DS – Capítulo 76

O Demônio conhecido previamente como Vivek me ataca antes que eu consiga reagir, a distância entre nós encurtada em um instante, suas garras afiadas arranham meu rosto antes da estocada pesada de Akanai o mandar para longe. Me arrastando para trás, minha respiração presa na minha garganta enquanto meu coração bate furiosamente como um martelo no peito, ameaçando explodir.

— Vá embora agora! — Akanai grita comigo enquanto luta com o Demônio, um redemoinho de movimentos enquanto ela se move, dançando graciosamente ao redor da criatura enquanto ela mantém sua distância, os dois se atacam de novo e de novo, uma batalha poderosa entre mulher e Demônio. Sua arma corta os ossos como se fossem manteiga, se movendo enquanto ela corta a criatura, mas eu posso ver que ela está quase exausta. Eu preciso encontrar alguém para ajudá-la.

— Nós podemos matar o Demônio, irmão, consiga para nós honra e glória. — As palavras soam no fundo da minha cabeça, fracas e abafadas enquanto eu fujo, embalando meu braço esquerdo quebrado enquanto eu me movo pelo campo enlameado, correndo em direção aos soldados mais próximos. — Porém, você precisa me libertar, o que quer que você tenha feito antes está me impedindo de te ajudar como antes.

Merda. Eu ainda estou sonhando, ou eu estou realmente ouvindo vozes? Eu deveria ignorar ele. — Eu nem tenho minha espada, mas com que porra eu vou matar aquilo? — Lá se vai o plano.

— A força dos ancestrais que você experimentou não é nem um vigésimo do que eles podem te dar. Me liberte e eu irei te mostrar como nós rasgamos a Criatura Branca em pedaços. — Enquanto eu chego perto dos soldados, eu vejo o rosto apático deles, suas expressões de alegria, parecendo ridículos parados lá ignorantes do que está acontecendo ao redor deles. Eu espero não ter parecido idiota daquele jeito, e se sim, espero que ninguém tenha visto.

Fazendo careta enquanto busco alguém para ajudar que não seja um vegetal, eu engulo meu orgulho e falo:

— Então o que eu precisaria fazer? — Há mais cadáveres conforme eu me afasto, e eu tremo com a memória do Demônio devorando os corpos. Eu fui sortudo que o Demônio não me devorou enquanto eu estava na terra dos sonhos.

— Me liberte, me deixe tomar conta das coisas. E eu vou te mostrar nossa verdadeira força e nós seremos elogiados por todos.

Idiota do caralho.

— Sim, eu perguntei como, imbecil.

Seu silêncio é sobreposto com os sons da luta, Akanai lutando contra o Demônio, atacando e aparecendo por perto e depois fora de vista.

— Eu não sei. Você me manteve controlado, não me permitindo sair completamente. Isso não foi intencional?

— Não, vei, eu literalmente descobri sobre você poucos minutos atrás. — Deixar ele sair, deixar o idiota, confiante, imprudente sair. É tudo mental, eu só preciso liberar a besta dentro de mim.

— Então, eu estou incerto sobre o que deveríamos fazer. — Ele parece magoado e entristecido, uma criança amuada, protestando contra o mundo.

— Cala a porra da boca! Eu estou pensando. — Respirando fundo, eu fecho meus olhos e imagino o outro eu, de pé com confiança, orgulhoso e sem medo, o brilho em seus olhos prometendo violência enquanto seus dedos batem de leve em seu quadril onde minha espada está geralmente presa. Sua linguagem corporal sugere poder e impaciência, brutalidade e selvageria em suas emoções. Ele fica de pé atrás de mim em minha mente, e eu dou passo para o lado, permitindo que ele fique livre. — Vá.

Meus olhos se abrem e uma risada baixa sai da minha garganta. Funcionou. Sem direção, meu corpo se move, agarrando a lança caída enquanto eu volto para onde Akanai e o Demônio estão travando seu duelo mortal, meu braço quebrado não mais pulsando de dor, mas ainda pendurado inutilmente a meu lado. Minha pele vai de um leve comichão até uma faixa de fogo ardente conforme eu aumento minha velocidade, atacando o Demônio, correndo na velocidade máxima com a lança na minha frente. O Demônio luta com Akanai enquanto se move no campo, e a arma dela assobia no ar enquanto corta a quitina de meu inimigo.

