DS – Capítulo 9

Baatar sai do palco sem uma palavra para o garoto. Ele estava em boas mãos. Charok e Alsantset eram a melhor escolha para criar ele. Os dois viram ele em seu pior momento e iriam entender suas necessidades. Além disso, Baatar tinha seus próprios problemas para resolver. Sarnai deu uma olhada para ele enquanto todos estavam no palco, um olhar que ele conhecia muito bem. Ela discordava dele. Pior ainda, ela estava com raiva. Ele foi embora das celebrações para um área mais isolada e esperou por ela.

Ela não o fez esperar por muito tempo. Ele sorriu. Mesmo depois de mais de cinquenta anos casados, até quando estava furiosa com ele, ela era linda.

— Você não disse que iria ser o responsável dele. Eu quase pirei e te chamei de retardado na frente da vila toda. Por que você fez isso? Os riscos são muito maiores do que os benefícios. — Ela sempre foi direta.

— Eu não disse porque você teria argumentado contra, nem eu fiz minha decisão sem pensar antes. Eu acredito nele.

Sarnai jogou as mãos para cima.

— Sem pensar. Porra. Com o que você me contou sobre o garoto? Eu quase quero envenenar a bebida dele. Seria misericordioso. Os porcos, eles não tratam bem seus escravos. Um clã de glutões, sádicos e criminosos. Com o que eu vi? Eu nunca vi uma criança tão traumatizada. Ele ri, ele chora, ele pula, ele cisma. Ele está meio maluco como está.

— O menino é forte. Ele irá se curar.

— Ele está fadado a pirar. Você deveria saber. Você ajudou ele a bater até a morte em um guarda indefeso .

— Indefeso, mas não inocente. Foi uma terapia para o menino. Eu teria matado o guarda independentemente. — Baatar trouxe Sarnai para seus braços. — Não adianta chorar pelo leite derramado. Deixe para lá, minha linda. Talvez foi errado da minha parte.— Mesmo dizendo isso, ele pensou: Embora, não tenha sido. Ele precisava daquilo.

Ela corou e bateu em seu peito.

— Linda o quê? Eu tenho 73 anos. Eu sou uma mulher velha agora. Você deveria ter uma segunda mulher. Alguém mais nova do que eu, alguém que possa cuidar de você. Você deveria me deixar escolher alguém para você, enquanto eu ainda estou por perto. E não pense que sua conversinha fiada  vai me fazer esquecer sobre o menino. Ele é instável.

Baatar beijou ela profundamente.

— Eu nunca vou ter uma segunda esposa. Quem poderia se comparar a você, minha rosa.

— Eu só quero alguém em quem poder mandar enquanto você se aventura por aí. É uma casa grande na qual nós vivemos e há muitas coisas para serem feitas. — Ela pôs sua cabeça no peito dele e ouviu seu coração bater. Forte. Vigoroso. Ela olhou para sua mão, enrugada e velha. Quando eles se casaram, ela sabia que isso iria acontecer. Mas experienciar isso era muito mais difícil do que ela imaginava. Ela amoleceu nos braços dele.

— Eu falei sério, amado. Eu estou velha e frágil e você vai permanecer jovem e forte por mais três ou quatro séculos. Eu me preocupo com você. Você é uma presa fácil. Depois que eu morrer, você vai ficar com um coração tão partido e perturbado, que cairá nos braços de alguma mulher idiota, peituda, só porque ela sorri para você e te diz coisas gentis.

Baatar sorriu. Mulher teimosa.

— Você ainda tem muitos anos pela frente. Quando você morrer, eu vou estar abatido como nunca antes. Eu vou chorar por você e passar o restante da minha vida relembrando nosso tempo juntos. Mas isso ainda levará um tempo para acontecer. Você é minha mulher, minha rosa, e eu já te deixo só o bastante. Quando eu estou aqui, eu não permitirei que qualquer um interrompa meu tempo com você.

Eles se abraçaram por um tempo, até que Sarnai se afastasse dele, embora ainda permanecesse em seu abraço.

— Eu ainda discordo sobre ele. Os registros foram checados e todas as crianças nascidas perto da sua idade foram contadas. O mistério da sua paternidade é facilmente resolvível. A questão é como ele acabou como um escravo. Ele é um perigo para a vila. E se houver retribuição? E se ele machucar alguma outra criança?

— Não haverá qualquer retribuição. Uma companhia de mercadores, contra um Capitão das forças de defesa do Império? Hah. Eu desafio eles a virem até mim, eu vou apagar eles da face da terra. — Baatar sorriu ao pensar na chance do derramamento de sangue. — Quanto ao menino, eu não me importo sobre como ele acabou lá, apenas que temos ele de volta agora. Eu não vou mandá-lo embora. Eu não acho que ele vai machucar outra pessoa. Ele está ferido, mas tem uma alma gentil.

— Você não pensa, você só pensa merda! O que te fez ter tanta certeza?

