DS – Capítulo 87

Du Min Gyu estava sentado imóvel, suas costas encurvadas enquanto ele assistia os bastões de incenso queimarem lentamente até se tornarem cotocos. Os últimos momentos antes do fogo acabar eram os mais difíceis, como se eles começassem de repente a queimar mais devagar quando chegassem no fim da vida em um esforço de continuar a queimar tanto quanto pudessem. Mesmo depois de viver por tanto tempo, sua impaciência ainda lhe arranjava problemas, sua maior fraqueza, como ele era lembrado de novo e de novo.

Sete dias de lamento, essa era a duração padrão dos funerais para aqueles que podiam. A família direta, maridos ou mulheres e qualquer criança iriam permanecer ao lado do caixão, mantendo o incenso queimando por sete dias, dormindo ao lado do mesmo em um símbolo de solidariedade, mas qualquer outra pessoa estava livre para ir e vir. Sem nenhuma família direta presente, ele decidiu ficar aqui o tempo todo por conta própria, apenas dormindo por algumas horas enquanto os escravos tomavam conta do seu dever a cada noite, sua tenda arranjada ao lado do cinzeiro.

Foi um erro terrível, bem intencionado, mas ainda assim uma decisão péssima. Estava no meio do verão e ainda seu bafo virava névoa fria com cada respiração, essa terra era uma amante linda e cruel pretendendo fazê-lo sofrer pelo prazer das vistas, uma vadia odiosa e vingativa. Teria sido melhor não ter passado por isso, a experiência manchando sua memória de Kai, como agora quando ele pensava no garoto, Min Gyu lembraria primeiro dessa bobagem de funeral. Kai significou muito para ele, mas o garoto estava morto e se ele estivesse aqui para ver seu Mentor tremendo de frio no ar frio da manhã, mantendo vigia sobre um pedaço de grama, provavelmente iria morrer de rir.

Ficando de pé, ele sentiu seus joelhos rangerem enquanto andava para frente e aceitava novos bastões de incenso de Kyung, os acendendo antes de voltar ao seu lugar. Um erro terrível. Se aconchegando em sua cadeira, ele olhou para Akanai, rindo enquanto ela se sentava dura em seu banquinho. Uma pequena vitória. Parecia que ela era teimosa demais para trazer sua própria cadeira, ou simplesmente não tinha uma para trazer. Essa era uma grande desvantagem dos roosequins, porque móveis como eles eram, carregar um soldado com armadura completa já era o limite de sua força. Adicione o peso da quantidade de ração necessária para alimentar as criaturas, e não havia muito que cada Khishig pudesse carregar com eles enquanto viajavam, necessitando de muitas montarias de suprimentos para cada soldado, um prospecto caro.

Ainda assim, ele queria alguns para seu uso pessoal, muito mais confortáveis do que um cavalo e pareciam criaturas bem afetivas, um deles se aconchegando com uma nova Khishig meio-besta que se juntou a eles hoje. A “filha” de Akanai está cortando seu cabelo, como se eles estivessem brincando na cidade, e não em um acampamento armado de soldados que deveriam caçar guerreiros Corrompidos. Uma falta de disciplina chocante. Parecia que cada um dos soldados dela estava sentado no ócio no acampamento. Mais da metade de seus Khishigs estavam com ela, mas a mulher agia de maneira despreocupada em relação à segurança do Império, permitindo que a escória Corrompida ficasse livre enquanto ela lentamente tomava seu tempo para lidar com eles, tão lentamente que não deixou o acampamento desde a chegada de Min Gyu. Reconhecidamente, se ele estivesse no lugar dela, ele também teria feito o mesmo. Era um trabalho desagradável, inapropriado para guerreiros de verdade, e seria tolice deixar ele aqui sem supervisão levando em conta o modo que ele agiu anteriormente.

