DS – Capítulo 71

Cho Jin Kai chamou de idiota o médico meio-besta inútil dele, um idiota imprestável que era incapaz de fazer seu trabalho propriamente. As feridas no rosto de Kai se curaram bem, mas o braço dele parecia estar em chamas quando foi recriado, a dor quase insuportável. Mesmo quando a mais leve das brisas encostava na pele nua dele era o suficiente para fazê-lo cair de dor, então vestir roupas era obviamente impossível. Seu manto estava enrolado em seu peito, seus serventes segurando o pano para que este não roçasse em seu braço enquanto ele levantava diante de Akanai, aquela vadia meia-besta. A bárbara nem se dignou a usar a tenda de comando, realizando sua reunião na tenda dos médicos.

Era uma humilhação completa. Suas vigias falharam miseravelmente em seus deveres. Os Corrompidos de alguma forma conseguiram lançar um ataque surpresa no acampamento. Soldados nortistas imprestáveis. Ele perdeu quase por completo sua atribuição de soldados, 12.000 mortos, incluindo uma dúzia de oficiais juniores. Outra mancha no histórico militar dele em adição à falha dele nos acampamentos. Ainda pior, ele sofreu uma derrota humilhante em um duelo, embora pelo guerreiro Corrompido mais feroz que ele já tenha encontrado, precisando da ajuda do Major Vichear, desgraça em cima de desgraça.

Para jogar sal nas feridas dele, como se o próprio Marechal tivesse um rancor contra ele, aquele que iria o substituir no comando era ninguém menos do que Akanai, e a mulher nem ao menos trouxe de volta as tropas dele com ela, as deixando mais ao norte. Ela se sentou em cima de sua besta, lendo os relatórios em silêncio, enquanto ele ficou parado atento, esperando que ela zombasse dele, o humilhasse ainda mais.

Depois de uma eternidade, ela finalmente falou:

— Para onde eles recuaram? — Ela nem ao menos olhou para ele, e para piorar, ele não tinha resposta. Como ele deveria saber? Eles fugiram na calada da noite enquanto ele estava ferido, sua pele derretendo, seus olhos feridos, braço decepado, e seu comando reduzido a um mero Oficial de Campo, Major Vichear.

— Eles foram para oeste, a pé, dois dias atrás. Nós perdemos a maioria dos nossos cavalos e escoltas, então ficamos incapazes de rastreá-los desde então, — Vichear respondeu em seu lugar. O Major conseguiu o respeito relutante de Kai por salvar a vida dele, mas isso sumiu instantaneamente ao ver o meio-besta tentar ganhar o favor com sua própria espécie enquanto ele deitava pateticamente em sua maca. Uma pena que o Campeão Corrompido não arrancou a cabeça de Vichear, apenas ferindo seriamente o Major.

— Empacotem tudo, vamos nos mover imediatamente. Os Corrompidos atacaram aqui uma vez, e eu não vou ficar parada vendo eles atacarem de novo. — Hmph, a vadia tinha a coragem de insultar ele, dizendo que a escolha dele de ficar aqui estava errada? O que mais ele deveria ter feito? Havia feridos demais para transportar. — Qualquer um que não possa lutar e qualquer coisa que não possa ser carregada por um único soldado será enviada para Shen Huo, junto com todos os vagões. — O que? A tenda dele seria carregada em um vagão! Como ela ousa esperar que ele durma no chão? Não, se acalme, procure Equilíbrio, não permita que ela te tire do sério. Ele respirou fundo e centrou suas emoções enquanto Akanai continuava: — Major Vichear, você irá liderar o comboio de volta para Shen Huo, e reportar para o Magistrado. Dê a ele meu nome, e ele cuidará de suas feridas. — Outro amante de meio-bestas em poder… O norte estava perdido mesmo. — General de Brigada Kai, desmonte acampamento e siga a Capitã Senior Alsantset e a divisão dela para o novo acampamento.

Incapaz de conter a raiva dele por mais tempo, ele bateu sua mão ilesa no mapa.

