DS – Capítulo 77

Akanai se sentou enquanto dava suas ordens, organizando os trabalhadores para queimar os corpos e limpar a colina. Várias covas já estavam em chamas no fim da colina, enquanto os soldados jogavam sem cerimônia os cadáveres dos Corrompidos nelas. Um sepultamento muito melhor do que eles mereciam, mas ela não tinha escolha. Ela não podia permitir que os corpos ficassem e apodrecessem tão perto do acampamento deles, trazendo carniceiros e predadores sem distinção. Ainda havia muito trabalho para ser feito.

Uma fisgada em suas costelas mandou um espasmo de dor por seu peito nu, um gemido descontente saiu de sua garganta.

— Quando nós voltarmos, a Cierna, a alfaiate, vai te ensinar como costurar direito. Um investimento que vai valer a pena. — Inafetado por suas palavras ou olhar, Tokta continuou a costurar suas feridas, uma expressão neutra, quase entediada em seu rosto, cansado de um dia de trabalho. — Você podia tirar um dia ou dois para consertar tudo isso você mesma. Você precisa descansar, Reitora Chefe, você se esforça demais.  O que teria acontecido se Dagen não tivesse chegado para te auxiliar? Você deveria ter abandonado os soldados e reagrupado.

— Hmph. Eu tinha as coisas sob controle. O Demônio teria morrido pelas minhas mãos um dia. Ele estava ficando sem corpos para se curar. Talvez outros 30 minutos, e eu poderia ter perfurado sua armadura exterior com facilidade. Não era uma ameaça para mim, recém formado e fazendo movimentos estranhos. — Se ela não precisasse se defender dos ataques mentais, o Demônio teria caído em minutos, não sendo a batalha longa e sofrida que ela teve de aguentar. Uma coisa simples, só obliterar a criatura até que ela não consiga mais se recuperar, mas a quantidade de chi que ela tinha disponível para lutar foi severamente limitada, tudo indo para as defesas dela. Felizmente, o Demônio caiu  ali, isolado e sozinho, ao invés de em Shen Huo, com outros para defendê-lo e protegê-lo, um desastre felizmente evitado. Com o suporte de outros Demônios e um exército inteiro, a cidade teria facilmente caído.

— Como está Dagen? Eu não percebi o quão forte eram as defesas mentais dele. — Irritava ela que o homem estava com controle completo, completamente desimpedido na luta.

— Ele está inconsciente, seriamente ferido pelo ácido, e os médicos estão em seus limites. Ele não vai morrer, mas não vai curtir os próximos dias, se ele ao menos ficar consciente no meio. — Com os pontos terminados, ela se levantou e aceitou a veste que a entregaram, cuidadosamente se cobrindo, para o desgosto dos soldados que olhavam. Homens tolos agindo como se nunca tivessem visto seios antes.

Os olhares em seus rostos a lembraram de Rain e seu olhar atônito quando seus caminhos se cruzavam nos banhos.

— E o menino? Ele sobreviveu? — Atacando o Demônio só com uma lança, gritando como um idiota. Corajoso, mas imprudente.

A risada baixa de Tokta fez ela relaxar. — Rain conseguiu me impressionar de novo. Dois braços quebrados, um pulmão colapsado e um rim rasgado, assim como várias lacerações em seus intestinos e parede estomacal, mas ele conseguiu ficar vivo por tempo o bastante para que um médico chegasse até ele. Seu braço direito estava esmagado demais para ser curado e foi amputado, mas o menino provavelmente sabia que isso aconteceria. Ele cortou o fluxo sanguíneo do braço, tudo menos separá-lo ele mesmo. Formidável de fato, mantendo a calma sob a pressão. Ele deve acordar em um dia ou dois.

Balançando a cabeça, ela soltou um suspiro de alívio e preocupação.