Sua provocação começou simplesmente para feri-la e humilhá-la, nunca com a intenção de realmente matá-la, mas sua força o surpreendeu, uma guerreira mais capaz do que ele gostaria de admitir. Se ele fosse um apostador, ele ofereceria uma chance de 60 em 40 a favor dele, um pouco melhor do que o lançamento de uma moeda, uma guerreira bem mais poderosa do que ele tinha esperado encontrar tão ao norte. Com Akanai aqui e se os rumores de Baatar e Gerel não tivessem sido exagerados, então esses Khishigs eram de fato formidáveis, com até as crianças demonstrando progresso temível, com a filha de Akanai sendo capaz de dispersar facilmente a Intenção Assassina dele, uma amostra impressionante de controle, especialmente para alguém tão jovem.

Muito do seu tempo neste últimos dias foi gasto em auto-reflexão, se perguntando o porquê dele ter agido de maneira tão viciosa sobre uma escrava, uma de grande valor e alto pedigree, mas ainda uma escrava, pela qual não valia a pena brigar. Apesar disso, ele se entregou à sua tristeza e raiva pela segunda vez aquele dia. A morte de Kai o afetou muito mais do que ele tinha pensado. Era esse maldito cachimbo, uma mistura de ervas para entorpecer a dor da velhice, mas também tinha o infeliz efeito de abaixar suas inibições, aparentemente ao ponto de entreter pensamentos de assassinar um Juiz, algo que teria exterminado sua família até a nona geração, matando qualquer um com a mínima relação familiar com ele. Foi apenas por causa da mentira de Akanai que ele escapou de tal destino, e ele estava… grato pela intervenção dela. Ele tentou ficar sem o cachimbo, mas depois de um único dia seu corpo foi inundado com calafrios e ele sucumbiu novamente à fumaça inebriante. Melhor que ele tivesse morrido no seu auge do que ser reduzido a este estado patético.

Se sentindo sentimental, ele se sentou lá escutando as crianças conversarem sobre garotos e coisas sem sentido, mal prestando atenção em Kyung e seu oponente enquanto eles se esforçavam para superar o outro, quase ao ponto de deixar seus movimentos bonitos impraticáveis. Ouvindo ele próprio ser mencionado, ele disse algumas palavras para provocar a garotinha, sorrindo para si mesmo ao ver o rosto sério de Akanai se contrair enquanto ela lutava por controle. Ele descobriu que o jeito mais fácil de agitá-la era falar com sua filha. Não havia necessidade de ser diretamente hostil, qualquer coisa dita à garota iria desagradar Akanai, e ele as dizia com moderação, mas ainda pelo menos uma vez por dia. Ele era muito grato, mas era difícil gostar da mulher, uma atendente severa, inflexível que estava pronta para atacar a apenas um braço de distância enquanto ela ignorava todas as suas tentativas de conversar através de Enviar. Ele não podia mostrar deferência diante dos soldados ou seus escravos, e pedir desculpas iria humilhá-lo demais, mas ainda ela se recusava a dá-lo outra alternativa de salvar sua honra.

Resmungando suas frustrações, seu único consolo estava no fato de que tudo acabaria logo, sua vigília terminada depois de hoje, e ele seria capaz de partir pela manhã. Ele pretendia encontrar as escoltas armadas de Kai e trazê-los para casa com ele, indisposto a partir sem eles. Se o fizesse, a viagem inteira seria por nada, e isso simplesmente não poderia ser permitido. Pelo menos, ele poderia se vangloriar de estar ajudando na defesa do norte, talvez matar alguns Corrompidos enquanto estava nisso, se aliviando de alguma culpa que sentia por ter falhado com Kai.

Quatro horas depois, o tempo passando lentamente, ele se levantou e acendeu o incenso de novo, se movendo em direção ao cinzeiro para colocá-los no lugar com tanta reverência quanto ele conseguia sob as circunstâncias. Pausando enquanto se virava para voltar para seu assento, seus olhos se estreitaram quando ele notou as trilhas de fumaça, se afastando em correntes finas e pequenas, puxadas para a esquerda ao invés de flutuar com a leve brisa. Curioso. Reunindo seu chi, ele estendeu seus sentidos internos, sentindo o vento que se movia ao redor dele em pequenas correntes. Muitos acreditavam que o vento se movia como uma única corrente, uma massa de ar se movendo de um lugar para o outro, mas a verdade estava longe disso. Cada pequena mudança tinha um efeito, caso fossem das asas de uma borboleta, ou um pássaro, o menor dos movimentos teria um impacto no vento, aumentando a intensidade conforme ele se reunia lentamente até que se tornava um furacão.