— Você quer que eu desmonte acampamento e receba ordens de uma Capitã Senior? Você sabe quem eu sou? — A bárbara provavelmente nem podia ler, brincando de ser estrategista.

— Exatamente. Eu também sei do seu valor e me preocupo com a segurança do acampamento, mas eu não posso dispor do meu tempo e segurar a sua mão agora. Suas ordens foram dadas. Saia agora, antes que eu fique irritada de verdade. — Ela o encarou, e de repente ele mal pôde respirar. A encarada intensa dela o sufocava. Ela o esmagou com chi. Uma demonstração de poder, mas Kai já sofreu coisa pior. Bufando, ele se virou e foi embora, chamando seus serventes e ordenando os soldados para começar a empacotar. Se não fosse pelo Marechal amante de meio-bestas, era improvável que Akanai seria condecorada como tenente algum dia, muito menos uma general. Essa província era primitiva e deveria ter sido reduzida a cinzas anos atrás.

Os bárbaros se sentavam ao redor da tenda de comando, provavelmente ouviram a comoção. Ele encarou, desafiando eles a rirem, esperando fazer um exemplo de um deles, mas todos eles o tratavam como se Kai fosse ar, ignorando as encaradas dele. Enquanto ele inspecionava a massa de brutos sujos, ele avistou um rosto familiar.

— Song! O que você está fazendo aqui? — Sua raiva se acumulou enquanto ele caminhava em direção à escrava dele, que estava sentada quieta em uma das bestas, mas o medo nos olhos dela estava claro como o dia. Arrancando ela de cima do animal, ela lutou para se soltar enquanto ele gritava com ela. — Se acalme escrava! Me responda! — Soltando sua pegada para permitir que ela se acalmasse, ela se afastou dele, quieta e com medo. Irritado pela desobediência dela, ele foi até ela, pretendo aleijar a vermezinha e deixá-la rastejar de volta para Yantai. Ele gastou tempo e dinheiro nela, comprando ela, treinando ela, até mesmo comprando uma arma espiritual para ela. Essa escrava foi um investimento para o filho dele, para que Tok tivesse uma atendente e guarda-costas apropriada. O enlouquecia de raiva ter todos os esforços dele roubados por bárbaros, sua fúria começando a explodir.

Ele parou em seu caminho conforme uma meia dúzia de lanças apontavam para ele, um selvagem no fim de cada uma. Ele os estudou lentamente, e depois de notar que nenhum deles tinha uma patente de Oficial de Campo, ele rosnou:

— Soldadozinhos como vocês ousam me desafiar, caralho? Apontar suas armas para um Oficial do Exército Imperial é equivalente a traição. Vocês vão ser presos por isso.

O puto de boca grande riu, o mesmo bastardinho que humilhou ele no restaurante.

— Eu vou gostar de te ver morrer, General de Brigada. — O puto estava sentado por perto, sua boca cheia de rações secas enquanto ele observava o desenrolar da coisa. — Tente dar um bom show. — Kai encarou o pirralho, jurando matar ele da pior maneira possível. Só assim a raiva dele seria acalmada e sua mente retornaria ao Equilíbrio.

Outro bárbaro falou:

— A Lei Marcial está em vigor. Atacar um soldado em campo é punível a critério de um Juiz ou Adjudicador que estiver julgando. — Ele encarou a mulher falando com ele e seu olhos foram atraídos por suas orelhas. Laranjas com listras pretas, com tufos de pelo branco, uma meio-tigre genuína. Ele estudou o resto dela, um rosto redondo agradável com olhos de cor quase amendoados. Ela quase podia se passar por humana se simplesmente escondesse as orelhas e a cauda. Ela estava com armadura completa e era tonificada, adorável de se olhar, com seios grandes e curvas, o cabelo castanho dela quase brilhando no sol da manhã. Uma beldade como ela custaria facilmente 10.000 ouros se ele a fosse comprar. Ela até tinha sua própria arma espiritual e uma patente, uma Capitã Senior. Kai imediatamente decidiu que ela seria dele.

Limpando sua mente daqueles pensamentos, ele estreitou seus olhos para a meio-tigre.