— Eu estou perdida sobre o que fazer com ele. Ele consegue me deixar orgulhosa e com raiva com uma única ação. Eu pensei que ele era mais… prudente. — Covarde era a palavra que ela queria dizer, mas suas ações provaram o contrário. O mistério de como ele conseguiu se mover sob os ataques mentais do Demônio precisaria esperar até ele recobrar a consciência, dois mistérios que feriam o orgulho dela. Se ele já fosse capaz de montar defesas mentais, então ele estava bem mais à frente de seus iguais, um gênio sem comparação.

— Bom, eu não tenho sugestões quanto a isso. Felizmente, você é a Reitora Chefe, e eu sou apenas um pobre subordinado, livre de tais preocupações. — Juntando suas coisas, Tokta se apressou em direção ao seu próximo paciente enquanto ela assistia, notando seus olhos semicerrados e postura cansada. Entre batalhas e curas, o homem foi levado até seu limite, como estavam a maioria dos guerreiros sob o comando dela. Uma batalha duramente vencida, já que ela subestimou quantos Corrompidos ainda estavam unidos nessa área, quase 10.000 guerreiros, cada um montado em cima de um garo feroz. O relatório inicial do ataque ao acampamento de Kai contavam com menos da metade daquilo e isso não inclui os que tinham garos. Mesmo se houvesse o dobro de Corrompidos, se eles não estivessem montados, essa batalha teria sido muito mais a favor dela.

Suspirando internamente, ela manteve seu rosto livre de raiva conforme saía da tenda dos médicos, inspecionando os soldados ao redor dela. Muitos deles estavam feridos seriamente, perderam olhos e membros, órgãos feridos e músculos partidos, mas eles sobreviveriam, por agora. Eles assistiram ela sair, acenando para eles em agradecimento por seus serviços. Pobres almas, enquanto ela poderia garantir que cada um dos Sentinelas seriam curados completamente, era improvável que o Império iria fazer o mesmo pelos soldados sem patente. Frequentemente, era mais econômico dispensá-los com uma recompensa ao invés de contratar um médico, uma verdade triste desse mundo.

Levantando sua voz, ela falou às massas reunidas:

— Cada um de vocês serviu bem ao Império, e meus médicos irão lhes ajudar até onde puderem. Eu não posso prometer mais, mas saibam que se vocês precisarem de auxílio, moradia ou trabalho, venham até mim e eu não negarei a vocês ou suas famílias. Se vocês não puderem me encontrar, falem com o Magistrado de Shen Huo, ou alguém da Família Man e eles passarão a palavra para mim. — O discurso dela teve pouco impacto, um grupo amargurado, cansado, todos eles conscientes de como seriam tratados quando voltassem, e já se resignaram a serem descartados, mas ela não iria abandoná-los. Se eles viessem a ela, seriam curados, mesmo que ela própria tivesse de pagar as taxas exorbitantes de Taduk. Se o Império não os tivesse, então ela iria acolhê-los como Sentinelas, encontrar casas para eles dentro das montanhas. O preço dessa batalha foi caro, e as fileiras dela precisavam ser preenchidas. Esses homens provaram seu valor para ela, resistindo a um ataque feroz sem quebrar.

Ela repetiu sua promessa várias vezes para os outros grupos, cada resposta tão silenciosa e desentusiasmada quanto a primeira, todos indispostos a acreditar, com medo demais de ter esperanças. Ela fez tudo que podia e partiu para inspecionar o restante de seu acampamento, destruído por buracos profundos e valas sangrentas. Direcionando os soldados saudáveis e ociosos, ela começou a organizar melhores defesas, cavando trincheiras e construindo pequenas cercas. Enquanto trabalhava, o odor constante de corpos queimando enchia o ar conforme eles empilhavam os soldados e Sentinelas caídos em filas ordenadas em cima de suas piras, preparando para se despedir de seus mortos.

