DS – Capítulo 75

Quando abro a porta, ouço o latido tão familiar do meu cão me cumprimentar, e alguns segundos depois ele voa da porta, chiando e chorando de alegria. Me ajoelhando, eu o deixo correr em círculos ao meu redor, pulando nos meus braços por um segundo, apenas para perceber que ele está animado demais para ficar parado conforme ele luta para sair do meu abraço, apenas para repetir tudo de novo, seu rabo balançando tão furiosamente que sua bunda peluda balança para lá e para cá.

— Ei garotão, sentiu minha falta, não sentiu? Eu também senti saudades. — Lágrimas de alegria estão nos meus olhos ao vê-lo, um cachorro de pelo preto, orelhas caídas, e olhos grandes que olham para mim com alegria. Seu focinho ficou mais branco com a idade, mas ele ainda age como um filhote. Sua cabeça acerta meu peito, saboreando a coçada vigorosa que eu faço nela, me coçando com as patas para se certificar de que estou realmente aqui. — Quem é um bom garoto, voc-

Eu congelo no meio da frase, minha mente em branco.

Qual o nome do meu cachorro?

Acordando preguiçosamente na minha cama confortável, eu me aconchego mais fundo nos lençóis confortáveis, balançando lentamente enquanto eu estico minhas costas de uma maneira lenta e preguiçosa. Bocejando levemente, eu me viro, colocando meu braço ao redor da minha esposa, sentindo sua pele suave debaixo dos lençóis. Acariciando ela gentilmente, eu beijo seu ombro nu com leveza, aproveitando o simples contato com ela antes que nosso dia ocupado comece de verdade. Reagindo ao meu toque, Lin se aconchega em mim de novo, o cabelo preto longo dela tocando o lado do meu rosto, languidamente piscando os olhos enquanto ela sorri, falando docemente:

— Bom dia, maridinho.

— Bom dia, esposinha. — Se aconchegando no meu abraço, Lin fecha seus olhos mais uma vez, ainda não totalmente acordada. Minha doce esposa não é uma pessoa da manhã, gosta demais de fazer nada na cama comigo, e se eu deixasse, nós iríamos ficar o dia inteiro aqui. Nós temos ordens para cumprir, pílulas para fazer e ervas para colher, mas alguns minutos a mais não vão machucar. Nós temos uma boa vida juntos, segura e simples. Meus olhos se fecham conforme eu respiro seu cheiro, um perfume de flores na primavera, meus braços apertam mais a cintura delicada dela, segurando ela bem perto de mim. Seus quadris começam a pressionar em mim, sonolentamente me seduzindo com o jeito doce e inocente dela. Minha paixão se acumulando, eu começo a beijar seu pescoço e orelhas, minhas mãos passeando por seu corpo enquanto nós deitamos juntos.

Se virando para mim, ela me beija profundamente, me empurrando enquanto monta em mim. Depois de um longo e apaixonado beijo, sorrindo para mim, eu encaro com amor o rosto fofo de Mila, sua face com sardas e cabelo vermelho e sedoso, suas orelhas de panda se contraindo enquanto ela permanece sentada sobre mim, sorrindo com seu jeito tímido e sedutor.

— Pervertido. Sempre a primeira coisa que você faz toda manhã.

Me sentando, eu a beijo mais uma vez, aproveitando o peso dela pressionado contra mim. Depois de um momento, eu a deito, me deleitando com a risada dela enquanto suas pernas longas e bem esculpidas envolvem meu quadril.

— É sua culpa por ser linda pra caralho, amor.

— Hmph. Isso é muito fofo, vindo de alguém que pensou que eu era um homem. — Eu vejo o sorriso provocador de Yan, com meus braços prendendo ela levemente na cama. Ela nunca larga esse osso, me provocando sem parar apesar dos anos de casamento. Mordendo seu ombro levemente, ela geme de alegria debaixo de mim, seu corpo se esfregando contra o meu, brincando de vítima indefesa. Meu tesão se acumula, eu arranco suas roupas de dormir, revelando o seu corpo inteiro tonificado e delicioso por baixo, saboreando a visão de seus seios grandes e perfeitos.