— Eu não ataquei soldado algum. Song é uma escrava, simples assim. Eu exijo que minha propriedade seja retornada para mim, ou eu vou mandar acorrentar todos vocês diante de um Juiz. — Ele gostava de ver ela encarar ele, e estava ansioso em ser dono dela, uma dama animada e desafiadora. Song poderia ser dada ao pequeno Tok, Kai estava ficando desconfiado dela de qualquer jeito. Song chegou com seu espírito quebrado, mas essa nova escrava seria mais resoluta, e ele ficaria alegre em domá-la, educando ela sobre os jeitos civilizados do mundo.

— Li Song é uma Khishig dos Bekhai. Ponha um dedo nela de novo, e eu mesma mato você. Isso é uma promessa, General de Brigada.

Kai riu da meio-besta idiota.

— Você se condenou com suas próprias palavras. Ameaçando um oficial superior por causa de uma escrava? — Ele se virou para os soldados em seu comando. — Prendam ela. Nós iremos levá-la para Shen Huo para buscar justiça.

— Ignorem essa ordem. — Akanai saiu da tenda de comando, seu olhar gélido novamente nele. — Se você tem algum problema com um dos meus oficiais, então você trará um Juiz aqui para mediar. Até então, você tem suas ordens. Já que você parece ter um problema com a Capitã Senior Alsantset, então você irá seguir o Soldado Dagen. Capitã Senior Alsantset, a vanguarda é sua. Vá embora.

Então, a meio-tigre era a Alsantset, um nome horrível. Kai desdenhou, olhando uma última vez antes dele partir. A voz de Akanai soando atrás dele.

— E se você ousar encostar em um dos meus Khishigs de novo, eu vou te estripar e deixar você para os corvos. — Hmph, todos eles eram tolos, para ameaçá-lo assim. Se não fosse pelo braço ferido, ele teria desafiado a maldita meio-tigre e espancado ela, dando a ela um gosto do que estaria por vir. Ele teria de renomear ela com algo mais apropriado, algo mais civilizado.

Os Khishigs partiram logo depois, dispersos e desorganizados, uma exibição vergonhasa de desorganização. Sem disciplina, sem formações, só um punhado de pequenos grupos espalhados, correndo de frente em direção ao Inimigo. Isso mal surpreendia ele, já que disciplina era uma qualidade de humanos e esses selvagens mal eram dignos de tal designação. Eles deixaram ele com uma escolta de dez Khishigs montados, cada um esperando na borda do acampamento para que os soldados estivessem prontos, com um bárbaro peludo e de aparência selvagem no comando.

Gritando as ordens, ele começou a preparar as tropas e recolher o acampamento, resmungando para si mesmo em desgosto ao pensar em ter que ir para o próximo destino deles, provavelmente morrendo de dor devido a sua montaria. As tropas do Mentor dele logo chegariam, e depois disso ele estaria livre do serviço dele aqui no norte. Então, ele poderia receber a ajuda deles para prender Akanai e Alsantset, e matar aquele bastardinho linguarudo também.

Alsantset estava fumegando de raiva enquanto partia, furiosa com a inabilidade dela de agir. A encarada severa de Akanai falou muito, uma reprimenda silenciosa lembrando Alsantset que eles ainda precisavam do General de Brigada para comandar as tropas presentes. Sem ele, Akanai seria forçada a permanecer no comando da infantaria, limitando a utilidade dela nas batalhas na floresta que viriam. Mesmo se o Major Vichear estivesse saudável o bastante para comandar, Alsantset ainda não seria capaz de fazer nada com Kai, sendo suas palavras estimuladas pela sua raiva. Um General de Brigada era a patente máxima disponível para aqueles sem habilidade para comandar, e era impossível para Cho Jin Kai conseguir a patente dele sem força, não importava suas conexões. O homem pode ser um comandante incompetente, mas ele não seria um oponente fácil de se derrotar.

