seus corpos amarrados em postes e usados para esporte. O fedor azedo e podre da aldeia me faz engasgar. Me pergunto por que nós não sentimos o cheiro mais cedo, uma fossa de morte e sujeira. Mais corpos estão espalhados de maneira desorganizada, os antigos residentes mortos enquanto tentavam escapar dos campos de matança que um dia eles chamaram de lar. Cabeças foram arrancadas de muitos corpos e pregadas em uma travemestra dentro dos campos centrais, os rostos secados pelo sol contorcidos em várias expressões medonhas. Fogueiras e potes contém restos também, ossos abertos, a medula sugada para sustento. Malditos Sadistas e Canibais, eu deveria matar cada um deles. Eu só preciso ser mais forte para fazer isso.

Desmontando de Zabu, eu caminho até a cabana mais próxima, me preparando para o que eu possa encontrar. A porta se abre facilmente com um pequeno rangido e eu olho para a cena medonha deixada para trás. O chão é um canvas de carne e osso. Muito pior do que qualquer coisa que eu pudesse ter imaginado, um voz pequenina soluça aterrorizada, enquanto uma segunda mais distante na minha cabeça começa a gritar raivosamente por vingança. Pequeninos corpos quebrados sujam a cabana, despedaçados e deixados à mostra, pregados no chão em poses macabras, deixando pouca dúvida sobre se elas sofreram antes da doce morte clamar elas. Seus rostos infantis mortos estão distorcidos em uma mistura de dor e sofrimento, mesmo depois de tantos dias de podridão, com marcas inconfundíveis de dentes humanos marcando a carne.

Quinze. Quinze pequeninas cabeças, cada uma pouco mais do que meus dois punhos, que estão cerrados ao meu lado, sangue escorrendo das minhas unhas. Tremendo incontrolavelmente, incapaz de dizer se de raiva ou desespero, eu entro no quarto, me movendo com cuidado pelo ambiente de práticas doentias, rezando para quem quer que tenha feito isso ainda esteja aqui, e eu vou fazer eles pagarem caro por isso. Eu vou fazer ele se arrepender de me encontrar.

Minha busca completa, eu acendo uma tocha e incendeio o barraco. Destruir essa mostra profana é tudo que eu posso fazer pelos mortos agora. Seguindo em frente, eu continuo a incendiar as cabanas, incapaz de me forçar a investigá-las.

 

Certa vez eu acreditava que ninguém merecia ser torturado, sentir dor e sofrer como eu sofri.

 

Eu estava errado.

 

Os Corrompidos merecem pior.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

7 Comentários

  1. Esses corrompidos, além do total barbarismo, tem algum poder especial? ou só são brutos e resistentes devido a seleção natural?

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