DS – Capítulo 83

A tensão é palpável por alguns segundos enquanto nós ficamos parados na clareira, meu coração batendo no peito enquanto uma gota de suor se forma na minha testa. Porra, por que alguém veio por aquele tolo do Kai? Por favor seja gentil irmã, não seja tão indiferente.

Alsantset encarou Du Min Gyu por um breve momento antes de falar, ainda sentada em sua mesa:

— General de Brigada Cho Jin Kai morreu em batalha seis dias atrás, vítima de um Demônio recém formado. — Bom, isso teve o tato de um peixe na cara. Pior, ela volta ao trabalho, efetivamente dispensando o velho de suas preocupações, falando enquanto molha o pincel na tinta. — Mila, providencie que o Tenente-General tenha acesso a todos os relatórios da batalha, e mostre a nossos visitante onde eles podem organizar acampamento.

Sumila se levanta da sua mesa improvisada, limpando as mãos enquanto Li Song imitava ela levemente ao lado, antes de gesticular para eles a seguirem, mas Du Min Gyu fica parado, só encarando Alsantset. A gota de suor lentamente percorre seu caminho até chegar ao lado do meu rosto enquanto os segundos passam, e o acampamento abarrotado enquanto Sentinelas e soldados prosseguem com seus afazeres, com os sons de armas de prática colidindo e distantes, e conversas joviais preenchendo o silêncio.

Ignorando todo o resto, o velho continua a encarar Alsantset, que prossegue com seus deveres em escrever relatórios como se ela não ligasse para o mundo e não estivesse sendo encarada pelo homem que tinha uma patente extremamente maior que a dela. Me encolhendo por dentro, eu me preparo para temperamentos explodirem, para soldados e escoltas sem distinção pegarem em suas armas, gritos e clamores por sangue. Ele parece ser do tipo equilibrado, então eu só posso rezar para que não vá fazer nada precipitado e, além disso, o Juiz está aqui, o que deve que nos oferecer um certo nível de segurança.

Depois de dúzias de batimentos, meu quase-pânico diminui conforme fica cada vez mais claro que o velho está em choque. Meu coração começa a doer pela pobre alma, e eu gostaria de oferecer minhas condolências, mas eu não sei como ele iria recebê-las. Quero dizer, eu ofereci uma carona em Zabu e isso foi aparentemente uma gafe. Como eu deveria agir nessa situação? Todo mundo só parece estar ignorando ele enquanto fica estático no chão, seus pensamentos e emoções um completo mistério para mim. Seus guardas permanecem estóicos, apáticos com as notícias, seus rostos duros e inelegíveis, mas a tensão em seus corpos é inconfundível. Eles estão prontos para lutar.

Minutos passam enquanto Alsantset continua com seu trabalho, discutindo com alguns líderes Sentinelas, enviando eles para oeste e sul para buscar mais comida, nosso suprimento de grãos e vegetais começando a ficar escasso. Ela chama os oficiais do exército e ordena uma checagem do acampamento, uma rápida passada para verificar se há problemas, antes de mais uma vez voltar ao seu relatório. Eu honestamente acho que ela só está tentando parecer ocupada agora, a maior parte porque eu não estou completamente certo do que ela fica voltando a escrever. Quero dizer, quanta papelada ela poderia ter? Os Sentinelas não parecem muito do tipo que preenche pedidos de requisição a fim de triplicar seus números, ou seja lá o que for que os exércitos precisam fazer.

Começa a ventar e alguns papéis dispersam, os quais eu instintivamente tento alcançar, pegando eles no meio do ar e correndo atrás das páginas que me escaparam. Pegando a última página, eu me viro para trazê-los de volta para Alsantset e congelo com a cena diante de mim.

De algum jeito, nos 5 segundos que eu gastei indo atrás de papel, a situação inteira se tornou um impasse hostil, os guardas do Tenente-General todos levantados com armas sacadas, arranjados em círculo ao redor do velho, enquanto os Executores cercam o Juiz de maneira similar, seus bastões curtos e pesados prontos, seus rostos mascarados escondendo todas as emoções exceto determinação, encarando obstinadamente o Tenente-General.