Seus sentidos o direcionaram para a amiga da filha, uma garota cervo, seus chifres afiados e proeminentes um sinal óbvio de suas origens. Intrigado, ele se aproximou levemente, apenas para ser interceptado por Akanai, que rapidamente foi atrás dele, encarando ele enquanto protegia a criança. Desviando dela, ele bufou conforme circulava ao redor dela com um único passo, deixando a si mesmo bem aberto para um ataque, mas despreocupado.

— Eu só quero dar uma olhada. — As palavras foram Enviadas para Akanai e ela pareceu hesitar antes de aceitar, não se incomodando em continuar sua pequena partida.

A garota cervo estava sentada com as pernas cruzadas, suas palmas entrelaçadas em seu colo enquanto meditava, seu rosto calmo e tranquilo. Balançando um único dedo, ele enviou um feixe de chi para cortar um pequeno pedaço de grama, o feixe flutuou no ar e circulou a garota levemente, caindo para o lado com a mais leve das brisas, trazendo um olhar de incredulidade em seu rosto. A garota estava inconscientemente manipulando o vento, apesar de que com pouca força ou controle, mas era um primeiro passo espetacular conforme as bençãos do Vento Divino se assentavam nela. Provavelmente, a partida dele com Akanai inspirou isso e, incerto se devia chorar ou rir, Min Gyu lamentou sua parte em fortalecer alguém que se tornaria seu inimigo, mas ainda se orgulhou muito ao ver uma jovem guerreira desabrochar. Se virando para Akanai, ele levantou uma sobrancelha e sugeriu que ela fizesse algo. Um Despertar Espiritual era algo difícil sem ajuda, especialmente para alguém tão jovem, mas com o estímulo certo, essa criança certamente iria se tornar um tesouro. Dois jovens talentos, a sorte de Akanai era quase inacreditável.

Depois de alguns minutos encarando, suas frustrações se acumularam quando se tornou óbvio que ela não faria nada e ele bufou em desdém.

— Por quê? — Assim que a palavra saiu de sua boca, ele começou a se xingar internamente por não usar Kyung para perguntar em seu lugar, mas não havia pílula para arrependimento. — Você não pode ser tola ao ponto de não fazer nada e deixar essa criança sem auxílio por causa da minha presença?

— Nesta instância, sua presença não tem impacto em minhas ações. — Encarando ele enquanto permanecia calma, sua respiração veio em lufadas pelo nariz enquanto ele lutava para controlar seu temperamento, suas mãos se fechando e soltando enquanto ele imaginava dar uma surra na mulher arrogante. Engolindo sua raiva, ele continuou encarando ela, sem palavras exigindo uma explicação. Ser insensível com essa jovem era jogar fora o futuro do Império, pois os jovens de hoje são os heróis de amanhã.

Depois de algum tempo, a mulher odiosa finalmente falou enquanto dava de ombros preguiçosa:

— Eu não sou hábil para ajudá-la de maneira apropriada, nem estou no comando de alguém que seja. — Ela deu um olhar sugestivo para ele. — A garota irá ter sucesso ou falhar por conta própria, como ela fez a vida inteira.

Sua raiva desapareceu com essa única palavra, e ele se sentou de volta em sua cadeira para pensar em suas palavras. A garota, Adujan, era uma jovem talentosa raramente vista, uma em dezenas de milhares, e Akanai ousou insinuar que ele a ajudasse? Já que a garota não o aceitou como seu Mentor, ele se recusava a gastar esforço para que Akanai pudesse colher sem plantar, e ele não via um cenário onde Akanai permitiria que ele a levasse como uma escrava sem contestar.