— Você só vai olhar, ou vai fazer algo? Alguns de nós não são mais tão jovens. — Akanai me dá um sorriso irônico, seu quadril se movendo sugestivamente, seu corpo perfeito em cada jeito. Como eu fui ter tanta sorte?

O cheiro de café invade minhas narinas e eu tomo um gole cuidadoso do meu copo de café com leite instantâneo, quente e doce, do jeito que eu gosto. Eu não consigo me decidir se eu gosto de café com leite, ou leite sabor café. É só um daqueles mitos sobre crescer que eu cheguei à conclusão que não são reais. Eu pensei que haveria esse momento zen em que eu percebo que sou um adulto, com responsabilidades, e de repente tudo que eu quero fazer é jogar jogos de tabuleiro e beber café preto, ignorando política e eventos recentes. Ao invés disso, eu só fiquei mais velho, ainda rindo de piadas de peido e jogando videogames, indo a boates e bebendo, apesar de ter quase 30 anos de idade.

Ah, sim, introspecção da manhã com café, o quanto eu senti sua falta. Enrolado na minha cadeira, lendo coisas levemente divertidas no meu computador, antes de correr para trabalhar, fazendo o que eu amo. Segurando minha caneca com ambas as mãos, o calor me enche de felicidade que eu não sentia há anos. Deus, eu nunca pensei que eu sentiria falta de ir trabalhar. Por que eu não estava indo trabalhar ultimamente?

— Mais café? — Mila vem com uma bandeja de café da manhã e outro copo, os colocando na minha frente.

Uma vez que toda a comida está seguramente em minhas mãos, meu braço dá a volta na cintura dela e eu a puxo para meu colo.

— Você me trata bem demais, amor. — Depois de um beijo longo e apaixonado, eu tomo meu café da manhã entusiasmado, enquanto Mila cantarola baixinho, um tom familiar, mas eu não consigo lembrar do nome. Como era chamado? É uma balada, de um artista popular, que estava em um filme popular. Talvez eu só deveria perguntar para ela.

— Rain, venha, as crianças estão te chamando. Venha e tome conta dos seus pirralhinhos. — Yan vem e põe nos meus braços duas criancinhas se contorcendo, com um sorriso irônico em seu rosto. Ela reclama, mas ela ama as crianças mais do que eu, amando e mimando elas sem parar. Um menino e uma menina, ambos com olhos âmbar como os meus e chifres como os da mãe deles. Eles são meus bebês e eu os amo mais do que tudo nesse mundo. Rindo muito enquanto corremos, eu os trago para fora do lago, levando eles para nadar e brincar na água, enquanto os quins nadam ao nosso redor, brincando de pegar e agindo de maneira adorável. Zabu flutua de costas, pequenos filhotinhos de quin aconchegados em seu peito, uma cena perfeita de serenidade no meio do caos da brincadeira.

— Isso é patético. — Outro eu se levanta na minha frente, e de alguma forma eu sei que não estou no momento, mas na verdade olhando por fora, de pé… comigo mesmo. — Seus sonhos são tão mundanos e míseros. Você é um covarde até em suas fantasias. Família e crianças, são essas as suas ambições? — Apesar de termos a mesma cara, meu clone traz um sentimento de raiva e ódio em mim, e eu quero ele morto e fora daqui. Ele não pertence a esse lugar.

Respirando fundo, eu me acalmo e me viro de novo para minha família linda. Quem liga para ele, eu tenho tudo que preciso aqui.

Song se inclina no meu ombro e meu braço abraça seu quadril. Nós tivemos um começo difícil, mas fomos feitos um para o outro, duas pessoas unidas através de experiências semelhantes. Eu posso falar com ela sobre coisas que eu nunca falei com ninguém. Eu só quero que ela seja feliz, esposa feliz, vida feliz. Meu Pai costumava dizer sempre isso e a Mãe iria sempre responder com a mesma questão: “Se esse é o caso, então por que você está tão feliz? Você tem alguma outra esposa que eu não sei?” Então, todos nós iríamos sorrir e rir, juntos, como uma família.