Um rugido bestial sai da minha garganta enquanto eu me aproximo, me movendo mais do que eu pensei ser possível, e minha lança acerta o Demônio. Minha arma se quebra sob o estresse da colisão, e meu corpo atropela o Demônio e para abruptamente, o Demônio impassível com meu ataque. Me virando para encarar incrédulo enquanto eu cambaleio para trás, o Demônio balança seu braço, um golpe casual e lento com as costas das mãos que quebra ossos e me arremessa para longe, caindo no chão e lama, deslizando até parar.

A dor vem toda de uma vez enquanto eu grito de maneira patética, meu outro eu fugindo para minha mente, me deixando com os frutos do meu trabalho, uma agonia torturante que irradia por todo o meu corpo. Cuspindo dentes, sangue, e terra, tossindo para tentar limpar minhas vias aéreas, eu gemo e rezo para a doce inconsciência. Sangue espumoso borbulha dos meus pulmões perfurados, cada inspiração parecendo que uma serra afiada está rasgando meu peito, e eu espero a morte vir enquanto eu deito de cara no chão, tentando gritar, mas me falta ar para fazer isso.

Desapontado!

Aquele cuzão do caralho. “Rasgar em pedaços aquele Demônio”, ele diz. De mãos vazias o caralho, apanhou igual cachorro e me deixou para pagar o pato.

Bom, é isso que eu ganho por escutar a voz na minha cabeça. Isso deveria ter sido óbvio para mim desde o início. Bom tanto faz, eu dei meu melhor. Hora de jogar os dados de novo e fazer uma ficha nova.

Eu realmente espero não reencarnar de novo, eu espero que exista algum tipo de paraíso, para que eu possa encontrar meus pais de novo, e descobrir como eles se parecem. Eu deveria agradecer o Demônio por me mostrar aquela cena, real ou imaginária, a memória do abraço dele me enche de calor, a dor desaparecendo, e eu escuto as palavras de minha Mãe mais uma vez, como se ela estivesse me segurando, sussurrando no meu ouvido:

— Você não é um desistente.

Minha mente se clareia, e as palavras ressoam pela minha cabeça. Eu não sou um desistente. Essa é a minha força, eu persevero onde os outros teriam desistido, aguento onde outros teriam quebrado, caso contrário eu teria morrido incontáveis vezes. Minha família antiga vai ter de esperar, eu tenho uma nova família aqui, e eu não estou pronto para deixar eles partirem. Essa dor não é nada, essas feridas não vão me impedir. Isso não é só sobre mim, se Akanai morrer, então não vai mais haver ninguém para lutar contra o Demônio. Um passo de cada vez. Eu preciso me curar. Simples o bastante. Só busque Equilíbrio.

A Energia dos Céus vem ao meu comando, me enrolando em um abraço familiar, caloroso e calmante. Abrindo meus olhos, meu corpo tendo espasmos enquanto tusso, o sangue sendo forçado para fora dos meus pulmões enquanto minhas feridas começam a se curar lentamente. Pressionando meu rosto no chão, eu me empurro e tento me levantar, avaliando minhas feridas. Ambos os braços quebrados, meu peito afundado, mais alguns hematomas, feridas internas, e mais abrasões do que eu consigo contar, mas minhas pernas funcionam. Mais ou menos. Próximo passo, encontrar ajuda.

Mancando lentamente para longe, eu me movo pelo campo enquanto foco em me manter vivo, uma dúzia de correntes de chi conecta meus vasos sanguíneos e me impedem de sangrar até a morte. Meu braço direito está em perigo de fazer meu corpo entrar em choque, possivelmente até desligar meus rins por causa dos tecidos esmagados, e com um pensamento eu corto todo o suporte do meu corpo além do meu ombro. Seria melhor se eu pudesse literalmente decepar ele, mas isso vai ter de servir por agora, me dar uma hora ou mais, muito tempo.