Noite se tornou dia e prosseguiu, com o campo finalmente limpo de corpos no meio da tarde, a fumaça oleosa ainda por aí, o fedor substituído pelo cheiro maravilhoso da carne sob as fogueiras, permitindo que todos aproveitassem e celebrassem pela vida depois de uma luta tão difícil. Suas vigias estavam em posição novamente, indisposta a arriscar, mas o seu exército conseguiu uma noite de descanso, antes de voltar para a tarefa sangrenta em mãos. Pelo menos 4.000 Corrompidos escaparam, e sem um líder, era provável que eles iriam se fraturar em vários grupos pequenos, causando a ela uma frustração enorme em rastrear todos eles.

Tudo isso ela iria lidar amanhã. Hoje à noite, ela saboreou comidas boas e cantou ao redor da fogueira, comemorando as vidas dos que caíram enquanto pequena Mila estava sentada ao seu lado, sorrindo e em bom ânimo, ouvindo as histórias dos acontecimentos do dia sendo contadas, de dúzias de pontos de vista diferentes. Ela riu de descrença ao ouvir que Rain derrotou o Campeão Corrompido, indo ao ponto de trocar nomes, que então se tornou um Demônio provavelmente por causa da irritação. Ela ficava feliz de não ser a única a ficar frustrada pelas ações dele. Contente com os resultados, mas enfurecida com os métodos dele. Com sorte, as feridas de Rain sem os mimos de Taduk iriam temperar suas ações futuras.

A celebração se encerrou quando a noite começou a cair, e ela se levantou diante dos vivos, com os mortos atrás dela. Levantando um copo de vinho, ela o levantou alto, mostrando para que todos vissem.

— 3.173 soldados e Sentinelas morreram, o preço pela nossa vitória aqui. As tribulações deles acabaram, sua jornada se encerrou. Que eles descansem em paz, seguros nos braços da Mãe. — Virando, ela despejou o vinho na pira de um soldado, um plebeu sem patente. Outros se aproximaram com seus copos, despejando eles sobre o monte de madeira e corpos, todos alinhados até a última pessoa presente que participou da batalha.

 

Ela despejou um segundo copo, e de novo o levantou bem alto.

— Guerreiros do Império, nosso dever ainda não acabou e obstáculos ainda estão diante de nós. Nós iremos aguentar. — Trazendo o copo para seus lábios, ela bebeu em um gole antes de colocá-lo do lado de uma tocha. Sem outra palavra, ela acendeu a tocha e a jogou no topo da pirâ, assistindo enquanto as chamas consumiam os corpos dos mortos. O fogo subiu para o céu noturno, um farol de fumaça e luz enquanto ela se despedia dos caídos com uma saudação e um mesura, antes de voltar para sua tenda, se retirando mais cedo para se preparar para manhã seguinte.

A ameaça foi vencida, mas a caçada apenas começou, e ela não iria parar até que os Corrompidos fossem eliminados, tronco e raízes, cada um deles morto diante dela antes que pudessem espalhar sua sujeira dentro do Império.

Sentada na tenda dos médicos, Alsantset assistiu enquanto Rain dormia no chão, relaxado e feliz. Um fardo foi tirado dos ombros dela depois que disseram que ele sobreviveria. Sem Equilíbrio, suas feridas o teriam matado antes que ela pudesse alcançá-lo, prova concreta que ele não se corrompeu. Sorrindo para si mesma, ela limpou a baba dele com um lenço, quase rindo com seus roncos leves e sorriso imbecil, desejando que ele pudesse sempre ser preguiçoso e feliz dessa maneira. Seu rosto se contorceu enquanto ele lambia os lábios, parecendo exatamente um velho pervertido, provavelmente sonhando com alguma mulher.

Criança tola, sempre fazendo ela se preocupar. Encontrar ele no campo, quebrado e ensanguentado, sorrindo e relaxado enquanto estava sentado e assistia as comemorações quase fez com que o coração dela saísse do peito. Por que ele nunca lutava ao lado dos Sentinelas, escolhendo ao invés disso lutar com os soldados? Quando ele lutou ao lado de Fung, ela ficou aliviada, sabendo que o filho do Magistrado estaria bem protegido, mas lá fora ele era simplesmente outro soldado, bucha de canhão para a máquina de guerra que amava devorar vidas como a dele.