Eu sinto tanto a falta deles.

— Qual o problema, Papai? — Minha linda filha com orelhas de coelho olha para mim, seus braços estendidos para um abraço. Trazendo ela para o meu peito, eu deixo lágrimas caírem livremente enquanto seguro ela em meus braços.

— Não há nada, docinho, Papai só está feliz em te ver. — Beijando ela na testa, eu começo a cantar para ela enquanto se aconchega nos meus braços, minha bochecha esfregando contra suas orelhas de coelho macias. Ela tem as orelhas da mãe e meu olhos, uma criança linda e doce. Lin se junta a nós, cantando junto comigo, e nós ficamos juntos, uma família feliz.

— Tolo. Você está desperdiçando seu tempo aqui, arriscando tudo por causa de mentiras patéticas. — De novo, eu fico no vazio, sozinho comigo mesmo. O otário está de volta, me olhando com seus olhos âmbar desdenhosos enquanto ele sorri para mim. Deus, eu sempre pareci tão otário assim? Não me surpreende que eu sempre arranjava problemas com estranhos. — Eles não são reais. Como você não pode ver isso? A maioria dessas pessoas nem têm rostos, essa alucinação é pateticamente fraca.

— EU SEI! — As palavras saem da minha garganta, e o estranho olha para mim do chão, minhas mãos em seu rosto e garganta enquanto eu o estrangulo. Seus olhos âmbar assistindo em pânico, implorando para mim sem palavras enquanto suas mãos magricelas arranham meus braços, mas ele é fraco, e eu sou forte. — CALA a porra da sua boca! Você acha que eu preciso de você para me dizer isso? Eu sei, e eu não preciso da sua CARALHA de pessoa para arruinar tudo. — Seu rosto fica vermelho-escuro, então roxo, sua luta começa a se intensificar enquanto ele balança seus pés, lutando pela vida. — Eu não ligo se não é real, eu estou feliz aqui. Eu mereço ser feliz! Então vai se FODER e morra. Por favor. — Eu aperto mais forte, e seu rosto se deforma enquanto meus dedos penetram sua carne. Esmagando ele no chão, eu continuo até que não reste nada além de uma polpa sem vida.

Respiro ofegante conforme minha raiva flui de mim, me deixando vazio de novo. Me virando de volta para o sonho, eu assisto incontáveis versões de mim vivendo vidas que são simplesmente perfeitas, e ainda assim cada uma diferente. Eu tento imergir em alguma, qualquer uma, mas meu coração não está mais lá, a ilusão quebrada, o véu se rasgou. Eu só assisto enquanto o tempo passa, vivendo mil vidas e então vivendo mais mil, todas no que parece um piscar de olhos. Eu me torno um guerreiro, um médico, um político, um professor. Eu tenho esposas e crianças, netos e animais de estimação, me cercando com amor e afeição. Eu derroto meus inimigos, supero meus obstáculos, ganho respeito e adoração de todos, mas assistir isso só me faz sentir vazio.

Eu vejo agora que eles são meramente sonhos, auto-indulgentes, incoerentes, situações quase masturbatórias, imitações deprimentes da verdadeira felicidade. Eu sabia que algo estava errado, sabia que era bom demais para ser verdade, mas eu queria tanto que fosse de verdade. Sem mais lutas, sem mais dor e sofrimento, sem mais medo e preocupação, só… alegria. A perda da paz e serenidade me fazem sentir como se uma mão estivesse apertando meus órgãos, me esmagando por dentro. Eu rezo e desejo que as coisas fossem diferentes, que a vida fosse diferente, mas ela não é.

Essa é a minha vida.