O dia passava enquanto ele assistia a garota, só capaz de oferecer uma reza e boa sorte enquanto ela continuava a meditar, com o vento rodando ao seu redor levemente. O tempo do jantar chegou e ele assistia com antecipação ansiosa quando Akanai foi acordá-la, suas esperanças desfeitas ao ver a careta em seu rosto, um sinal claro de sua inabilidade de Despertar, os segredos revelados a ela desaparecendo de sua memória.

Permanecendo em sua cadeira, ele contemplava em silêncio suas opções enquanto via a garota ir embora, lamentando sua falha. O Vento Divino podia ser uma amante instável, quem sabia quantas chances mais a garota teria?

O cheiro de ervas amassadas e óleo medicinal enche meu nariz enquanto eu queimo meus miolos.

— Uhh… os pontos de acupuntura Quchi… e os Laogong?

— Você está me perguntando ou afirmando? — Tokta se sentou caído em sua cadeira, sua voz abafada pela mesa em que seu rosto descansava. Esses últimos dias foram duros para ele, saindo com os Sentinelas, dividindo o comando com Alsantset agora que Akanai estava sendo babá do Mentor maluco do Kai.

— … Afirmando?

Levantando sua cabeça para me dar um olhar de reprovação, ele suspira. — Correto. Seja mais confiante, garoto. Você é rápido para memorizar e, mais importante, você é capaz de usar seu conhecimento. Acabe aqui e venha comigo.

Deixando de lado o almofariz e pilão, eu me levanto e o sigo para fora da tenda e em direção a uma área rochosa isolada. Estendendo um tecido, um tapete de bambu, ele gesticula para que eu me deite nele.

— Você esteve me enchendo para prosseguir com seus estudos, e seu progresso me impressionou de maneira adequada. Seu conhecimento técnico é adequado, então hoje, você vai começar a recrescer seu braço. Eu digo tentar porque não é só possível você falhar, eu espero que você vá falhar hoje. Na verdade, o melhor cenário seria que nada acontecesse e nós tentássemos amanhã de novo.

Bom… isso não é nem um pouco desmoralizante.

— Tá… então, o que eu faço?

Bocejando, ele se espreguiça enquanto se senta no chão a uma curta distância de mim.

— Se prepare. Medite. Examine. Controle seu chi, visualize, e, então, recrie o braço. Simples de explicar, difícil de fazer. Não perca seu foco. — Se deitando, ele põe suas mãos em seu estômago e fecha seus olhos, caindo no sono quase que imediatamente. Tokta não é exatamente o professor que mais se importa no mundo, preferindo me deixar tentar descobrir tudo por conta própria. Até mesmo o livro que ele me deu estava cheio de informações, mas nada sobre cura de fato. Essencialmente, ele me deu um livro sobre números e quer que eu descubra o cálculo. Isso é muito prestativo.

Controle vem com a prática, então eu acho que é uma boa hora para tentar, com o outro eu dormindo depois do nosso ataque matutino de doença do movimento, incapaz de me distrair. Ele só está realmente “acordado” depois de algumas horas a cada dia, o que está bom para mim. Eu me senti abarrotado ultimamente, quase ressentido de sua presença já que eu prefiro ficar sozinho em todas as coisas, embora ter Adujan por perto não seja ruim. Dando uma última olhada para o céu laranja-azulado antes de começar, eu fecho meus olhos e respiro, lentamente revisando os passos necessários, do formato dos ossos, a localização dos músculos, orientação dos tendões, e o tempo passa enquanto eu me preparo.

Quando eu finalmente sinto que estou pronto, eu lentamente alcanço Equilíbrio, deixando meu chi circular pelo meu corpo lentamente conforme a Energia dos Céus me cumprimenta, uma piscina gentil, suave, pronta para eu relaxar dentro dela. Há muito tempo eu decidi não usar o anel para isso, me permitindo trabalhar no controle sem precisar me preocupar sobre matar a mim mesmo por tomar Energia demais.

