LAB – Capítulo 250

Solstício de verão

Roland não estava com vontade de sair do castelo, pois o solstício de verão tinha acabado de chegar. Dentre os meses do verão, os últimos eram sempre os mais quentes, e o solstício indicava o último mês, e o mais quente, do verão.

Após utilizar a maioria do salitre comprado de Margaret para a produção de pólvora, Roland usava o restante para diminuir a temperatura do ambiente do castelo. Quase todos os cômodos possuíam um recipiente contendo água imerso em um pequeno tanque cheio de salitre. Assim, todos poderiam se sentar em uma sala mais fresca e desfrutar de água gelada para saciar a sede. Roland estava muito satisfeito com isso, pois mesmo que ele andasse por todo o castelo, ainda assim não chegaria suado em seu escritório.

Devido ao calor, Roland pediu para as bruxas, exceto Anna, interromperem seus trabalhos nas fábricas por alguns dias e praticarem diariamente suas habilidades. Elas basicamente se reuniam no salão do primeiro andar para bater papo ou jogar Gwent, sempre alegres e de bom humor. Quanto a Anna, Roland queria que ela descansasse, mas o calor não a incomodava. Ela podia segurar os lingotes incandescentes em altas temperaturas com suas mãos nuas, então o calor escaldante do verão não era nada para ela. Mesmo que ela estivesse ocupada trabalhando no alto forno de aço durante toda a tarde, ela ainda não iria suar.

A fim de recompensar o trabalho árduo de Anna, Roland havia criado deliberadamente algumas sobremesas geladas para recompensá-la, como o delicioso sorvete clássico dos tempos modernos. Ele conseguiu essa proeza misturando gema do ovo, creme de leite, leite e açúcar uniformemente, resfriando tudo com salitre. Anna gostava muito dessa sobremesa doce e com textura macia, e sempre que ela experimentava, seus olhos azuis, como um lago, expressavam o quanto ela estava satisfeita.

Além disso, ler o relatório mensal enviado pela Prefeitura também era um grande prazer para Roland.

A população de Vila Fronteiriça praticamente duplicou, com cerca de dezoito mil pessoas. Como Forte Cancioneiro enviava servos todos os meses, seria fácil ultrapassar a meta de vinte mil habitantes em um futuro próximo. Excluindo a população de aldeias e vilas menores dentro do domínio das grandes cidades, o número de habitantes em Vila Fronteiriça poderia ser comparável às grandes cidades como Cidade Carmesim, Valência e até mesmo a Cidade Real de Castelo Cinza.

A única coisa que deixava Roland preocupado era que o crescimento da população não estava em consonância com o aumento da qualidade na educação das pessoas. De acordo com o último relatório, havia apenas cerca de mil pessoas nativas da região recebendo a educação primária, e ainda levaria cerca de um ano para concluírem os estudos. Mesmo havendo o colégio de Karl, que ensinou aproximadamente cem estudantes que há pouco se formaram, esse número ainda era muito aquém do desejado por Roland, tendo em vista a população atual da vila.

Talvez eu devesse oferecer a educação primária para os refugiados da Região Leste agora, em vez de esperar até o momento em que todos tenham uma casa para morar. — Roland pensou — Afinal, a educação primária só irá fazer bem a eles.

As fábricas da vila estavam se desenvolvendo muito bem.

Depois de meio ano de construção, o parque industrial tinha agora três fábricas em funcionamento. As duas primeiras produziam motores a vapor e a terceira era uma fábrica de munição. O número de trabalhadores da primeira fábrica aumentou dos iniciais doze ferreiros para mais de cem pessoas. Os trabalhadores recém-chegados dessa fábrica eram, em sua maioria, nativos da vila que acompanhavam, aprendiam e davam suporte para os profissionais. Isso era exatamente o que Roland queria ver, um número de aprendizes se transformando em artesãos e promovendo o próximo grupo de aprendizes.

Os trabalhadores da segunda fábrica pertenciam à Câmara de Comércio da Baía Lua-crescente, que apenas com um mês, já conseguiam obter uma compreensão básica acerca do procedimento e uso de equipamentos. Mesmo com um rendimento relativamente baixo, o desempenho do primeiro mês desses artesãos[1] era aparentemente melhor do que os ferreiros da primeira fábrica. No entanto, até que o contrato expirasse, todos os motores a vapor produzidos por eles ainda eram da propriedade de Roland. Atualmente, ambas as fábricas poderiam produzir entre oito a dez motores a vapor por mês, sendo a principal renda de Vila Fronteiriça.

Quanto à terceira fábrica, as munições produzidas seriam passadas diretamente para o Primeiro Exército. Todas as entradas da fábrica eram fortemente guardadas e patrulhadas o tempo todo. As munições só eram transportadas pelos próprios soldados. Após uma semana de teste, a produção da nova geração de munições iniciou.

O plano de Roland para a linha de montagem não pôde alcançar a produção mecânica completa. Seja a espoleta, a pólvora ou mesmo o projétil, todas as peças precisavam de mão de obra para a montagem. As principais ferramentas de processamento eram as duas máquinas de estampagem mecânica. Uma delas pressionava as finas peças de cobre previamente cortadas por Anna na forma do estojo do cartucho, enquanto a segunda era usada para moldar a superfície metálica da espoleta.