— Não faça aquilo de novo, foi extremamente desagradável. — Meu outro eu volta, parecendo petulante, uma criança que foi repreendida, só um pouco arrependida, mas mais hesitante que antes. — Você não precisa desse sonho. Você arrisca sua vida por essas promessas vazias, quando você pode simplesmente esticar sua mão e tornar isso realidade.

Balançando minha cabeça para ele, eu aceno com desdém.

— Você não entende, cuzão. Claro, eu posso encontrar uma esposa, ter algumas crianças, fazer o que eu quiser, mas no final do dia, o mundo ainda é uma merda, cheio de coisas e pessoas tentando me matar toda hora. — Meus olhos se fecham enquanto eu tento lembrar do sentimento de segurança, de não ter preocupações. — Eu estou exausto de ficar com raiva toda hora, de sempre ser vigilante, de quase morrer várias vezes por dia. Eu só quero descansar e relaxar, um pequena pausa do inferno que é a minha vida. Isso é pedir muito?

— Você pode descansar quando estivermos mortos, irmão. — Ugh. Eu odeio esse cara pra caralho. Franzindo a cara para ele, eu estudo meu clone. Eu não aguento ver ele, e depois de pensar sobre isso, eu acho que sei o porquê. Ele está parado lá, costas eretas, cabeça erguida, seu tom presunçoso e superior, palavras faladas de maneira lenta e clara, bruscas e sem cuidado, apontando minhas falhas e defeitos. Ele é tão malditamente confiante, me faz querer arrancar sua garganta. Por que eu não posso ser assim?

Acenando sem entusiasmo para ele ir embora, eu volto a assistir os meus sonhos.

— Pare de falar comigo e me deixa. Só pessoas loucas falam com elas mesmas.

— Bom, nós não estamos exatamente sãos agora, não é mesmo? Aquilo lá somos nós acariciando um coelho? Puta merda, tenha um pouco de orgulho próprio. Nós somos guerreiros! Pelo menos sonhe com uma orgia ou algo do tipo.— Ele aparece na minha frente, bloqueando minha visão com as mãos levantadas em submissão, calmo e sob controle apesar do fato que eu poderia esmagá-lo como um inseto. Eu odeio pra caralho aquele rosto. Não pertence a mim, ele pertence ao Rain, e me irrita que eu uso o mesmo. Eu não consigo lembrar de como eu costumava parecer não importa o quanto eu tente. — Eu só quero conversar, entender o que nós estamos fazendo aqui. — Esticando minha mão, eu arranco a pele da cara dele, arrancando como se fosse uma máscara de borracha, expondo a carne e osso por baixo, uma aparência quase cartunesca. Um gesto inútil, já que ele continua parado lá, tranquilo. Revirando seus olhos de maneira macabra, ele dá de ombros. — Se te faz sentir melhor, nós podemos conversar assim. Minha aparência não importa.

Meu estômago se revira ao ver aquilo, como olhar para um modelo anatômico, os músculos e veias no rosto ainda molhado e pulsante. Jogando a máscara de pele para ele, esta adere ao seu rosto e de novo ele está inteiro.

— Tá, conversar. O que você quer?

Ele faz uma careta enquanto toca seu rosto e começa a andar para lá e para cá, igualzinho a um tigre em uma jaula, passadas poderosas quase fazendo o chão tremer.

— Você tem controle completo aqui, é insondável. Como você é tão forte, e ainda tão fraco no mundo lá fora? Você desperdiça seu tempo com esses sonhos inúteis, enquanto cada momento que passa nos trás mais perto da morte na realidade. Você podia ignorar o ataque do Demônio em um instante, mas você persiste nele, e isso me aborrece.

— Claro que não, aquele Demônio chutou minha bunda. Um nocaute com um golpe. Estou bem certo que isso é só um sonho lúcido e estranho.

— Seu tolo inútil. — Eu nunca soube que eu podia parecer tão pretensioso, como um pirralhinho que acha que sabe de tudo. Eu estou começando a entender o porquê de todo mundo me odiar. É o meu rosto, tão mal-intencionado e orgulhoso. — Você não pode ouvir a voz dos ancestrais porque você os rejeita. Se abra para sua raiva, sua fúria, seu ódio, e a força dele será sua. Esse sonho é o ataque do Demônio.