Pelo menos com essas feridas ele receberia tarefas menos perigosas. Se Akanai decidisse enviar os feridos de volta para Shen Huo, Rain estaria de volta em um mês, mas agora, levaria meses para o braço de Rain crescer de novo. Alguns dias e seu braço quebrado seria consertado, mas até lá, Alsantset estava determinada a mimá-lo o melhor que ela podia. Seria como no tempo em que ele tinha chegado, um coelhinho assustado, trazido para fora de sua concha com boa comida e paciência firme. Ela pediu para participar do acampamento e Akanai permitiu facilmente, até mencionando que ela deveria tomar conta de Rain durante isso. Akanai estava fingindo ser distante e fria, mas na verdade, ela era uma líder cuidadora, amada por todos sob seu comando.

— Oi, Alsantset. — Pequena Mila entrou na tenda, Song a seguindo de perto, ambas carregando tigelas de arroz e travessas de carne assada, colocando-as em uma pequena mesa. — Nós notamos que você não comeu ainda e pensamos em nos juntar a você para uma janta.

Grata pela refeição, Alsantset se moveu até a pequena mesa e se sentou no chão, aceitando a tigela e os pauzinhos oferecidos. — Obrigado pequena Mila. Você é tão calorosa e atenciosa, você vai ser uma boa esposa e uma boa mãe algum dia.

Suas palavras foram respondidas com um rubor fulminante e um pequeno beicinho enquanto a garota olhava rapidamente para Rain, e as três começaram a comer. Alsantset assistiu os movimentos de Song, que ultimamente parecia muito mais confortável, não mais pedindo permissão para tudo, sua cauda se levantou atrás dela enquanto ela comia com graça e compostura. Ela ainda não sorriu, mas sob os cuidados de Mila, ela iria longe, com sorte logo sairia de seu casulo igual ao Rain, mas isso ainda levaria tempo. Ela estava bem preparada para guerra, no entanto, inflexível diante do perigo, hábil além de sua tenra idade e rápida para aprender, já montando em quins como alguém já nascido na sela, deixando Rain comendo poeira.

— Então, os soldados tinham algumas histórias sobre Rain. — Mila estava falando entre colheradas de arroz, seu rosto brilhando de alegria. — Ele desmontou um Campeão, matando o garo com um único ataque! Os soldados estavam todos falando sobre isso, querendo conhecê-lo.

— É? Por quê? Era apenas um Campeão, ele já matou vários até agora. — Esses soldados eram facilmente impressionáveis, se eles aprendessem sobre a força verdadeira dele, eles provavelmente ficariam boquiabertos em admiração.

Rindo, Mila olhou presunçosa enquanto ficava quieta, até depois de ser cutucada um pouco mais, então ela revelou.

— Depois do Campeão ser desmontado, ele matou algumas dúzias de soldados, todos incapazes de matá-lo com a força dos números. Então, Rain foi à frente e o Campeão deu seu nome a ele. Vivek Daatei. — Seus olhos brilhavam, seu sorriso ficando maior. — Rain derrotou ele com um único golpe, e teria matado ele, mas então… Vivek se transformou no Demônio! Rain derrotou um Campeão Corrompido que era forte o bastante para se tornar aquela criatura terrível!

Sorrindo com seu entusiasmos, Alsantset balançou a cabeça.

— A força do demônio tem pouco a ver com a do hóspede. Muitos demônios tomam até a forma de animais, ou até objetos de poder. Sabemos realmente muito pouco sobre o inimigo. — Orgulho florescia em seu peito, ao contrário de suas palavras. Rain amava reclamar e choramingar, mas elas eram meras palavras, suas ações o definiam como um guerreiro. Se apenas ele lutasse ao lado dos Sentinelas para que eles vissem o seu valor, ao invés de só ouvir suas reclamações.