Respiro ofegante enquanto meu único pulmão funcionando trabalha dobrado, fornecendo energia para o meu corpo quebrado enquanto passo pelos soldados congelados, aonde eu vejo uma linha de roosequins e Sentinelas, todos congelados como os soldados. Não mais ninguém vivo por perto, e eu tropeço em direção a eles, metro por metro, examinando seus rostos em busca de alguém que possa ajudar. Há apenas uma pessoa que eu reconheço, Dagen, que está sentado em cima de seu roosequin, e eu paro na frente dele, encarando seu rosto. Ele parece intimidante, uma mudança súbita em seus olhos sendo o único sinal de conflito em sua mente. Eu não me sinto mal por ficar mergulhado no sonho por tanto tempo quanto eu fiquei. Nem Dagen conseguiu lutar contra as memórias felizes. Respirando fundo, eu grito para ele o melhor que eu posso, um grito mísero, quebrado:

— Acorde!

Não há resposta aos meus gritos lamuriosos, sem resposta de ninguém exceto os sorrisos patetas e expressões vazias enquanto eu bato em Dagen com toda a minha força, tentando acordar ele do seu transe. Porra, é tudo ou nada. Me inclinando para frente, eu mordo seu pulso carnudo, esperando que a dor o acorde, incerto do que mais eu posso fazer. Conforme meus dentes tocam nele, um solavanco vai da minha boca para meu cérebro, enviando ondas de pura dor por todo meu corpo enquanto eu volto para trás e caio no chão, me contorcendo de dor. Mas que porra aconteceu?

Piscando de maneira grogue, eu fico de pé cautelosamente, xingando baixinho conforme eu me levanto da grama. Minhas pernas perdem a força sob meu peso, e eu caio para a frente, mas quando vou me estabacar de cara no chão lamacento, estico minhas mãos na minha frente enquanto caio de joelhos na grama alta, com o cheiro de flores naturais da primavera no ar. Me levantando de novo, eu olho ao redor do mar de cores, um campo lindo e perfeito que cerca o pátio delicado e pitoresco de uma mansão. Eu acho que esse é o sonho de Dagen? Meu corpo está inteiro e ileso, e sem nenhum outro lugar para eu ir, eu ando em direção à mansão.

O cenário muda e Lin fica na minha frente, segurando nossas duas filhas, mas eu as ignoro quase que de imediato, voltando para o campo. Eu estou farto de sonhos. O som de crianças rindo me cumprimenta enquanto eu fico na porta e vejo duas crianças lindas, com certeza elas nem têm cinco anos, brincando na terra, enquanto Dagen está deitado de bruços, brincando com elas, com sua expressão alegre coberta de terra e sujeira. Seu cabelo está penteado e cortado, amarrado em um coque, sua barba longa aparada e belamente trançada, jogada por cima do ombro para mantê-la longe do chão. Uma mulher adorável senta por perto, tocando um instrumento de cordas enquanto os assiste, vestida com sedas e jóias, seu cabelo magnificente e elegante, um sorriso encantador em seu rosto. Os detalhes são claros e nítidos, a ameixeira cheia de flores rosas, uma lagoa límpida com seus peixinhos dourados pulando, os detalhes intrincados na marcenaria da porta, as notas claras do instrumento, tudo isso me leva a acreditar que isso é uma memória verdadeira, algo que ele viveu antes e não um construto de sua mente.

Essas são as memórias de Dagen, é com isso que ele sonha, uma pequena família perfeita. Está vendo isso, outro eu? Eu não sou o único com sonhos “míseros”, não há nada melhor do que uma família. Enquanto há algumas inconsistências que eu consigo enxergar, elas não são tão gritantes ou óbvias como as minhas. Algumas flores são impossíveis de criar, os padrões das cores nos pássaros estão errados, o chamado do pássaro se repete, mas ainda Dagen está absorto na ilusão.