Se virando para afagar a cabeça de Song enquanto ela viajava com Suret, ela confortou a criança assustada:

— Não se preocupe, pequena Song, aquele homem não pode mais te machucar, eu não vou permitir. — A garota permaneceu em silêncio como sempre, mas seus olhos expressavam muito bem o quão grata ela estava, mas ainda apreensiva em criar esperanças. Apesar dela ser uma mulher crescida de dezenove anos, Song ainda era uma criança em muitas maneiras, e a maior parte disso era culpa do General de Brigada Kai.

Se apenas Alsantset fosse mais forte. Uma vez, ela foi o orgulho da vila, mas ela gastou os últimos cinco anos ensinando crianças e criando a família dela, ficando incapaz de devotar tempo o bastante para o seu treinamento. Embora um dia tenha sido rival de Gerel, ouvir falar das conquistas dele deixou ela desanimada, sabendo que ela foi superada faz tempo. Alsantset nem ao menos tinha certeza de que conseguiria matar um único Demônio, e Gerel os matava como se fossem galinhas em um abatedouro. Atualmente, ela tinha a mesma patente que ele, mas o conhecimento que ela não a merecia irritava muito ela. Alsantset não se arrependia da forma na qual ela gastou seu tempo, pois os últimos anos eram os mais felizes na memória dela, assistindo as crianças dela crescerem, ver Rain se desenvolver em um guerreiro esplêndido, passando tempo com sua Mãe e o amado dela. Ela só queria ter mais tempo para se dedicar ao treinamento como uma Guerreira Marcial, ser digna da patente de Capitã Senior. Seu pai lutou décadas como Capitão, e ele era muito mais forte do que ela quando foi promovido. Ela se sentia envergonhada, indigna da honra, mas Akanai insistiu, dizendo que ela era necessária.

Alsantset não tinha talento para comandar. As complexidades da liderança a frustravam muito. Ela preferia estar ao lado de Rain, mantendo ele seguro enquanto ele avançava para as linhas de frente, cuidando dos flancos enquanto ele lutava, mas com a patente dela vinha responsabilidade com outros, não apenas Rain, mas sim outras 1.000 vidas sob o comando dela, um número que só diminuiu desde que ela começou. Todo o foco dela estava em manter os seus soldados vivos e ela não tinha tempo para cuidar pessoalmente da segurança de Rain. As histórias dele lutando faziam ela se preocupar e se afligir. Ao final do dia, quando os relatórios eram entregues e os Sentinelas tratados, só então ela podia ser egoísta e perguntar sobre a condição dele, e os contos das conquistas dele a faziam ofegar de medo.

Independente das circunstâncias de sua coragem tola, Alsantset estava orgulhosa das conquistas de Rain, pois não havia como negar que ele era um guerreiro esplêndido. Era o resultado do trabalho duro e dedicação dele, ao custo de amigos e atividades relaxantes. Na maioria dos dias, Rain treinava até a exaustão, se ferindo de novo e de novo, apenas para estudar à luz de velas tarde da noite. Todas as tentativas dela de convencê-lo a relaxar mais foram respondidas com sorrisos e garantias, até na manhã seguinte quando ele saísse mais uma vez para treinar novamente.

Verdade seja dita, ela não persistiu no objetivo dela por muito tempo. Embora ela nunca tenha dito em voz alta, Alsantset sonhava que no dia em que ela voltasse para o Estandarte de Ferro com Papai, Rain estaria lá também, a pequena família dela protegendo o Império juntos, elevando seus nomes pela terra, Papai para liderar e Rain para curar. Então, alguns anos depois disso, os dois bebês dela iriam se juntar a eles junto com o amado dela, três gerações da família viajando juntos sob o Estandarte. Esse sonho parecia um pouco mais próximo a cada dia, Rain era finalmente capaz de colher os frutos do trabalho duro dele.