O vento continua a ventar, assolando nossos arredores, parecendo crescer em força a cada momento, chicoteando perto das minhas orelhas com um barulho quase ameaçador, afogando todos os outros sons, jogando sujeira e pó enquanto circula ao redor do nosso pequeno grupo, obscurecendo nossa visão. Minhas orelhas sentem a pressão aumentar, como se elas estivessem quase estalando, e minha boca se abre para tentar equalizar as coisas. O rosto do homem se contorce de raiva, suas veias no pescoço e testa aumentando, seus punhos cerrados, sangue escorrendo por entre seus dedos enquanto a natureza responde a sua fúria, o vento convergindo para sua posição, a poeira criando meia dúzia de trilhas levando até ele. Alsantset permanece firme, suas mãos pressionadas nos relatórios, os mantendo no lugar, seu rosto calmo e controlado, imperturbada pela mostra de poder.

Minhas roupas começam a se agitar conforme o vento passa por mim, quase me puxando em direção ao velho enquanto eu me inclino contra ele, me preparando para sacar Paz e avançar para defender minha irmã. Adujan põe uma mão em mim, me segurando com um simples toque, senão eu já teria avançado. Ao nosso redor, fora do vortex de pressão, os Sentinelas se preparam, seus arcos levantados e flechas apontadas, preparados para atirar a qualquer momento caso as coisas se desenvolvam mais.

Sem aviso, o vento uivando para, a área inteira se acalma em um instante, e não fosse pelo vento ter soprado meu cabelo e bagunçado minhas roupas, eu me preocuparia que talvez tivesse imaginado tudo. Finalmente, o velho fala, sua voz rouca e baixa:

— Se houver a menor possibilidade de vocês selvagens terem causado a morte de Kai, eu vou trazer morte e calamidade em nove gerações de suas famílias. — De alguma forma, sua voz é levada pela colina, crescendo apesar do volume baixo, e pelo jeito, os Sentinelas ao nosso redor escutaram também. Alguns deles sacam seus arcos de novo, mas são disciplinados o bastante para não atirar. Se virando, ele começa a ir em direção a Sumila, seguindo ela para longe, e o Juiz se move também, sua postura impassível, seu rosto mascarado escondendo qualquer emoção que ele possa estar sentindo.

Quase imediatamente, tudo volta ao normal ao nosso redor, Sentinelas prosseguindo com seus compromissos diários. Alsantset volta a se sentar para continuar escrevendo, como se nada fora do normal tivesse ocorrido. Depois de uma pausa breve, eu ando até a mesa e ponho as páginas de volta na mesa de Alsantset, uma pequena risada nervosa escapando de meus lábios.

— Bom, tudo deu certo.

Ela me ignora, continuando a escrever, e eu vejo o que ela está escrevendo, sua escrita quase inelegível pelas últimas sentenças, sua mão tremendo, imperceptivelmente ao olho, mas facilmente notado quando se olha para os resultados de sua caligrafia. Gentilmente afagando seu ombro, eu tento oferecer apoio, de novo incerto do que fazer. Nuances sociais são complicadas. Olhando para cima, ela me oferece um breve sorriso antes de abaixar seu pincel, engolindo seco e respirando fundo, se acalmando antes de falar:

— Fique longe daquele homem, Rain. Embora o Juiz nos ofereça alguma proteção, se Du Ming Gyu ficar perturbado o bastante por causa de seu discípulo, ele pode simplesmente tentar matar a todos nós e ignorar as consequências. Ele pode até mesmo conseguir. — Dando um olhar de lado para Adujan, ela diz para a garota, — O mantenha por perto, estudando e longe de problemas. Seria melhor que Ming Gyu não descubra que Rain foi a causa da nossa disputa com o General de Brigada. — Ela abre seus braços para um abraço, e eu aceito, afagando ela nas costas enquanto nos abraçamos.