Ele parece mais jovem aqui, sem a pele enrugada ou o olhar durão, seus olhos alegres e brilhantes, suas roupas de materiais de ótima qualidade e bem feitas, dando um ar de um jovem estudioso e não um soldado veterano. A diferença de alguns detalhes e a transformação é tão grande que eu mal posso acreditar que é a mesma pessoa. Ele parece tão alegre e despreocupado, que eu quase quero deixar ele aqui, mas eu não posso fazer isso.

Com um pensamento, eu dispenso a memória, e espero que o mundo se desfaça.

O Sol continua a brilhar enquanto as crianças brincam, Dagen as direcionando enquanto elas cavam e jogam terra, a mulher continua a tocar seu instrumento, os pássaros cantando enquanto se movem entre as árvores.

Hmm.

Não funcionou. Eu acho que não sou todo-poderoso aqui. Talvez porque tudo isso é do Dagen?

Bom… merda. O que eu faço agora?

Hesitando, eu continuo a assistir a vida feliz de Dagen enquanto ele brinca com suas crianças, sua risada feliz e despreocupada me pega de surpresa. Eu não conheço ele muito bem, mas pelo que eu vi, ele raramente ri fora da batalha. O homem ama matar Corrompidos, varrendo eles com seu martelo de cabo longo, transformando-os em uma bagunça sangrenta com cada golpe. Fora da batalha, ele é taciturno e rígido, sempre querendo ajudar com o treinamento, mas nunca gentil demais, um sorriso irônico nunca longe de seu rosto quando ele espanca outro Sentinela. Eu gosto do homem, e vendo esse lado dele me faz querer gostar dele mais ainda. Ele parece um bom pai, e olhando para suas roupas, parece que antes ele levava um vida muito diferente. Eu me pergunto qual é a história dele.

Finalmente, incapaz de adiar mais, eu limpo minha garganta, atraindo sua atenção. Dagen olha para mim e seu sorriso congela, igual o mundo ao nosso redor, escurecendo por uma fração de segundo. Pétalas de flores paradas no lugar, uma única nota pendurada no ar, suas crianças e esposa rígidos e imóveis, o lindo e brilhante verniz desta memória perfeita se quebra. Em um instante, o mundo muda à nossa volta, as muralhas se quebram e queimam, a grama pisada e revirada, a árvore quebrada ao meio. Sua esposa e crianças jazem mortos no chão, juntos no pátio, perfurados com lança e espada, seus corpos e roupas desalinhados, a morte sobre eles.

Apenas por um instante. Então, as crianças voltam a cavar na terra, sorrir e rir, a melodia continua a tocar, a casa e o jardim intocados e vibrantes. Dagen continua deitado lá, olhando para mim com uma mistura de desespero e resignação, a dor claramente estampada em seu rosto conforme eu percebo o porquê dele não conseguir ir embora por conta própria, por que ele ficou tão extasiado com essa lembrança. Uma mão gelada agarra meu coração enquanto eu compartilho sua dor, sabendo que o sonho teria parecido real para ele o momento que este ruiu, que agora ele sofreu a dor de perder sua linda família uma segunda vez.

Engolindo o caroço na garganta, eu vou até ele, estendendo uma mão para ele agarrar, como ele fez tantas vezes durante o treinamento.

— Você não pode ficar deitado aí Sentinela. Há uma guerra para travar e inimigos para matar. — Depois de uma longa pausa, seu rosto inelegível, ele acena para mim antes de pegar minha mão. Ele beija suas crianças na testa, e vai até sua esposa, e a beija nos lábios. Ele fala, mas eu tapo meus ouvidos e desvio minha atenção, permitindo que eles tenham um momento de privacidade. Depois de alguns momentos o mundo se quebra ao meu redor como pedaços de vidro caindo no chão, e nós estamos no vazio mais uma vez.