Ainda sorrindo, Mila pulou no lugar, incapaz de ficar parada.

— Eu sei, mas ainda assim é impressionante. Algumas histórias dizem que ele lutou com o Demônio também, sacrificando seu braço para levar os soldados para longe, salvando muitas de suas vidas. É engraçado, já que nenhum deles foi capaz de assistir, mas ainda as histórias se espalham. — Mal conseguindo conter a si própria, ela se virou, encostando nos braços de Alsantset. — Eu quero ser como Rain, lutar entre os soldados, fazendo um nome para mim mesma, mas Mamãe sempre me põe em um lugar de segurança. Eu passei a batalha inteira disparando flechas na noite, sem encontrar um único Corrompido vivo. Ela até ameaçou curtir meu couro na frente de todo mundo se eu fugisse como Rain. — A garota preciosa fez beicinho de novo. — É tão sufocante, eu quero provar meu valor, como Rain e Huushal, mas Mamãe é tão superprotetora.

Alsantset nunca teria imaginado antes, mas a garota talentosa, doce e gentil, a esperança da vila, era de muitas maneiras uma princesa mimada. Isso trouxe um sorriso a seu rosto, e fazia a garota parecer muito mais acessível.

— Ela te ama, e quer te ver segura. Se eu pudesse, eu faria o mesmo com Rain.

Como se ouvindo seu nome, Rain se mexeu na cama e ela foi até seu lado. Seus olhos meio abertos, e Mila despejou um copo de água para ele, ajudando ele a se sentar e beber lentamente.

— Oi. — Meio sorrindo enquanto ele olhava a tenda, ele bocejou, movendo seu cotoco para cobrir sua boca. Depois de um momento de confusão, ele riu. — Eu perdi meu braço direito duas vezes agora. Eu deveria tomar conta dele melhor. — Chutando os lençóis que o cobriam, ele lutou debilmente para sair deles. — Por que Tokta não consertou meu braço esquerdo? Está apenas quebrado. Mesquinho. Como eu vou mijar? Ou pior…

— Criança tola. — Uma lágrima de alegria escorreu de seu rosto enquanto ela gentilmente fazia carinho em seu rosto. — Você acorda de uma ferida séria e suas primeiras palavras são piadinhas. O que eu vou fazer com você? Não culpe Tokta, há muitos soldados e Sentinelas que estão nas portas da morte, e os médicos não tem energia o bastante para sarar as feridas mais leves. Além disso, é provável que você só vá quebrá-lo de novo. — Alsantset levemente apertou seu nariz enquanto sorria. — Como você está se sentindo?

— Humm… Fome. Cansado. — Ele levanta seu cotoco, cortado acima do cotovelo, olhando para a área enfaixada. — Temendo fazê-lo crescer de volta. — Ela o ajudou a se levantar, suportando ele enquanto saiam da tenda, Rain estava firme em não querer ficar na tenda. — Então… por quanto tempo… eu estive apagado…  dessa vez?

Eles mal andaram uma dúzia de passos e ele já estava tonto, uma mão de Alsantset em seu peito e a outra em seu quadril, quase carregando ele, preocupada que ele fosse cair. — Nem mesmo um dia inteiro. Suas feridas estão em sua maioria curadas, mas há algumas que você vai precisar arrumar por conta própria. Taduk vai te ajudar com o braço quando você voltar para Shen Huo, ou se você se sentir capaz, você pode começar a tentar, supervisionado. — Ela tentou fazer seu olhar ameaçador, mas seu sorriso cansado mostrou que ela havia falhado.

— Tudo certo… chega de andar… me carrega por favor.

Ela riu e levantou seu corpo magro em seus braços, segurando ele como uma criança com sua cabeça encostada no ombro dela. Quando ele chegou na vila, ele odiava ser segurado ou tocado, sempre sacudindo ou congelando com o abraço de qualquer um, mas isso desapareceu faz tempo e ela foi até sua tenda, ignorando todos os olhares de julgamento. Rain era um guerreiro, mas ele não se importava com honra, e nunca se preocupou em mostrar fraqueza. Era uma de suas peculiaridades problemáticas, mas adoráveis.