Eu estou um pouco ofendido por todo mundo pensar que é tudo minha culpa, quero dizer, eu não estava sozinho naquela briga de bar. Não parece justo. No pior dos casos, deveria ser só metade minha culpa. Abrindo minha boca para me defender, eu fecho com força minha boca com o olhar de Alsantset, como se ela estivesse me desafiando a discutir com ela, pronta para me repreender até eu me submeter. Tomando o caminho do covarde, eu silenciosamente vou embora com Adujan enquanto nós vamos em direção à nossa tenda para pegar meu livro.

Depois de entrar em nossa tenda, eu finalmente me viro para Adujan e pergunto:

— Aquilo não foi a coisa mais doida que você já viu?

Assustada com minha pergunta, Adujan olhou para mim inexpressivamente por um momento, perdida em seus próprios pensamentos.

— Foi incrível. Ele é um homem abençoado do Vento Divino, no comando de um poder que todos os guerreiros almejam. — Seus olhos arregalados em adoração, e se nós estivéssemos em pé, eu acho que ela iria desmaiar de tanta emoção. O homem tinha uns cem anos de idade, tenha alguma dignidade. Quem diria que ela viraria uma fan-girl dele.

— Taduk me disse que coisas como aquela eram possíveis, mas ele nunca me mostrou ou explicou como era feito. Quer me explicar?

Ela zomba do meu olhar de expectativa.

— Como caralhos eu deveria saber? Eu não tenho um professor ou um mentor, tudo que eu sei é que qualquer um que consiga fazer algo como o que acabamos de ver é um expert de alto nível no Império. Um em dezenas de milhões, Rain, é a raridade de uma pessoa como essa. Eu sabia que ele era forte depois de ver ele cruzar o rio, mas para ele ser tão incrível… — Um olhar desejoso aparece em seu rosto, como se ansiasse por aquele velho, e eu tento ignorar o ciúme que surge em mim. O cara é velho e enrugado e Adujan é só minha amiga. Sem necessidade de ciúme. — Ugh, de todos os dias para prometer não cultivar, testemunhar tamanha demonstração de poder e incapaz de meditar nisso. Só imagine se eu fosse capaz de aprender a como fazer aquilo, ou se ele estivesse disposto a me aceitar como discípula… — Ela senta lá, seu corpo preguiçoso e seu rosto cheio de anseio.

— Ele ensinava aquele babaca do Kai, quem sabe o quão bom professor ele é. — É idiota ficar com ciúmes de um velho, ainda mais por alguém que é só minha amiga. Porém, ainda está acontecendo, apesar do meu esforço.

— Ele ensinava um homem, o qual apesar das gigantescas falhas pessoais, conseguiu uma patente de General de Brigada, enquanto ainda parecia jovem. Dentre as Pessoas, eu duvido que há mais que um punhado que seria páreo para ele em um duelo, e é provável que apenas a Reitora Chefe derrotaria ele com certeza. — Seus olhos brilhando enquanto ela elogia nosso inimigo. — Só pense no quão incrível seria aprender com ele, um homem que consegue invocar o vento com um mover de seu dedo.

O pensamento de ser capaz de fazer o mesmo causa uma onda de motivação em mim enquanto eu pego meu livro. Eu ainda preciso ler um pouco, mas eu estou agitado demais para ficar parado agora.

— Você prometeu não cultivar, mas e quanto a treino de combate? Não tem jeito de eu conseguir estudar agora, eu preciso queimar alguma energia e parece que você tem de sobra.

Me dando um sorriso espertalhão, ela inclina a cabeça levemente.

— Lutar com você? Eu acho que poderia, mas teria de ser em um lugar isolado. Eu não quero pessoas sussurrando que eu estou fazendo bullying com um aleijado. — Nós ansiosamente saímos para encontrar algum lugar isolado, ambos incapazes de ficar parados, com meu sonhos aparentemente antigos de voar no ar, fazer chover fogo e raio sobre meus inimigos mais realísticos do que nunca.