Suspirando profundamente, eu me agacho e ponho minha testa nos meus joelhos. Ótimo. Como se falar comigo mesmo não fosse ruim o bastante, eu estou falando com uma versão minha que não bate nada bem da cabeça.

— Então, você fala com pessoas mortas. Ótimo. Vai embora agora.

Com um pensamento, ele começa a desaparecer, pixels se partindo em pedaços, desaparecendo enquanto some no vazio. — Não, pare! Você precisa acordar! Nós precisamos sobreviver!

— Tá, tá, tchauzinho agora. — Balançando a mão para sua forma no processo de desaparecer até que nada mais sobra, eu volto a assistir os sonhos, tentando imergir dentro deles novamente. Eu quase esqueci como era se sentir despreocupado e contente, minha vida antes dessa esquecida, mas os pequenos pedaços do que eu tive foram o bastante para que eu soubesse o que me faltava. Sem mais treinamento até a exaustão para que eu finalmente consiga dormir, sem mais checagem constante por perigos escondidos, sem mais preocupações se um estranho quer me matar por causa de um comentário fora de mão. Só quietude, uma existência pacífica com minha família, a antiga e a nova.

Por que eu não posso ficar aqui para sempre?

Uma memória salta dentre as outras, chamando minha atenção, e eu me foco, entrando na ilusão, vivendo dentro dela e não assistindo. Sucesso. Eu estou sentado em um sofá familiar, ferrado, o cachorro enrolado no meu lado, nós dois assistindo uma tela, mudando para diferentes cenários sem realmente prestar atenção neles. As emoções enchem o meu ser, e eu me sinto desanimado, desencorajado pela falta de respostas, sem trabalho devido à “reestruturação corporativa”. Sem outras opções disponíveis para mim, eu voltei a morar com meus pais, incapaz de viver por conta própria mais, um fracasso. Sem namorada, sem casa, sem trabalho, eu vivo uma existência inútil. Os canais mudam, meus olhos desfocados enquanto eu busco distração dos meus problemas. Não exatamente a memória boa que eu estava procurando.

Meus pais entram, eu me movo para o lado para que eles possam sentar no sofá comigo.

— Você está sentado nesse sofá por dias. — Não há acusação no tom do meu pai, só uma pura declaração de fatos. Eu dou de ombros como resposta, assistindo algumas pessoas estúpidas conversar sobre coisas estúpidas na tela.

Minha mãe pega o controle e desliga a tela.

— Olhe para nós, Rayne. — Eu me viro para eles enquanto evito olhar para seus rostos, sabendo que se eu o fizer não vou ver nada. Eu não quero vê-los, eu só quero ouvir suas vozes, sentir como era estar com eles. — Tudo que você está fazendo é se esconder, e isso não resolve nada.

Eu quero contar tudo a eles sobre o que aconteceu, que eu sinto falta e amo eles, mas as palavras congelam na minha mente, com outras predeterminadas saindo:

— O que mais eu deveria fazer? Eu trabalhei duro, acumulei dívidas para que pudesse ir para a escola, trabalhei duro no meu trabalho para que eu pudesse ganhar meu salário, e o que eu tenho para mostrar? Nada, exceto mais dívidas. Dez anos de trabalho duro, e aqui estou eu, 30 anos de idade, vivendo com meus pais. Isso é humilhante pra caralho.

Minha mãe não se afeta com a minha pirraça, e sua mão se estende para segurar a minha, a apertando para me confortar.

— Eu entendo, você está com raiva, e está tudo bem, mas você não pode deixar isso controlar todas as suas ações. Está na hora de seguir em frente. Há coisas nesse mundo que você não pode controlar, mas você não pode deixar elas te impedirem de viver sua vida. Se tudo que você fizer é se preocupar sobre o que pode acontecer, então você pode muito bem só desistir. — Seu tom suaviza, e ela me dá um abraço caloroso. — Mas você não é um desistente. Eu sei disso, porque você é nosso filho, e você sempre vai ter a gente para te apoiar. Nós te amamos, Rayne.