Mila correu com Song para pegar mais comida, e Alsantset logo chegou na tenda de Rain. Yan estava sentada meditando por perto, seu progresso surpreendendo a todos que a conheciam, outra jovem heroína das Pessoas. Sentando Rain contra uma pedra perto do fogo, Alsantset procurou na sua tenda roupas limpas e um cobertor. Ela pausou, notando que havia dois colchonetes, e ao investigar mais, percebeu que pequena Yan havia se movido para tenda de Rain. Ela sorriu maliciosamente para si mesma, feliz que a jovem órfã estava sendo tão assertiva. Ela saiu da tenda e o ajudou a se trocar, envolvendo-o confortavelmente, protegendo ele do frio da noite enquanto ele estava sentado parecendo cansado e feliz.

Mila e Song voltaram e Alsantset recuou e assistiu enquanto Mila alimentava Rain, sorrindo com a sorte dele. Entre Lin, Mila, e Yan, parecia que Rain seria bem amado e cuidado. Depois de alguns minutos, Yan se juntou a eles, sentando em silêncio em um canto. Incapaz de se segurar, Alsantset decidiu falar. Yan era sua favorita, Lin admirava demais e Mila cedia demais ao Rain, mas havia necessidade de ser justa. — Yan, eu vi que você se mudou para tenda de Rain. Eu vou ter que te incomodar para cuidar dele. — Ela se divertiu com o rápido olhar de ciúme que passou pelo rosto de Mila, rapidamente sufocado com uma indiferença fingida.

Rain riu. — Oh, Adujan, você é boa demais para mim. Mas eu acho que eu vou ter de cagar mais tarde, então você vai ter que me limpar. — O alívio nos olhos de Mila quase fez Alsantset rir alto.

Sem esperar, Yan respondeu, — Você tem duas pernas perfeitas e tem muita grama, só se arraste no chão. Você vai ficar bem.

— Não seja tímida. Eu gosto de me lavar com água depois de cagar, então eu vou precisar de sua ajuda com isso também.

O gracejo deles continuou enquanto ela assistia Mila fazer um beicinho, internamente rindo com a situação espinhosa em que Rain estava. Apesar deles dividirem uma tenda, Alsantset estava certa que Yan não iria sucumbir ao seus desejos básicos, provavelmente guiando ele pelo nariz. Ela era dura na queda, e não toleraria nenhum insulto de Rain. Ela iria esperar até que eles estivessem propriamente casados.

Decidindo que a conversa cada vez mais suja teria de acabar, ela interrompeu com uma pergunta. — Rain, como você conseguiu aguentar o ataque mental do Demônio? A Tenente-General vai querer saber sobre isso, nenhum dos outros Sentinelas foram capazes de se mover desimpedidos, exceto Dagen. Me conte sua experiência, começando pouco antes do Demônio se transformar.

Um sorriso acanhado em seu rosto, com a promessa de mais debate mirada para Yan, Rain simplesmente deu de ombros.

— Humm… eu lutei com o cara Corrompido, éee, Vivek Daatei. Ele estava ferido, eu fui acabar com ele de vez, mas antes que eu pudesse, ele… virou do avesso, ou algo assim. Não foi algo agradável de se ver, mas eu não pude parar. Então eu fui acertado, e eu desmaiei, e quando abri meus olhos de novo… — Pausando sua narrativa, Rain deitou, parecendo desamparado.

Ela esperou por quase um minuto, até que foi incapaz de continuar em silêncio e perguntou:

— E? — Ela temeu o pior, que ele havia visto cenas da sua escravidão, quebrado ele de novo, apesar do quão feliz ele parecia estar.

— Eu estava em um mundo perfeito, onde todos os meus sonhos se tornaram realidade. Todas vocês estavam lá, junto com Tate, Tali, Baatar, Sarnai… meus pais… meu cachorro… minhas crianças. — Ele se sentou lá, olhando para o céu, um sorriso triste em seu rosto. — Me mostrou como era ser feliz.