Meus olhos se abrem e, novamente, eu estou de pé no campo de batalha, o punho de Dagen na minha boca enquanto eu olho para sua expressão confusa e furiosa. Minhas pernas tremem antes de perder a força, e eu caio no chão. Me pegando pelo pescoço, Dagen me firma de pé enquanto ele desmonta e fica de pé em silêncio, olhando para o lugar onde Akanai e o Demônio batalham sem estar a vista, uma batalha de proporções titânicas conforme eles fazem as copas das árvores tremerem com seus golpes. Uma única lágrima escorre de seu rosto, abrindo caminho através da sujeira e fuligem, deixando um rastro cintilante em seu rosto, o resto de seu corpo parado com uma rocha.

Depois de poucos momentos, ele fala:

— Obrigado por me acordar garoto. Foi um bom sonho, e eu me perdi dentro dele. Você está bem? — Suas palavras estão empoladas, forçadas, a garganta fechada enquanto ele luta com a dor.

— Eu vou ficar bem. — Eu acho. Talvez. Eu estou um pouco tonto. — Você sabe quem é o Sentinela mais forte além de Akanai? Ela precisa de ajuda com o Demônio, e talvez eu possa acordar eles também. — Exceto a parte da mordida. Aquilo foi muito estranho.

— Ha Ha Ha! — Com uma risada triste, lenta e um olhar melancólico, seus olhos parecem desfocados enquanto ele olha para mim. — Você me subestima garoto, mas é isso que eu mereço por ter sido tão tolo. Siga de perto e assista, para que eu possa redimir meu orgulho. Você não precisa acordar mais ninguém, deixem eles dormirem um pouco mais. — Ele anda até o Demônio, seus passos largos encurtando a distância enquanto ele me carrega em direção à luta, cada pé plantado firmemente na lama antes de se mover, suas costas eretas e ombros prontos. Em pouco tempo, avistamos o Demônio, pressionando Akanai enquanto ela continua a perder terreno perante ele. Eu percebi agora que ela estava mantendo-o longe dos soldados e Sentinelas, forçando-o a se alimentar dos cadáveres dos mortos, ao invés dos ainda vivos e em transe.

Dagen gentilmente me senta no chão antes de irromper em uma marcha pesada, não correndo exatamente, mas se movendo rápido demais para estar andando. Com um pulo, ele navega pelo ar, seu martelo de cabo longo segurado com ambas as mãos, apontando direto para o céu. Ele ataca no ar ainda e acerta o Demônio com um estrondo trovejante, o som reverberando nas minhas orelhas e mais uma vez o mundo fica em silêncio exceto por um grito agudo familiar.

A rajada de vento atrasada me atinge, emanando do ponto de impacto, obscurecendo minha visão. Protegendo meus olhos, eu me esforço para ver o que está acontecendo através da poeira e destroços, e com grande dificuldade, eu consigo enxergar duas figuras se movendo ao redor do Demônio enquanto este luta com garras e sabres. Dagen permanece firme, seus pés plantados, cada golpe dele acerta um ponto vital, criando rajadas de vento, mas seu oponente continua imóvel, como se fosse acertado por um brinquedo. Com cada bloqueio, os pés de Dagen afundam mais na lama enquanto ele ataca o Demônio sem medo, sua arma brandida como um bastão, girando e bloqueando, golpeando e estocando. Akanai se move com graça ao redor do Demônio, desviando de seus ataques errantes, circulando-o, perfurando e cortando ele quando uma oportunidade se apresenta, cortando pedaços da criatura, tentando aleijá-la, mas falhando.

Incapaz de se focar em um único alvo, o Demônio fica mais frustrado conforme ataca de novo e de novo, indo e voltando conforme Akanai desvia aparentemente sem esforço, Dagen encarando-os de frente com facilidade conforme a luta se desenrola. Dez golpes se tornam vinte, que se tornam trinta, e ainda Dagen permanece ileso, enquanto o Demônio é destruído, pedaço por pedaço, sua forma visivelmente encolhendo conforme ele repara o dano enquanto luta sob os golpes dos dois guerreiros.

A batalha continua por vários minutos, e Dagen parece exatamente um herói enquanto sua arma acerta o Demônio, mas causando pouco dano ao mesmo. Akanai é mais bem sucedida, mas o Demônio é incapaz de de perceber isso, focando quase toda sua atenção em Dagen, seus cortes e golpes frenéticos parecendo imparáveis até que encontram o objeto impassível que é Dagen, que recebe cada golpe com calma, parecendo não mais estressado do que quando luta comigo.