Enquanto Rain foi impressionante contra a Sociedade, no momento em que ele entrou para a guerra, a força dele pareceu ter aumentado dramaticamente, e sua atitude mudou também. Os soldados comuns falavam dele da mesma maneira que do filho do Magistrado, considerando Rain como um dragão em ascensão que ficaria no topo na próxima geração de heróis. Eles falavam de como ele lutava sem medo, liderando pelo exemplo, matando sem piscar enquanto andava no campo de batalha, duelando com Campeões Corrompidos e emergindo espancado e sangrento, mas vitorioso toda vez. Cinco Campeões em três dias, suas conquistas iriam chegar aos ouvidos do Marechal, talvez até lhe rendendo uma patente. General de Brigada Man Giao pessoalmente falou com Akanai sobre as conquistas dele, com seus elogios a Rain altos e entusiasmados.

E pensar que tudo isso começou quando Akanai trouxe ele para Shen Huo. As notícias de que Rain finalmente mostrou interesse em algo além de treinar fez Alsantset quase pular de alegria. Ser um Sentinela era um chamado honrado, onde ele poderia fazer amigos e companheiros de mentalidade parecida, e se ele desejasse se tornar um médico guerreiro, experiência de combate era necessária. O mês longo de separação foi agonizante para ela, e quando ele voltou tão ferido, ela ficou tão angustiada que quase pediu para Rain abandonar os sonhos de ser forte. Ela até foi ao escritório de Akanai, para repreender a velha por não cuidar do precioso pequeno Rain dela. Aquilo foi um erro terrível, um que ela esperava nunca cometer de novo. Não era surpresa que Papai ainda era tão obediente quando Akanai estava por perto.

Eles viajaram pela manhã até chegarem à área de acampamento pré determinada, uma colina gramada com um riacho a leste e sul, e montanhas ao norte. Era improvável que os Corrompidos os pegassem de surpresa aqui. O dia passou rapidamente conforme os Sentinelas sob o comando dela preparam o acampamento, escavando aterros para esconder suas fogueiras e paliçadas para impedir ataques de bestas Corrompidas, assim como fios de armadilhas e barricadas escondidas. A infantaria se juntou a eles ao anoitecer, os soldados parecendo cansados e exaustos, não acostumados a marchar pelas florestas. Eles provavelmente seriam usados para guardar o acampamento, enquanto Akanai liderava os Sentinelas dela pela floresta na manhã, caçando o Inimigo.

Assim que ela encontrou tempo, Alsantset foi até Rain, observando ele praticar. Ele estava realizando a Forma do Pássaro, “Pingos de Chuva Flutuantes”, uma série de rasteiras e giros rápidos e abruptos, como se alguém jogasse gotas de água. Ele parecia à beira da Iluminação de novo, com seu rosto franzindo em concentração enquanto ele repetia o movimento em diversas variações, tentando compreendê-lo. Iluminação através da batalha, algo que ocasionalmente acontecia, mas Rain parecia ter problemas em fixar as lições, de acordo com Sumila. Alsantset se sentou, um odre em mãos, uma refeição pronta para Rain quando ele terminasse, feliz com a cena do irmão mais novo dela ficando mais forte a cada dia.

— Capitã Senior, nós podemos conversar? — Yan saiu das sombras, ficando parada por perto, parecendo sombria e determinada.

Alsantset deu tapinhas no chão perto dela.

— Pequena Yan, somos só nós duas. Você pode me chamar de Alsantset. Se sente, eu adoraria conversar com você. — Pondo o braço dela ao redor da jovem moça magra até demais, Alsantset sorriu de maneira sugestiva. — Então, eu notei que sua quin está sendo cortejada por Zabu. Eu devo esperar que você e Rain estejam em uma situação similar? Eu deveria te chamar de Irmã ao invés de Yan.

Pequena Yan ruborizou furiosamente com o questionamento direto, vigorosamente negando como resposta.

— Não, não mesmo Capitã Sen… — Ela pausou ao ver o olhar de Alsantset. — Éee… Alsantset. — Outro rubor. — Rain é ignorante das implicações, apenas pensando que é fofo ver aquele Zabu cortejando. — Yan parecia chateada com a declaração, fazendo o sorriso de Alsantset ficar ainda maior¹

— Mas você está disposta a um possível cortejo com Rain? — Alsantset não conseguiu resistir e prosseguiu mais. Yan combinava bem com o Rain, com o amor mútuo deles por quins e temperamentos similares, a jovem Sentinela de boca suja iria manter Rain honesto, e a atitude dela lembrava Alsantset de Mamãe. Não doeria para Yan admitir o interesse, e, então, Alsantset poderia começar a avaliar a reação de Rain à possibilidade.

