LAB – Capítulo 230

Assassinato (Parte 1)

Antes do sol se pôr completamente, Sem-rosto nadava silenciosamente pelo canal, circulando o campo dos mercenários, se aproximando por trás deles.

Seu verdadeiro nome não era realmente Sem-rosto, mas sim, Aphra, um nome que ela gostava muito, porque significava “poeira” e lhe fora dado na Nova Cidade Sagrada pela arcebispa Heather. Ela adorava esse nome, pois a poeira era exatamente como ela: se caísse no chão, dificilmente alguém conseguiria reconhecê-la.

Somente na frente de Heather, Aphra usaria sua aparência real.

Como membro do Tribunal, Aphra ajudou a arcebispa Heather a lidar com muitas bruxas impuras, incluindo as bruxas que traíram a igreja e fiéis que se corromperam. A razão pela qual ela tinha sido enviada para a Cidade Real de Castelo Cinza foi para realizar uma missão essencial: transformar um Chefe de Justiça no Rei de Castelo Cinza[1]. Quanto a capturar aquelas bruxas impuras, era apenas um trabalho que ela realizava quando tinha tempo. Além disso, ela também gostava de se transformar nas bruxas que eram sentenciadas à tortura, experimentando todas as suas dores. Ela acreditava que fazendo isso, ela também poderia expiar seus próprios pecados, expurgando o poder do diabo.

O acampamento dos mercenários foi erguido de forma muito inteligente, pela margem em um aclive cercado por terras abertas, o que dificultava observar o que ocorria no acampamento, além da bruxa no céu estar sempre observando, impedindo-a de se aproximar. Aphra teve que se espreitar por um armazém na fazenda próxima e esperar até o anoitecer antes de poder agir.

Quando a noite envolveu a terra, Aphra descobriu, para sua surpresa, que a situação mudou. Todos os mercenários se retiraram da área do cais e voltaram para dentro do acampamento.

Aqueles ratos idiotas da organização Água-dos-sonhos estão se aproximando pela praia, segurando tochas! — Aphra pensou — Parece que eles estão querendo dizer “olha, tem alguém vindo atacar o acampamento de vocês”. Mesmo se não houvesse uma bruxa voando, esse grupo de mercenários não é cego. Qualquer um pode ver que tem um grupo grande de pessoas se aproximando. Ah, que azar.

Seu coração ficou sombrio, pois se o inimigo julgasse que o número de ratos fosse grande demais, que não haveria chance de ganhar, então certamente eles iriam se retirar para o leste. Embora fosse um tabu marchar durante a noite, se isso significasse salvar sua vida, escapando e se dividindo, ninguém iria pensar duas vezes. Se os ratos não os cercassem por todos os lados, os mercenários poderiam fugir facilmente. Além disso, os ratos estavam se aproximando da doca pelo outro lado do rio, atravessando lentamente com balsas de madeira.

Até que todos eles consigam finalmente chegar do outro lado e pisar no acampamento inimigo, os mercenários já terão fugido por suas vidas. — Aphra pensou — É impossível para estes miseráveis perseguirem os mercenários durante a noite, então, como eu vou conseguir rastrear aquelas malditas bruxas?

Aphra foi rapidamente para o campo, na esperança de misturar-se com os mercenários antes de começar sua busca. Mas assim que ela se aproximou, viu uma cena inteiramente inesperada, pois descobriu que os mercenários estavam reunidos nas proximidades, sem nenhum indício do caos que ela pensava. Ainda havia gente patrulhando pelo campo e a fogueira queimava alto, o que lhe permitia ver suas silhuetas indo e vindo, mostrando uma imagem ordenada e não a cena do caos que esperava.

Eles não escolheram recuar? — Depois de uma observação cuidadosa, Aphra confirmou seu julgamento, ao mesmo tempo em que um sentimento de deleite começava a se espalhar por seu corpo. Embora ela não soubesse por qual motivo os mercenários decidiram ficar em vez de escapar o mais rápido possível, ao que parece, essa decisão foi predestinada. Ela tirou uma adaga da cintura, observou as ações de um mercenário que estava de sentinela, descobrindo o seu ponto mais fraco.

Além de fazer com que a vida de Aphra tivesse um significado, Sua Excelência Heather também a ensinou técnicas essenciais de luta e assassinato. Estes mercenários não eram de elite, e ela poderia confirmar isso pelos arranjos das sentinelas. Aproveitando o momento em que o mercenário se virou para examinar outra área, ela se aproximou abaixada, por um ângulo cego, e rapidamente se atirou nele, uma mão cobrindo a boca por trás, e a outra magistralmente cortando seu pescoço com a adaga.

Depois de matar silenciosamente o mercenário, Aphra pôs uma mão em seu inimigo e a outra em seu próprio peito, utilizando sua habilidade de transformação. Não existia um tempo exato para ela terminar sua transformação, tanto, que quando ela substituiu o Rei por outra pessoa, para garantir um efeito de longo prazo, ela esgotou quase toda a magia em seu corpo e o tempo de conversão havia durado por quase uma hora inteira. Mas desta vez, não havia necessidade da transformação durar tanto tempo, e em um piscar de olhos, ela já havia se transformado no mercenário. Mesmo que o efeito só durasse meio dia, seria mais do que o suficiente para o assassinato.

Antes que algum outro mercenário voltasse até aquele local, rápida como um relâmpago, ela tirou as roupas do morto e as vestiu. Depois, arrastou o corpo para os campos de trigo. No entanto, assim que Aphra pegou a arma do mercenário, ela ficou um pouco confusa. A arma em suas mãos parecia uma lança de ferro com uma alça de madeira que não tinha uma ponta, mas sim um buraco largo.