Pegando algumas armas de prática, nós vamos em direção a saída sul do acampamento, encontrando uma pequena clareira fora de mão perto do rio, e depois de alguns aquecimentos, eu fico na frente dela, minha espada de prática pronta, segurada de maneira estranha na minha frente.

De repente, ela se lança para frente, sua lança-curta cega assobiando em direção ao meu pescoço enquanto eu pulo para o lado, deixando a arma dela deslizar pela minha, empurrando ela para longe, a desequilibrando. Se eu tivesse uma segunda mão, essa luta já estaria ganha com uma estocada no rim, e pela cara dela, ela sabe disso. Um sorriso espertalhão aparece em meu rosto, e eu não consigo resistir provocar ela um pouco.

— Parece que o aleijado tem a… melhor mão.

Seu gemido faz a dor vindoura valer a pena conforme ela redobra seus esforços, não mostrando nenhuma piedade enquanto me circula pela direita, se aproveitando da minha inabilidade. Ela empurra duas vezes para frente com sua lança enquanto eu me ajusto, meus golpes largos demais e com péssima precisão quando luto usando a espada dessa maneira, e ela se aproveita disso também, se movendo perigosamente perto para varrer minha perna, me fazendo cair no chão, o fôlego espremido para fora dos meus pulmões.

Eu vejo pontos pretos e brancos, e quando minha visão clareia, Adujan fica acima de mim, seu pé pressionado contra meu peito e sua lança no meu rosto, um sorriso vaidoso em seu rosto.

— E pensar que você estava se movendo tão bem mais cedo essa manhã, mas eu acho que as coisas são mais difíceis quando você tem um oponente de verdade.

Batendo na bota dela para tirá-la de cima de mim, ela a firma contra mim, impedindo que eu me levante. Infantil. Agarrando seu pé, eu levanto meu pé direito e o enrosco dentro da roupa dela, a jogando de costas enquanto eu levanto seu pé, e ela graciosamente gira no lugar, como esperado. Ainda deitado no chão, eu levanto meu joelho esquerdo para acertar seu tornozelo de apoio, fazendo ela cair e a mandando para o chão com um baque. Subindo, eu jogo a arma dela para longe e monto em seu estômago, joelhos pressionando contra seus braços e minha mão em sua garganta.

— Isso é ótimo, nós estamos equilibrados agora que eu só tenho um braço.

Ela responde me derrubando violentamente com o quadril, e nossas posições estão logo revertidas, meu único braço totalmente estendido e segurado em uma chave, enquanto seu joelho descansa pesadamente em minha garganta. Ela segura por alguns segundos, cortando a circulação de sangue para meu cérebro, e então solta, a circulação volta me fazendo ficar tonto enquanto eu arqueio as costas por ar.

Assim que eu posso me sentar, eu vejo o sorriso gigante em seu rosto enquanto ela agacha, tendo esperado para que eu me recuperasse.

— Isso é divertido, te espancar enquanto você está quase indefeso. Eu iria curtir fazer isso o dia inteiro. — Ela oferece uma mão para me ajudar a ficar de pé, mas me sentindo rancoroso, eu a desequilibro, a fazendo cair em mim. Rolando, nosso duelo se tornou uma partida de luta greco-romana, meu único braço prendendo firmemente seu bíceps enquanto ela se agita, tentando escapar da minha pegada enquanto eu me movo ao redor de suas costas, passando seu braço pelo seu pescoço, prendendo-a no lugar com minhas pernas ao redor da cintura dela.

Lutar no chão de terra é muito cansativo, cada movimento consumindo mais energia do que o esperado, e em minutos, Adujan está lutando debilmente, sua força gasta lutando contra minha vantagem de peso, e ela tapeia meu braço repetidamente. Soltando, eu me inclino para trás, respirando fundo, tendo segurado meu fôlego por uma boa quantidade de tempo durante aquela luta. Ela descansa sua cabeça no meu ombro, seu peito levantando com esforço, seu rosto carmesim de exaustão enquanto ela permanece sentada entre as minhas pernas, nós dois respirando ofegantes para recuperar nosso fôlego.