Tudo que ela recebeu como resposta foi um franzir da testa.

— Eu não sei. Às vezes, eu penso nele em uma luz romântica, mas eu vejo muitos dos homens que encontro da mesma maneira. Como eu vou saber se meus sentimentos são amor ou desejo?

Pobre garota, sem ninguém para aconselhá-la.

— Você irá saber quando estiver pronta. Se você desejar falar sobre isso, ou qualquer coisa mesmo, você pode vir sempre até mim. Nós derramamos sangue e dividimos fardos juntas, pequena Yan.

Finalmente, um sorriso da garota.

— Obrigada, Alsantset. — Ela coçou seu rosto vermelho antes de continuar. — Eu quero falar sobre o Rain, na verdade, mas não em relação a cortejo. Eu estou preocupada com ele. Em relação ao comportamento dele ultimamente.

— Claro. Eu me preocupo com ele também, mas isso é guerra. Ele está bem equipado, mas a realidade é que há pouco que você possa fazer, além de rezar. Ajude ele se puder, e chore por ele se ele cair. Essa é a verdade do mundo, mas ele é mais cuidadoso com a vida dele do que parece. — Apesar dela falar isso, Alsantset sabia que se Rain morresse em batalha, ela ficaria inconsolável.

Balançando a cabeça, Yan franziu os lábios.

— Não, não é sobre isso que eu estou preocupada. Bom, eu estou preocupada com isso, mas não é por isso que eu preciso conversar. É sobre o que aconteceu na aldeia. — A garota pausou, mordendo o lábio. — Quando ele estava começando o fogo, Rain estava fervilhando de ódio. Eu podia ver nos olhos dele, ele estava desequilibrado e homicida em sua raiva. Eu pensei que ele estaria inconsolável depois, mas quando ele saiu da floresta, ele estava calmo e sereno. — Ela pausou e olhou ao redor, antes de se inclinar e sussurrar: — Ele ia torturar um Corrompido, só para fazê-lo gritar, para que mais Corrompidos nos caçassem. Eu o parei antes que ele fizesse aquilo, mas se eu não estivesse lá, ele teria feito. Eu não notei na hora, mas a raiva dele tinha sido engolida, e ele só estava… frio. A mudança nele foi inquietante, depois que eu pensei sobre aquilo. Eu pensei que… algo… pode ter acontecido.

O sangue foi drenado do rosto dela conforme um nó pesado de preocupação começou a crescer no estômago de Alsantset.

— Você falou das suas suspeita com Akanai ou outra pessoa? — Mesmo sugerir que ele podia ter se Corrompido podia ser o bastante para ele ser banido das Pessoas, já que poucos iriam querer viver tão perto de alguém que possivelmente estava manchado.

— Não, claro que não! Eu quero dizer… eu não tinha certeza, então eu fiquei de olho nele, exceto quando ele sai para as batalhas. Porém, ele não causou nenhum problema desde então e até parece normal agora, mas eu ainda estou preocupada. Ele só está… calmo demais agora, relaxado demais depois de cada batalha. Lembra com a Sociedade? Uma vez que sangue fosse derramado ele era heróico como qualquer um, mas nervoso sempre quando nós não estávamos lutando. Seus olhos estavam sempre se movendo, procurando lugares para escapar e atacar, com os nervos à flor da pele, e olheiras se formando debaixo de seus olhos. É uma mudança de personalidade grande demais em um curto período de tempo. A única coisa que não mudou é como ele pratica.

— Pessoas se adaptam durante a guerra. Aqueles que falham em se adaptar, morrem. — Mesmo com o protesto dela, Alsantset sabia que havia peso nas palavras de Yan, mas ainda assim ela não podia aceitá-las. — Ele não mostrou nenhum sinal de instabilidade, crueldade ou apatia, e, embora, pareça afastado, é simplesmente quem ele é. Papai o observou por anos, se certificando de que nada estava errado. Rain está bem.