O que é essa arma? — Mesmo depois de pensar durante muito tempo, ela ainda não conseguia encontrar a resposta, mas vendo que um outro membro da patrulha estava voltando, sem uma escolha melhor, Aphra lembrou das ações do mercenário e pôs a arma em seu ombro, assumindo não só a sua aparência, mas também agindo exatamente como o sentinela, patrulhando a área.

Como em tantos assassinatos anteriores, quando o outro guarda passou por ela, ele não descobriu nada de diferente.

Aphra não estava com pressa para entrar no campo e encontrar o paradeiro das bruxas, afinal, a sua técnica não obtinha as memórias do alvo, somente imitava a forma externa do indivíduo. Então, no caso de dar de cara com um de seus conhecidos, ela seria facilmente exposta. Assim, ela decidiu esperar até que essas tropas estivessem em caos, o que lhe proporcionaria a liberdade de escolher entre inúmeras oportunidades.

Quando a lua estava no alto do céu noturno, os idiotas da organização Água-dos-sonhos finalmente cruzaram o canal e se aproximaram do campo. No momento em que ela ouviu o apelo de outro sentinela, e viu as patrulhas e mercenários se retirarem em direção ao campo, ela sabia que sua chance havia chegado.

Seguindo a multidão no acampamento, Aphra ficou mais uma vez surpresa ao descobrir que existiam muito mais de cem pessoas no campo. Eles se agruparam em forma de círculo ao redor do topo de uma pequena encosta no terreno, e existia um grande número de pessoas agachadas e em pé no local, segurando uma estranha arma de haste em suas mãos e sempre apontando o buraco na direção do inimigo.

Mas ela não quis dar uma olhada, pois aproveitou que o grupo estava focado em outro lugar, curvou-se e entrou na barraca mais próxima.

Pouco depois, os gritos de batalha ecoaram do lado de fora, mas logo foram interrompidos por explosões ferozes, como trovões. Assustada, Aphra deu um pequeno salto em reação, devido ao som ensurdecedor.

O que diabos está acontecendo lá fora?  — Por impulso, ela queria dar uma olhada, mas imediatamente recuperou o controle e esperou calmamente.

Depois de algum tempo, o campo tornou-se agitado novamente, e ela ouviu muitos passos e gritos de comandos, o que era provavelmente a tentativa dos mercenários de ajustar a defesa de acordo com o ataque do inimigo. Mas pouco a pouco, Aphra foi ficando ansiosa.

Por que está levando tanto tempo assim? Por que os ratos ainda não conseguiram chegar? — Ela pensou.

Enquanto o tempo passava, os sons de explosões foram gradualmente diminuindo, e quando Aphra já não conseguia mais ouvir o barulho dos ratos em batalha, seu coração acelerou.

Será… será que a organização Água-dos-sonhos foi derrotada? — Aphra pensou — Mesmo que tenha o dobro dos mercenários informados, ainda não passa de duzentos ou trezentos deles, cercados por mais de mil ratos. Com esses números e atacando de todos os lados, como os ratos ainda não conseguiram chegar até aqui na colina?

Parecia que a oportunidade estava escorregando de suas mãos.

Tomando uma decisão rápida, Aphra saiu da tenda, tentando chegar ao centro do campo. Lá, ela esperaria o fim da batalha. Afinal, durante uma chamada, os respectivos líderes iriam ler os nomes de todos os mercenários em voz alta, marcando a presença ou falta de cada um, logo, seria quase impossível para ela se esconder na tenda. Esta não era a forma como ela havia planejado a infiltração, pois ela não estava familiarizada com estes mercenários, nem sabia de seus códigos, então ela precisava agir rapidamente.

Passando por duas barracas, Aphra se escondeu atrás de uma terceira tenda, olhando o centro do acampamento. Lá, ela viu quatro mulheres sentadas ao redor de uma fogueira. Provavelmente, estas eram as bruxas das quais ela havia sido informada.

E novamente o número informado estava errado, o maldito relatório errou em todos os pontos. — Aphra pensou.

No entanto, para ela, não fazia diferença se tivesse que matar duas ou quatro bruxas, qualquer pessoa suspeita de ser corrompida precisava ser torturada e assassinada. E se o tempo fosse muito curto para torturar, pelo menos elas precisariam ser mortas, mesmo que elas não fossem realmente corrompidas, sacrifícios sempre eram necessários.

Depois que ela observou cuidadosamente o seu entorno e decidiu uma rota de fuga segura, Aphra finalmente se levantou de trás da tenda e caminhou em direção à fogueira como se nada tivesse acontecido.

Só que quando ela chegou no meio do espaço aberto, Aphra sentiu um objeto rígido e frio pressionado contra suas costas.

— Não se mexa. — Uma voz feminina soou atrás dela — Quem é você?


[1] Para recordar, temos o encontro de Timothy com esse ‘falso rei’ no capítulo 46. Além disso, temos a conversa com o verdadeiro Rei no capítulo 84 e no 85.

JZanin
Professor de Química, mestre em Ensino de Ciências, jogador de RPG sem tempo e Deodoro Aliguieri nos tempos vagos que não existem mais. ~Strong alone, stronger together!~

18 Comentários

  1. Essa Aphra nao teria serventia para Roland. Rouxinol é uma versão melhorada dela. Mas seria bom capturar e interrogar ela. Ninguém melhor que Rouxinol pra interrogar pessoas.

  2. Desgraçada, matou um dos soldados do 1º exército

    Maldita igreja, sempre deturpando a mente com essas lavagens cerebrais insanas

    Porrada nela, rouxinol! Faz essa desgraça comer o pão que o diabo amassou e contar tudo que a igreja faz

  3. Matar essa ai não é castigo o suficiente, além de querer matar as bruxas do Roland, ela queria torturar?
    Mexeu onde não devia querida

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