Não era surpresa que nenhum dos que foram afetados falou do que eles viram. Todos estavam sofrendo por suas perdas, uma coisa difícil de se lidar. Um nó se formou na garganta dela.

— Você viu seus pais?

— Ah, não, não exatamente. Havia duas pessoas que eu sabia que eram meus pais, mas eu não consegui distinguir nenhuma de suas características físicas. É uma das coisas que me fez acordar, me ajudou a me libertar da ilusão. — Ele falou como se fosse simples, sempre indisposto a se vangloriar. Tossindo acanhado, ele continuou: — Mesmo depois que eu descobri tudo, eu continuei assistindo, continuei tentando voltar para dentro da ilusão, ser feliz de novo. Eu não queria ir embora, mesmo sabendo que não era real, que minha vida estava em risco. Foi maravilhoso e poderoso… mas vazio.

Seu medo se amenizou, ela foi até ele e o abraçou.

— Bom, você se libertou e está bem. Persiga seus sonhos aqui no mundo real, e eles não serão mais vazios. — Suas mãos plantadas em seus ombros, ela o olhou com severidade. — Pelo menos agora eu entendo o porquê você estava tão bravo e imprudente ao acordar. Akanai quase morreu de rir ao te ver atacar o Demônio de maneira tão tola.

Revirando seus olhos, ele voltou a se reclinar. — Bom, você sabe o resto. Depois de levar uma sova do Demônio, eu fui e acordei o Dagen, e blah blah blah, aqui estamos.

Mila riu, juntando suas mãos.

— Você acordou ele? Mamãe ficaria feliz ao ouvir isso! Ela estava um pouco ranzina, pensando que você e Dagen tinham defesas mentais melhores do que ela. — Os outros sorriram também, e a conversa mudou para outras questões de suas provações, mas depois de alguns minutos, Alsantset mandou todo mundo ir dormir, Rain já voltando a dormir de novo, seu corpo ainda fraco das provações.

Se movendo a uma curta distância com Mila enquanto Yan ajudava Rain a entrar na tenda, Alsantset sorriu para Mila ao ver seu olhar de inveja. — Parece que a Yan queimou a largada, visando o corpo do Rain. O que você planeja fazer agora?

— Hmph. Nada. Com quem aquele parasita dorme não é da minha conta. — O rosto de Mila esquentou de novo, vezes demais em uma só noite.

Rindo, Alsantset abraçou ela, se abstendo de beliscar suas bochechas com sardas, ainda rechonchudas e infantis apesar de sua beleza.

— Seja mais honesta consigo mesma pequena Mila, ou você vai perdê-lo.

Partindo com essas palavras, Alsantset voltou para sua tenda, leve no andar, alegre como tudo terminou. Ele se libertou do ataque do Demônio quando todos os outros ficaram presos dentro deste, e até libertou Dagen para ajudar a Akanai. A história seria contada, as palavras de Dagen dando peso a ela, e Rain seria elogiado como ele tanto merecia. Um pequeno susto com a menção de seus pais, mas parece que nada estava fora do lugar.

 

As coisas estavam finalmente dando certo para o Rain, e ela não poderia estar mais feliz.

 

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

13 Comentários

  1. Só eu acho que Alsantset ta tocando lenha na fogueira das pretendente do Rain ela quer vê o circo pegar fogo kkkkkkkkk

  2. “As coisas estavam finalmente dando certo para o Rain, e ela não poderia estar mais feliz.”
    The TRETA is coming!!!

  3. ashuashuashua, o cara acabou de amputar uns membros, tá todo estrupiado, e a galera falando que “essa moleza vai acabar”!

  4. Chorei de novo com Rain falando sobre seu sonho. Espero que o Marechal dê a ele uma patente, assim ele ficará mais seguro, maldita Sociedade.

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