Os soldados só precisavam colocar o fulminato de mercúrio, que é obtido na forma de cristais, dentro de um invólucro de papel, inseri-los apertadamente dentro da estrutura da espoleta, e, por último, empurrar a espoleta já pronta para dentro do cartucho na posição predeterminada. Quanto ao processo de carregar e compactar a pólvora e colocar o projétil, ele ainda era feito exatamente da mesma forma que a prática anterior.

O número de pessoas na fábrica de munição não era grande, cerca de quarenta pessoas produziam em torno de quinhentas munições por dia. Roland pretendia transformar essas quarenta pessoas em trabalhadores especializados de tempo integral, visando manter a eficiência e eficácia na produção de munições.

Com essas fábricas já estabelecidas, Roland queria agora construir a fábrica de sabonetes e de perfumes. A fábrica de sabonetes, devido aos reagentes e produtos, era muito importante para a indústria militar, enquanto a fábrica de perfumes poderia trazer novas receitas. Quanto à fábrica de bicicletas, ela poderia ser adiada um pouco, claro, desde que fosse colocada em produção um pouco antes da conclusão da Avenida Real.

— Vossa Alteza. — Rouxinol disse depois que ela abriu a porta — Maggie e Raio chegaram.

Ambas vieram correndo pela porta, passaram por Rouxinol e aproximaram-se da mesa com os olhos arregalados, cheias de expectativa, dizendo juntas:

— O senhor estava procurando por nós?

— A partir de amanhã, teremos o último mês do verão. — Roland tirou da gaveta a carta com a resposta que ele havia escrito e entregou a Maggie — Lembre-se que você prometeu me ajudar, portanto, quero que você entregue esta carta a Tilly quando voltar para os Fiordes.

— Ah… — Ela ficou chocada por um momento, piscou algumas vezes, pegou o envelope e o colocou na bolsa, dizendo — Sem problemas, pruu!

Observando a mudança no olhar de Maggie, como se ela tivesse acabado de compreender algo importante, Roland imaginou que ela provavelmente não lembrava que precisaria voltar para os Fiordes todos os meses. Roland teve vontade de sorrir, mas se conteve.

Parece que ela já está bastante influenciada pela vida aqui na vila. — Ele pensou.

— Eu esqueci que amanhã é o começo de um novo mês! — Raio disse com a mão na testa — Isso significa que a gente vai ficar um tempo sem se encontrar de novo, não é?

— Da última vez, eu me atrasei um pouco por causa do plano da Lady Tilly de destruir todas as igrejas nos Fiordes, mas agora, eu voltarei assim que possível. — Maggie balançou seus cabelos brancos que quase tocavam o chão, continuando — Espere por mim para explorar aquele ninho de águia, pruu!

— Eu sei. — Raio fez um beicinho e disse — Trato é trato.

— Você também tem uma tarefa, mocinha. — Roland abriu um mapa da área sul da vila — Este é o mapa que você desenhou. Você lembra se existe alguma praia no sopé das montanhas?

— Sim — Raio disse apontando para o mapa —, fica por aqui.

— Bem, então você vai viajar com Maggie até lá. Quando chegar na praia, coloque duas bandeiras, uma na divisa da praia com as montanhas e outra no topo de uma montanha alta. — Depois de orientar Raio, Roland olhou para Maggie e pediu — Se Tilly concordar em enviar as bruxas, você guiará o veleiro até esta praia, e então daremos as boas-vindas a elas no ponto de encontro.

— Enviar bruxas? — Raio perguntou curiosamente — Então a vila vai receber novas irmãs?

— Eu não sei ainda. — Roland sorriu — Depende da resposta de Tilly, mas acho que ela vai concordar.


[1] Artesão é um profissional que fabrica produtos por meio de um processo manual ou com auxílio de ferramentas. Ferreiro é um de seus ofícios. Então, é normal falarmos que um ferreiro é um artesão, mas não necessariamente é correto dizermos que um artesão é um ferreiro. Caso você tenha interesse, pode ler mais neste link.

JZanin
Professor de Química, mestre em Ensino de Ciências, jogador de RPG sem tempo e Deodoro Aliguieri nos tempos vagos que não existem mais. ~Strong alone, stronger together!~

15 Comentários

  1. Obrigado mestre pelo capitulo, gosto de como a vila esta se desenvolvendo, mais acho que logo logo avera mais pessoas que vieram do futuro como Roland

  2. Nada como uma viagem de balão para transportar seguramente as bruxas enquanto cativa seus corações 💙😂

  3. Esse capítulo meu deu aquela impressão de “tempos de paz antes da tempestade”

    Muito obrigado mestre JZanin

  4. Não tem como o solstício marcar o fim do verão! É exatamente o contrário. O Solstício marca o início do verão que se estende até o equinócio de outono, estação que estende-se até terminar no solstício de inverno, Solstícios e equinócios marcam o COMEÇO de suas respectivas estações.

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