Interessantemente, conforme meu chi flui pelo meu corpo, parece que meu braço ainda está lá, as sensações imaginárias do ar gelado fluindo sobre ele, fazendo cócegas nos pelos do meu braço enquanto este descansa ao meu lado. Tokta chama isso de “Sensação Fantasma”, algo que não é realmente bem entendido, mas eu acho que é uma razão do porquê eu não poder modificar meu braço enquanto eu me regenero, porque ele ainda existe de algum modo metafísico. Qualquer desvio do que está lá irá aparentemente resultar em um crescimento explosivo de tumores, um pensamento desagradável. Estou me desviando, preciso me focar. Me permitindo relaxar enquanto eu medito, minha mente se esvazia de tudo exceto do que é necessário e eu espero, meu chi circulando em meu corpo enquanto a Energia Celestial começa a se condensar no meu dantian.

Quando o fluxo no meu dantian desacelera até parar, eu deixo a Energia dos Céus continuar a passar por mim, me cercando em um tranquilo estado de suspensão, e minha mente se volta para meu braço, do qual só resta uma parte no meu ombro. Aquela articulação e o músculo conectando o cotoco estão no lugar, eu só preciso trabalhar para fora começando do húmero. Os músculos deltoides vão precisar ser recrescidos e conectados ao que ainda está no lugar, um bom primeiro passo. Movendo meu chi em direção ao meu braço, ele fica parado lá, fazendo nada como se não tivesse encontrado nada para curar, sem trabalho para fazer, e minha mente repassa pelas opções possíveis.

Tentativamente, eu começo com algo familiar, reparar o osso, e empurro meu chi para começar a trabalhar, sangue fluindo para o tecido cercando o osso cortado de maneira limpa, inflamando a área conforme este coagula em um padrão pré-determinado, preparando o caminho para uma estrutura estável, cada passo cuidadosamente guiado com a mais elevada concentração.  O sangue coagulado cresce de tamanho e é reaproveitado em um tecido macio, fibroso, uma pequena capa no osso com menos de um milímetro de espessura enquanto eu repito o processo de novo, espessando e comprimindo, fortalecendo a capa no osso e na medula .

Tempo não tem significado aqui, mas parece que eu estive concentrado por horas, com minha mente já cansada, mas há mais coisas para serem feitas. Minha garganta queima de sede enquanto eu me movo para o próximo passo desagradável: o endósteo e o periósteo, as camadas de membrana rica em nervos que se alinham dentro e fora dos meus ossos. Começo sentir dor ao criar novos nervos, milhares deles em uma área menor do que uma gota de água, que disparam pela primeira vez com se houvesse sinais de ferimentos onde não há nenhum, e vão continuar a fazer isso até se adaptarem.

Saindo do Equilíbrio, meus olhos se abrem para a fraca luz da noite enquanto eu me agito, suor escorrendo da minha testa enquanto meu braço grita de agonia. Me falta ar, eu checo o cotoco por qualquer mudança visível mesmo sabendo que eu não vou ver nada. Um cantil de água está perto de mim e eu bebo com desejo enquanto olho meus arredores. Tokta ainda está deitado onde eu o vi da última vez, um cobertor sobre ele. Há um cobertor sobre mim também, a lua quase cheia se movendo pelo céu noturno enquanto Tokta ronca, indicando que eu estive aqui por pelo menos três horas.

Muito esforço para poucos ganhos, quase não valeria a pena até eu lembrar que eu estou crescendo a porra de um braço. Claro que não vai ser fácil. Depois de alguns exercícios de respiração, a dor diminui até chegar em um nível mais suportável, me sentindo como se tivesse uma pequena moeda quente colada no meu cotoco de braço, uma pequena inconveniência. Tremendo com a memória da dor do meu braço recém crescido, eu levo algum tempo para me convencer de que vale a pena, que eu preciso aprender isso, e que eu realmente preciso agradecer ao Taduk na próxima vez que eu ver ele. Ele recresceu meu braço e pé em uma questão de horas, o homem merece um abraço.