Agora que a adrenalina acabou e nossa competição fica suspensa, percebo que nós dois estamos em uma posição comprometedora, sentando juntos, membros entrelaçados e corpos suados. Se nós tivéssemos lutado assim no campo aberto, eu acho que Alsantset teria me feito ajoelhar enquanto ela me repreendia sobre decoro e modos. A única razão dela nunca ter me repreendido sobre Mei Lin era porque era óbvio que a coelhinha começava todos os nossos contatos físicos.

Como se ela conseguisse sentir que eu estava pensando em outra mulher, Adujan me acotovela e eu me curvo de dor, cabeça se apoiando em seu ombro. Me deixando ofegante, ela se levanta e recolhe nossas armas, jogando minha espada aos meus pés.

— De novo. — Sua boca fazendo beicinho, obviamente infeliz com sua perda. Pequena Adujan orgulhosa, não consegue aguentar levar uma sova de um aleijado, mesmo se fosse apenas porque ela estava brincando demais.

Rindo com a absurdidade disso tudo, eu pego minha espada e fico de pé cuidadosamente.

— Sem mais luta no chão. — Assentindo para mim, nós começamos a lutar de novo, dessa vez de maneira apropriada. Nós lutamos e descansamos, conversando sobre como o outro pode melhorar, reparando em falhas e forças enquanto recuperamos o fôlego, antes de levantar mais uma vez para começar tudo de novo.

Nós lutamos até o almoço, e depois de uma refeição quente, eu gasto o resto do dia estudando o livro que Tokta me deu, uma leitura seca, trabalhando para memorizar o texto e diagramas através de repetição. Depois de jantar, eu vou para a tenda do Médico, e assim que eu entro, Tokta me põe para trabalhar, amassando ervas e fazendo bálsamos enquanto ele me pergunta sobre meu conhecimento, não apenas do livro, mas dos básicos na cura. Ele parece estar medindo o quanto eu sei, mas eu não sei se ele está impressionado ou desapontado, já que seu tom nunca muda. Se não fosse o fato de ele gastar longos minutos me corrigindo, eu nem saberia se eu estava certo.

Conforme a noite progride, eu tomo vantagem da pausa nas questões com uma das minhas:

— Se eu decepar meu dedo, eu posso só reconectá-lo, ao invés de recrescê-lo?

Com a minha pergunta, ele se vira para mim, me encarando, olhos estreitos enquanto estuda meu rosto. Eu tento ignorar seu olhar, mas eu não consigo fazer isso e me encolho sob sua atenção. Depois do que parece uma eternidade, ele suspira e gesticula para que eu me sente em sua mesa com ele. Ele fala em um tom quieto, toda sua atenção em mim, diferente da sua atitude usual de desdenho:

— Você pode, mas apenas se for o seu dedo. Você tem mais perguntas. Faça-as.

Dado permissão, eu me estreito e pergunto.

— Por que tem de ser meu dedo? E se eu pegasse o dedo de alguém e tentasse reconectá-lo? — Ou, você sabe, um braço de urso.

— Você iria morrer. — Sua voz quieta me pega desprevenido e eu me inclino para ouvir cuidadosamente. — Se o sangue é incompatível, qualquer transplante será rejeitado e vai apodrecer, te matando por dentro enquanto seu corpo tenta destruir todos os traços de sangue estrangeiro. Se é compatível, a próxima vez que você tentar meditar, a Energia dos Céus vai te rejeitar, queimando o dedo enxertado e você no processo.

Lá se vai meus sonhos de ter braços de urso.

— Por quê?

Ele simplesmente dá de ombros com a minha pergunta, incerto de como responder.

— É assim que o mundo funciona. Há limites que foram impostos a nós pela Mãe, e nós trabalhamos com eles. Abandone seus pensamentos em experimentação e aprenda os métodos apropriados.

— E quanto a melhorias? Se eu precisar saber de todo esse conhecimento para recrescer meu braço, então faz sentido que eu possa fazer mudanças, como ossos mais grossos ou músculos mais densos.