Um golpe errático do Demônio pega Akanai, arremessando ela para trás, incapaz de resistir ao golpe como Dagen faz. Aproveitando a oportunidade, Dagen acerta um golpe pesado que culmina em um golpe leve no ombro do Demônio, e para minha surpresa e choque, o ombro explode, com pedaços de osso e vísceras, fluídos amarelos, vermelhos e verdes jorrando enquanto a criatura é arremessada no chão pelo golpe. Ele tenta levantar, apenas para receber um segundo ataque no joelho, explodindo mais uma vez, como se explodindo por dentro, completamente o contrário de como este deveria quebrar. Mais golpes seguem em vários pontos vitais, e eu percebo que todos são em áreas que Dagen acertou antes, cada uma várias vezes. Eu acho que finalmente valeu a pena, e o resultado veio de uma vez só, e logo a criatura jaz no chão, com seus membros quebrados, sua coluna arregaçada em uma postura bizarra, e sua cabeça inclinada em um ângulo não natural.

Dagen está de pé diante dela e levanta seu martelo, segurando com ambas as mãos no fim do cabo, e o desce no peito do Demônio, fazendo respingar osso e icor. Ele o levanta de novo, repetindo o movimento, e eu posso distinguir a expressão em seu rosto, gritando furioso, sua raiva sendo descontada naquele responsável por abrir suas antigas feridas. Ele fica lá e martela a criatura de novo e de novo, até que depois de uma dúzia de golpes, ele não consegue mais levantar o martelo, sua força gasta enquanto permanece de pé vitorioso em frente ao seu inimigo caído, ferido e sangrando, lascas de osso incrustadas em sua pele e rosto, queimaduras do icor cobrindo seu corpo.

Estou oficialmente reivindicando uma assistência por essa morte.

Akanai o pega antes dele cair, e os dois ficam de pé no campo, radiantes  sob a luz do luar que brilha quase tanto quanto a luz do sol. Ao nosso redor, os soldados começam a voltar a si e eu observo seus rostos enquanto saem do sonho, alguns confusos, alguns tristes, outros com raiva ou com vergonha. Logo, eles começam a levantar seus braços, suas bocas abertas no que eu só posso presumir serem gritos estrondosos de congratulação para os heróis vitoriosos, comemorando ao ver a polpa do que era o Demônio. Momentos depois, os Sentinelas chegam em seus quins e levam Dagen, mole e ferido, para os médicos, enquanto eu permaneço sentado, esgotado pelos eventos da noite, ansiando por um bom banho quente e uma cama quente e firme. Estou cansado demais para até mesmo querer mais.

Alsantset aparece na minha frente, e eu sorrio para ela enquanto sua boca se move, um olhar de preocupação em seu rosto.  — Eu estou bem. Não posso te escutar. Orelhas quebraram. — Meu sorriso aumenta conforme ela embala meu corpo, me segurando por perto, minha cabeça descansando em seu ombro. — Encontrei Equilíbrio. Posso consertar. Porém, mais tarde. Soninho. — Ela afaga a parte de trás da minha cabeça enquanto eu caio no sono.

 

Eu sou um cara de sorte.

 

Duas vidas, duas famílias incríveis que me amam.

 

Não posso pedir mais do que isso.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

12 Comentários

  1. Quando achei que o leão tava saindo da jaula foi só um gatinho que tomou uma tapa e já se escondeu kk

  2. Adorei o desenrolar da luta. Não foi que nem uns mangas que o protagonista tira força da puta que pariu é derrota o inimigo facilmente, o prota teve que fazer algo mais interessante, usar a cabeça e a perseverança. Obrigado pelo capítulo

  3. acho que a outra personalidade na verdade é o mesmo poder que o corrompido-chefão ostentava. Falava com os ancestrais e tals. Talvez seja uma pista da origem do Rain desse mundo…

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