Como ele me curou tão rápido? Não pode ter sido com micro-administração, porque nesse ritmo eu vou ter um braço novo em uma década ou mais. Se eu só pudesse ter um novo braço nascendo totalmente formado do cotoco, ou pelo menos acelerar isso de algum jeito. Olhando para o Tokta por um momento, tomo minha decisão facilmente; já que ele estava dormindo quando eu comecei, eu posso continuar praticando até que eu desmaie. Depois de tomar alguns minutos para me recompor, eu me deito de novo no tapete, minha camisa empapada de suor está fria na minha pele, e eu busco o Equilíbrio.

Voltando de onde parei, eu continuo a despejar chi no meu braço, movendo do osso, até o músculo, gordura, e pele, uma tarefa devagar e árdua, meu progresso espiralando para fora do pequeno centro até depois da eternidade, uma pequena seção transversal do meu novo braço foi regenerada, meu cotoco agora quase um milímetro inteiro mais longo. Internamente inspecionando meu trabalho, eu não consigo não me sentir desmotivado com a quantidade de trabalho necessário para fazer isso, incapaz de enxergar um futuro em que isso aconteça rapidamente. Tem que haver algum truque que eu não estou vendo, algum método que eu possa aplicar.

Pensando lá atrás, Taduk trabalhou com múltiplas áreas de uma vez, recrescendo meu fígado e costelas ao mesmo tempo, da mesma maneira que ele remendou os buracos no meu peito todos na mesma hora, o chi se dividindo em milhares de diferentes seções para cada parte fazer um única coisa. Isso não é só uma questão de prática ou multitarefa, simplesmente não tem jeito dele ter direcionado tudo de uma vez só. Tem que haver algum grau de automação, parecia que cada corrente pequena de chi sabia exatamente o que fazer. É possível para mim esquematizar uma série de instruções para o meu chi antecipadamente, e simplesmente deixar ele trabalhar?

Pondo minha teoria em prática, eu começo a trabalhar tentando duplicar o trabalho de Taduk em uma escala menor, só tentando automatizar o processo de crescer uma nova capa no osso, mas não importa como eu tente, assim que eu paro de focar em um único processo e prossiga, o primeiro processo para. Exasperado, eu decido apostar tudo e tentar algo drástico, visualizando a seção transversal inteira que eu estou tentando recrescer, segurando o conceito em minha mente antes de direcionar meu chi para tornar isso realidade tudo de uma vez. Enquanto eu assisto, o pequeno disco de braço cresce mais rápido do que antes, a dor excruciante quase perde para minha alegria, a doce reinvidicação de saber que eu estou fazendo algo certo me enche de orgulho. Logo, outro milímetro é adicionado ao meu cotoco e indo com tudo, eu aumento e tento uma seção mais larga, quase três milimetros de espessura dessa vez.

O processo continua enquanto eu me congratulo por ser incrível, mal conseguindo esperar para esfregar meu sucesso na cara do Tokta. Sua atitude aborrecida e desdenhosa está me irritando muito ultimamente. Eu não deveria ficar feliz demais, nem deveria me chamar de gênio, mas eu imagino como ele—

Minha boca se abre e um grito torturado escapa dos meus pulmões conforme uma dor violenta e intensa explode do meu braço como se ele tivesse sido mergulhado em ácido e estivesse em chamas. Encarando meu cotoco de braço na luz do luar, eu vejo em um horror agonizado um nódulo(lump) de carne e osso do tamanho de um punho sair da pele, parecendo nada como deveria, crescendo na minha frente em um amálgama aterrorizante de carne sinuosa, meu rugido inumano ecoando na noite.

Uma mão pesada me empurra para baixo e um peso me prende no lugar, o joelho de Tokta contra meu peito. Com um flash na luz do luar, meu nódulo é decepado do meu braço, mas ainda continua a crescer conforme ele se contrai e cai no chão. A mão de Tokta cobre meus olhos e eu ouço sua voz anasalada, seca enquanto eu mergulho na doce inconsciência.

 

— Parabéns garoto, sua falha foi mais espetacular do que o esperado.

 

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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