Meu pai abraça a nós dois, rindo:

— Não se preocupe filho, eu gosto de o ter por perto. Isso só significa que eu não vou mais ter de cortar a grama mais. — A cena desaparece enquanto nós rimos juntos, e eu fico de pé sozinho no vazio enquanto lágrimas escorrem do meu rosto.

Questões perguntadas e respondidas.

Apesar de saber que eles não podem me ouvir, eu digo as palavras que eu queria ter dito para eles.

— Mãe, Pai, me desculpem por não dizer adeus. Tomem conta do meu cachorro, por favor. Obrigado por tudo. Eu amo vocês.

Depois do que parece uma eternidade, eu finalmente paro de chorar e me sento, pensando sobre as palavras da minha Mãe. Minha cabeça parece mais clara do que esteve em decanas, um nevoeiro sumindo da minha mente. Eu não sei se aquilo foi uma memória real, ou se foi só um sonho, algo que eu subconscientemente sei, mas eu precisava ouvir aquilo.

Superar minha raiva e parar de me esconder.

Não se preocupar sobre coisas que eu não consigo controlar e só viver minha vida.

E mais importante de tudo, eu tenho pessoas que me amam, família e amigos em que eu posso me apoiar.

Novas regras para se viver, um passo de cada vez.

Com um último olhar melancólico para os incontáveis sonhos, eu fecho meus olhos e desejo que eles vão embora. Eu sinto eles quebrando e desmoronando enquanto o mundo se desfaz, e quando meus olhos se abrem novamente, eu estou encarando um céu estrelado, enquanto estou deitado em um campo de terra, com sangue e cadáveres, meu corpo tremendo em agonia dos ossos quebrados e músculos sobrecarregados.

Eu imediatamente me arrependo daquela decisão. O mundo real é uma merda.

Lutando para me levantar enquanto afogo meus gritos de dor, eu me sento, exausto e sobrecarregado. Eu deveria ter ficado dormindo. Talvez não seja tarde demais e eu ainda posso voltar para trás se eu me concentrar.

Ouço aço batendo em aço ao meu lado, e abro meus olhos a tempo de ver uma criatura gigante de ossos brancos cair no chão a apenas alguns metros de distância, escorregando na lama vermelha. O Demônio conhecido como Vivek parece um pouco agredido, suas protusões ósseas nas suas costas quebradas e arrebentadas, vários buracos na forma de seu corpo previamente suave. O rosto largo e chato olha para mim com olhos negros cheios de fúria conforme encaro de volta, com medo demais até para piscar. Akanai entra na minha visão periférica, parecendo cansada e exausta, sua força gasta. O Demônio luta para ficar de pé e agarra um cadáver próximo, devorando ele inteiro, moendo até virar uma pasta dentro de sua boca, e as feridas em seu corpo se curam diante dos meus olhos, um brilho lustroso emitindo da sua forma óssea, crescendo e se reparando diante dos meus olhos.

 

Merda.

 

Eu odeio minha vida.

 

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

9 Comentários

  1. Que coisa em, os sonhos dele passam de mulher para mulher e mesmo assim todos são felizes uahauuhuha
    Sair daqueles sonhos e acordar no meio da guerra é realmente uma merda!

  2. pelo menos agora acredito que ele não ira vira um corrompido, ainda to preocupado com a akanai, espero mesmo que ela não morra

  3. Caras, lendo a parte dos sonhos, e quando ele fala consigo mesmo, atacando o “outro” e tals, tive a nítida lembrança de ter visto essas cenas em quadrinhos/manga. Talvez não de DS, mas de alguma novel com temática semelhante, não sei. Estava em português. Puts, agora vou ficar encasquetado até encontrar…

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