— Impossível. Você precisa de conhecimento a fim de direcionar seu chi em crescer o braço de forma correta. O corpo entende como o braço deveria ser, os planos já dispostos, mas ele não pode simplesmente recrescer sem você direcionar, suprindo ele com os materiais necessários. Desvios desses planos vão resultar no crescimento de um pedaço disforme de um agrupamento de nervos e músculos, então qualquer erro que você faça vai resultar em você gritando de agonia, incapaz de focar em mais nada. Se sinta livre para tentar, mas só vai dar mais trabalho para mim, tendo que remover suas tentativas de experimentação, e eu vou te avisar: a dor vai continuar.

Desanimado, eu faço  minha última pergunta:

— Quanto à modificação do meu corpo como ele é, como me deixar mais forte? Taduk me disse que não era possível, mas nunca me explicou o porquê.

Isso causa uma reação surpreendida de Tokta, e ele rapidamente pergunta.

— Você já tentou algo como isso?

— Um, sim, mas nada acontece. — Meu rosto esquenta, esperando que ele não pergunte o que eu tentei. É uma merda ser baixinho.

— Pare de tentar, não vai acabar bem. Eu não posso acreditar que Taduk te deu tanta liberdade. — Respirando fundo, ele começa a contar uma história. — A história do Império é longa e você não é o primeiro a pensar nessas questões. Mais recentemente, quase 800 anos atrás, o estudioso Zhen Shi teorizou que o processo de um Corrompido se tornar um Demônio poderia ser replicado com chi, e gastou décadas conduzindo experimentos tentando melhorar o corpo humano.

Ele pausou por um momento, perdido em seus próprios pensamentos. Quando ele fala, sua voz sai assombrada, conformada:

— Ele matou centenas de milhares de pessoas no processo, documentando cada falha com muitos detalhes, provando que não foi nada além de algo impossível. O homem era brilhante e obcecado, mas um monstro em pele humana, testando em humanos e bestas sem distinção, cada experimento terminando em dor e sofrimento de suas cobaias. Seus métodos se tornavam mais drásticos e cruéis com o passar do tempo. No fim, o Império soube de seus experimentos e enviou guerreiros para impedi-lo, mas eles foram incapazes de trazê-lo à justiça. Zhen Shi escapou, e provavelmente continuou com seus experimentos até morrer.

Depois de uma longa pausa, com seus olhos focados novamente em mim, sua mão segura meu ombro com força.

— Abandone seus pensamentos em modificar seu corpo. Aprenda como curar apropriadamente. Você tem uma mente rápida e algum talento, não os desperdice com um sonho inútil. — Depois de me dispensar, ele se inclina de volta na cadeira, parecendo mais cansado do que nunca, seus olhos assombrados com as memórias. Saindo, eu volto para minha tenda devagar, pensando em tudo.

Algo que Tokta disse ressoou na minha mente, que meu corpo sabe como as coisas deveriam ser, tem um plano, de qualquer forma, por que ele não saberia curar meu braço por conta própria, com apenas a cura normal? Não faz sentido eu ter de direcioná-lo, mas eu vou continuar estudando, aprendendo a maneira “apropriada” para curar. Assim que eu aprender isso, então eu posso descobrir como melhorar.

Tendo recebido mais perguntas do que respostas, eu fico acordado em minha tenda, encarando a escuridão, uma pergunta em particular circulando minha mente.

Eu me pergunto se posso encontrar aquelas notas. Embora os métodos para juntar a informação foram monstruosos, não a usar seria burrice.

 

No pior dos casos, vou saber o que não tentar.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

9 Comentários

  1. Queiro dizer um negócio o qual eu acho que vai ocorrer, mas como eu tenho muita fé que isso vai mesmo acontecer não vou falar nada pra não dar um spoiler premeditado. Obrigado pelo capítulo

  2. Se é possivel controlar até os elementos, deve ser possivel fazer algumas modificações. Pelo menos eu acho isso…

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