— Pode ter acontecido recentemente, nos estágios iniciais. Os outros sinais estão lá, Alsantset. Ele está confuso algumas vezes, eu vi isso. Ele vai sentar lá, testa franzida, tentando encaixar algo em sua mente. Ele é sensível à luz, sempre cobrindo seus olhos da luz do Sol, e coçando toda hora, como se o sangue dele estivesse se transformando. Ele não está dormindo muito também. Eu vejo ele praticando muito quando eu saio para o meu turno de vigia, e ainda está lá quando volto, e também quando eu acordo.

Havia mais. Alsantset podia ver que Yan estava segurando algo. Gesticulando para que ela falasse, Yan parecia perturbada quando ela perguntou:

— Ele te procurou para ajudá-lo a buscar o Equilíbrio, para usar o anel? Eu observei ele, e o Rain não medita mais. Pode ser que ele medita na tenda dele, mas Huu não tem dividido a tenda com Rain nos últimos dias. Ele, ah, encontrou outras acomodações, então tudo pode estar certo. — Yan soava esperançosa, e Alsantset queria acreditar também, mas se ele estava realmente desbalanceado, então mesmo que ela odeie pensar nisso, era possível que algo estivesse errado. — Eu estava quase certa que ele estava bem, mas o fato que ninguém vê ele ao menos tentando encontrar o Equilíbrio é o que me fez vir até você.

Outros sinais de aviso estavam aparentes agora que ela pensava sobre isso, o aumento de habilidade e força, sua apatia.

— Você estava certa em falar comigo, Yan. Por favor, não fale disso com mais ninguém. Nós devemos ter certeza absoluta. Ele pode só estar desbalanceado, e indisposto a buscar ajuda. — Os olhos de Alsantset travaram em Rain, que continuava o ”Pingos de Chuva Flutuantes”, sem ter conhecimento do olhar dela. Ela sentou lá, rezando para Mãe que ele ainda fosse a mesma pessoa, o preciso irmãozinho dela, que ele só estava enfrentando algumas dificuldades. Lágrimas caíram dos olhos dela, mas endurecendo o coração dela, ela focou na tarefa em mãos, virando para discutir com Yan a melhor maneira de falar com o Rain. Era possível que elas estavam só exagerando, mas ainda assim, ela se preparou para o pior.

Se o irmãozinho dela estivesse Corrompido, então o Rain que todos eles conheciam e amavam já estava morto, e ela iria matar a criatura que vestiu a carne dele antes que ele pudesse manchar as memórias que ela tinha dele, ou pior, colocar as Pessoas em perigo. O Imperador já exterminou vilas inteiras por menos.

Se ele estivesse Corrompido, então a morte seria uma misericórdia.

Por que foi que ela deixou ele se tornar um Sentinela?

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

11 Comentários

  1. obrigado pelo capítulo, torcemos para ser alguma coisa haver com a origem ancestral e não ser o que alsanet acha que é.

  2. Caralho!! Finalmente entendir porque o pessoal da vila se preocupava tanto com o prota. O negócio tá tão sério que até a irmã/mãe de Rain está cogitando matá-lo. Obrigado pelo capítulo

  3. Eu realmente acho que essa super preocupação com o Rain é desnecessária, ele não é feito de vidro 🙄. Mas a possibilidade dele ter se corrompido…

    1. Pior que é sim, heim. Qualquer motivo é o suficiente para ele se afastar de tudo e de todos… Ele não é psicológicamente estável, na minha opinião. Material de primeira para virar um Corrompido, imagina…

      1. concordo. cheio de traumas; um estranho numa terra estranha, etc. Ele lida bem, mas precisa de ajuda e não sabe como pedir. Pior, talvez pense que não mereça…

  4. As vezes, a melhor abordagem eh jogar logo a merda no ventilador e mandar a real, pede ajuda ou…. Vai morrer

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