— A atitude dele.

— É só isso? Merda, seu cabeça dura, cara de mula, com cérebro de cachorro. Esse é o motivo pelo qual você decidiu se responsabilizar por ele? A atitude dele?

— Você não o viu quando nós os achamos, minha rosa. Faz menos de duas decanas, e ele já começou a sarar. Eu não consigo me lembrar de alguém que, sob as mesmas circunstâncias, conseguiria chegar tão longe quanto ele nesse curto espaço de tempo. — Baatar estava orgulhoso do menino. Um legítimo guerreiro.

— …O quão mal ele estava? Para dizer que ele melhorou…

Ele suspirou. Melhor que ela saiba agora. Talvez Sarnai poderia ajudá-lo.

— O menino acordava gritando nos primeiros dias. Algumas vezes ele não reagiria por horas, outras vezes ele iria gritar e desabafar em uma língua estrangeira.

— Ha. Tudo isso e você acha que ele irá se curar? Você perdeu os pregos na cabeça? Está bloqueando martelos usando o crânio de novo? Eu deveria pedir ao ferreiro para pregar eles de novo?

— Depois da primeira noite cuidando dele, Taduk estava tão perturbado que os outros precisaram misturar um sonífero para que ele dormisse. Ele não conseguia entender como alguém poderia machucar uma criança de um jeito tão terrível. Tinha mais machucados do que pele normal. Três ossos quebrados, quatorze fraturas. Queimaduras de chi sobre metade de seu corpo. Faltavam três unhas dos dedos, cinco das unhas dos pés, e tinha mais dentes quebrados do que inteiros. Outros cinco dias e ele teria morrido de ‘Pulmão Podre’, afogado no seu próprio sangue. — Baatar parou, perdido em pensamento. Ele não deveria ter deixado os guardas morrerem tão facilmente.

Sarnai bateu no peito de seu marido.

— Sua história não me inspira confiança.

— Desculpas, meu amor. Eu estava perdido nos meus pensamentos. Mesmo com todas aquelas feridas, o garoto andou por mais de vinte quilômetros até chegar ao nosso acampamento. Ele até mesmo conseguiu enganar Alsantset a soltar ele, para tentar fugir. Se ele não for a definição de persistência, eu não sei mais o que é.

Sarnai olhou para seu marido. Os olhos dela abertos ao descobrir a verdade.

— Você gosta dele. Você queria adotar ele.

Baatar sorriu.

— Eu queria. Mas não teria sido justo com você. Comigo longe pela maior parte do ano, todo o trabalho ficaria em seus ombros. Charok e Alsantset vão fazer bem a ele. A garota estava pronta para invadir as minas sozinha e desarmada. Ela teria feito isso se eu não tivesse dado a ordem para ela ser vigiada e restringida, e Charok parece entender ele. O garoto responde bem a ele.

— E se ele não se curar, o que você fará, marido? — Ela o abraçou novamente.

Você não deveria ter se responsabilizado por ele. — Ela pensou.

— Então eu vou matá-lo com minhas próprias mãos. Mas eu não acredito que isso será necessário. — Baatar suspirou.

Eu espero que não seja necessário. — Ele pensou.

Os dois continuaram em pé no lugar, tendo conforto no abraço um do outro.

— Nós deveríamos adotar outra criança? Seus instintos paternais parecem ter retornado. — Sarnai perguntou a ele, esperando que ele concordasse. Mais crianças iriam ajudar ele a lidar com a perda.

— Meu amor, se você deseja me ocupar, eu farei isso. Mas, meu tempo, eu iria preferir passar com você e só você. — Ele gentilmente a pegou em seus braços. Ela riu como uma menina e descansou sua cabeça no ombro dele. Ele a beijou na testa. — Chega de falar no garoto. Eu desejo ouvir como anda minha esposa na minha ausência.

 

Ele a carregou para longe, retornando para o lar deles.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

12 Comentários

  1. A merda que vai acontecer vai ser muitoooo grande, eu já estou me preparando para a merda, não tem como algo muito ruim não acontecer com essa vila..

  2. Eu quero saber com quantos anos eles se casaram pra ela ter 73 e o baatar parecer tão novo ao ponto viver uns 400 anos?
    Valeu pelo capítulo Worst.

    1. então, baatar está na casa dos 80 anos, o que é muito novo para meio-humanos, porque ele tem uma expectativa de vida de uns 400~500 anos. E até ele ter uns 400 ele ainda vai parecer jovem como sempre.

  3. Que casal bonitinho…E o prota achando que a mulher estava perto dos quarenta, ela tem mais que isso só de casada hauahuahia

  4. Mano, a chance do menino ser tratado igual Naruto aí é grande… ou até mesmo escravo…

  5. essa ração que o Baatar come deve ser das boas! Parece que eles perderam um filhote. Mais alguém lembrou do Highlander I ?

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